Vector Calculus
5.8 Linearization and Multivariate Taylor Series
O ser humano, a partir de seu nascimento, se torna parte integrante de um grupo organizado, de uma comunidade. Em seguida, este ser adentra na escola, momento essencial na vida dele. Nesse sentido, é oportuno questionar: o que é dever da escola ensinar? E para quê? Essa investigação, então, visa a demonstrar a importância de cada um, durante a sua permanência na escola, conhecer, podendo assim, aprender a amar, respeitar e se responsabilizar pelo mundo. Percebe-se que a ética é um conteúdo fundamental para que isso ocorra. Seu aprendizado inicia na família e continua na escola. O suporte teórico referente à constituição da consciência ética é conceito arendiano de “
amor mundi
”. Assim, outro conceito incontornável é o de “sujeito”, na mesma acepção exposta no pensamento kantiano, pois este, a partida escola, pertencente à esfera pré-política, adquirirá conhecimentos, habilidades, ensaiará experiências com os seus pares, preparando-se para adentrar na “esfera pública”, quando adulto, com plena aptidão para a vida cidadã.Neste contexto, o professor tem responsabilidade tanto com relação ao ensino e à educação de cada um de seus alunos, quanto com o mundo: com o Globo Terrestre, que é o mesmo para todos, gerando responsabilidade com os seus seres, humanos ou não. Para tanto é preciso humanizar por meio do “
amor mundi
”, apregoado por Arendt. Entretanto, apesar deste conceito aparecer em muitos de seus textos, ele não está exposto explicitamente: a tarefa proposta, então, não é simples: é preciso retomar os conceitos da autora, por exemplo, a singularidade, pois cada um é um ser único, a pluralidade, entre outros, enfatizando a humanidade em comum. E essa pertença na humanidade traz consigo a responsabilidade, a qual o educando precisa tomar ciência e ir, aos poucos, assumindo-a com relação a si1 Juliana Scherdien Amaral é graduada em Filosofia Licenciatura Plena pela
mesmo e com o mundo. A compreensão do aluno ocorre por meio da observação de pequenas coisas, e uma delas é compreender que ele, único, faz parte de um todo, e que a responsabilidade tanto é conjunta (política) quanto individual (ética).
A Terra enquanto
habitat
natural é composta pela flora, fauna e o meio ambiente, e de seu agente transformador, o ser humano, o qual a partir de seu nascimento é incorporado ao mundo. A este novo ser, o recém-chegado, Arendt o coloca na condição humana da natalidade2. Segundo Arendt o mundo não é algo naturalmente dado, para ela o mundo é algo construído pelo homem, por sua capacidade criadora, essa capacidade torna-o sujeito de suas ações.O recém chegado é um potencial “sujeito”, o mesmo na acepção exposta no pensamento kantiano3. O recém chegado adentra em um mundo velho, que está em funcionamento desde gerações que há muito não existem, este mundo preexistente é algo totalmente novo para aquele que nasce, preexistindo a ele, possuindo sua história, costumes, leis, cultura e outros fatores construtivos de uma comunidade. Nas palavras de Arendt:
Na medida em que a criança não tem familiaridade com o mundo, deve-se introduzi-la aos poucos a ele; na medida em que ela é nova, deve-se cuidar para que essa coisa nova chegue à fruição em relação ao mundo como ele é4.
O ser humano, pelo seu pertencimento a este mundo, se torna parte integrante de um grupo organizado, de uma comunidade, e o faz sendo inserido na esfera privada, do lar, do cuidado e da proteção. Quando preparado, participará da esfera pública e política. Isto é, este mundo onde estes seres novos são inseridos possui o “espaço público”
2 Natalidade é definido por Hannah Arendt como não sendo algo biológico, mas sim
político, pois é a partir do nascimento que o homem faz parte da comunidade. Primeiro na esfera privada, adentrando, após, na pública.
3 O sujeito é o mesmo na concepção de Immanuel Kant (1724 - 1804), isto é aquele
sujeito autônomo, consciente de seus atos, é o que pode sair do estado de menoridade para o de maioridade, sendo assim o sujeito orientador de suas próprias ações.
como meio de interação entre eles, o qual permite que o homem se afirme enquanto seu ser. Conforme observou Schio:
Arendt reconhece que a distinção entre espaço privado e o público (ou político) não é plenamente nítida, mas reitera, constantemente, que a vida privada está ligada ao social, àquilo que pode ser administrado, sem carecer de debates públicos. Ao espaço público caberiam os assuntos que não podem ser resolvidos com rapidez e segurança, motivo pelo qual há a necessidade de reunião, de discussão e de decisão5.
