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Most successful countries

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Aradhna Aggarwal*

3. The integrated institutional framework and the global experience

3.1. Most successful countries

Ao vermos um mbaraka ou takwapu, utilizados nas rezas, poderíamos precipitadamente designá-los por artesanato. No entanto, entre os Guarani em Pinhalzinho, os artesanatos são tipos específicos de bens manufaturados que podem ser trocados e, principalmente, vendidos. Assim, o takwapu de Cleide ou o mbaraka do txamõi, não são chamados de artesanato, pois foram produzidos especificamente para relações espirituais e não comerciais.

Na bibliografia etnológica sobre os povos Guarani existem poucos trabalhos cujo foco seja a produção de artesanato. A pesquisa de Valéria Assis (2006b) com povos Mbya no Rio Grande do Sul debruça-se sobre aspectos da “cultura material” mbya. De acordo com a autora, o artesanato é dotado da dupla faceta de ser ao mesmo tempo um bem produzido para ser comercializado/mercantilizado com os brancos e um marcador da singularidade mbya. Em Pinhalzinho, o artesanato, geralmente, consiste em objetos produzidos para serem vendidos, mas implicam também em conhecimentos, técnicas e certos elementos estéticos que caracterizam singularidades dos Guarani que ali se encontram. Assim, não foco aqui nessa ambiguidade das relações endógenas e exógenas que caracterizariam o artesanato, mas sim nas múltiplas singularidades que permeiam os trabalhos dos Guarani artesãos.

A produção de artesanato em Pinhalzinho é bastante variada e experimental. Variada porque existem trabalhos feitos com técnicas e materiais diversos, e experimental porque as técnicas, na maioria dos casos, não são simplesmente ensinadas pelos mais velhos, mas sim desenvolvidas a partir de experimentos pessoais dos artesãos. Organizo esta descrição a partir dos tipos de materiais utilizados para a produção desses artesanatos.

66 Alguns dos trabalhos mais valorizados, tanto em prestígio pela dificuldade de produção quanto comercialmente, são os artesanatos feitos em madeira. Douglas é um dos Guarani especialista nesse tipo de produção. Ele é mais conhecido pela feitura dos petỹ gwa (cachimbos) e das esculturas de animais em miniatura (como tatus, onças, jacarés, pássaros, entre outros). Em suas caminhadas, sempre que encontra troncos caídos ou pedaços de madeiras ele as recolhe para suas produções. Alguns tipos de madeiras são mais raros, resistentes e duráveis do que outros, assim, Douglas procura fazer um estoque das mesmas.

O caso do uso dos petỹ gwa em Pinhalzinho é bastante interessante. Algumas pessoas, principalmente as crianças, fumam o cachimbo no dia a dia. No entanto, o mesmo não é usado nas práticas da reza e de cura, como em algumas outras comunidades Guarani, especialmente entre os Mbya60. Os mais velhos em Pinhalzinho afirmam que antigamente eles não fumavam petỹ gwa e que este hábito, assim como a produção do objeto para venda, foi recentemente desenvolvido por eles a partir de uma troca de saberes com os Mbya. Neste caso, o petỹ gwa não tem a ver com aquela faceta da cultura relacionada à reflexão acerca do passado e dos antigos, mas sim com a contínua produção de diferenças, ou seja, a atualização criativa da cultura nas relações com os outros povos indígenas e não indígenas.

Além do petỹ gwa e das pequenas esculturas de animais, outros trabalhos produzidos em madeira em Pinhalzinho são as lanças, alguns outros tipos de esculturas – como espécies de barcas e nha’e (vasilhas) – e objetos diversos feitos com bambu. As lanças, geralmente cobertas por grafismos e desenhos gravados por meio de pirografia, são especialidade do casal Juliana e Ismael, filha e genro do cacique. As esculturas de grande porte, como mesas, cadeiras, bancos, entre outras, são especialidade de Elton, sobrinho do cacique. O gramado ao lado da sua casa é repleto de grandes galhos e pedaços de madeira com os quais ele busca experimentar e criar objetos que possam ser vendidos, segundo ele, para “complementar a renda”.

