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V. Views from AUC, NPCA AND RECS

6.2. Analysis of Current Structural Relationships

O que é o espaço? Existe uma definição completa desta categoria? Podemos determinar o espaço de forma apriorística, ou o espaço surge mediante o interesse e a relação de algo ou alguém com determinada espacialidade? O espaço é, necessariamente, físico? Se sim, como justificar as interações e trocas realizadas, no mundo de hoje, através da internet? A partir das indagações aqui propostas, podemos perceber os espaços, tais quais a História, enquanto fabricações humanas na construção do mundo, destarte, ao afirmarmos que os espaços consistem em produções humanas, enfatizamos o seu caráter relacional no mundo. Não estamos propondo que o planeta Terra e todas as suas estruturas físicas naturais foram criadas pelo homem, mas que, os espaços de convívio, de atuação e de ocupação do homem no mundo, sim, são produções históricas nossas. Desse modo, percebemos esta categoria como o local – físico ou não – capaz de englobar as mediações, ações e leituras do sujeito com o mundo, ou seja, o espaço, como conceituou Michel de Certeau186, consiste na participação ativa do sujeito sobre o local em que ele está inserido e, desta forma, dotando tanto o sujeito quanto o espaço de significado187.

Isto posto, temos, ao longo da História, a atuação humana nos mais diversos espaços e, consequentemente, a história dos mais diversos espaços – Braudel, por exemplo, consagrou o Mediterrâneo188 como um espaço de tempos, histórias e sujeitos que perpassaram as

épocas. Todavia, se defendemos que os espaços e a História são construções humanas, devemos, de mesmo modo, reconhecer que, se o homem transformou (e segue transformando) o mundo ao longo do tempo, os espaços também foram transformados, logo, ao passar do tempo, novos espaços de interação foram sendo inventados, novas relações humanas foram sendo construídas e, portanto, novas histórias foram erigidas a partir dos novos espaços do mundo. Corroborando, desta forma, sua relação direta com as ações

186 CERTEAU, Michel. A invenção do cotidiano. 1. As artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 1994.

187 Esta discussão apresenta divergências no campo conceitual, enquanto Certeau trabalha a concepção o espaço

como esta categoria dotada de sentido a partir da relação e mediação humana, outros autores atribuem este ponto de vista para a concepção de lugar, como é o caso do geógrafo Yi-FU Tuan, por exemplo, ao escrever “Espaço e lugar: a perspectiva da experiência”. TUAN, op. cit.

188 BRAUDEL, Fernand. O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrânico na época de Felipe II. São Paulo,

humanas, o espaço deu um salto a mais em sua forma; um salto que extrapolou, inclusive, a dimensão física desta categoria; um salto que tornou o espaço em ciberespaço.

Ratificando a sua condição de estar atrelado às ações humanas, o espaço se fez tecnologia cibernética. Símbolo dos nossos tempos, a internet, acessível à grande parte da população mundial, na palma da mão, em qualquer lugar e em qualquer momento, também se transformou em um espaço ocupado pelo homem, logo, pela História. Capaz de encurtar distâncias e promover trocas entre pessoas do mundo inteiro em tempo real, a internet surgiu para o mundo como uma ferramenta revolucionária que poderia ser utilizada para os mais diversos objetivos da vida humana. Entretanto, assim como no Mediterrâneo as navegações só se locomoviam devido às águas do mar, na internet só navegamos devido ao ciberespaço, é ele que permite a interação. Sendo assim, apesar do avanço tecnológico ter desenvolvido a rede mundial de computadores, o espaço para que esta rede fosse possível só se fez a partir da ocupação humana neste espaço, ou melhor, neste ciberespaço. Ao versar sobre a problemática, Margaret Wertheim nos mostra que

num sentido muito profundo, esse novo espaço digital está “além” do espaço que a física descreve, pois o ciberdomínio não é feito de forças e partículas físicas, mas de bits e bytes. Esses pacotes de dados são o fundamento ontológico do ciberespaço, as sementes das quais o fenômeno global “emerge”189

.

Com isso, fundam-se as bases para a construção de um novo campo a, também, ser investigado pela História, pois consiste em um campo marcado pelas trocas e aproximações humanas, logo, históricas.

Assumindo, portanto, uma condição na qual o conceito de “espaço” assume um novo sentido, haja vista a ausência de materialidade física do ciberespaço e a constituição de um outro lugar, no qual a posição do sujeito não pode ser expressa de forma precisa e matematicamente localizada – o que não significa que se torna menos real a sua presença, pois, embora destituído de fisicalidade, como afirma Margaret Wertheim, o ciberespaço é sim um lugar real, no qual o sujeito imprime suas marcas –, o espaço cibernético tem como um dos seus grandes atrativos a possibilidade de se conceber uma “arena imaterial coletiva não após a morte, mas aqui e agora, na Terra”190, além disso, permitindo a eliminação das fronteiras naturais e fomentando a criação coletiva de novas comunidades e redes que se

189 WERTHEIM, op. cit., p. 167. 190 Ibid., p. 171.

reconhecem mutuamente. Como foi o caso da rede global zapatista, constituída no

ciberespaço.

Ao fomentar a criação coletiva de novas comunidades, o ciberespaço proporcionou um novo fenômeno no âmbito das interações e dos estudos de movimentos sociais: a apropriação, ou incorporação, de sentimentos comuns a movimentos que, para além de suas idiossincrasias, têm, em suas esperanças últimas a vontade de mudar o mundo. Apesar de aparecerem para o mundo enquanto movimento indígena, os zapatistas levantaram questões que englobam, sumariamente, os dramas de grande parte das minorias que almejam mudanças drásticas para garantir suas liberdades e sobrevivências. O Subcomandante Insurgente Marcos sintetizou bem essa ideia plural das reivindicações zapatistas quando afirmou que

Marcos é gay em San Francisco, negro na África do Sul, asiático na Europa, chicano em San Isidoro, anarquista na Espanha, palestino em Israel, indígena nas ruas de San Cristóbal, judeu na Alemanha, comunista no pós-guerra fria, pacifista na Bósnia, mapuche nos Andes, artista sem galeria nem portfólios, dona de casa num sábado à noite em qualquer bairro em qualquer cidade de qualquer México, guerrilheiro no México do fim do século XX, machista no movimento feminista, mulher sozinha no metrô à noite, aposentado durante um ato no Zócalo, camponês sem-terra, estudante inconformado, editor marginal, trabalhador desempregado, médico sem praça, dissidente do neoliberalismo, escritor sem livro e leitores, e, seguramente, zapatista no sudoeste mexicano. Enfim, Marcos é um ser humano qualquer neste mundo. Marcos é todas as minorias intoleradas, oprimidas, resistindo, explodindo, dizendo já basta! Todas as minorias na hora de falar, e maiorias na hora de calar e aguentar. Todos os intolerados procurando uma palavra, sua palavra, o que devolva a maioria aos eternos fragmentados, nós. Tudo o que incomoda o poder e as boas consciências, isso é Marcos. De nada senhores da Procuradoria Geral da República, estou aqui para lhes servir... com chumbo191.

Ou seja, os zapatistas ao denunciarem todas as mazelas históricas que lhes ofendiam, também conseguiram extrapolar suas próprias fronteiras e se fazerem reconhecidos por outros povos, em outros contextos, em outras demandas, mas que, de mesmo modo, se sentiam na necessidade de gritar um já basta. Em outras palavras, de lutarem pelas suas dignidades.

191 SUBCOMANDANTE INSURGENTE MARCOS. El Viejo Antonio: En la montaña nace la fuerza, pero no

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