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III. 3.2.2.2 Modélisation du potentiel :

V.4 Structure de bande de graphène monocouche

De forma geral, na perspectiva da SAP, os estudos empíricos no campo da estratégia, passam a analisar a estratégia não mais com a pergunta do tipo - Qual é a estratégia? Geralmente, essas pesquisas buscam compreender como se constitui o fazer estratégia, além de evidenciar onde e como suas atividades acontecem, como foram adquiridas e quem as realiza.

Ao pesquisar a estratégia da organização, no campo da SAP, os atores do fazer estratégia não são apenas aquelas pessoas dispostas no topo da hierarquia organizacional, responsáveis pela elaboração do planejamento estratégico, mas também todas as pessoas atuantes nos diferentes níveis hierárquicos da organização. Assim, a estratégia deixou de ser relacionada a um substantivo (strategy) e passou a ser considerada um verbo no gerúndio (strategizing), sem palavra correspondente na língua portuguesa. Ou seja, isso significa que estratégia é uma ação que permanece em constante movimento, seus atores são todos os que lidam com esse strategizing. Conforme aponta Jarzabkowski, Balogun e Seidl (2007), os atores da estratégia não agem isoladamente, pois são influenciados pelas diversas instituições sociais que fazem parte. Suas ações devem ser compreendidas em seu contexto social mais amplo (JARZABKOWSKI; BALOGUN; SEIDL, 2007), a qual deve ser analisada sob uma ampla visão sociológica (WHITTINGTON, 2007), direcionada à prática.

O interesse da estratégia no âmbito micro se deve, ao menos, a três pontos: aos resultados desapontadores obtidos no nível organizacional em decorrência da negligência acerca das microatividades; à convicção dos pesquisadores de que a vantagem competitiva sustentável reside no detalhe, ao invés do grandioso e óbvio; e, à responsabilidade dos gestores, que estão engajados nas atividades que ocorrem neste nível (WHITTINGTON, 2004).

Em um artigo introdutório para uma edição especial sobre micro estratégia e o seu papel para o fazer estratégia, Johnson, Melin e Whittington (2003) argumentam que, embora a área de estratégia tenha tradicionalmente se concentrada no macronível das organizações, existia uma necessidade de lidar com os fenômenos muito mais no nível micro, que, embora muitas vezes invisível para pesquisa em estratégia tradicional, pode ter consequências significativas para as organizações e as pessoas que trabalham nelas. Ao buscar por uma verdadeira humanização da estratégia, os autores já propunham, naquele ano, uma visão

baseada nas atividades da estratégia que incidem sobre as atividades do dia a dia da vida organizacional, e, consequentemente, sobre os resultados da estratégia.

Entretanto, esse foco nas microatividades trazem riscos e desafios. Quando se ignora o contexto, há um sério risco dos estudos tenderem ao mero reducionismo. Este risco deve ser evitado pelo pesquisador, pois ao trabalhar com as micropráticas, deve ser dada a mesma ênfase as suas influências contextuais (WILSON; JARZABKOWSKI, 2004). É importante considerar que os microfenômenos, traduzidos por microações, precisam ser compreendidos em seu contexto social mais amplo. Os atores da estratégia não agem isoladamente, sofrem todos os tipos de influência por parte das múltiplas instituições sociais as quais pertencem (JARZABKOWSKI; BALOGUN; SEIDL, 2007).

O alvo das pesquisas em SAP não deve ser qualquer prática, nem tampouco analisadas de forma descontextualizadas, pois assim se concentrariam apenas e simplesmente naquilo que os atores fazem, levando os pesquisadores a uma visão simplista. Para Jarzabkowski (2004), uma ação se torna uma prática quando é repetitiva, similar à rotina, atingindo um nível de ações habituais e recorrentes, porém, apesar dessa característica, a prática também é responsável por mudanças, que surgem a partir da interação entre os níveis micro e macro.

Advertindo os pesquisadores do campo, já no início do século presente, Whittington (2004) destaca que, àquela época, as pesquisas estariam focando exclusivamente nas microatividades. Segundo o autor, essa é uma armadilha que deve ser evitada, pois o campo poderia se tornar improdutivo e de pouca contribuição para o conhecimento da estratégia. Sem compreender como estas microatividades estão relacionadas com todo o ambiente organizacional e extraorganizacional, as pesquisas estariam sufocadas pelo excesso de detalhes. Por isso, Whittington (2006) propõe um modelo conceitual para os estudos em SAP que integra o ambiente interno e o ambiente externo, os quais, segundo o autor, influenciam mutuamente a organização e se inter-relacionam (abordado na seção 2.2).

