Probability and Distributions
6.4 Summary Statistics and Independence
O objetivo do presente texto é apresentar a ética da responsabilidade em Emmanuel Levinas (1906-1995), ou seja, como ele concebe, articula a noção de responsabilidade e quem sabe contribuir para o debate acerca desta questão tão urgente nos dias de hoje “em que se generaliza uma cultura de desresponsabilização individual e social”2. Pivatto, no artigo citado, oferece-nos um diagnóstico acerca da responsabilidade não apenas de um ponto de vista de pensar a
noção
de responsabilidade, mas de pensar aquestão
da responsabilidade a partir da própria facticidade “diante do fenômeno da banalização do bem maior que é o dom da vida e da indiferença crescente diante da morte violenta”3. Embora a necessidade de sepensar a
questão
da responsabilidade se faz urgente o que propomos aqui é apresentar, propedeuticamente, esta noção no pensamento de Levinas. Assim, acreditamos que a proposta de Levinas pode servir para dar-nos uma orientação acerca da questão da responsabilidade a partir de uma concepção ética.Para Levinas, uma ética da responsabilidade (etimologicamente, ideia de resposta) não pode se subtrair ao apelo do rosto, ao apelo de Outrem, à exigência de resposta. Ser responsável, para Levinas, é responder a este apelo de Outrem que é a vulnerabilidade mesma- e que me envia à minha. Eu não posso pretender ser responsável por mim-mesmo se eu não respondo a Outrem. Outrem me “ob-liga”; no sentido etimológico4, eu sou ligado a ele. Tal é a raiz da obrigação e
da responsabilidade para Levinas. As noções de obrigação e de
1 Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Filosofia- Universidade Federal de
Santa Maria- RS.
2 PIVATTO, 2001, p.219. 3 PIVATTO, 2001, p.219.
responsabilidade não se concebem senão no quadro desta relação a Outrem já que “não há ética quando se considera só um indivíduo, não há ética quando construída a partir do Eu considerado protótipo de toda humanidade”5. Outrem, o rosto, apela à minha responsabilidade e, no final, me revela, ou me lembra a minha humanidade. Assim, podemos dizer que o essencial do percurso filosófico de Emmanuel Levinas é consagrado à elaboração de uma doutrina da responsabilidade ‘a responsabilidade pelo Outro’. Trata-se, pois, de uma concepção da responsabilidade que difere profundamente do sentido comum que damos a esta palavra assim como da doutrina clássica da responsabilidade, em si mesma a origem da acepção jurídica da palavra.
Poderíamos oferecer uma “imagem” da ética como responsabilidade pelo outro defendida por Levinas na passagem da obra de Dostoievski,
Os irmãos Karamazov
, II parte, livro VI, capítulo II: “Cada um de nós é culpado diante de todos por todos e eu mais do que os outros”, apenas trocando a palavra “culpa” pela palavra “responsabilidade”, “responsabilidade absoluta”6, o “eu enquanto eu[...] é responsável pelo mal que se faz”. Breve apresentação do autor estudado
Emmanuel Levinas (1906-1995) é um filósofo francês que foi lituano inicialmente, depois russo durante a guerra de 1914, depois lituano de novo, depois francês desde os anos 30 e atravessou o século XX e os “imprevistos da história”. Sua filosofia tem como propósito central pensar incansavelmente o Outro e a relação ética. Como já referido, “não há ética quando se considera só um indivíduo”, a ética pressupõe a ideia de relação, pois, “a ética é uma relação primordial”. É necessário, então, considerar esse Outro da relação ética.
5 PIVATTO, 2001, p.219.
6 LEVINAS, Emmanuel. De Deus que vem à ideia. Pergentino Pivatto (coordenador e
revisor); tradução Marcelo Fabri, Marcelo Luiz Pelizzoli, Evaldo Antônio Kuiava. 2. Ed.- Petrópolis, RJ: Vozes, 2008, p.121.
Para quem estuda a filosofia de Levinas é possível dizer que a noção de Outro se diz Alteridade7. A noção de Alteridade na filosofia
de Levinas se repete como se fosse um mantra dada a sua importância no conjunto do seu pensamento, pois “a categoria fundamental do pensamento levinasiano, em uma abordagem que pretenda levar em consideração seus elementos constitutivos mais fundamentais e definidores, é “Alteridade”; não se compreende o pensamento de Levinas sem a presença constante, explícita ou implícita, dessa categoria no conjunto de sua vasta obra, não apenas filosófica”8.