A família é a primeira instância que recebe este ser novo, e os pais têm a responsabilidade pela vida dessa criança, assim como pelo seu desenvolvimento, proteção e cuidado, é ele que irá provir o indispensável para a criação de um ser saudável, que possuirá as capacidades cognitivas necessárias para adentrar na esfera pré-política que, aqui compreendemos como sendo a escola, em especial. Na concepção de Arendt, “a criança requer cuidado e proteção especiais para que nada de destrutivo lhe aconteça”6, esta primeira instância faz
parte da vida privada7, é nela que a criança será protegida da vida
pública e do mundo que a cerca.
Em seguida, a criança adentra na escola, momento essencial para a vida dela. A escola é a segunda instância que recebe este novo ser, é a partir dela que o novo, a criança entra na esfera pré-política. É na escola que ela passa a vivenciar e a experimentar a vida pública, nas palavras de Schio, “a esfera pública é o espaço do aparecimento dos homens; é o local no qual se efetiva a identidade do
eu
, e também a do mundo8”; ou seja, é na escola que a criança vai conhecer o mundo, do qual passará a fazer parte quando estiver apta para isso.5 2012, p.177s.
6 2013, p.235.
7 “Ao espaço privado cabem as pequenas felicidades, relevantes para o próprio
indivíduo, pois à esfera pública cabe abarcar todos e permitir que cada um ocupe seu próprio lugar no mundo.” Essa é uma visão arendiana, exposta por Schio (2012, p.176).
Não se pode tratar da formação das crianças e dos jovens sem a escola, em especial quando se trata do Brasil. E quando se aborda a escola, surge a questão de seu papel (sua obrigação): a educação que, segundo Arendt, o aluno necessita, e à escola cabe preparar a criança para o mundo. É nela que a criança irá se conhecer e reconhecer, assim como ser reconhecida como “sujeito autônomo”, o qual está sendo preparado para utilizar dessa autonomia na esfera política, quando adulto. Para Schio, “a educação autêntica, por seu turno, objetiva a cidadania. Ela busca preparar o indivíduo para a preocupação com o grupo, com o planeta, com a vida em comum”9.
Nesse sentido, é oportuno questionar: o que a escola deve ensinar? E para quê? Para responder essas questões, um importante viés é a questão da ética, pois ela é um conteúdo fundamental para uma educação transformadora, que demonstra a importância de cada um, na constituição e na conservação do mundo10. O aprendizado da ética
inicia na família e continua na escola. O suporte teórico referente à constituição da consciência ética é, na hipótese em desenvolvimento nesta investigação, o conceito arendiano de “
amor mundi
”. Essa concepção é utilizada por Arendt em muitas de suas obras, assim como em sua tese de doutorado, intitulada “O Conceito de Amor em Santo Agostinho”, mas mesmo nessa obra Arendt não define amplamente o conceito de “amor”: nela ela trata a ideia de “amor ao próximo”, um conceito teológico, que nesta investigação não será tratado, apesar de seu caráter humanístico.Nas palavras de Arendt, “a educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele e, com tal gesto, salvá-lo da ruína que seria inevitável não fosse a renovação e a vinda dos novos e dos jovens”11. A educação enquanto
dever da escola, tem como objetivo influenciar no crescimento e no desenvolvimento da criança, desse “sujeito” em potencial. O homem,
9 2012, p.226.
10 O mundo pode ser compreendido como “Planeta Terra”, onde se dá a realização
humana, tudo que diz respeito ao homem. A palavra grega PHYSIS é definida no idioma moderno como natureza, no pensamento pré- socrático, ela abarca a fonte originaria das coisas, é aquilo que se manifesta por si.
por natureza, possui a capacidade de pensar, de utilizar do raciocínio tanto em seu favor quanto em favor ao próximo e ao mundo que ele habita, ou o contrário. Cabe, então, a contribuição da educação para que essa criança aprenda a utilizar do raciocínio da melhor forma. Logo, a educação possui um caráter transformador, já que ela contribui na ação12 realizada pelo “sujeito”. A ação acontece no
âmbito político, enquanto adulto e instruído.
É na busca desse melhor entendimento em relação à ação do homem que a ética, adentra neste contexto, é nele que o sujeito escolhe os meios mais adequados para chegar ao objetivo desejado. Segundo Schio, a ética arendiana é uma “ética da responsabilidade”13. Como a ação depende da escolha do “sujeito”, cabe a ele então deliberar qual é a melhor atitude em relação a tal ato, sendo de total responsabilidade a sua escolha, logo que ela não é mais deliberada por outrem. Schio afirma,
A ética relaciona-se à responsabilidade pelos atos, pois eles não somente tratam de vidas individuais, de comunidades, mas da própria sobrevivência dos seres que habitam o planeta, no presente e no futuro, além da manutenção do próprio planeta14.