Ao avaliar criticamente as abordagens das pesquisas baseadas em prática nos estudos das organizações, Geiger (2009) considerou as abordagens que entendem as práticas simplesmente como o que os atores fazem como insuficientes. Ao fazer uma abordagem crítica às concepções modernistas do conhecimento, Gherardi (2009) apresenta os problemas metodológicos que a sua utilização implica. A autora afirma que o conceito de prática proliferou-se rapidamente no campo, e não pode ser utilizado como sinônimo de rotina, ou

unicamente do que as pessoas fazem; deve-se fazer a ligação entre prática e conhecimento, ou seja, a prática como fonte geradora de conhecimento.

Ao analisar os modelos e construtos teóricos relacionados à SAP, Albino et al. (2010) afirmam que os níveis macro se referem às práticas da própria organização ou, também, a um amplo campo de atividade social, cujas práticas são importantes para a sociedade como um todo. Assim, para a análise da estratégia na organização, há uma instância acima e outra abaixo. A primeira relacionada às práticas do campo institucional ou da própria sociedade de forma geral; e, a segunda, por meio de uma perspectiva mais direcionada aos aspectos gerenciais, referentes à análise micro que se desloca para um nível interno das práticas organizacionais.

Ao relacionar as tendências de recursividade e de adaptação das práticas com os níveis de análise micro e macro, Jarzabkowski (2004) entende o macro contexto como sendo o nível em que se encontram as forças institucionais e competitivas; o micro contexto seria aquele no qual a análise é realizada internamente; e, por fim, o nível chamado pela autora como ator cognição (actor cognition) é aquele em que ocorreria a reflexividade individual - nível da cognição dos atores.

Para compreender as práticas dos indivíduos envolvidos na estratégia da organização, o pesquisador deve, primeiramente, ter consciência de que as práticas estão dentro de uma tensão relacional entre os níveis macro e micro, os quais influenciam e são influenciadas mutuamente, coexistem e interagem por meio de diversos fatores intermediários. De forma geral, no nível da macroanálise se destacam as instituições sociais, econômicas e políticas enquanto no nível micro, podem ser citados os discursos, as práticas e os gestos. As práticas ocorrem em contextos amplos, mas também em micro contextos onde a ação está localizada, ou seja, elas ocorrem dentro de uma interação coexistente e fluida entre os contextos micro e macro (JARZABKOWSKI, 2004; WILSON; JARZABKOWSKI, 2004).

Diferentemente das teorias institucionais e de estudos com foco no nível industrial, Wilson e Jarzabkowski (2004) destacam que ambos os níveis macro e micro são bidirecionados, já que qualquer atividade que aconteça estará relacionada tanto ao contexto macro quanto ao micro. Afinal, os microfenômenos precisam ser compreendidos em seu contexto social mais amplo, pois os atores não estão interagindo de forma isolada, mas sofrem influência das pluralidades das instituições sociais das quais eles pertencem (JOHNSON; MELIN; WHITTINGTON, 2003; JARZABKOWSKI; BALOGUN; SEIDL, 2007).

É necessário, portanto, que o pesquisador delimite a análise macro e a análise micro, o que torna o trabalho do pesquisador ainda mais complexo, avaliam Wilson e Jarzabkowski (2004). Para eles, isso implica questionar: a própria organização está inter-relacionada com a prática? Ou seja, diferentes contextos organizacionais podem exercer influência nos processos de fazer estratégia no nível micro? De fato, os autores afirmam que poucos estudos têm conseguido mostrar que ponto ocorre inter-relacionamentos entre o contexto e o processo de fazer estratégia em um nível micro.

Para relacionar o nível organizacional e o processo de fazer estratégia no nível micro, há duas perspectivas que, supostamente, são válidas do ponto de vista empírico: (a) embasada na dimensão cultural; e, (b) no tipo de organização. Na primeira perspectiva, a natureza das micropráticas é demarcada e influenciada pelas dimensões culturais-chaves da organização. Na segunda, as micropráticas são configuradas pelas diferentes influências que a organização recebe enquanto organização; por exemplo, as organizações públicas e privadas recebem influências diferentes. Portanto, os diferentes processos do fazer estratégia em um nível micro podem ser analisados a partir das influências dos diferentes stakeholders de uma organização, ou, a partir da própria cultura organizacional (WILSON; JARZABKOWSKI, 2004).