D. Vilma e o cacique, que são irmãos, trabalham muito bem com bambu. A primeira faz trabalhos mais convencionados, inspirada em saberes e

67 técnicas que aprendeu com seus parentes mais velhos. Em sua cozinha ela me mostrou os seus rumpe, também chamados de apa, que são espécies de peneiras feitas com trançado de taquara e servem para escolher feijão e arroz, dependendo da espessura dos furos que ficam no trançado. Logo que ela me mostrou tais objetos, perguntou se eu tinha interesse em comprar algum, o que respondi afirmativamente. Já o cacique tem trabalhado em um objeto criado por ele recentemente que é uma espécie de “pegador” para comida feito de taquara. Ele utiliza o mesmo em sua casa no dia a dia, mas não deixa de vendê-los quando tem oportunidade. Ele me deu um para que eu levasse e entregasse na ASSINDI como um presente da comunidade e também como amostra do que eles têm criado recentemente. Com taquara Douglas também faz arcos e flechas com pontas feitas de ossos de animais ou pedaços de metais. O jovem vem treinando arco e flecha como um esporte.

D. Laurinda e Célia, esposa e filha do cacique, trabalham com uma grande diversidade de materiais, como fibras do tronco da bananeira, palha de milho, sementes, contas, penas, pedaços pequenos de madeira, missangas, fios, tintas, entre outros. Com estes materiais elas criam pequenas cestas, enfeites e presilhas para cabelo, colares, brincos, etc. Em sua fala, D. Laurinda reivindica a sua criatividade ao fazer do tronco da bananeira uma fibra que pode ser usada para trançados diversos (figura 8). Ela vem estudando e desenvolvendo uma técnica de extração e produção de artesanato com este material. Segundo ela, o primeiro passo é cortar o tronco inteiro da bananeira – aquelas que já não produzem mais –, depois é preciso cortá-lo na vertical de forma que seja possível separar o tronco em várias camadas de fibras. Estas devem ser cortadas em tiras das quais se descarta a parte mole e macia, deixando apenas a parte resistente que lembra uma espécie de plástico. Estas tiras devem ficar de molho na água com sabão por aproximadamente um dia e depois devem secar na sombra em um varal ou bambu na horizontal por três ou quatro dias.

O couro e os ossos dos animais também são materiais bastante utilizados. Como já mencionado, carcaças de animais mortos ou daqueles que são abatidos para alimentação são sempre aproveitadas. O colar de dentes de cachorro feito por Douglas está sempre em seu pescoço. Em Pinhalzinho, o

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artesanato geralmente é definido pela sua trocabilidade, mas em muitos casos também são objetos utilizados no dia a dia, como no caso deste colar, dos rumpé de D. Vilma, os pegadores de comida do cacique, os brincos e enfeites de D. Laurinda e Célia, entre outros. O que não é artesanato são os objetos feitos para eventos como a reza e o nimumgarai, ou seja, aqueles que compõem as práticas espirituais e agem na conexão de humanos com divindades. Um mbaraka que compõe a reza é dotado de uma agência naquele complexo relacional da qual um artesanato não é. Ainda, alguns mbaraka podem ser artesanato, mas não todos. Um mbaraka, um kangwaa ou outros objetos que são característicos da reza, podem ser artesanato na medida em que são feito para venda e não para a composição de uma reza.

Na questão da venda, os Guarani em Pinhalzinho não se engajam na prática de sair vendendo artesanato pelas ruas, como acontece com muitos outros povos indígenas que vivem próximo de cidades. Geralmente eles vendem em encontros, mostras culturais e outros eventos, como por exemplo, quando ocorre o Vestibular dos Povos Indígenas do Paraná61. Eles também

fazem artesanato por encomenda. Segundo Dona Laurinda, a filha da presidenta da ASSINDI, por exemplo, é uma grande compradora de seus trabalhos e uma das pessoas que lhe pede encomendas em grande quantidade.

Termino este tópico destacando que a produção de artesanato é elencada pelos Guarani como um produtor de diferenças. Fazer artesanato é parte do que chamam de cultura. As técnicas e materiais são diversos, envolvem saberes convencionados, mas principalmente produções experimentais. Assim, esta variedade atrelada à prática da artesania traz a tona diferentes dons que estão em contínuo desenvolvimento criativo.

69 Figura 8. D. Laurinda preparando a fibra da bananeira para a produção de artesanato. Foto tirada

pelo autor, 2016.

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