em não-violência
No segundo capítulo deste trabalho reunimos alguns boletins dominicais da Igreja Batista em Coronel Leôncio, que continham de maneira clara alguns elementos presentes e importantes na Teologia da Satisfação Penal (TSP). Analisamos brevemente como o conteúdo da liturgia dominical desta igreja situada na favela, ainda contempla as formulações desenvolvidas por Santo Anselmo. Para além das pastorais e dos versículos bíblicos marcadamente sacrificiais, apontamos alguns hinos do cantor cristão escritos já na Modernidade que reproduzem os discursos sacrificial e vitimário, os quais, baseiam toda a temática da soteriologia protestante evangélica.
Apesar da demonstração clara da manutenção desta tradição teológica, e como abordamos acima, da importância de haver uma identidade teológico-denominacional estabelecida, encontramos em outros documentos dominicais alguns elementos que acabam produzindo possibilidades de interpretação completamente distintas àquela associada ao sacrificialismo. Notamos que ao mesmo tempo em que o discurso é embebido em violência mascarada por justificativa soteriológica, como já demonstrado, é possível encontrar na liturgia dominical desta comunidade de fé elementos que apontam para uma reformulação da imagem divina menos associada a violência. Os temas encontrados nos boletins, tem relação com à graça, misericórdia e amor incondicional de Deus. Tais elementos divergentes do discurso sacrificial, penal, jurídico e medieval que baseiam a Satisfação Penal, podem ser indicadores de que a comunidade de fé estudada possui alternativas de fundamentos teológicos, menos dependentes de linguagem violenta.
Nos dedicaremos nas linhas a seguir a analisar estes elementos às vezes sutis, mas que se apresentam como ambiguidades que apontam para uma possibilidade importante: a recriação de uma imagem divina que objetiva a superação da necessidade de utilizar a violência como fundamento do discurso cristão. Entendemos hipoteticamente que, uma vez percebida a violência no discurso cristão e operado o desmascaramento do mecanismo histórico de assassinato e expulsão de uma vítima, no qual a teologia cristã ocidental se baseia, é possível que a adesão a tais teologias passe de confissão de fé inquestionável para conversão profética.
Ao analisar os boletins dominicais da Igreja Batista em Coronel Leôncio, fica muito claro que as ambiguidades no discurso são presentes, e certamente pouco problematizadas pela comunidade. Utilizando os boletins dominicais da Igreja, anteriormente já comprovamos uma presença significativa de linguagem associada a TSP, e agora cabe-nos demonstrar a linguagem que se opõe a este tipo de teologia largamente problematizada. Em alguns destes documentos dominicais, é possível perceber que uma imagem divina depende quase que integralmente da outra. O que queremos dizer com isso é que em alguns boletins nota-se que o tema do resgate, do pagamento de dívidas e da satisfação requerida por Deus é interpretada como um grande gesto de amor. A ideia corrente é que Deus poderia ter optado pela punição direta e constante, mas a flagelação e morte de Jesus parecem indicar que, na imagem do Deus-vingativo-punitivo da TSP, há traços que indicam sua comiseração e graça de maneira inconfundível. Esta característica dúbia do discurso teológico se apresenta de forma interessante, pois, indica a possibilidade de adesão de uma teologia em que o sacrificialismo e o mecanismo vitimário não sejam o fundamento da boa-notícia. Esta possibilidade de mudança na infraestrutura do discurso é vislumbrada justamente pelos temas ambíguos abordados de maneira cíclica na liturgia dominical da Igreja Batista em Coronel Leôncio. São eles: resgate de Cristo operado em sua morte na cruz, amor de Cristo e sangue derramado, fé, graça de Deus e cruz de Cristo e, por fim, o tema do amor de Deus.
Antes de iniciarmos a exemplificação das ambiguidades citadas, é necessário ressaltar que elas partem da mistura de variadas temáticas, como, por exemplo, o tradicional esquema de redenção do ser humano viabilizado pela morte de Jesus e a esperança de uma vida melhor que depende tão somente da paciência e da fé neste modelo redentor. No boletim 1, disponível no apêndice, a liturgia conta com o hino do Cantor Cristão de número 579, que na 1° e na 4° estrofe apresenta a estrutura básica da TSP, como podemos ver logo abaixo:
Ruge forte, contundente a guerra do pecado Mas os seu clangores vis não podem me afligir Sei em quem confio, pois, na rocha estou firmado,
e celestes bênçãos irei fruir
Desprezando deste mundo as sendas ardilosas,
volto o meu olhar pra cruz de quem me resgatou.