Assim, encontramos que a noção de responsabilidade é pensada conjugada com a noção de alteridade, pois, como nos diz Levinas
[...] a alteridade do outro homem em relação ao eu é inicialmente-e, se ouso dizer, é ‘positivamente’- rosto do outro homem obrigando o eu, o qual de imediato- sem deliberação- responde por outrem. De imediato, isto é, responde ‘gratuitamente’, sem se preocupar com reciprocidade. Gratuidade do pelo outro, resposta de responsabilidade que já dormita na saudação, no bom dia, no até logo. [...] responsabilidade que significa- ou que comanda- precisamente o rosto na sua alteridade e na sua autoridade inextinguíveis e inassumíveis do fazer face9.
Portanto, como nos adverte Souza, é a partir da noção de alteridade que compreendemos noções importantes da filosofia de Levinas. Corremos o risco de parecer repetitivos, mas sabemos que os filósofos costumam ter noções que são centrais no seu pensamento e Alteridade é uma dessas no caso de Levinas. A referência ao Outro, ou Alteridade, já se tornou uma espécie de identificador da filosofia de Levinas porque é na “intriga ética” que a filosofia levinasiana se constitui com todo o seu vigor. Quer-nos parecer que uma filosofia
7 A propósito, é digna de nota a escolha que os tradutores da obra Entre nós. Ensaio sobre a alteridade [Entre nous. Essais sur le penser-à-l’autre, no original francês] fizeram da expressão penser-à-l’autre, isto é, pensar ao outro, ou pensar o outro por “alteridade”.
8 SOUZA, 2004, p.168.
que coloca o Outro, na nudez de seu Rosto, como condição de possibilidade do filosofar só poderia se chamar “Ética”.
Pareceu-nos adequado trazer para esse evento o modo como Levinas propõe a questão da
responsabilidade
. Isso se deve ao fato de que o evento está orientado por essa questão e também porque Levinas tratou da responsabilidade a partir de uma perspectiva ética, ou moral, pois, Levinas não distingue esses termos. É importante salientar que a filosofia de Emmanuel Levinas é orientada pela ética o que significa dizer que as questões tradicionalmente tratadas pela filosofia tem a sua legitimidade e pertinência a partir da ética. É claro que se afirmamos essa importância da ética na filosofia de Levinas se faz necessário dar ao menos um indicativo de como nosso autor constitui essa noção. Encontramos uma caracterização da ética no texto intituladoLinguagem e proximidade
onde Levinas nos diz:Chamamos ética a uma relação entre termos onde um e outro não são unidos por uma síntese do entendimento nem pela relação sujeito a objecto e onde, no entanto, um pesa ou importa ou é significante para o outro, onde eles são ligados por uma intriga que o saber não poderia esgotar ou deslindar10.
Optamos por partir do modo como Levinas caracteriza a ética porque nessa caracterização já aparecem os elementos e o âmbito onde Levinas situa a ética e de onde podemos partir para situar a questão da
responsabilidade,
pois, como diz Pivatto, “é nesta intriga fontal [Eu- Outro] que se inscreve a responsabilidade”11. É Levinas quem nosadverte:
É na relação pessoal, do eu ao outro, que o ‘acontecimento’ ético, caridade e misericórdia, generosidade e obediência, conduz além ou eleva acima do ser12.
10 LEVINAS. Descobrindo a existência com Husserl e Heidegger, p.275. 11 PIVATTO, 2001, p.223.
Como dissemos, para Levinas as questões importantes da filosofia tem como ponto de partida a questão ética e com a responsabilidade não é diferente, pois, se falamos de responsabilidade falamos de uma relação e, em se tratando de Levinas, a questão da responsabilidade conduz à relação entre Eu e o Outro. Essa relação Eu-Outro é caracterizada por Levinas como
ética
, ou seja, o fato de que o Outro, em relação ao Eu- também designado por Levinas como o Mesmo-, não se presta a uma relação de posse ou domínio, o que caracteriza, por exemplo, a relação de conhecimento onde a alteridade do outro é absorvida na identidade do Mesmo-“uma maneira tal de abordar o ser conhecido que a sua alteridade em relação ao ser cognoscente se desvanece”13. Na relação ética o Mesmo e o Outro não se fundem emuma unidade, seja conceitual, seja ontológica, mas se mantém separados. A separação é condição da relação ética. Assim, a responsabilidade só poderá ser pensada e proposta como responsabilidade ética onde “eu sou responsável pelo outro antes de ter escolhido sê-lo. [...] Além disso, a relação de responsabilidade é imediata, direta, volta-se para o primeiro que chega, o próximo, para além de qualquer qualificação ou determinação”14.
Responsabilidade pelo Outro
É incalculável a importância das análises que Levinas realiza acerca da noção de responsabilidade e a importância que esta adquire no contexto das relações intersubjetivas, o seu âmbito por excelência. Levinas considera a responsabilidade como a “estrutura essencial, primeira, fundamental da subjetividade”15. Quando examinamos com
atenção os textos de Levinas é possível verificar o constante uso que ele faz da expressão