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Suivi basé sur l’algorithme Forward

O coping refere-se aos esforços comportamentais e mentais para lidar com exigências que suplantam os recursos da pessoa (Lazarus & Folkman, 1984). Para avaliar o coping, no presente estudo, utilizamos a versão portuguesa do Brief COPE (Pais Ribeiro & Rodrigues, 2004), construída a partir do original norte-americano proposto por Carver (1997). O Brief COPE é um questionário constituído por 28 itens, pontuáveis numa escala de Likert de quatro posições, variando entre 0 (Nunca faço isto) a 3 (Faço quase sempre isto). Não existem itens com cotação invertida. As instruções iniciais do questionário solicitam aos respondentes que indiquem o grau com que recorrem a cada uma das 28 estratégias de coping indicadas para lidar com a situação stressora considerada. Esta última é definida pelo investigador e, por norma, refere-se a doenças graves (e.g., cancro, SIDA) ou a catástrofes naturais (e.g., fura- cões). O Brief COPE tem sido pouco utilizado em contextos de trabalho.

Este instrumento foi desenvolvido para avaliar tanto estilos de coping disposicionais, como estratégias de coping situacionais. Nesse sentido, Carver (1997, 2012; Carver, Scheier & Weintraub, 1989) incluiu apenas itens que mantivessem o conteúdo do comportamento des- crito, independentemente do referencial indicado no início da frase. Assim, tomando o item 24 como ilustração, ele pode ser enunciado como estilo de coping (por ex., Habitualmente tento

aprender a viver com a situação) ou como estratégia (Tento aprender a viver com a situação).

Adicionalmente, os itens podem ser ainda apresentados de forma retrospetiva (Tenho tentado

aprender a viver com a situação) ou atual (Tento aprender a viver com a situação). Além da

mudança do tempo verbal no início dos itens, as instruções prévias ao preenchimento contri- buem para circunscrever o âmbito teórico e temporal das respostas de coping. Elas podem referir-se a um episódio específico (reforçando o carácter situacional do coping) ou à forma como a pessoa usualmente lida com esse episódio (destacando-se, assim, a dimensão persona- lística do coping), e ainda delimitar o espaço temporal considerado (como tem lidado, ou como

lida no momento, por exemplo).

O Brief COPE é constituído por 14 dimensões ou escalas: (1) Coping Ativo; (2) Planea- mento (mantemos a designação original – planning – em alternativa à tradução proposta por Pais Ribeiro & Rodrigues [2004], Planear); (3) Uso de Apoio Instrumental (no original, using

instrumental support; na versão portuguesa, Utilizar Suporte Instrumental); (4) Uso de Apoio

Emocional (no original, using emotional support; na versão portuguesa, Utilizar Suporte Social

Emocional); (5) Religião; (6) Reinterpretação Positiva; (7) Autoculpabilização; (8) Aceitação; (9)

Expressão de Sentimentos (no original, venting, já em si uma abreviação da expressão emotio-

nal venting); (10) Negação; (11) Autodistração; (12) Desinvestimento Comportamental; (13)

Uso de Substâncias (medicamentos/álcool); e (14) Humor. Cada uma destas dimensões é com- posta por dois itens. As escalas 1 a 8 representam estratégias de coping que se pensa serem adaptativas, enquanto as escalas 9 a 14 representam coping mal-adaptativo ou disfuncional (Carver, Scheier e Weintraub, 1989; Meyer, 2001). Na Tabela 4.4 indicamos as dimensões, a sua operacionalização (Carver et al., 1989; com exceção das dimensões Humor, Uso de Subs- tâncias e Autoculpabilização, não operacionalizadas pelos autores) e os itens correspondentes, bem como as divisões ou associações (habituais na literatura) das escalas em positivas (ou adaptativas) e negativas (ou mal-adaptativas), e em estratégias focadas nos problemas, estra- tégias focadas nas emoções e estratégias disfuncionais (Mache, 2012).