Nesse hino, de título “olhando para Cristo”, a temática do pecado dá início à letra que tem o objetivo de referendar a fé cristã e a segurança do cristão unicamente na pessoa do Cristo. Olhar para Cristo é, segundo este hino, a maneira eficaz de estar a salvo de todas as ofertas que o “Mundo” repleto de enganos oferece. A tônica do pecado redunda no tema da cruz e no resgate da humanidade operado pela morte de Jesus. É interessante no conteúdo deste boletim que a alegria do cristão é associada não a coisas terrenas, portanto, tangíveis, mas sim à glória que será obtida após a morte. Diante do conteúdo deste hino e do direcionamento da liturgia, fica subentendido que a vida terrena nada tem de bom a oferecer e que a verdadeira alegre subsiste na presença de Cristo. A alma devota ao Cristo é a verdadeira fonte de prazer do ser humano. Nesta mesma liturgia, o texto da carta aos Romanos, capítulo 8, é utilizado para reforçar que a verdadeira alegria do cristão está posta tão somente na salvação de Jesus Cristo e, neste texto, a tônica sacrificial não aparece como no hino.
De maneira bastante similar, o boletim dominical do dia 16 de dezembro de 2018 apresenta as mesmas temáticas, abordadas em conteúdos distintos. O tema do resgate e a esperança da salvação são retomados tanto no texto bíblico, quanto no hino cantado. A liturgia, desta maneira, indica a retomada de um assunto aparentemente fundamental para esta comunidade de fé, tendo em vista que os temas se repetem de forma cíclica. Além da questão do resgate e da salvação como fonte de alegria, a ideia de distanciamento das “coisas do Mundo” se reapresenta. No hino de título “ Cristo satisfaz” reproduzido abaixo, podemos ver claramente este tipo de ideia sendo reforçada.
Riquezas não preciso ter, mas sim celeste bem; Nem falsa paz ou vão prazer, porquanto, o crente tem. Eterno gozo no Senhor, por desfrutar o seu amor
[Estribilho]
Com Cristo estou contente. Ele me satisfaz! Com esse amor do Salvador, agora estou contente. Agora estou contente.
Do mundo as honras para mim, perderam seu valor. Já tenho a paz divina enfim, servindo ao meu Senhor.
Terei meu gozo principal, Ao vê-lo em glória triunfal.
Até que esteja lá no céu, aonde Cristo entrou E veja a face já sem véu de quem me resgatou Desejo só aqui viver, de um modo que lhe dê prazer.
Novamente o teor estritamente sacrificialista é amenizado em uma liturgia dominical na igreja Batista em Coronel Leôncio. Não fica evidenciada a teologia da Satisfação Penal nesta liturgia, contudo, como vimos o tema do resgate (da morte eterna e do pecado) operado pela morte de Jesus Cristo é retomado. Feitas estas considerações iniciais, é perceptível que esta igreja possui um discurso teológico bem fundamentado na tradição da denominação, mas também consegue reformular e atenuar os discursos embebidos de violência bruta. O discurso de contentamento, a alegria e o prazer de pertencer a Cristo são temas que, mesmo vindo acompanhados do maciço conceito teológico do Resgate, cooperam para a criação de uma mentalidade de segurança no fiel, suavizando o enfrentamento complexo do cotidiano. Olhar para a cruz que foi palco da morte de Cristo se tornou símbolo de persistência do cristão. Ao olharem para a cruz, não veem a morte, mas os benefícios dela.
