Como tratamos em outro momento desta pesquisa, entre o ser humano e o mundo que o circunda existe a linguagem. Esta mediação ajuda na elaboração de significados para que a vida humana possua sentido e é capaz de sustentar as instituições criadas para a organização da vida em sociedade. Neste sentido, a capacidade de produzir sentido de vida mediante linguagem é, sobretudo, uma maneira pela qual os seres humanos definitivamente se estabelecem como humanos, seres sociais. Também vimos que, uma dessas linguagens estruturantes é a religiosa, que se utiliza de discursos teológicos para fundamentar a existência humana a partir de um determinado padrão estabelecido. No caso do protestantismo, este padrão de existência, ética, e de interpretação de mundo recebem interferência direta da Bíblia que é o livro normativo cristão, sendo utilizado para gerir desde questões pessoais até a vida comunitária. O que queremos indicar é que no seio da fé cristã protestante, a ideia de que toda a existência humana é interpretada e vivida pelo que está escrito na Bíblia é muito real. A comunidade de fé que se apropria de determinada linguagem religiosa praticada em âmbito local se relaciona com a fé
de maneira tão profunda que é capaz de prever a universalização e estabelecimento normativo de sua maneira de organizar a vida, o mundo e a existência de forma geral. A factibilidade da linguagem religiosa é um dado interessante e não deve ser desconsiderado na produção de conhecimento acerca da religião. Em outras palavras, uma determinada tradição pode ser tratada com tamanho rigor que os fiéis passam a pretender que suas práticas e padrões se tornem universais.
Ao destacarmos tal questão, temos o objetivo único de tentar conferir sentido à defesa rigorosa e manutenção histórica de correntes teológicas, como é o caso da Teologia da Satisfação Penal no universo dos batistas, a qual temos nos dedicado. O que justifica a sobrevivência teórica de uma sistematização de dez séculos atrás, a ponto de seus elementos constitutivos continuarem perpassando o discurso dominical de uma igreja na favela na contemporaneidade? Como vimos anteriormente, ainda é viva a construção sistemática de Santo Anselmo nas liturgias dominicais da Igreja que temos estudado. Mesmo que o feudalismo não corresponda à estrutura social atual; mesmo que os senhores e os servos não correspondam ao modelo de relações de trabalho dos nossos dias; mesmo que as desonras e as dívidas sejam solucionadas de formas diversas, a sistematização teológica que tinha como pano de fundo tais questões continua a imprimir sentido na vida das pessoas que aderem a fé protestante na favela. Independente da Teologia Satisfação Penal utilizar termos, estruturas de pensamento que partiram de um período histórico distante, a solidez lógica proposta por Anselmo superou tempo e espaço. Apesar de críticas possíveis ao conteúdo desenvolvido por ele, devemos considerar a sua importância para o estabelecimento sistemático dos temas basilares da fé cristã. Ainda assim, cabe problematizarmos que a manutenção da corrente teológica que apresenta a Satisfação Penal como mensagem principal do cristianismo, é, de certa forma, a comprovação de que fomos formados em violência e, de acordo ao que temos visto, a Igreja cristã não conseguiu superar este modelo vitimário e sacrificial que está claro na linguagem que adota para falar do mundo, do ser humano e de Deus. Ao salientarmos “Igreja Cristã”, tratamos especificamente da tradição teológica do mundo Batista, que opera indiretamente a manutenção da violência fundante no seu discurso, além de oferecer aos adeptos da fé cristã da favela uma linguagem que reforça a violência pela qual não querem padecer ao mesmo tempo em que apoiam a sua fé.
