Aradhna Aggarwal*
3. The integrated institutional framework and the global experience
3.3. Least successful countries
não se restringe às extensões espirituais. Outras semelhanças podem ser percebidas. Uma delas é a forma como se dá a organização espacial das casas. Na aldeia Pinhalzinho, como descrito no Capítulo I, as moradias são organizadas por relações de parentescos e vínculos “religiosos”79. Existem três colônias nas quais, em cada uma delas, parentes vivem em casas próximas umas das outras. Na ASSINDI, que contém cinco casas para abrigar estudantes indígenas, a organização é similar, apesar da menor escala. Essas moradias são distribuídas próximas umas das outras ao longo de um amplo espaço gramado. Das cinco casas, quatro são ocupadas por famílias Guarani e uma por uma família Kaingang.
Figura 13. À esquerda, duas casas nas quais residem Guarani universitários, à direita, Centro Social Infantil Indígena Mitangue-Nhiri. Foto tirada pelo autor, 2015.
79 Lembremos que esta categoria é utilizada quando os Guarani se referem às religiões cristãs e às
98 Todos estes Guarani que vivem na ASSINDI, apesar de terem trajetórias de vida diversas, estão ligados uns aos outros por relações de parentesco. Primos e primas, tios e tias, sobrinhos e sobrinhas, casamentos entre primos e afins. Na primeira conversa que tive com Luís, comecei perguntando se ele tinha parentes morando em Maringá, ele disse:
Tenho. Aqui todo mundo é... é bem dizer, faz parte da minha família. Tem aqui o Rodrigo e a Eliane [indica a casa ao lado da sua] que são meus tios. O Fábio, não sei se você conhece, o Fábio também, ele e a Marlene também são meus tios. O Marcos aqui e a Laura também [aponta para o outro lado da sua casa]... Então, todo mundo. Acho que o único que não é meu parente assim é o Sandro aqui, que é Kaingang, mas é meu amigo também.
Luís, neto do txamõi Awa Djemõwytsu, foi pra Maringá porque sua mãe era acadêmica na UEM e residente na ASSINDI. Atualmente, mesmo longe das aldeias, está próximo de seus parentes. Estas relações de parentesco na cidade aparecem em conversas com outros Guarani e é um ponto forte para que os indígenas escolham Maringá como cidade para estudar80. Quando
Fábio foi pra Maringá, ele tinha um primo que morava na ASSINDI. Marcos, por sua vez, tinha seu irmão Fábio. Eliene já conhecia a ASSINDI porque sua irmã Carmem, mãe de Luís, havia morado no local. No decorrer da pesquisa, percebi como histórias e trajetórias se conectavam.
É comum que os Guarani na ASSINDI se reúnam para diversas atividades, seja elas ligadas à ONG e aos estudos81 ou não. Todas as famílias,
e isso inclui a Kaingang, possuem filhos, e é comum que uns ajudem a cuidar dos filhos uns dos outros, por exemplo, buscando e levando na escola. As crianças costumam correr e brincar juntas, como acontece na aldeia Pinhalzinho no espaço ao lado da casa do cacique.
Em geral, meus interlocutores afirmam que na cidade uma das principais dificuldades quando chegam é ter que lidar sozinhos com os problemas do dia a dia, mas na ASSINDI existem extensões da socialidade coletiva que é comum nas aldeias. Mesmo aqueles indígenas que não moram na ASSINDI, como os Guarani Pedro e Henrique, vão com frequência para a
80 Essa proximidade entre parentes e o apego à família são questões que aparecem nos trabalhos de
Goulart (2014), com os Guarani e Kaingang universitários na UEL, e Amaral (2010), sobre trajetórias e permanências de indígenas no ensino superior público no Paraná.
81 Como para limpeza dos espaços comuns na ASSINDI, eventos universitários, encontros relacionados
99 ONG para ver seus parentes, jogar futebol, participar de eventos e afins. Quando parentes da aldeia vão visitar aqueles que vivem na cidade, é comum também que fiquem na ASSINDI, como aconteceu quando o txamõi Awa Djemõwytsu, sua esposa Cleide e Douglas foram para Maringá no evento mencionado anteriormente. Portanto, casas e parentes estão em relação, assim como pude perceber na aldeia Pinhalzinho.
