A análise acima objetivou demonstrar que o texto canônico protestante e as sistematizações teológicas que são interpretações deste apoiam-se em estruturas sacrificiais e que associam diretamente a imagem de Deus à violência. O discurso cristão que desenvolvemos no segundo capítulo, está integralmente embebido por uma tradição onde o meio mais eficiente de aplacar a fúria divina e sua necessidade de satisfação é o derramamento de sangue e a utilização de violência. Contudo, mesmo que o texto canônico utilizado atualmente pelas igrejas batistas, do qual derivou a teologia da Satisfação Penal, contenha traços inconfundíveis de violência, este mesmo texto contém algumas frestas interpretativas, pelas quais outras imagens de Deus podem ser percebidas para além da violência e do modelo que comumente a legitima pelo objetivo subjacente da salvação. Abaixo veremos alguns exemplos destas frestas interpretativas que indicam uma possível imagem de Deus mais isenta de violência e menos sacrificial. Antes de discorrermos acerca dos textos, queremos esclarecer que não é nossa intenção fazer um elaborado conteúdo relacionado à exegese ou tratarmos estritamente de estruturas textuais (datação, contexto, público-alvo, autor). Nossa breve exposição dos textos bíblicos está tão somente relacionada ao apontamento de trechos canônicos em que o sacrificialismo não é a tônica da mensagem, e muito menos associa Deus a mecanismos de violência. Na Igreja Batista em Coronel Leôncio, este caminho de ambiguidades já é percorrido, mas ainda prevalece a tônica sacrificial. Mais adiante veremos como outras imagens de Deus já são apresentadas pela comunidade de fé, apesar da TSP figurar como o discurso principal.
Para exemplificar a existência de textos bíblicos onde está claro que o próprio Deus inverte a lógica sacrificial que delineia toda a sistematização teológica ocidental e desembocando em forma de ambiguidades na liturgia dominical dos dias atuais, podemos iniciar pelo exemplo de Abraão, conhecido como o pai da Fé. O relato de Abraão no livro do Gênesis, capítulo 22, revela como o sacrifício era um ritual comum, inclusive de humanos. O texto relata que Abraão é interpelado por Deus a fazer de seu único filho uma vítima sacrificial, e na hora de executá- lo, uma teofania ocorre impedindo o sacrifício do rapaz. A história de Abraão revela que a relação com a divindade e sua imagem muitas vezes é condicionada por conceitos e estruturas sociais que mais falam do homem, do que do próprio Deus. Quando Abraão é impedido pelo anjo de matar seu filho, uma nova imagem de Deus pode ser compreendida: um Deus que no fundo não se deleita com sacrifícios humanos, e não põe seus servos à prova com pedidos que impliquem em ações contra a integridade física de qualquer pessoa. O Deus que se revelou a Abraão quando impediu o sacrifício ritual de Isaque, pode ser compreendido como um Deus pacífico e que evita o derramamento de sangue inocente com o fim de ser saciado. O Deus
verdadeiro para Abraão, revelado a partir deste evento teofânico é o que não exige sacrifícios humanos. Mais que isso, é o Deus que os impede.
Em relação a outros exemplos de textos bíblicos que invertem a lógica sacrificial, nos livros proféticos de Isaías, Oséias e Amós respectivamente, percebemos a existência de frestas interpretativas que cooperam para a elaboração de uma imagem distinta de Deus, que não se agrada de sangue, holocaustos e ofertas. Em relação ao texto de Isaías, capítulo 1, os versos de 11 a 17 fazem menção ao incômodo Divino em relação aos cultos que o povo presta. Através do profeta Isaías, Deus condena toda a prática ritual que é feita de forma automática ou que perdeu o sentido na vida das pessoas, indicando a sua rejeição à prática de sacrifícios tradicionais.
De que me serve a multidão de vossos sacrifícios, diz o Senhor? Já estou farto dos holocaustos de carneiros, e da gordura de animais cevados; nem me agrado de
sangue de bezerros, nem de cordeiros, nem de bodes.
Quando vindes para comparecer perante mim, quem requereu isto de vossas mãos, que viésseis a pisar os meus átrios? Não continueis a trazer ofertas vãs; o incenso é para mim abominação, e as luas novas, e os sábados, e a convocação das assembleias; não posso suportar iniquidade, nem mesmo a reunião solene. As vossas luas novas, e as vossas solenidades, a minha alma as odeia; já me são pesadas; já estou cansado de as sofrer. Por isso, quando estendeis as vossas mãos, escondo de vós os meus olhos;
e ainda que multipliqueis as vossas orações, não as ouvirei, porque as vossas mãos estão cheias de sangue. Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos meus olhos; cessai de fazer mal. Aprendei a fazer bem; procurai o que é justo; ajudai o oprimido; fazei justiça ao órfão; tratai da causa das viúvas.
