O ABC que incentiva a organização do processo de aprendizagem do ‘como fazer’ constitui-se dos tópicos de desenvolvimento das Famílias de exigências na Coordenação (A), das Famílias de Habilidades Motoras (B), e das Famílias de Habilidades Esportivas (C). Nos processos de ensi- no-aprendizagem (A+B) não se objetiva desenvolver a técnica, na acepção de um modelo ideal de movimento, e sim formas gestuais que se realizem de forma espontânea, experimentando, para permitir uma ampla bagagem de experiências motoras, de forma a se relacionar a ação adequadamente na tríade tempo-espaço-energia para resolver questões motoras. Andar de bici- cleta, carrinho de rolimã, perna de pau, subir em árvores, pular corda, entre outros, eram práticas cotidianas nas ‘crianças de antigamente’. Importante destacar que o prazer de conseguir realizar uma tarefa representa um fa- tor chave subjacente à motivação e participação na prática de esportes em seus diferentes níveis de rendimento, particularmente na aula de Educação Física (COX; ULLRICH-FRENCH, 2010). A sensação da própria compe- tência física está conectada à realização adequada das habilidades motoras
(WALLHEAD; NTOUMANIS, 2004). Ambos os fatores confl uem para que o praticante se sinta valorizado e dessa forma se integre com prazer à prática (MARTENS, 1996).
Em relação ao desenvolvimento das Famílias de Exigências na Coordenação (A), Starosta (1990) considera esse construto como a capa- cidade do ser humano de realizar movimentos complexos de forma rápi- da e exata, em diferentes condições ambientais e sob pressões contextuais adversas. Destaque para a menção de ser uma capacidade do ser humano em interação com aspectos de exatidão e rapidez, relacionada as condições (pressões, constraints e aff ordances) que o ambiente (contexto de jogo) im- põe. Coordenar a realização de tarefas motoras ocorre na tríade tempo-es- paço e energia, em movimentos com o próprio corpo, com objeto(s), com colegas. A coordenação é necessária não somente nos esportes, também na vida cotidiana, e na melhoria da aprendizagem.
Nesta perspectiva, o construto ‘capacidades coordenativas’ não apresenta na literatura uma clara defi nição dos seus elementos constitutivos, particularmente o pressuposto epistêmico-nomológico das mesmas. Nesse contexto, academicamente se consideram as categorias de exigências na coordenação ao realizar tarefas motoras. Se estabeleceram, portanto, as relações entre os canais de recepção e elaboração de informação (os órgãos dos sentidos, visual, acústico, Cinestésico, tátil, vestibular/equilíbrio, a denominada via aferente) do ser humano e as pressões ambientais derivadas dos próprios objetivos do esporte. Neumaier e Mechling (1995), Kröger e Roth (1999), elaboraram o modelo das pressões que se colocam na realização de movimentos nos esportes conforme as solicitações do ambiente (pressão de tempo, precisão, complexidade/sequência, organização/simultaneidade, variabilidade, carga e manejo de bola, a denominada via eferente). No as- pecto operacional, os ‘condimentos’ necessários para uma adequada receita de treinamento da coordenação indicam realizar o mesmo exercício com inclusão dos diferentes elementos de pressão, sucessivamente. Também que a mesma atividade se realize com mão, pé, raquete ou bastão, para variar os tempos de ação e as formas de controle do movimento e, se modifi que a percepção visual e o equilíbrio ao realizar a tarefa. Nesse contexto, emerge a necessidade de recorrer à maior variedade possível de materiais (bola, bastão bambolê, corda, coletes, cones, banco sueco, plinto, sacolinhas, perna de pau, skate, carrinho de rolimã, trampolim, colchão).
Em relação ao item ‘B’, desenvolver as Famílias de Habilidades Motoras, habilidades como correr, saltar, arremessar, se equilibrar estarão presentes nas atividades de desenvolvimento das famílias de Exigências na Coordenação. Objetivamente, a fórmula para trabalha-las no dia a dia con-
Capítulo 3 – Vinte anos de iniciação esportiva universal: o conceito de jogar para aprender e aprender jogando, um pedagógico ABC-D
fi gura-se na ideia de um equalizador, isto é, variar de forma alternada as exigências na recepção de informação (particularmente difi cultar a ação do receptor visual e do equilíbrio) com as pressões na motricidade (fi gura 2).
Figura 2 – Fórmula para o desenvolvimento das famílias de exigências na coordenação
Fonte: (modifi cado de KRÖGER; ROTH, 1999).
O item ‘C’ do processo inclui o desenvolvimento das denominadas Famílias de Habilidades Esportivas, conceito modifi cado em relação a pro- posta original de Kröger e Roth (1999) denominado habilidades técnicas. A escolha na modifi cação do termo e pequenas variações nos conteúdos deriva da busca de uma adequada precisão conceitual. Desenvolver as Famílias de Habilidades Esportivas signifi ca preparar o caminho para a aprendizagem das técnicas por meio de atividades que promovam transferências e efei- tos positivos na realização de tarefas motoras, particularmente com bola. Conforme Tani (2016), recorrendo a vários autores, habilidade se defi ne como expressão do grau de profi ciência na execução do movimento. Se con- fi gura como uma ação complexa e intencional envolvendo toda uma cadeia de mecanismos sensórios, centrais e motores, a qual mediante o processo de aprendizagem, tornou-se organizada e coordenada para alcançar objetivos predeterminados com máxima certeza (WHITING, 1975), e também com o mínimo de dispêndio de energia (GUTHRIE, 1952). As sete Famílias de Habilidades Esportivas se consideram tarefas perceptivo-motoras que se relacionam com as difi culdades dos esportes (quadro 3).
Quadro 3 – Famílias de Habilidades Esportivas
Fonte: (modifi cado de ROTH; KRÖGER, 2011).
Conforme Tani (2016) a técnica é algo objetivo cujas especifi cações se expressam, por exemplo, por meio da fala ou da escrita, implica em se ter in- formações de antemão sobre a forma ideal de realizar um movimento. Técnica implica em efi ciência e /ou efi cácia (MESQUITA; MARQUES; MAIA, 2001), seu desenvolvimento se inicia no momento ‘C’, descrito a seguir.