Chapter 2: District Over view
2.6 Strength Weaknesses Opportunities Threats (SWOT) Analysis
2.2.1 No Atlas Linguístico de la Península Ibérica (ALPI)
A pesquisa para o ALPI foi realizada em todo Portugal de 1953 a 1954 com algumas investigações completadas em 1956. Figuram como colaboradores Aurélio M. Espinosa, Lorenzo Rodriguez Castelhano, Aníbal Otero, Manuel Sanches Guarner, Francisco de B. Moll, Luis F. Lindley Cintra, Armando Nobre de Gusmão. Em cada mapa figuram as palavras espanholas, portuguesas e castelhanas. O atlas foi publicado em 1962 sob a direção de Tomás Navarro.
Os pontos de inquérito contemplam 7 setores da Penísula Ibérica: 1 – Galícia; 2 – Portugal; 3 – Astúrias; Léon e Estremadura; 4 – Las Castillas e a Província de Albacete; 5 – Andaluzia e La Província de Murcia; 6 – Navarra e Aragon; 7 – Andorra, Rosellon, Catalunha
y Valencia, a cujo setor se tem acoplado as Ilhas Baleares. O atlas contempla 528 localidades, sendo 156 do domínio galego-português, 276 localidades do domínio espanhol e 96 do domínio catalão. A eleição das localidades é pouco simétrica, com predomínio de zonas de intensa diversidade dialetal. Deu-se preferência pelos povoados pequenos nas comunidades em que a fala e a cultura se mantêm.
Foram escolhidos informantes que refletissem espontaneamente a fala popular da localidade. Para isso deu-se preferência ao sujeito pouco viajado e que não tivesse saído do lugar; analfabeto e muito pouco instruído a fim de evitar a influência de dialetos de outras localidades. Quanto ao gênero foram interrogados apenas homens, pois se pensava que revelassem uma fala mais arcaizante e menos influenciada por modernizações. Além disso, exigia-se que tivessem plena lucidez mental e não apresentassem defeitos dentais que pudessem afetar a articulação das palavras.
Para a transcrição dos dados, adotou-se a transcrição fonética estrita e se tomou como base o modo de transcrição usado nas principais revistas de estudos linguísticos, no ALF e no AIS que haviam utilizado vários símbolos e diacríticos para a representação detalhada das variedades dialetais.
Nesta dissertação, o levantamento para a verificação da apócope tomou como base os registros da região de Portugal cujos pontos de inquérito correspondem aos números que vão de 200 a 292. Nessa região, foram documentadas apócopes nas localidades de Montalvão, Sombreiro, Alcains, Castendo, Sagres e Moimenta da Beira, como podem ser observados alguns exemplos 13 no quadro a seguir.
Vocábulo Variante fônica Carta Ponto Localidade
Aço [as»] 09 266 Montalvão
Ontem [o)n1t1] 20 220 Sobreiro
Cavalo [kava@¬] 29 252 Alcains
Castelo [ka1s&te@¬8] 37 291 Sagres
Doze [do@z*8] 71 239 Castendo
Doce [do@s*2] 74 236 Moimenta da Beira
Quadro 6 - Ocorrências da apócope em regiões de Portugal no ALPI
Fonte: Atlas Lingüístico de la Península Ibérica, 1962.
2.2.2 No Atlas Linguístico dos Açores (ALEAç)
O Atlas Linguístico-Etnográfico dos Açores (ALEAç) insere-se no projeto mais amplo, o do Atlas Lingüístico-Etnográfico de Portugal e da Galiza (ALEPG), sob direção do professor Luís F. Lindley Cintra, publicado em 2001. A descontinuidade geográfica dos Açores e a sua especificidade linguística levaram, porém, ao vislumbramento de uma publicação independente dos materiais recolhidos para o ALEPG nas nove ilhas do Arquipélago, tendo as autoridades culturais insulares tomado a seu cargo essa publicação. O Atlas Linguístico-Etnográfico dos Açores (ALEAç) de autoria de Ferreira et al, teve seu primeiro volume de mapas publicado em 2001. Esta publicação é a primeira de uma lista de 9 volumes previstos.
