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A relação de Sacavém com o seu património, tem conhecido uma evolução ao longo das últimas décadas, nem sempre com os melhores resultados.

Em finais dos anos 80 nascia o Plano de Salvaguarda (do Núcleo Antigo) de Sacavém, elaborado pela Câmara Municipal de Loures; os trabalhos tinham como objecto “Sacavém de cima”. Inicialmente no desenvolvimento deste Plano de Salvaguarda, realizado pela Câmara de Loures e Junta de Freguesia de Sacavém, participava uma equipa constituída por duas arquitectas, um licenciado em História, um arqueólogo, um jornalista e dois desenhadores, tendo ainda sido estabelecidos protocolos de cooperação com o Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) e com a Escola de Arquitectura de Aarhus, da Dinamarca, colaboração esta, da qual deveriam resultar projectos com incidência especial sobre a área de arquitectura e espaços urbanos,

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desenvolvidos pelos alunos segundo programas da autarquia. Os objectivos do Plano passavam por manter informada a população da zona de todas as acções projectadas e conseguir através dela o máximo de dados, proteger a zona antiga, reforçar o seu carácter enquanto centro da vila, recuperar e reabilitar os edifícios e espaços públicos, no sentido de melhorar a qualidade de vida e do ambiente, e implementar uma acção contínua de desenvolvimento sócio-urbanístico444. Em 1992, o agora GPSS – Gabinete do Plano de Salvaguarda de Sacavém continuava empenhado no desenvolvimento desse conceito e visava paralelamente à recuperação dos edifícios, melhorar as condições sociais, habitacionais, económicas e culturais da população. Nesse ano, uma das maiores prioridades do GPSS era a remodelação da circulação viária na área de intervenção, nomeadamente retirando a circulação automóvel de algumas ruas e procedendo ao arranjo dos espaços públicos445

Em contrapartida e fora deste Plano, a inauguração do Museu da Cerâmica de Sacavém, já anteriormente referido, veio trazer uma mais-valia efectiva para Sacavém. Depois da falência da Fábrica da Loiça em 1994, o museu viria a ser inaugurado no ano 2000, . Algum trabalho foi feito, algumas melhorias foram implementadas; contudo, depois de um Plano de Salvaguarda, que tinha como objectivo requalificar e valorizar o centro histórico, e que ficou suspenso, verificamos que os seus resultados foram subjectivos. Se por um lado houve a recuperação de certos edifícios, pintura de fachadas, encerramento ao trânsito de algumas ruas (que acabou por ter efeito nefasto, com menos pessoas a deslocarem-se a essas zonas), não houve interesse efectivo na preservação do restante património, nomeadamente conseguir recuperar e dar novo destino, por exemplo, às ruínas da Igreja de Nossa Senhora da Vitória (ermida fundada pelos Visigodos no séc. V, com a invocação de Nossa Senhora dos Prazeres, e refundada em 1147 por D. Afonso Henriques, com a nova invocação), ao Palacete Braancamp (ambos na antiga Rua Direita), ou à Torre Medieval junto da Capela de Nossa Senhora da Saúde (ambas situadas junto de uma antiga via romana que ligava Lisboa a Mérida). É evidente que a reabilitação destes edifícios comportaria gastos avultados para a autarquia (alguns ainda se encontram em mãos particulares). Mas não seria de todo impossível…. Pintar as ruínas da Igreja de Nossa Senhora da Vitória de certo que não é a solução. Existiam projectos relacionados com o PROQUAL, que transformariam o espaço desta igreja em biblioteca, auditório… Aguardam concretização…

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“ Plano de Salvaguarda faz renascer Sacavém”, in Correio da Manhã, 24/09/1989

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183 sendo galardoado, logo em 2002, com o prémio Micheletti, de Melhor Museu Europeu do Ano, na categoria de Património Industrial. Um museu moderno, bem conseguido, activo, e com um conteúdo que ainda diz muito à população, veio colmatar a necessidade de lembrar um passado, ainda recente – a integração de um dos antigos fornos no museu (o forno nº18), serviu de âncora ao desenvolvimento do projecto arquitectónico e de certa forma, de laço afectivo ao passado de milhares de trabalhadores. Bem ao estilo dos “novos museus”, para além do espaço museológico, e da já indispensável cafetaria e loja, este museu oferece ainda um auditório, uma oficina de cerâmica e um centro de documentação (Centro de Documentação Manuel Joaquim Afonso), um elemento importante que valoriza e dinamiza aquele espaço. Será sempre discutível se mais e melhor podia ter sido preservado da antiga Fábrica de Loiça. A forma como o processo se passou e como o espólio foi adquirido, e a pressão urbanística na zona, são questões que permanecerão.