Temos constantemente apontado e problematizado a mensagem cristã protestante como violenta, e sabemos que classificá-la assim ainda parece causar desconforto. Isso acontece, pois, o mais comum é que as imagens de Deus, mesmo que hostis, não sejam questionadas mas aceitas incondicionalmente. Apesar do desconforto que aparentemente a associação de Deus à
violência causa nas pessoas, é inegável que principalmente o Primeiro-Testamento contém as mais diversas narrativas de Deus como um ser mal e violento. Ao considerarmos o texto do Primeiro-Testamento e a violência percebida neste, é possível entendermos como a imagem de Deus tem sido historicamente associada a mecanismos sacrificiais e violentos mesmo que outras imagens mais pacíficas tenham dividido espaço. A partir de quatro modelos interpretativos da violência no texto bíblico veterotestamentário, sugeridos por Gerlinde Baumann, percebemos que há diferentes formas de ratificar o sistema sacrificial e vitimário, os quais Deus figura no centro da exigência de morte como principal beneficiário. Estes modelos interpretativos são os seguintes: o modelo de omissão, modelo de eliminação, modelo de superação e aquele que se enquadra na Teologia da Satisfação Penal, que é o modelo de Legitimação. O modelo de omissão caracteriza-se pelo “receio de lidar com temas muito atuais” e a violência é simplesmente deixada de lado na abordagem interpretativa dos textos bíblicos. No modelo de eliminação, “Deus é ou bom ou mau, amoroso ou violento. Num pensamento sistemático estrito, facetas violentas não podem ser integradas numa pessoa divina” (p.93). Neste modelo, se Deus é bom, Ele é bom independente se for violento. O modelo de superação fundamenta a interpretação do texto bíblico que possua violência em dois blocos, a saber, o Deus violento do AT e o Deus de Amor do NT. Neste modelo não é considerado nenhum tipo de característica textual, mas sim, como Deus é majoritariamente representado. Por fim, o modelo de legitimação se fundamenta na ideia de que a violência divina é justificada em função de sua motivação, ou a ação divina é justificada com base em seu resultado” (p.93). Nesse último, a violência é legitimada e justificada pelo objetivo da salvação dos seres humanos. Deus pode ser associado à violência, desde que tenha algum objetivo nobre implícito. Deste modo, não é de causar espanto que sua imagem esteja tão envolvida em teologias pautadas em mecanismos vitimários e que o sacrifício tenha um lugar de destaque, associando Deus à violência e hostilidade como seu principal motivador. Cremos não ser necessário indicar a grande quantidade de textos do Novo-Testamento que contribuíram para a perpetuação destes sistemas onde a morte é sempre uma realidade necessária e a violência uma ferramenta inadiável. Cabe-nos ressaltar apenas que a maior escassez de textos sacrificiais nesta parte do cânon protestante está nos Evangelhos, que testemunham a vida, obra e ressurreição de Jesus Cristo sem a utilização de uma carga cultural e ritual tão pesada.
A linguagem bíblica, que apresenta imagens divinas ambíguas, e a tradição desenvolvida a partir desta estão claramente apoiadas em uma fundação de violência bruta projetada na pessoa de Deus-Pai que envia o Filho como pagamento do preço equivalente à sua honra ofendida. Como vimos anteriormente e não há necessidade de retomarmos, todos os elementos que
resultam na construção sistemática referente a Teologia da Satisfação Penal são encontrados no discurso dominical da Igreja Batista em Coronel Leôncio. Antes da proposição teológica feita por Anselmo, a ideia corrente acerca da salvação era que a morte de Jesus consistia no preço do resgate pago a Satanás. Como toda teologia traz marcas de seu tempo e necessita de sentido para a comunidade que a sustenta por meio da confissão, esta ideia de Resgate pago à Satanás já não era mais aceita na época de Anselmo. Logo, a proposta de Anselmo foi um marco, pois, ele conseguiu organizar e dar sentido a ideias que já estavam em discussão há muito tempo, como é o caso da negação da divindade de Jesus10, por exemplo. O conteúdo por ele desenvolvido reúne peças-chave do campo teológico (dupla natureza de Jesus, resolução da questão do Pecado Original, Jesus como mediador da salvação, Ressurreição como libertação dos efeitos da morte adquiridos na Queda) e responde à altura os questionamentos que ainda estavam oscilantes na área sistemática da Igreja. A via teológica de Anselmo logicamente sofreu impasses e foi alvo de discussões no seio da Igreja, contudo, foi aceita como relevante e mais inteligível do que aquela que substituiu.