O atlas atinge um número de 17 pontos de inquéritos nas nove ilhas investigadas. O questionário linguístico utilizado nas recolhas é o do ALEPG publicado em 1974 pelo então Instituto de Linguística (atual CLUL). O questionário tinha inicialmente 4.000 perguntas, tendo sido, depois, reduzido à metade. O primeiro deslocamento do grupo de dialectólogos aos Açores ocorreu em 1979, mas só em 1995 e 1996 foram retomados e concluídos os inquéritos.
O perfil dos informantes seguiu os requisitos gerais para um atlas: ser da localidade ou da zona do inquérito, idade superior a 40 anos e reduzido nível de escolaridade. Cerca de 80% dos informantes tinha idade entre 50 e 75 anos e mais da metade entre 60 e 75. Todos apresentavam boa capacidade de resposta.
A transcrição fonética14 foi feita, utilizando-se o alfabeto fonético do ALEPG que teve como base o Alfabeto Fonético Internacional (IPA), porém, adotando uma série de diacríticos que permitiam uma adaptação às variantes fonéticas locais utilizando uma notação estreita de modo a reproduzir o mais fiel possível cada uma das realizações sonoras dos informantes.
O presente levantamento baseou-se no único volume publicado – A criação de gado (bovino, ovino e caprino, leite e derivados; porco e a matança). A consulta ao atlas permitiu observar que a apócope da vogal átona final está documentada no ALEAç nas nove ilhas investigadas. Há registros de apócope nas ilhas de Corvo; Graciosa em Carapacho; São Jorge em Calheta e Rosais; São Miguel em Mosteiros, Rabo de Peixe, Ponta Garça, Nordeste; Flores em Fajâzinha e Ponta Ruiva; Santa Maria em Santo Espírito; Pico em São Roque e
Terras; Terceira em Altares e Fontinhas. Ocorrências como as documentadas no quadro a seguir são comuns nestas localidades.
Vocábulo Variante fônica Carta Ponto Localidade
Gado [g»a¶d8] 2 8 São Jorge
Rebanho [{åb»å)¯] 3 2 Flores
Rebanho [r)ib»å¶)¯] 5 1 Corvo
Rebanho [{B»å)¯] 4 6 Pico
Mamote [ma»mçt] 24 10 Graciosa
Caminho [kåm»I)¯] 11 12 Terceira
Pasto [p»a`st] 12 13 São Miguel
Quadro 7 - Ocorrências da apócope em localidades do ALEAç
Fonte: Atlas Lingüístico-Etnográfico dos Açores, 2001.
2.2.3 Estudos sobre a apócope no português de Portugal
Em Ferreira et al (1996, p.496) há referências à ocorrência da apócope em Portugal, nos dialetos centro-meridionais. Na variedade de Beira Baixa e Alto Alentejo, as autoras mostram que, dentre os traços mais salientes das variedades peculiares à região, destaca-se a “queda da vogal final não-acentuada -[u], grafada -o”. Esse fenômeno encontra-se registrado também na variedade do Barlavento do Algarve, região menos extensa que a anterior, como destacam as autoras “a vogal final não-acentuada -[u] desaparece”.
As autoras destacam que os dialetos falados nos Açores e na Madeira apresentam maiores afinidades com os grupos dos dialetos Centro-Meridionais portugueses. Sobre o dialeto da ilha de São Miguel nos Açores destacam:
O dialeto de São Miguel apresenta, por sua vez, alguns dos traços que caracterizam as regiões da Beira Baixa – Alto Alentejo e do Barlavento: (...) desaparecimento da vogal átona final [u] grafada -o, como em [»gat] - gato – [»kop] - copo [»pok] – pouco.
A consulta ao Atlas Lingüístico dos Açores reforça as constatações de Ferreira et al (1996) sobre os dialetos Centro-Meridionais, em especial, os dialetos do Centro-Interior que compreende os ribatejano-baixo-beirão-alentejano-algarvios, e os dialetos falados nos Açores
e na Madeira que, dentre outras características linguísticas, apresentam afinidades quanto à queda da vogal final não-acentuada -[u] grafada -o.