Tabela 4.4. Dimensões do Brief COPE: operacionalização, itens e divisões teóricas habituais

COPING ADAPTATIVO

Estratégias focadas nos problemas

1 Coping ativo

Iniciar ações diretas para remover ou circunscrever o stressor, ou minimizar os seus efeitos

2. Concentro os meus esforços para fazer alguma coisa que me permita enfrentar a situação 7. Tomo medidas para tentar melhorar a minha situação

2 Planeamento

Pensar em estratégias de ação

14. Tento encontrar uma estratégia que me ajude no que tenho que fazer 25. Penso muito sobre a melhor forma de lidar com a situação

8 Uso de apoio instrumental

Solicitar conselhos, assistência e informação aos outros

10. Peço conselhos e ajuda a outras pessoas para enfrentar melhor a situação 23. Peço conselhos e ajuda a pessoas que passaram pelo mesmo

Estratégias focadas nas emoções

3 Reinterpretação positiva

Interpretar uma transação de stresse de forma mais positiva

12. Tento analisar a situação de maneira diferente, de maneira a torná-la mais positiva 17. Procuro algo positivo em tudo o que está a acontecer

4 Aceitação

Reconhecer o stressor como real e reconhecer a ausência de respostas de coping ativas dispo- níveis no momento

20. Tento aceitar as coisas tal como estão a acontecer 24. Tento aprender a viver com a situação

5 Humor

Atribuir à transação de stresse um carácter cómico

18. Enfrento a situação levando-a para a brincadeira 28. Enfrento a situação com sentido de humor

6 Religião

Investir na religião, seja como busca de apoio social, como matriz de reinterpretação positiva, como tática de coping, ou outra razão

22. Tento encontrar conforto na minha religião ou crença espiritual 27. Rezo ou medito

7 Uso de apoio emocional

Procurar apoio moral, simpatia e compreensão por parte dos outros

5. Procuro apoio emocional de alguém (família, amigos) 15. Procuro o conforto e compreensão de alguém

COPING MAL-ADAPTATIVO

Estratégias disfuncionais

9 Autodistração

Desviar a atenção do problema, de modo a não pensar na interferência do stressor

1. Refugio-me noutras atividades para me abstrair da situação

19. Faço outras coisas para pensar menos na situação, tal como ir ao cinema, ver TV, ler, sonhar, ou ir às compras

10 Negação

Recusar acreditar na existência do stressor ou agir como se o stressor não fosse real

3. Tenho dito para mim próprio(a): “isto não é verdade” 8. Recuso-me a acreditar que isto esteja a acontecer comigo

11 Expressão de sentimentos

Falar sobre o que perturba ou preocupa e verbalizar as emoções e sentimentos associadas

9. Fico aborrecido e expresso os meus sentimentos 21. Sinto e expresso os meus sentimentos de aborrecimento

12 Uso de substâncias

Recorrer a medicamentos ou a álcool para reduzir o mal-estar

4. Refugio-me no álcool ou noutras drogas (comprimidos, etc.) para me sentir melhor 11. Uso álcool ou outras drogas (comprimidos) para me ajudar a ultrapassar os problemas

Tabela 4.4. Cont.

13 Desinvestimento comportamental

Reduzir o esforço para lidar com o stressor e até desistir dos objetivos com cuja obtenção o stressor interfere

6. Simplesmente desisto de tentar lidar com isto 16. Desisto de me esforçar para lidar com a situação

14 Autoculpabilização

Atribuir a si mesmo a culpa pela transação de stresse

13. Faço críticas a mim próprio 26. Culpo-me pelo que está a acontecer

O Brief COPE é a versão reduzida de um outro questionário, denominado COPE (Carver et al., 1989). O COPE é constituído por 60 itens, classificáveis numa escala de Likert de quatro pontos (1: habitualmente não faço isto, a 4: habitualmente faço muito isto), distribuídos por 15 dimensões de coping: (1) Reinterpretação Positiva e Crescimento; (2) Desinvestimento Mental; (3) Focalização e Expressão de Emoções; (4) Uso de Apoio Social Instrumental; (5) Coping Ati- vo; (6) Negação; (7) Coping Religioso; (8) Humor; (9) Desinvestimento Comportamental; (10)

Coping Restritivo; (11) Uso de Apoio Social Emocional; (12) Uso de Substâncias; (13) Aceitação;

