3.4 Descriptions inductives des super-alg`ebres associatives sym´etriques homog`enes . 53
4.2.2 Super-alg`ebres associatives super-commutatives sym´etriques impaires avec
Há vários sujeitos porque há Outrem, e não o contrário (DELEUZE; GUATTARI, 1991).
A noção de “antropologia simétrica” de Latour (1991) e o conceito de “Outrem”25
de Deleuze e Guattari são o alicerce do “perspectivismo ameríndio” proposto por Viveiros de Castro, no sentido de que a alteridade não é nem o Eu nem o Tu, mas o Outrem que se dá na relação. Nos termos de Guattari, “Outrem, porém, não é ninguém, nem sujeito nem objeto, mas uma estrutura ou relação [...], ele é o ponto de vista que permite que o Eu e o Outro acedam a um ponto de vista” (DELEUZE; GUATTARI, 1991, p. 22 apud VIVEIROS DE CASTRO, 2002, p. 119). O Outrem é a “terceira margem do rio” (expressão que Viveiros de Castro toma emprestada de Guimarães Rosa), e ela só existe porque eu reconheço que existe esta outra margem, da mesma forma que o Outro só existe porque eu reconheço que existe Outrem. Portanto, se o Outrem “não é ninguém, nem sujeito nem objeto”, ou, nos termos de Bateson (2000 apud VELHO, 2003, p. 4), se não deve existir “nem o primado do objeto, nem do sujeito”, isso possibilita que haja ponto de vista e ao mesmo tempo permite que o outro aceda a um pon- to de vista. Isso significa dizer que tanto o sujeito quanto o objeto poderiam ocupar o lugar um do outro (estariam em posições relativas). Ou seja, nem sujeito nem objeto está dado, a priori, pois isso vai depender do ponto de vista. Não é um sujeito desde sempre aí, para usarmos uma expressão foucaultiana, que o Outrem trata, mas um sujeito que pode estar “vazio” e que é acionado em determinadas circunstâncias.
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O Outrem é um conceito que Viveiros de Castro emprega também para fazer a distinção entre
alteridade e alteração. Faz esta distinção pela imprecisão que a noção de alteridade denota,
principalmente porque não permite distinguir entre o outro e Outrem. Não são excludentes, pois a
É, em linhas gerais, o que defende Viveiros de Castro (2002) com a ideia do perspectivismo, assentada basicamente em três premissas: i) retirar a vantagem epistemológica do discurso do antropólogo sobre o discurso do nativo; ii) transformar a “igualdade passiva” entre os sujeitos desses discur- sos em uma “igualdade ativa”; iii) tomar as práticas de sentido do antropó- logo como equivalentes às práticas com as quais discorre (no caso, a do nativo).
Enquanto para Geertz o sujeito é um tipo de objeto, não um ponto de vista, para o perspectivismo o sujeito é um dado, um pronome, que “não tem nada dentro”, pois o que interessa é o ponto de vista. Este sujeito (no caso do perspectivismo ameríndio) pode estar em qualquer coisa (uma planta, animal, pedra e humanos)26, mas não é uma “coisa” (no sentido durkheimano). É nesse sentido que Deleuze considera que “há vários sujei- tos porque há Outrem, e não o contrário” (DELEUZE; GUATTARI, 1991 apud VIVEIROS DE CASTRO, 2002, p. 119). Isso é uma mudança subs- tancial no olhar com relação ao Outro, objeto de estudo da antropologia. Significa olhar este Outro como Sujeito para além da ideia corrente na an- tropologia de que o nativo sempre foi sujeito (sobre o que não resta dúvida, segundo Viveiros de Castro); significa olhar este Outro como um sujeito avesso a qualquer tipo de interpretação via razão, pois, como no caso ama- zônico,
há bem mais sujeitos, no mundo amazônico, que os su- jeitos humanos; em certo sentido, há mais humanos nes- se mundo que os membros da espécie epônima; mas isso só faz tornar as concepções indígenas de sujeito e de humanidade ainda mais avessas a qualquer interpretação em termos de razão comunicacional ou de consenso dia- lógico (VIVEIROS DE CASTRO, 2001, p. 14).
Levar em consideração estas premissas é romper com a concepção unilateral do conhecimento, que se dá numa única direção (sempre no sen- tido do antropólogo para o nativo). Isso é inevitável, dentro da lógica posi- tivista e também da kantiana que separa sujeito do objeto, pois, mesmo que concordemos que ambas são ciências, a do antropólogo é de outra ordem do nativo, no sentido de que a sua legitimação se dá pela deslegitimação da outra, uma espécie de “epistemocídio”, na expressão que Viveiros de Castro (2002) empresta de Bob Scholte. O que o autor propõe não é romper com o discurso da “ciência”, mas sim discuti-la em outros parâmetros, para que seja incorporado (e não englobado) o discurso do nativo.
26 Comunicação oral do professor Oscar Calavia Sáez em sala de aula na disciplina Teoria Antropo-
Este processo dar-se-ia num sentido duplo ou, se preferirmos, seria estabelecida uma “compreensão dialógica” (cf. LENHARDT, 1971) na qual o conhecimento por parte do sujeito não exigiria o desconhecimento por parte do objeto. Para tanto, é preciso se posicionar e é necessário “tomar as idéias nativas como situadas no mesmo plano que as idéias antropológicas” (VIVEIROS DE CASTRO, 2002, p. 124). É o sentido bi-direcional27 que Lèvi-Strauss (1997) acredita ser a característica da antropologia, o qual ocorre entre os dois polos da relação (antropólogo e nativo), abrindo-se assim a possibilidade de comunicação entre “primitivos” e “nós”. Esta po- sição igualitária levistraussiana vislumbraria uma “utopia” que seria a de os nativos colocarem também o antropólogo em perspectiva.
O conceito de perspectivismo proposto por Viveiros de Castro para pensar a alteridade amazônica nos interessa aqui também, pois pode ser um bom instrumento para pensar e refletir sobre a alteridade nas sociedades urbanas “complexas”, particularmente nesta pesquisa junto aos professo- res/as antropólogos/as. Ela sinaliza com a possibilidade de compreender a diferença mais adequadamente que as “dialéticas da alteridade como traba- lho do negativo no sujeito”, ou no sentido da “oposição entre o Eu/Outro” (VIVEIROS DE CASTRO, 2002, p. 130).