“Esta é a nossa palavra simples que busca tocar o coração da gente humilde e simples como nós, mas, também como nós, digna e rebelde.” Sexta Declaração da Selva Lacandona197
Partindo de uma estratégia de guerra distinta, na qual as armas foram necessárias, porém, não consistiram no único – e nem no principal – recurso de suas lutas, os zapatistas, ao lançarem na internet seus manifestos, como vimos, fomentaram uma vasta rede espontânea de simpatizantes à causa e, mais do que isso, se tornou objeto de curiosidade do mundo inteiro, de modo que, simpáticos ou não ao movimento, todos aqueles que de alguma forma queriam saber o que estava acontecendo em Chiapas, impulsionaram, ainda mais, o alcance dos discursos zapatistas e de sua expansão pela rede. Os zapatistas fundaram, pois, uma estratégia de guerra que se mostrou de grande valor ao apostarem na publicidade e seu alcance através de uma ferramenta, até então, pouquíssimo desbravada: a internet. Sobre como o conteúdo zapatista foi propagado, Cleaver nos diz que:
O que fizeram [grupos de apoio] foi muito simples: digitavam ou decompunham os comunicados e textos reformatando-os e os enviavam pela Net para audiências potencialmente receptivas em todo o mundo. Essas audiências incluíam, primeiramente, newsgroups da Usenet, associações da Peacenet e listas da Internet, cujos membros já se preocupavam com a vida social e política do México. Em segundo lugar, os grupos humanitários preocupados com os direitos humanos, em geral; em terceiro, as redes dos povos indígenas e seus simpatizantes; em quarto, as regiões políticas do ciberespaço com probabilidade de incluir membros simpatizantes das revoltas de base em geral; e em quinto, as redes feministas que responderiam, com solidariedade, contra o estupro de mulheres nativas
196 CLEAVER, Harry. Os Zapatistas e a teia eletrônica da luta. Lugar Comum, n. 4, p.139-163, abr. 1998.
Tradução de: Vera Lúcia Sodré.
197 Comité Clandestino Revolucionario Indígena Comandancia General del EZLN. Sexta Declaración de la
Selva Lacandona. México, 2005. Disponível em: <http://enlacezapatista.ezln.org.mx/sdsl-es/>. Acesso em 17 de fev. de 2020.
pelos soldados mexicanos ou para a Lei Revolucionária das Mulheres do EZLN, redigida por mulheres, para as mulheres, a partir de e contra a tradicional sociedade patriarcal198.
Com isso, a tentativa de abafar o levante zapatista não houve mais como ser controlada, ao ponto de San Cristóbal de Las Casas se tornar uma cidade mais cosmopolita, atraindo ativistas do mundo inteiro e promovendo, inclusive, um “turismo político”, o que provocou uma reação paradoxal da parcela mais conservadora da população: não queriam que San Cristóbal fosse o palco das movimentações políticas, porém, queriam a presença oriunda dessas movimentações, pois estimulava o comércio199.
A partir da crescente organização dos apoiadores zapatistas na rede, novos elementos foram surgindo, incrementando, ainda mais, esta inusitada dinâmica em que pessoas de diferentes lugares se relacionavam em torno de um acontecimento que, de mesmo modo, também pertencia a um lugar diferente. Por meio do ciberespaço, foi possível a construção desta comunidade que compartilhou um sentimento de pertencimento ao zapatismo e trabalhou em conjunto em prol da causa. Como fruto destes laços construídos virtualmente, ainda no ano de 1994, foi lançado o livro “Zapatistas! Documents of the New Mexican Revolution”, produzido inteiramente via e-mail, no qual trazia todos os documentos zapatistas lançados até então, traduzidos para a língua inglesa200. Símbolo da aproximação de uma rede pró-zapatistas, o livro traz a seguinte mensagem: “Este livro e grande parte da publicidade sobre o EZLN não teria sido possível sem a crescente comunidade de pessoas de espírito político na Internet”. E em seu prefácio afirmam:
Reunimos este livro porque acreditamos que os zapatistas devem ser ouvidos com suas próprias palavras. [...] Este livro foi produzido através do trabalho doado por um grande número de pessoas nos EUA e no México que trabalham em solidariedade com o EZLN. Todas as pessoas que trabalharam neste livro acreditam na justiça das demandas do EZLN e na legitimidade de sua luta201.
A partir dessa mensagem, reiteramos a capacidade do zapatismo em ser acolhido e ressignificado por outros que compartilham das indignações daqueles que, historicamente, foram colocados à margem da sociedade. Assim como os indígenas foram esquecidos no
198 CLEAVER, op. cit., pp. 141-142. 199 FIGUEIREDO, op. cit. p. 58.
200 Zapatistas! Documents of the New Mexican Revolution. Autonomedia. New York, 1994. O livro permanece
disponível na internet através do site: <http://lanic.utexas.edu/project/Zapatistas/>. Acesso em 15 de fev. de 2020.
México e se rebelaram contra a situação dizendo “já basta”, da mesma forma camponeses, operários, professores, estudantes, jovens, negros, mulheres, e outras minorias historicamente maltratadas, compartilharam da necessidade de não mais serem passivos. Se trata, como afirma o Subcomandante Marcos, de uma questão de dignidade:
Quando os indígenas zapatistas colocam o problema da dignidade, isso começa a se desenvolver como uma bola de neve, conforme vai avançando vai crescendo e cada um vai agregando um novo conceito, uma nova ideia a esse conceito de dignidade, de tal forma que vai se completando pouco a pouco o conceito de dignidade humana, que é maior que o conceito de dignidade indígena, de dignidade jovem, de dignidade da mulher, de dignidade de diferentes setores excluídos202.
Todavia, devemos ressaltar que, o zapatismo não surge no horizonte como uma solução ou uma doutrina universal que ditará aos diferentes grupos um modelo a ser seguido. Como reitera Marcos:
O zapatismo não é uma ideologia, não é uma doutrina completa, é uma intuição. Algo tão aberto e tão flexível que realmente existe em todos os lugares, entre todas as forças, todos os excluídos, que reconhecem um inimigo comum. O zapatismo levanta a questão: o que é que me tem assim? O que me exclui? O que me faz isolado? E a resposta dada é diferente para os indígenas mexicanos do que, por exemplo, para os indígenas na América do Norte, ou para os migrantes na Europa, ou para movimento de resistência na Ásia, ou para os negros na África, em cada lugar a resposta é diferente. O Zapatismo simplesmente faz a pergunta e adianta que a resposta é inclusiva e deve ser tolerante203.
Assim, através do advento da internet, os zapatistas suscitaram novas formas de coordenação horizontal entre as lutas particulares e continuam a amadurecer e a assumir formas variadas pelo mundo afora204.
202 Sucomandante Marcos interview (subtitled) 1/3. Tim Shell. YouTube. 2008. 09min14s. Disponível em:
<https://www.youtube.com/watch?v=PDLssf72C3Y&list=PLE8F91BA575051060&index=1>. Acesso em 03 dez. 2019. Tradução do autor.
203 Ibid. Tradução do autor. 204 FIGUEIREDO, op. cit.