(14) Supressão de Atividades Conflituais; e (15) Planeamento. Na construção da versão abre- viada do COPE original, Carver (1997) excluiu duas escalas, acrescentou uma nova dimensão, reduziu todas as escalas a apenas dois itens e renomeou algumas delas. As escalas excluídas foram a de Coping Restritivo, na medida em que estudos prévios não demonstraram o seu valor, e a de Supressão de Atividades Conflituais, por se ter mostrado redundante face à escala de Coping Ativo. A escala acrescentada foi a de Autoculpabilização, na sequência de sugestões empíricas de que esta forma de coping seria um antecedente significativo do pior ajustamento psicológico face ao stresse (Carver, 1997). A escolha dos dois itens a manter em cada escala dependeu primeiramente do peso de saturação do item e secundariamente da clareza do seu enunciado. Por fim, e com o objetivo de refinar o alvo da sua ação, o autor manteve os nomes das escalas com exceção das três primeiras, que passaram a designar-se respetivamente por Reinterpretação Positiva, Autodistração, e Expressão de Sentimentos. Acrescente-se, em abo- no do rigor e perante a comparação dos dois instrumentos, que outras três escalas passaram a ter designações mais curtas, designadamente Uso de Apoio Instrumental, Uso de Apoio Emo- cional e Religião. A decisão de criar uma versão mais curta da COPE ficou a dever-se à consta- tação, quer nos estudos de desenvolvimento do instrumento, quer em pesquisas ulteriores, de níveis significativos de impaciência dos sujeitos, motivados quer pela redundância dos itens de cada escala, quer pelo tamanho do instrumento original; aliás, os autores haviam já ensaiado uma versão mais curta, anterior ao Brief COPE, com apenas três itens por dimensão (Carver, 1997).

O Brief COPE – enquanto versão reduzida do COPE – é um instrumento teoricamente ancorado e empiricamente iluminado. Carver et al. (1989) constroem o questionário com base no modelo transacional do stresse e coping de Lazarus (1966; Lazarus & Folkman, 1984) e no seu próprio modelo de autorregulação (Carver & Scheier, 1985). No que respeita ao modelo de stresse e coping de Lazarus, os autores não só fundamentam a elaboração dos itens na teoria, como se inspiram no instrumento por ele proposto, o WCC. É justamente na confrontação com o fundo concetual do WCC que Carver et al. encontram um dos motivos para o desenvolvimen-

to do COPE, em concreto na crítica – sustentada pela investigação empírica – de que a distin- ção do coping em apenas dois modos (focado nos problemas e focado nas emoções) é reduto- ra. Com efeito, a investigação tem demonstrado que o coping avaliado pelo WCC apresenta mais fatores que apenas os dois teoricamente postulados por Lazarus & Folkman. Estes auto- res não entendem tais resultados como desconfirmação da sua distinção e propõem, em con- formidade, distribuir os mesmos teoricamente pelas duas dimensões de coping que sugerem (Folkman & Lazarus, 1980, 1985, 1988). No entanto, Carver et al. acrescentam dois argumen- tos críticos em relação a essa divisão. Em primeiro lugar, adiantam que os fatores de cada uma das duas dimensões podem ser muito diferentes ente si. Tome-se o exemplo da negação e da reinterpretação positiva, fatores que se incluem no coping focado nas emoções: a natureza de ambas pode ser radicalmente diferente, quer ao nível da recusa/aceitação da transação de stresse, quer ao nível das consequências psicológicas de ambas. Em segundo lugar, cada tipo de coping pode pressupor o recurso a estratégias diversificadas. Carver et al. dão o exemplo do

coping focado nos problemas, que pode envolver atividades distintas, como tomar medidas

ativas, planear mentalmente, procurar ajuda ou assistência, etc. (é, aliás, uma das novidades que apresentam no seu instrumento, esta subdivisão do coping focado nos problemas em dife- rentes dimensões). Assim, um dos motivos para o desenvolvimento do COPE é precisamente a necessidade de estudar essas diversas atividades em separado. Por fim, Carver et al., perante os resultados e consequentes discussões da investigação empírica com os instrumentos até então disponíveis, identificam três insuficiências que se propõem colmatar. A primeira prende- se com o facto de nenhum desses instrumentos cobrir os domínios específicos por eles consi- derados teoricamente mais interessantes. A segunda limitação reside na falta de clareza e objetividade de alguns itens. A terceira limitação tem que ver com a base empírica dos instru- mentos: com efeito, os fatores eram estabelecidos a partir das respostas dos sujeitos de estu- do (recorrendo, de modo geral, à combinação de fatores comuns subjacentes revelados por análises fatoriais exploratórias), em vez de serem definidos a priori com base em critérios teó- ricos e procurando operacionalizar dimensões concetuais. Em suma, ambos os instrumentos – COPE e, por decorrência, o Brief COPE – são sólidos do ponto de vista teórico, quer porque concretizam uma dupla derivação teórica (em particular, a conjugação de uma teoria sobre como as pessoas lidam com o stresse com outra teoria, sobre como as pessoas regulam o seu próprio comportamento), quer porque integram as discussões teóricas suscitadas pela investi- gação empírica.