Um outro tema apreciado na liturgia dominical, que parece reverberar de maneira recorrente na comunidade estudada, é o tema da fé. Não é possível afirmarmos categoricamente, contudo, a insistência em tratar o tema da fé incondicional, mesmo em momentos de dificuldade, parece ser necessária dado o contexto de carestia e violência que os membros desta igreja enfrentam. Observamos que, ao tratar desta temática durante os cultos, a liturgia não foi construída por meio da fórmula sacrificial comum à teologia adotada pelos batistas. A fé, normalmente associada à perseverança e a entrega confiante a Deus, é destacada como uma forma de adoração. Além disso, é interessante perceber numa interpretação textual, publicada em modelo de pastoral, que ter fé também está associado à certeza de obter sucesso na vida. Nesta comunidade há espaço para a propagação da ideia de que “Cristo satisfaz”, ao mesmo tempo em que a fé N’ele resulta em ações divinas que beneficiam os fiéis. “A sua fé pode ser até do tamanho de um grão de mostarda, mas aplicada na pessoa certa Jesus, fará algo tremendamente de excelência, na sua vida espiritual, na física, família, emprego, e claro na sua área emocional e sentimental” (trecho extraído do boletim dominical anexo C).
O tema da fé associada à perseverança diante das dificuldades da vida, como transmitido no documento analisado, não utiliza a imagem crucificada do Cristo como um símbolo. O que queremos indicar com isto é que a linguagem utilizada para expor a necessidade de crer mesmo sem precedentes foge ao mecanismo vitimário e sacrificial e tem como objetivo a sugestão da adoção de um comportamento fideísta. A fé pregada não está associada à cruz, ao Filho entregue pelos pecados da humanidade. A fé não está associada ao sangue derramado ou ao perdão alcançado pela morte, mas sim está associada à confiança plena no poder de Deus, que age em favor de seus filhos e filhas. A mensagem descrita no boletim reforça uma imagem divina bastante paternal, preocupada em manter os seus em um estado de segurança e renovação de
forças. No boletim de 30 de setembro de 2018, o texto bíblico escolhido para a leitura coletiva é o de Isaías 40, que reafirma a ação divina em renovar as energias daqueles que estão fatigados pelas dificuldades enfrentadas na vida.
Até este ponto, o que fica claro é que as ambiguidades estão sutilmente presentes no discurso da igreja batista em Coronel Leôncio. Nos dois temas recorrentes analisados, a ausência da tônica sacrificial/vitimária divide o espaço com conceitos isolados que aludem à sua estrutura. Nos boletins anexados não se encontra facilmente termos relacionados à violência bruta, contudo, há nos trechos marcados os fundamentos teológicos que formam a mensagem cristã que estamos problematizando durante todo este trabalho. Em síntese, se a fé cristã depende, como temos visto, da morte de Jesus exigida por Deus, ao tratar ciclicamente das temáticas “resgate” e “fé” sem utilizar a morte como principal fundamento, a Igreja Batista em Coronel Leôncio reformula as estruturas de seu discurso e relativiza a exigência da operação sacrificial. Diante do conteúdo analisado, fica claro que para esta comunidade é possível ter fé no Cristo, praticá-la e fortalecê-la sem necessariamente abordar a morte, a cruz e o sangue como elementos indispensáveis para a salvação.
A partir deste ponto faremos uma breve digressão. Tratamos, neste pequeno intervalo, de dois temas principais que se desdobram em outros. O primeiro foi o tema do resgate por meio da cruz, que se desdobra em segurança do fiel na salvação de Cristo e distanciamento das “coisas do mundo”, e o segundo tema foi a fé, associada à entrega total a Deus e confiança na sua ação, inclusive para a promoção de sucesso na vida. Mesmo que estes temas secundários venham acompanhados de uma ideia sacrificial e vitimária, eles abrem uma possibilidade interessante para a formulação de um discurso que seja mais pacificador que conflituoso. Utilizando novamente Girard, podemos reler a ideia de distanciamento das “coisas do mundo” como uma maneira de problematizar o mecanismo sacrificial e violento, pelo qual o processo de socialização foi possível.