A prática gera entendimentos contraditórios e não consensuais, podendo ter significados amplos (CARTER; CLEGG; KORNBERG; 2008). Afinal, compreender o fazer estratégia., considerando as interações de atores e práticas para que a estratégia seja realizada (JARZABKOWSKI; SPEE, 2009) não é uma tarefa fácil (MAIA, 2010). Johnson et al. (2007) consideram a pluralidade como mais uma das características da SAP: (a) pluralidade nos níveis de análise, como o individual, organizacional e institucional, bem como a consequente relação entre eles; (b) pluralidade dos atores, como gerentes diversos e consultores; (c) pluralidade de teorias, para incorporar múltiplas lentes teóricas na compreensão das complexidades; e, (d) pluralidade das variáveis dependentes, abandonando a visão de que o desempenho organizacional é explicado por meio de medidas unitárias e variáveis causais; neste caso, a SAP assume que é difícil explicar o desempenho sem entender muito bem os componentes que fazem parte dele (como os indivíduos, os grupos e suas interações) bem como as ferramentas analíticas, os sistemas de planejamento ou episódios estratégicos (como por exemplo, as reuniões da diretoria).

O conceito de prática promove abordagens que permitem a transcendência da divisão entre os níveis de análise. É possível entendê-la como tendo lugar, simultaneamente, tanto

local como global, é ao mesmo tempo única e também culturalmente compartilhada, é constituída historicamente bem como pelo aqui e agora (MIETTINEN; SAMRA- FREDERICKS; YANOW, 2009). Em síntese, a abordagem da SAP enfatiza ligações explícitas entre as perspectivas micro e macro sobre a estratégia como uma prática social (JARZABKOWSKI, 2004; WHITTINGTON, 2006; JARZABKOWSKI; BALOGUN; SEIDL, 2007). Nesse sentido, as práticas referem-se tanto às obras situadas dos seres humanos individuais (micro) quanto às diferentes práticas socialmente definidas (macro), onde os indivíduos baseiam suas ações (JARZABKOWSKI; BALOGUN; SEIDL, 2007).

Dentre as vantagens de se estabelecer essa conexão entre o nível micro e macro, Seidl e Whittington (2014) afirmam que há, assim, uma compreensão mais holística do fazer estratégia. É necessário uma integração e um movimento alternado entre uma visão ampla e outra mais restrita. Essas combinações entre níveis possibilita melhor entender como as práticas locais participam nas grandes configurações e como elas entram com seus elementos e recursos em outras atividades (NICOLINI, 2009). Há, portanto, um esforço para se estabelecer, nas pesquisas da SAP, um progresso em direção a propostas de conexões mais efetivas entre as atividades estratégicas locais e os fenômenos sociais mais amplos, consideradas como práticas dos sujeitos e práticas dos contextos (NICOLINI, 2009; SEIDL; WHITTINTON, 2014).

Ao apresentarem o conceito de tensão relacional, Wilson e Jarzabkowski (2004) reconhecem a importância de considerar a mútua influência dos níveis micro e macro, coexistentes. A visão de macro e micropráticas trazem riscos metodológicos. Segundo os autores, não se deve considerar apenas as micropráticas realizadas internamente, sem considerar suas influências num olhar mais abrangente, pois esses níveis micro e macro interagem por meio a uma gama de fatores intermediários. Deve-se, portanto, considerar a complexidade de suas influências (WILSON; JARZABKOWSKI, 2004; WHITTINGTON, 2006; JARZABKOWSKI; BALOGUN; SEIDL, 2007; GHERARDI, 2009; MIETTINEN; SAMRA-FREDERICKS; YANOW, 2009), seja representada pela inter-relação entre os ambientes interno e externos, bem como pela tensão relacional de constituição e explicação mútua entre os níveis macro e micro.

Depois de apresentar brevemente a literatura da SAP, os conceitos da tensão relacional e os níveis de análise macro e micro, referencial teórico da presente pesquisa, na próxima seção serão abordados os temas relativos à Segurança Pública. Assim como acontece no

campo da estratégia, por meio da SAP, que se voltou para as práticas cotidianas dos sujeitos em estudos que exploram epistemologias interpretativistas, após o modernismo, o campo da segurança pública também se volta para o cotidiano e as interações, com o surgimento de conceitos como sensação de segurança e medo do crime. A partir do diálogo entre estratégia como prática social e estudos no campo da segurança pública, a presente pesquisa aplica os conceitos de tensão relacional no fazer estratégia em segurança pública. Desse modo, explora um caminho distinto da pesquisa quantitativa. A ênfase dirige-se para os sujeitos, as práticas e as interações, diferentemente dos relatórios numéricos e índices estatísticos que têm forte presença no campo da segurança pública.

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