As propriedades psicométricas do Brief COPE atestam a sua validade. No que respeita à validade de constructo, e de uma maneira geral, a consistência interna das escalas é aceitá- vel; apenas três apresentam valores de Alfa de Cronbach entre .50 e .60 (Expressão de Senti- mentos, Negação, e Aceitação) (Carver, 1997). A consistência teste-reteste (referente às esca- las do COPE) é também aceitável, com valores de r variando, em dois estudos, entre .43 e .89 (Carver et al., 1989). A solução fatorial encontrada pelo autor revela uma estrutura composta por nove fatores, que explicam 72.4% da variância das respostas (portanto, superior aos 60% sugeridos por Hair et al., 2010), e reproduz na generalidade o comportamento fatorial obser- vado na escala original (Carver, 1997). De uma forma geral, as escalas do COPE revelaram pos- suir validade convergente e discriminante, ainda que alguns autores considerem a informação disponível limitada (e.g., Clark, Bormann, Cropanzano & James, 1995). Carver et al. relatam correlações na direção teoricamente esperada com outras escalas que avaliam dimensões da

personalidade, a saber: otimismo/pessimismo; auto-estima; locus de controlo; resiliência; padrão comportamental Tipo A; e ansiedade-traço. Em termos de validade discriminante, veri- ficou-se baixa correlação entre as escalas do COPE e um outro instrumento de medida de esti- los de coping, o que sugere que os dois instrumentos estão a avaliar realidades complementa- res mas não iguais. Por fim, as escalas do COPE revelaram fraca correlação com uma escala de desejabilidade social, o que é um dado adicional sobre a robustez da sua validade (Carver et al., 1989; Meyer, 2001). Uma vez que, com exceção dos dois itens acrescentados relativos à autoculpabilização, todos os itens da Brief COPE são partilhados com o COPE, as conclusões relativas à validade deste último são logicamente extensíveis ao primeiro.

Mantendo o enquadramento teórico do instrumento que lhe deu origem, integrando as limitações verificadas pela investigação com questionários precedentes, sendo menos redundante e demorado no seu preenchimento, e mantendo os mesmos bons indicadores psicométricos, o Brief COPE assume-se como um substituto adequado para o questionário original e revela-se um instrumento muito apelativo para estudar o coping nas suas diferentes dimensões. Prova disso é a sua larga utilização internacional, encontrando-se disponível em seis idiomas (e um dialeto) para além do Inglês, sua língua materna: Espanhol, Francês, Ale- mão, Grego, Coreano, Português, Swahili e Kikuyu (segunda língua queniana) (Carver, 2012; Kimemia, Asner-Self & Daire, 2011).

A escolha deste questionário, em suma, foi motivada não apenas pelas suas proprie- dades psicométricas e pela sua validade facial quando confrontado com outros instrumentos para avaliar o coping (as 28 questões do Brief COPE foram um argumento decisivo), mas sobre- tudo por uma razão teórica e uma razão investigacional. Do ponto de vista teórico, o Brief COPE é um dos instrumentos mais antigos e portanto mais testados e seguros, sem que, no entanto, seja demasiado dependente em termos concetuais do modelo de coping de Lazarus (Lazarus & Folkman, 1984), focado nos problemas ou nas emoções (como acima explicámos). Do ponto de vista investigacional, até ao início do presente estudo, não tínhamos conhecimen- to do Brief COPE ter sido utilizado em estudos relacionados com o stresse no trabalho. Além da inovação inerente a esta escolha, estávamos igualmente interessados em descobrir informa- ção que nos ajudasse a perceber se o coping com o trabalho é semelhante ao coping com a doença, quando avaliado pelo mesmo instrumento. Por fim, no que à medição do coping diz respeito, julgamos que este questionário cumpre a necessidade de equilíbrio entre o específico e o generalizável recomendado por Latack & Havlovic (1992).

Em conclusão, os três questionários utilizados são instrumentos credíveis a nível inter- nacional. As suas boas propriedades psicométricas têm sido confirmadas em vários estudos. As versões portuguesas apresentam, igualmente, boas propriedades psicométricas. Assim, a evi- dência empírica oferece-nos segurança quanto à adequação destes instrumentos e à justeza da sua utilização.