Os estudos de Silva (1998, 2005, 2007), realizados sob a perspectiva da Sociolinguística Laboviana sobre o português falado na ilha de São Miguel, nos Açores, reforçam os dados referenciados por Ferreira et al. Nesses trabalhos, o autor faz uma descrição do dialeto de São Miguel e comprova que esta variedade da língua apresenta um sistema vocálico consideravelmente diferente daquele do português padrão europeu. Uma das mais emblemáticas características deste dialeto gira em torno do apagamento da vogal final [u]. Embora o apagamento da vogal átona final não tenha sido o centro dos estudos de Silva (2005, 2007), foi registrada a queda da vogal átona final em palavras como “[»sQt] (sete); [»let] (leite); [»pok] (pouco); [»not] (noite)” (2007, p.3). O autor apresenta esses casos em sua pesquisa, demonstrando que, apesar de não ser esse o seu tema, o apagamento é recorrente em São Miguel e o toma como parâmetro para suas comparações.
Em estudo intitulado Vowel Lenition in São Miguel Portuguese (1998) em que faz uma análise sobre o processo de apagamento no dialeto da ilha do Nordeste (São Miguel), Silva (1998, p. 170) constata o apagamento da vogal em posição final pelos falantes da ilha ”More specifically, a vowel is more likely, to be deleted in the context of an adjacent voiceless segment, particularly at the end of a word”15 e se reporta a esse apagamento como um fator de relevância para comparar o que quer demonstrar em sua pesquisa, como se pode ver no fragmento a seguir (p.170):
Given these segmental and prosodic conditiones for vowel deletion, an interesting situation obtains: in those cases where word-final vowels are deleted, speakers produce words ending in voiceless obstruents (or clustrs): leite - [»lejt]; porto - [»port]; carros - [»carr_s]16.
O autor argumenta que esse apagamento viola a estrutura do português, mas é um processo linguístico que pode ser implementado como uma nova variedade padrão do português micaelense.
Em estudo intitulado “The Persistence of Stereotyped Dialect Features among Portuguese-American Immigrants from São Miguel, Azores”, Silva (2007) compara a
15 Mais especificamente, uma vogal é mais provável de ser apagada em contextos de voz adjacentes, particularmente no final de uma palavra.
16 Dadas as condições segmentais e prosódicas para o apagamento vocálico obtém-se uma situação interessante: nesses casos em que as vogais átonas em final de palavras são apagadas, falantes produzem palavras terminadas em obstruintes: leite – [»lejt]; porto - [»port]; carros - [»carr_s].
variedade do português falado pelos imigrantes provenientes da Ilha de São Miguel, nos Açores residentes na comunidade lusófona da Grande Boston, nos Estados Unidos com a variedade do português falado pelos residentes na ilha. O autor constata em sua pesquisa que o apagamento da vogal [u] persiste nos falantes micaelenses residentes nos Estados Unidos. O quadro abaixo mostra que esse apagamento revela-se como uma forma característica da ilha:
Forma padrão Variante Micaelense Forma Ortográfica
[»ditu] [»dit] dito
[»lejtˆ] ~ [»låjtˆ] [»le:t] leite
[»dedu] [»dEd] dedo
[»patu] [»pAt]~ [»pÅt]~ [»pçt] pato
Quadro 8 - Distribuição da forma padrão e não-padrão da variante micaelense
Fonte: Silva, 2007, p. 34, com adaptações.
Nesse estudo, o autor fez uma análise fonética de quatro falantes do dialeto micaelense que emigraram da vila do Nordeste para os Estados Unidos e viveram na comunidade portuguesa nos arredores de Cambridge, Massachussets, cada um deles com perfil sociolinguístico diferente, embora pertencentes a uma mesma família: a mãe, 70 anos e os três filhos adultos, 55, 53 e 42 anos, respectivamente. O material foi coletado durante o verão de 1997. Cada um apresentou diferentes comportamentos fonéticos. Os dados mostraram que, enquanto três informantes preservaram mais o dialeto característico da ilha, um apresentou uma variante vocálica mais aproximada à variedade padrão da língua. Esta variabilidade reflete a tensão entre o comportamento emblemático da identidade micaelense e a necessidade de acomodação às pressões sociolinguísticas exercidas pela língua padrão que predomina para a maioria da comunidade de imigrantes portugueses.
Tais trabalhos reforçam os dados apresentados em Ferreira et al sobre a ilha de São Miguel e ilustram com análise estatística e acústica o que já se encontra registrado no Atlas Lingüístico dos Açores: as vogais finais demonstram serem propensas ao apagamento.