Quando fui convidado pela primeira vez a entrar na casa de um dos meus interlocutores Guarani na ASSINDI, uma das características que mais me chamou atenção foram as paredes cobertas de artesanato. A produção de artesanato é algo que os Guarani em Maringá, em maior ou menor grau, investem bastante, ainda que com dificuldades. O ambiente é propício para a venda dos produtos, mas ao mesmo tempo, os Guarani têm dificuldades para conseguir materiais para a artesania das peças.
Rodrigo é um dos Guarani especialista em produção de artesanato em Maringá. Em uma de nossas conversas ele confirma a visão de que a ASSINDI é como uma aldeinha. Ele diz que o espaço da ONG “é similar a uma reserva, mais afastado da cidade, do centro, assim... do movimento”. Condição que ele vê como favorável para viver em Maringá. Com relação ao seu trabalho como artesão, essa característica da associação o possibilita ter acesso a alguns materiais no próprio espaço da ONG. Perguntei se ele trazia materiais da aldeia, como faz outros Guarani, ele respondeu:
Rodrigo: Não eu tiro tudo daqui mesmo.
Pesquisador: Mas daí você pega onde as matérias, os materiais...?
R: As sementes eu pego por aqui mesmo na ASSINDI, daí o bambu eu
busco numa vila lá pra baixo perto do [bairro] Laranjeiras.
P: Sei, o Parque Laranjeiras, né? R: Isso.
P: Mas é um lugar público [...] aberto?
R: Ah... não sei, eu pego beirando o rio [risos].
No decorrer da conversa ele se lembra que o único material que ele traz das aldeias são as cabaças para a produção de mbaraka mirĩ. As penas de aves sintéticas para produção de brincos ele diz que compra em lojas, já as naturais ele tira de galinhas também compradas por ele. Quando perguntei os tipos de sementes que ele usava ele respondeu “[...] ah, semente de leucena... e... ah, o que tem né, é de época, o que tiver na época eu procuro usar... e a
100 acessível, a produção de artesanato é um trabalho marcado pelo experimentalismo, na cidade não é diferente. Rodrigo produz e vende mbaraka mirĩ, brincos, colares, palitos para prender cabelo, arcos e flechas de brinquedo, kangwaa e está sempre procurando aprender novas técnicas para desenvolver novos objetos. Um em específico que me chamou atenção na parede de sua casa foi um grande filtro dos sonhos (figura 14) que ele disse que estava aprendendo a fazer com um artesão da cidade.
Figura 14. Filtro dos sonhos confeccionado por Rodrigo. Foto tirada pelo autor, 2015.
Outros sujeitos como Marcos e Fábio também produzem artesanatos e os vendem, na maior parte das vezes, em diversos eventos que acontecem na ASSINDI. Ambos trabalham mais com sementes, produzindo colares e brincos. Percebe-se aqui que cada Guarani na cidade também possui os seus dons e
101 especializações pessoais. Rodrigo, Marcos e Fábio são bons artesãos. No entanto, por um lado, o primeiro tem saberes mais amplos em termos de técnicas e variedade de objetos. Por outro, Marcos e Fábio conhecem muito mais da espiritualidade Guarani – um deles, inclusive, tentou se tornar txamõi mesmo morando na cidade.
Com Rodrigo conversei muito mais sobre as peças de artesanato do que com Marcos e Fábio, que me ensinaram muito sobre a reza, a crisma e outros elementos da espiritualidade. Destaco que, seja nas aldeias ou nas cidades, as extensões do que os Guarani chamam de cultura – geralmente, os saberes dos mais velhos, uma forma específica de ser e se relacionar e a contínua produção de diferença – estão intimamente conectadas às vivências e criatividade, ao amadurecimento e aos dons de cada pessoa Guarani.