A ética discute os conceitos e os critérios que são utilizados para responder a perguntas que não estão imediatamente direcionadas aos costumes e às práticas do dia a dia, ela pressupõe a ideia de liberdade, permitindo assim o agir.
O “amar ao mundo” é essa possibilidade que o “sujeito” tem de respeitar, cuidar, preservar o Globo Terrestre assim como tudo aquilo que o compõe. O mundo, na perspectiva arendiana, precisa ser constituído por pessoas livres, de todas as idades e de todos os jeitos, isto é, o mundo está repleto de pluralidade e de singularidade, sendo esta pluralidade formada por etnias, culturas, credos, gêneros e etc. E a
12 Para Hannah Arendt, a ação é uma das atividades humanas básicas da chamada
“vida ativa”. Ela se encontra principalmente em três de suas obras: “A Condição Humana”, “Sobre a Revolução” e “Da Violência”.
13 2012, p.219. 14 2012, p.219.
singularidade no sentido de que cada ser é único. Possuindo a fala, o discurso, como meio de interação com seus pares. É na escola que ocorre esse primeiro encontro da diferenciação humana, logo, o ser humano que habita o mundo possui a tarefa de produzir, preservar, respeitar, e o amar.
A durabilidade que o mundo possui vai de encontro com a mortalidade do homem, pois o mundo permanecerá mesmo após a morte do homem, e servirá de abrigo para o novo que nunca cessa de surgir. Essa durabilidade permite que cada ser humano forme sua identidade, isto é, que ele seja sujeito de si próprio, autônomo, que aprenda a deliberar sobre seus atos, assim como se responsabilizar pelos mesmos. Na obra “A Condição Humana” Arendt escreveu:
É com palavras e atos que nos inserimos no mundo humano; e esta inserção é como um segundo nascimento, no qual confirmamos e assumimos o fato original e singular do nosso aparecimento físico original. Não nos é impostas pela necessidade;[...]Pode ser estimulada mas nunca condicionada, pela presença dos outros em cuja companhia desejamos estar; seu ímpeto decorre do começo que vem ao mundo quando nascemos, e ao qual respondemos começando algo novo por nossa própria iniciativa. Agir, no sentido mais geral do termo, significa tomar iniciativa, iniciar[...], imprimir movimento a alguma coisa [...]. Por constituírem initium, por serem recém- chegados e iniciadores em virtude do fato de terem nascido, os homens tomam iniciativas, são impelidos a agir15.
Assim, a escola, por meio da educação, tem o dever de instruir para formar o sujeito autônomo, aquele que delibera sobre suas ações, podendo assim contribuir com seu desenvolvimento frente ao mundo. Assim, é preciso enfatizara importância que cada um possui, durante a sua permanência na escola, de conhecer, podendo assim, aprender a amar, respeitar e se responsabilizar pelo mundo, essa responsabilidade traz consigo o fato de que através das ações cada um se torna responsável pelo mundo que deixa para as gerações que estão por vir.
15 p.189s.
Para Arendt, a pluralidade é fundamental para a ação. Nela, a igualdade, assim como a distinção, estão pressupostos. A igualdade permite o convívio entre os homens na comunidade; a distinção que todo o homem possui em relação ao outro, por isso, ele necessita da ação e do discurso para se relacionar. A partir da escola, a criança adquirirá conhecimentos, habilidades, ensaiará experiências com os seus pares, preparando se para adentrar na “esfera pública”, quando adulto, com plena aptidão para a vida cidadã. Neste contexto, o professor tem responsabilidade tanto com relação ao ensino e à educação de cada um de seus alunos, quanto com o mundo: com o Globo Terrestre, que é o mesmo para todos, gerando responsabilidade com os seus seres, humanos ou não.
O professor, na concepção arendiana, é duplamente responsável, primeiro pelo ensino. Em segundo, pelo mundo, por sua continuidade e permanência. Esta responsabilidade está intrínseca em sua profissão. O professor, ao se responsabilizar por essa dupla responsabilidade, tem a autoridade. Arendt explicita:
Na educação, essa responsabilidade pelo mundo assume a forma de autoridade. A autoridade do educador e as qualificações do professor não são a mesma coisa. Embora certa qualificação seja indispensável para a autoridade, a qualificação, por maior que seja, nunca engendra por si só autoridade. A qualificação do professor consiste em conhecer o mundo e ser capaz de instruir os outros a cerca deste, porem sua autoridade se assenta na responsabilidade que ele assume por este mundo16.
Para ela, a essência da educação é a natalidade, o novo, é ele quem traz consigo a oportunidade de mudança de “vir a ser”. É a partir desse novo que o “amor ao mundo” é enfatizado: o novo tem a capacidade e a possibilidade de mudar o futuro. Ele pode, por meio do ensino, aprender a utilizar a História como exemplo, tanto quanto para o bem quanto para o mal.