A fé cristã abarca a ideia da existência de uma outra realidade, geralmente completamente antagônica a que os fiéis vivem. Essa realidade para além desta vida ocorrerá no céu. Assim sendo, cabe dizer que a ideia que o cristão possui do céu é imediatamente o reflexo aperfeiçoado da vida que leva na terra. Ou seja, o céu é a projeção invertida da vida levada na terra. Neste sentido, quando vemos na liturgia dominical da Igreja Batista em Coronel Leôncio que a satisfação do cristão deve estar firmada em Cristo, no céu, subjacente à esta ideia está a negação da realidade hostil, violenta e vitimária que estas pessoas estão expostas diariamente e que causa sofrimento, dor e angústia. Tratar da “negação do mundo” pode à princípio soar eremita, excessivamente puritano, mas diante da exposição dos fundamentos miméticos conflituosos e
de toda a violência que contribuiu para a formação da sociedade, pode se tratar de uma variante hermenêutica dos mecanismos violentos em que nos baseamos. Negar as coisas do mundo, baseados nas teorias antropológicas e sociais de Girard, é negar a violência fundante que insiste em cooptar todos os indivíduos, projetando para o ambiente celeste aquilo que o terreno não oferece. “E Deus enxugará de seus olhos toda lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor11” é a esperança cristã que subverte os mecanismos terrenos de morte e opressão. De maneira ambígua, o lugar perfeito da não-violência do cristão não está na terra, mas sim, no novo céu, a na nova terra prometidos por Deus, podendo acessá-los somente aqueles que confessaram a Jesus como o Salvador morto na cruz. O discurso de “negação do mundo” pode ser redirecionado para reflexões éticas e não somente morais.
Em relação ao tema da fé, a fresta discursiva que se abre por conta das ambiguidades tem relação com o desejo mimético que fundamenta toda a nossa discussão. Além do que já expusemos mais acima, cabe ressaltar a importância do trecho transcrito do boletim que conduz o leitor a crer que a fé, mesmo sendo do tamanho de um grão de mostarda, pode operar em todas as áreas, inclusive a financeira. O contexto em que este discurso está sendo produzido é de vital importância. No ambiente da favela, onde a carestia está abundante e as pessoas vivem marginalizadas econômica e socialmente, a fé na ação divina pode ser uma maneira de reeducar o desejo mimético e seu despertamento violento. No segundo capítulo desta dissertação, vimos como os adolescentes e jovens da favela são os mais afetados pela criminalidade e como facilmente se associam ao tráfico com o fim de terem meios de possuir os seus objetos de desejo, que na realidade são objetos que comunicam sua inclusão (mesmo que forçada) na organização social vigente. Vimos também que a violência é uma ferramenta empregada para saciar o desejo mimético conflituoso despertado. Relembrados estes pontos, voltamos nossa atenção novamente para o boletim que sugere a fé em Jesus como um meio de acesso à “excelência” (termo utilizado na pastoral) na vida espiritual, física, familiar e também econômica do fiel.
Associar a fé em Jesus como um meio de acessar aquilo que é necessário para a vida de forma geral, pode ser uma maneira de negar a violência como uma ferramenta para a saciedade do desejo mimético. Acerca do tema do desejo mimético, Alison (2011, p. 186) afirma que “os humanos são sempre movidos por um outro. Ou esse outro é o agraciador pacifico e amoroso, ou é aquele que assegura a ordem por meio das expulsões e assassinatos”. Pensando a partir de Alison e Girard e considerando o texto da pastoral, é possível compreender que o tema da fé em Jesus, que se desdobra na providência divina, pode promover a reeducação do desejo
mimético e do seu despertamento que gera violência. Os seres humanos sempre são movidos pela imitação, mas esta imitação não necessariamente se configurará uma rivalidade sempre. Em síntese, assumir Jesus como modelo e ter fé que Deus proverá o que é necessário pode implicar na rejeição do uso de violência para a saciedade do desejo. A fé em Jesus é suficiente para a satisfação do fiel, é esta a ideia transmitida na pastoral. Além disso, a imitação de Jesus pode suscitar a reflexão de uma vida oposta ao consumo desenfreado e à negação da inversão antropológica causada pelo capitalismo ao tratar o ser humano só como um ser de desejo de consumo, e não reconhecer as suas necessidades. Desta forma, a fé no cuidado de Deus pode ser um discurso que fomente uma vida de mimeses pacíficas e que negue qualquer variante de violência. Se a fé conduz ao cuidado e a provisão, o desejo mimético conflituoso é uma falta de exercício da fé, pois usa a violência e a força própria como meios de satisfação, abrindo mão da confiança em Deus.
