José Siqueira, no decorrer de sua vida demonstrou interesse em inserir em suas obras elementos musicais que traduzissem uma linguagem de caráter pátrio. Essa atitude o caracteriza como um compositor nacionalista, preocupado em expressar em sua música, aspectos de sua cultura.
A busca por materiais composicionais que pudessem exprimir uma identidade nacional o levou a realizar experiências, utilizando elementos rítmicos e melódicos, encontrados na música nordestina. Ainda segundo Farias (2013), “Esse material coletado e estudado se transformou posteriormente em publicações de cunho didático, como, por exemplo, O Sistema Modal na Música Folclórica do Brasil (SIQUEIRA, 1981a) e Sistema Pentatônico Brasileiro (SIQUEIRA, 1981b)”. Portanto, nos mantendo mais uma vez nos apontamentos de Farias (2013, p. 57):
Para uma melhor compreensão do trabalho de Siqueira, é necessário aprofundar no conhecimento de sua obra a partir da percepção dos aspectos básicos e estruturais, do funcionamento e emprego dos referidos sistemas, uma vez que [...], eles possibilitam novas perspectivas melódico-harmônico.
A criação do Sistema Trimodal de José Siqueira foi uma tentativa de “organizar a maneira nacional de compor” (SILVA, 2103, p. 29), utilizando os modos e escalas encontrados na tradição do folclore nordestino.
A região Nordeste, onde há uma grande diversidade de manifestações artísticas e folclóricas, abriga uma gama de possibilidades musicais bastante exploradas por vários compositores, que extraem materiais diversos dessa cultura. A música dos violeiros, o canto do vaqueiro e o lamento dos cegos, são exemplos de materiais primários utilizados na composição de suas obras. Neste sentido, Siqueira ressalta a importâncias desses elementos, para desenvolver o que ele chamou de sistema trimodal:
“É sem dúvida nas cantigas de cego que vamos encontrar um grande potencial melódico tipicamente brasileiro. Elas são tristonhas e geralmente calcadas nas escalas nordestinas em que nos baseamos para erigir o Sistema Trimodal Brasileiro. Aliás, tais escalas são frequentes tanto nas cantigas de cego, como nos pregões, nos aboios, nos desafios e nos acalantos” (SIQUEIRA, 1961, p.129 idem).
“Nesse universo, Siqueira encontrou elementos para desenvolver um sistema que pudesse contribuir, segundo ele, para a formação da música brasileira” (FARIAS, 2013). Esse sistema, fundamentado na música modal nordestina, foi trabalhado de maneira breve em seu livro O Sistema Modal na Música Folclórica do
Brasil (SIQUEIRA, 1981a), onde ele apresenta as ideias teóricas que desenvolveu
durante anos, e, baseado nelas, compôs grande parte de sua obra, prestando dessa forma, uma grande contribuição à música do nosso país.
Inicialmente, neste contexto destacado, Siqueira observou a recorrência de três modos que estão ligados fortemente à tradição musical, vocal e instrumental da região Nordeste, os quais ele denominou de “modos reais”, observa-se, no entanto, que alguns deles possuem correspondência aos modos eclesiásticos. Apresentaremos em seguida na figura de número 1os modos apresentados por Siqueira em seu livro O sistema modal na música folclórica do Brasil de 1981, são eles: O primeiro modo real corresponde ao modo Mixolídio eclesiástico, o segundo modo real corresponde ao modo Lídio eclesiástico e o terceiro modo real que resulta da junção dos dois primeiros.
Figura 1 - Os três modos reais desenvolvidos por Siqueira em seu Sistema Trimodal
Fonte: Elaborado pelo autor, 2017.
Mais uma vez nos remetendo a Farias (2013), vemos que “Siqueira ainda aponta a existência de mais três modos, que à semelhança da relação tonal nos modos maiores e menores distam de seu modo real uma terça inferior, o qual ele denominou de modos derivados”. São eles: o primeiro modo derivado corresponde ao modo Frígio
eclesiástico, o segundo modo derivado corresponde ao modo Dórico eclesiástico e o terceiro modo derivado, junção dos dois primeiros, e, como o seu relativo real, não possui correspondente histórico, apresentado por meio da próxima figura:
Figura 2 - Os três modos derivados desenvolvidos por Siqueira em seu Sistema Trimodal
Fonte: Elaborado pelo autor, 2017
Siqueira observou que a utilização desses modos os reais e os derivados de maneira sistemática em suas composições iria proporcionar uma identidade nacional, tendo em vista que as melodias folclóricas do país e principalmente da região nordestina, tinham em sua construção a utilização das escalas modais, com o intuito de deixar a tradicional música tonal e apoiar-se no modalismo. Esses modos, usados sistematicamente, dão à melodia uma cor própria, alterando por inteiro o sistema harmônico, base da tonalidade moderna em que se apoia a música erudita, desde o século XVII (SIQUEIRA, 1981, p. 2).
Através de pesquisas musicais feitas em Salvador BA, a partir de visitas a centros de candomblés, Siqueira identificou a utilização de escalas pentatônicas existentes na música cantada durante os rituais celebrados naqueles locais. De acordo com ele, os candomblés da Bahia, trazidos da África pelos escravos que lá aportaram, conservaram suas características musicais nativas, cujas melodias são baseadas em escalas pentatônicas. A partir dessa observação, Siqueira sistematizou também, o Sistema Pentatônico, o qual ele passou a utilizar em suas obras e o denominou de
Sobre esse seu trabalho de pesquisa, Siqueira (1981b, p. 01) comenta:
Ao realizar uma grande pesquisa folclórica em Salvador, capital da Bahia, onde passei um mês visitando e gravando os mais famosos candomblés, de riqueza melódica transbordante e de complexidade rítmica quase insuperável, observei que a totalidade das melodias desses Candomblés é concebida tomando por base escalas pentatônicas.
Siqueira apresenta em seu trabalho os dois modelos de escalas pentatônicas, a “maior e a menor”, ou escalas de cinco sons (pentafônicas), que são por ele estudadas e inseridas em sua música.
Figura 3 - Modelos de Escalas Pentatônicas Maior e Menor
Fonte: Elaborado pelo autor, 2017
Quanto ao uso do Sistema Pentatônico Siqueira (1981b, p. 28):
Em muitas das minhas composições de diferentes gêneros, fiz uso sistemático da harmonia e da polifonia pentatônica, com excelente resultado. [...]. Espero ter dado, neste opúsculo, minha modesta contribuição à música brasileira, e que os jovens compositores encontrem nele algo que lhes possa ser útil.
Em muitas de suas obras, Siqueira fez uso dos modos que foram aqui apresentados, esse procedimento torna o seu trabalho único, conferindo-lhe dessa maneira uma identidade em suas composições.