16 2013, p.239.
Logo, a pergunta: “o que é dever da escola ensinar?” se torna um dos questionamentos que jamais deve cessar, tanto pelos componentes da escola (Direção, setores, professores), pelo “sujeito”, quanto pela comunidade, na qual esta criança está inserida, pois é nessa comunidade em que a criança que está sendo instruída na qual irá vivenciar a ação política, quando adulta. Ou seja, é nessa comunidade que ela irá intervir com sua ação. O mundo está em constante movimento e transformações, cabe à educação e o educador seguir o mesmo movimento, se renovando, se reinventando, utilizando tanto de conteúdo do passado, tradição, quando de tecnologias, que podem auxiliar para melhor didática, já que a criança do séc. XXI é a geração tecnológica, a mídia, por exemplo, é uma ferramenta que desperta o interesse da criança, e que possui muitas utilidades, já, um exemplo tradicional que jamais se deve não utilizar é a biblioteca convencional, pois estimular o interesse pela leitura é essencial na formação de um “sujeito”.
É tarefa também da educação não deixar a criança, nem enquanto criança nem enquanto adulta, se desinteressar pelo mundo, pelo
habitat
em que ela vive, ou permitir que a desmundanização do mundo ocorra, assim como ocorreu no Regime Totalitário. E esse é um dos exemplos que devem, a partir da educação, nunca ser apagado da memória da história, pois esse é um dos exemplos que mostra como o homem pode se deixar dominar, de tal forma que nem o homem nem o mundo importam, acabando por se tornarem ambos supérfluos. Não se pode esquecer que o mundo, o Planeta Terra, pode acabar por ser destruído, assim como o homem é finito, ela também pode o ser, caso não nos responsabilizarmos por sua preservação, manutenção e desenvolvimento.“Ensinar para quê?” Ensinar para que as gerações futuras, os novos por natureza, adentrem no mundo, aprendendo se responsabilizar por ele, amando-o. Ensinar para formar “sujeitos autônomos” que deliberem sobre os seus atos, ensinando para nunca mais sejam cometidas as atrocidades como no passado; ensinar para que o mundo seja cada vez melhor. Ensinar para que a criança entenda que apesar de ser única, ela faz parte de um todo, e é exatamente esse todo que a torna humana. Isto é, essa pertença à Terra
que aos poucos a criança deve assumir como responsabilidade. Logo a responsabilidade tanto é conjunta (política) quanto individual (ética), e é por meio da educação que o ser humano pode compreender seu papel neste mundo. É função da educação em suas variadas formas “humanizar” o homem, aperfeiçoando suas aptidões, fazendo com que ele pense e aja se baseando em princípios éticos responsáveis, porém em um processo diário na escola. Pois é na escola que a criança, realizará suas primeiras interações sociais, trazendo o peso do desacordo ou da concordância em relação aos seus pares. Lembrando é função da escola ensinar sobre o mundo e não como viver nele. Referências:
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______. Entre o passado e o futuro. 7. Ed. São Paulo. Perspectiva, 2013.
______. O conceito de amor em Santo Augustinho. Lisboa. Instituto Piaget, 1997.
CESCON, E. “Construindo uma panorâmica do pensamento ético contemporâneo”. In: KUIAVA, E. A.; STEFANI, Jaqueline (orgs). Identidade e diferença: Filosofia e suas interfaces. Caxias do Sul: EDUCS, 2010, p.101-113.
JACOBSEN, Eneida. “A esfera pública como espaço de reconhecimento e de ação conjunta: contribuições de Hannah Arendt”. In: OLIVEIRA, Kathlen Luana de; SCHAPER, Valério Guilherme. (orgs.) Hannah Arendt: Uma amizade em comum. São Leopoldo: Oikos/EST, 2011, p.157-169.
PASSOS, Fábio Abreu. “O desinteresse em cuidar do mundo na perspectiva filosófico política de Hannah Arendt”. In: SCHIO, Sônia Maria (org.); KUSKOSKI, Matheus Soares (org.) Hannah Arendt: Pluralidade, Mundo e Política. Porto Alegre: Observatório Gráfico, 2013, p. 47-85.
PASSOS, Fábio Abreu dos. As implicações políticas da distinção husserliana entre “terra” e “mundo” no pensamento de Hannah Arendt. Disponível em:
<http://www.filosofia.ufc.br/argumentos/pdfs/edicao_5/10.pdf> Acesso em: 02/11/2013.
SCHIO, Sônia Maria. Hannah Arendt: história e liberdade: da ação à reflexão. 2.ed. Porto Alegre: Clarinete, 2012.