Relacionado com a actividade cerâmica está igualmente a Casa Museu José Pedro, inaugurada em 2005, no âmbito do PROQUAL. Este 2º núcleo museológico ligado a este tipo de actividade, foi instituído na residência do antigo ceramista que lhe dá nome. Actualmente está, praticamente, encerrado.

A mais recente vinda do arquivo da antiga DGEMN, actual Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana, para o Forte de Sacavém, no Monte Sintra, bastante perto, quer do Museu da Cerâmica, quer do Quartel, veio enriquecer o património local. Trata-se de um óptimo exemplo de uma reutilização de uma construção militar, com o respeito pela sua arquitectura e simultaneamente com a sua adequação a funções de grande importância para a sociedade.

A falta de classificação e sobretudo um desinteresse, ou pelo menos um interesse pouco efectivo, sobre o destino do Convento de Nossa Senhora dos Mártires, vem colocar este edifício naquilo que designamos de património em risco – o seu futuro, comum a muitos outros edifícios neste país, é incerto.

A sua preservação deve, obrigatoriamente, passar por uma reflexão profunda sobre o seu destino. Existindo a consciência do mau estado de conservação do imóvel, e da necessidade de o tornar um espaço, efectivamente, activo e útil para a população, são diversas as soluções que pode albergar. De facto, para além da possibilidade de em parte se tornar um espaço museológico dependente, um museu independente no antigo Convento de Nossa Senhora dos Mártires pode dar uma resposta mais ampla à divulgação da História da Cidade de Sacavém, muitas vezes esquecida. A sua própria

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fundação, a sua localização, as suas ocupações, a sua história, podem servir de mote a um museu independente, que não deixaria de ter razões para existir. Dada a dimensão do espaço, um museu aqui criado, poderia ser dotado de valências como uma biblioteca e um auditório bastante úteis, numa zona quase desprovida desses equipamentos. O facto de a maior parte do edifício conventual se encontrar totalmente adulterado, e sem qualquer interesse do ponto de vista artístico permitiria uma fácil readaptação às suas novas funções, e uma valorização muito importante daquilo que resta e que realmente interessa preservar. Teria contudo de haver um cuidado importante numa tentativa de desconstrução/ reconstrução da antiga organização conventual. É possível que certos espaços ainda conservem algum tipo de vestígio encoberto, que mereça ser preservado e valorizado. De facto, o labirinto de construções militares veio, adaptar e mascarar a realidade pré-existente, dificultando sobremaneira, uma eficaz identificação. Questionamos igualmente, se algum do passado militar ali existente, não merecerá ser preservado… Só uma análise cuidada e o conhecimento de objectivos finais poderão dar uma eventual resposta. A dimensão do antigo convento propicia a que aqui se possa realizar um espaço multifuncional, dotado de todas as exigências do público moderno. Este tipo de equipamento seria também uma mais-valia para Sacavém, para uma futura envolvente urbana, que, certamente, nascerá em redor deste edifício. A manutenção de um espaço verde (hoje existente) seria uma opção sensata, que permitiria uma maior fruição daquele espaço e, simultaneamente, uma maior identificação do visitante com a antiga ruralidade da zona. Este espaço poderia ser utilizado, inclusivamente, para iniciativas culturais. Dada a grande dimensão do terreno do ex-quartel, seria de lamentar a destruição total do espaço e a sua ocupação abusiva por uma nova urbanização. A realização de novos edifícios nos terrenos superiores é uma realidade a que dificilmente se poderá escapar; deve contudo, assim esperamos, deixar uma zona de transição para com a antiga zona conventual, respeitando o mais possível as pré-existências.

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