A sistematização de Santo Anselmo é carregada de uma linguagem jurídica, mas seria desonesto imputarmos toda a carga sacrificial ao período em que ele desenvolveu suas ideias. As assertivas teológicas são sempre novidades e ao mesmo tempo exprimem referências. Ou seja, toda teologia carrega a marca de seu tempo sustentada por uma raiz de tradição. A marca teológica do tempo de Anselmo foi a linguagem feudal, mas a raiz de suas ideias é muito mais antiga e está relacionada à diversas camadas de interpretação dos textos que posteriormente seriam adotados como o Cânon Protestante, onde o mecanismo vitimário é sempre destacado. Estas camadas de interpretação anteriores à Anselmo, que acabam aparecendo nos fundamentos de suas ideias, revelam que tanto o Primeiro-Testamento quanto o Novo-Testamento, aludem ao sacrificialismo comum à estrutura religiosa do Judaísmo. A herança que Anselmo opta por utilizar em sua empreitada sistemática é aquela derivada de uma antiga mentalidade sacrificial. Podemos exemplificar tal afirmação citando o livro de Levítico, que é um tipo de manual ritual da instituição do sacrifício, como forma de perdão de pecados e faltas, bem como a instituição de um manual de pureza e conduta aceitável diante de Deus em relação ao Primeiro- Testamento. E a carta aos Romanos, que carrega uma linguagem bastante judaico-cristã, como uma forma de interpretar a vida e obra do Cristo a partir da estrutura sacrificial comum àquele período.
10 Questão teológica suscitada por Ário que negava a divindade de Jesus, crendo, portanto, somente em sua
A partir deste emaranhado histórico que reúne a tradição judaica, a leitura neo- testamentária especialmente feita a partir dos mecanismos sacrificiais, e das inúmeras sobreposições teológicas ocorridas na história da Igreja, percebe-se que a violência continua sendo empurrada de geração em geração como um elemento característico de Deus. O cânon protestante acabou se tornando a compilação de imagens divinas produzidas em diversos períodos, onde o destaque da produção sistemática é voltado para aquelas mais punitivas e rigorosas. Em síntese, o que queremos demonstrar é que, no caso das igrejas Batistas, especialmente a de Coronel Leôncio, não é de causar espanto que a imagem divina associada a violência mantenha seu lugar de destaque, ainda que divida espaço com outras mais pacíficas. A igreja em questão ao adotar a bíblia como livro normativo, lendo-a mediante as lentes carregadas de teor sacrificialista, se mantém ligada a estrutura teológica que se tornou a mais tradicional na denominação. Sendo assim, a violência contida na liturgia dominical em Coronel Leôncio é também resultado da tradição teológica que sedimenta conceitos em troca de identidade denominacional e estabilidade no que tange ao discurso de fé. Estas estruturas atuam indiretamente como resistências, obstáculos para a formulação e adesão de outros discursos, inclusive um que não adote a violência como fundamento. A violência fundante que nos envolve, projetada em Deus, acaba salvaguardada pela tradição teológica e denominacional, sendo reproduzida de geração em geração operando os devidos mascaramentos que conduzem à crença de sua infalibilidade e importância.
Visto tudo isto, daremos início a seguir a uma caminhada em direção a negação da violência. Veremos como apesar da nossa implicação nos mecanismos vitimários, apesar de nossa imagem distorcida de Deus, apesar de toda a manutenção de linguagem violenta operada pela tradição e pela estrutura denominacional, que a própria bíblia apresenta opções interpretativas capazes de corrigir nossa maneira de entender Deus, os seres humanos e a sociedade. A partir de ambiguidades latentes, abordaremos especificamente aquelas variáveis em que Deus não aparece como o violento que temos largamente discorrido. Faremos isto antes de apresentarmos as ambiguidades percebidas no próprio discurso da igreja que focamos nossa atenção.