Prosseguindo na busca pelas frestas discursivas e pelas ambiguidades que podem produzir um novo caminho hermenêutico não-violento no ambiente marcadamente violento da favela, indicamos a dupla de conteúdos mais ambígua encontrada nos boletins dominicais analisados: amor e sangue. No boletim do culto do dia 4 de novembro de 2018 (anexo C), em uma liturgia especial por ocasião da Santa Ceia, o discurso varia entre o amor de Deus pelos homens e o sangue de Cristo derramado na cruz. O modelo de legitimação citado acima – que visa destacar os fins e não os meios da ação divina na história da humanidade – parece ser eficaz no que tange ao mascaramento da violência contida na liturgia da Ceia. Em um culto inteiramente voltado para rememorar a vida, obra e morte de Jesus Cristo, a comunidade de fé aparentemente compreende o sacrifício de Jesus como uma prova de amor da parte de Deus-Pai. No primeiro momento do culto, o texto bíblico sugere que os fiéis ofereçam o tempo de culto à Deus, e o clamam para que seja aceitável. Na sequência, o hino 154 intitulado “Firme nas Promessas”, que já abordamos em outro momento, abre o caminho para a confissão de dois temas aparentemente antagônicos: a paz e o sangue. “Fico pelos séculos de seu amor, firme nas promessas de Jesus. Firme nas promessas sempre vejo assim, purificação no sangue para mim. Plena liberdade gozarei sem fim. Firme nas promessas do Senhor Jesus, em amor ligado com a sua cruz. ”
Os dois temas se perpassam com uma naturalidade bastante interessante. O cristão é frequentemente convidado a ter alegria, fé e esperança por meio da morte, que costumeiramente queremos fugir e rejeitamos. A cruz abordada através de cantos e textos bíblicos na liturgia dominical não se configura como a vergonha que foi para os discípulos, como o fracasso que os fez dispersar. Mas sim, a cruz é relida constantemente como um símbolo de esperança e
vitória, dividindo espaço com a linguagem sacrificial e um constante flerte teológico com a violência. Em relação a estas questões, Sesboué (2002, p. 392) afirma que,
“O novo testamento deu conta amplamente do mistério da cruz de Cristo com o auxílio de uma linguagem sacrificial. Ainda que Jesus tenha manifestado uma distância em relação aos sacrifícios rituais da Antiga Lei e não tenha associado sua vida e sua morte à noção de sacrifício ritual, ocorre que o sentido das palavras da instituição da Eucaristia é sacrificial. Decerto existe hoje uma discussão para saber em que medida essas palavras remontam a Jesus em seu teor próprio. Elas exprimem, contudo, o que a memória das comunidades cristãs primitivas atribuía a Jesus”.
Percebe-se que a memória das comunidades cristãs primitivas, de acordo à linguagem acima, é reafirmada e ratificada nos dias atuais. A igreja Batista em Coronel Leôncio associa amor e morte, sangue e paz, sofrimento e alegria em sua liturgia de maneira que a imagem de Deus fique duplamente implicada: de um lado o esquema sacrificial que levou Jesus Cristo à morte e, do outro, toda a capacidade divina de gratuidade e amor para com os homens. Encontramos na análise destes documentos dominicais uma linguagem menos hostil e uma interpretação textual menos sanguinolenta expressa sobretudo nos hinos, embora sabermos que o discurso litúrgico continua refém de suas estruturas denominacionais.
Nesta mesma liturgia, destacamos outros dois hinos que apresentam um conteúdo antagônico, novamente com elementos de violência e de alegria. O primeiro hino intitulado “Bendito Cordeiro”, que também já apresentamos em outro momento e o segundo, intitulado de “Pão da Vida”. Neste segundo, destacamos as duas primeiras estrofes que dizem:
Pão da vida, pão dos céus.
Pão de Deus é meu Jesus.
Pão que dá ao coração alegria, graça e luz.
Sangue que Jesus verteu é divino e eficaz