Grifamos as partes fundamentais que demonstram a possibilidade de construirmos uma imagem distinta de Deus, já partindo do Antigo Testamento. Neste texto fica bastante claro como o profeta, ao transmitir o que ele chama de Palavra do Senhor, trata dos temas do cotidiano demonstrando que naquele contexto as práticas rituais eram mais consideradas que a vida das pessoas mais frágeis. Deus, não mais satisfeito pelo sistema sacrificial instaurado e comum àquela comunidade, utiliza o profeta para se opor ao que estava acontecendo. A prática sacrificial que o texto aponta está diretamente ligada à rotina destas pessoas e é parte fundamental na estrutura religiosa da época. A possibilidade de não praticar aquilo que estava tradicionalmente estabelecido nem estava em questão, e por isso como o texto demonstra, os rituais tornaram-se atos mecânicos. Nesta profecia, a imagem de Deus suscitada é de uma divindade que se preocupa com a sociedade de maneira geral e que tem o seu prazer nas práticas onde a misericórdia, o protesto contra sistemas opressores e a justiça são estruturas do fundamento ético esperado. Nesse início do livro de Isaías, a imagem de Deus apontada é claramente antagônica a todo e qualquer elemento que tenha ligação com os ritos sacrificiais.
No lugar dos holocaustos, fazer o bem; no lugar das orações, a mudança de comportamento que não implique o sacrifício de inocentes; no lugar de ofertas mecânicas, a prática da justiça.
No texto de Oséias, a profecia é proferida diretamente contra a estrutura sacerdotal e política da época. Oséias inicia o discurso profético, apontando que o conflito de Deus com os seres humanos foi suscitado pela falta de amor, de verdade e porque falta conhecimento verdadeiro acerca Dele (Oséias 4:1). O sacerdote é o principal acusado de ter se negado a conhecer o verdadeiro Deus, e age de modo abusivo no exercício de suas funções. Ou seja, pratica roubos, se utiliza da mentira para atuar e comete homicídios, que segundo o texto parece ser o maior incômodo da parte de Deus. O verso que mais indica a prática sacrificial como insatisfatória para Deus está no capítulo 6, verso 6, que diz “misericórdia quero e não sacrifício, e o conhecimento de Deus, mais do que holocaustos”. A imagem divina revelada pelo profeta Oséias tem ligação com a seguinte metáfora: “e Ele descerá sobre nós como a chuva, como a chuva serôdia que rega a terra”. A metáfora da chuva serôdia indica que Deus se releva como alívio de seca, de situações de dificuldades. Ele se manifestará ao povo fora do tempo previsto, de modo que sua manifestação altere o ambiente antes ressequido. A partir do livro de Oséias, pode-se suscitar uma imagem de Deus não-violenta, que entra em conflito não por causa do rigor em relação às práticas rituais, litúrgicas e tradicionais, mas sim pela falta de amor e de compromisso com o próximo. Neste livro, Deus é descrito como uma divindade que valoriza mais a misericórdia do que o rito sacrificial.
Por fim, no texto profético do livro de Amós a crítica recai sobre a falta de cuidados com os pobres por parte dos sacerdotes e príncipes. O suborno, os abusos de poder são comportamentos que despertam a intervenção divina pelos resultados causados na coletividade, principalmente na realidade dos mais pobres. No capítulo 4, verso 1, novamente o tema do sacrifício e dos holocaustos é retomado em tom de crítica da parte de Deus, pois estes são atos que se tornaram apenas costumes, não sendo capazes de converter os corações para a prática do bem. Além disso, o texto indica que a prática mecanizada dos ritos religiosos sacrificiais, acabam por depreciar a verdadeira vontade de Deus que é o cuidado atento e contínuo aos mais vulneráveis. A busca por Deus, ou seja, a verdadeira conversão ou uma imagem mais adequada Dele, necessariamente passa pela justiça com os pobres e a negação de qualquer comportamento opressivo com os mais necessitados. No texto de Amós, a crítica ao sacrificialismo e o que compreendiam como agradar a Deus desembocam numa imagem divina que rejeita qualquer oferta litúrgica, quando a vida de pessoas está sendo desconsiderada. “Afasta de mim o barulho dos teus cânticos porque não ouvirei as melodias das tuas liras. Antes, corra o juízo como as águas; e a justiça como ribeiro perene” (Amós 5:23-24).
Todos os curtos exemplos dados indicam como o próprio texto bíblico do Primeiro- Testamento que também é usado como apoio de teologias sacrificais, possui frestas onde Deus se revela oposto ao sistema onde o sangue, a morte e a violência são aparentemente elementos indispensáveis para o embasamento do discurso cristão. Mesmo a tradição tendo se apoiado nestes mesmos textos para construir um pensamento sistemático no qual a violência é recurso sempre recorrido, a própria Bíblia que é valorizada como normativa e regra de fé da comunidade estudada, possui ambiguidades e limites discursivos que sugerem a possibilidade de Deus ser antagônico à toda forma de violência.