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UN BUDGET ALLOCATIONS TO UN SUPPORT TO NEPAD REGULAR PROGRAMME BUDGET SECTION 11, PROGRAMME 8/9

VIII. Conclusions and way forward

“E então nós vimos tudo isso e pensamos em nossos corações o que vamos fazer. A primeira coisa que vimos é que o nosso coração já não é como era antes, quando começamos nossa luta, mas sim que é maior porque já tocamos o coração de muita gente boa. E também vimos que o nosso coração está mais ferido. E não é que está ferido pelos enganos que os maus governos nos fizeram, mas sim porque quando tocamos os corações de outros tocamos também suas dores. Ou seja, foi como vermo-nos num espelho.” Sexta Declaração da Selva Lacandona205

Se no ano de 1994, quando a internet ainda surgia como algo pouco explorado, como algo do qual a população carecia de informações sobre e, principalmente, de dispositivos que possibilitassem o acesso a esta ferramenta, como se encontra a rede global zapatista nos dias de hoje, haja vista o tremendo avanço tecnológico que tivemos de lá pra cá e a facilidade que grande parte da população tem, hoje em dia, para acessar o mundo virtual na palma de suas mãos? A partir desse questionamento, realizamos um breve levantamento sobre como o movimento zapatista continua impactando o ciberespaço.

Como dito, hoje as possibilidades são drasticamente maiores, em relação à última década do século XX, quando pensamos em internet. Para além da tecnologia e aparelhos tecnológicos, novas plataformas de contato interpessoais também surgiram. Nos dias de hoje, temos nossas vidas quase que balizadas pelas redes sociais – “o mundo existe e por isso ele está nas redes sociais, ou o mundo está nas redes sociais e por isso ele existe?”, seria um questionamento existencial para nossos tempos. Desta forma, os ambientes de diálogos e de veicular informações também oferecem novas possibilidades. Em uma rápida busca no

Facebook, podemos, por exemplo, identificar inúmero grupos de conversa que tem o

movimento zapatista como temática central; para além do Facebook, a rede de apoio aos zapatistas também se faz presente em outas mídias digitais como o Instagram, o Twitter e

YouTube, para ficarmos em redes sociais mais populares. Além disso, se expandiu de forma

avassaladora a quantidade de conteúdo que pode vir a ser encontrado sobre o movimento. Ao lançarmos a palavra “EZLN” no Google, por exemplo, temos como resultado de busca

205 Comité Clandestino Revolucionario Indígena Comandancia General del EZLN. Sexta Declaración de la

2.260.000 acessos a sites relacionados. O que nos permite vislumbrar inúmeras possibilidades para se estudar as práticas e discursos zapatistas, mas, principalmente, o que se tem veiculado sobre o movimento, nas mais diversas partes do mundo.

Por fim, no trabalho de pesquisa e buscando adentrar às possibilidades do ciberespaço enquanto ambiente para acesso à fontes históricas, dentre importantes sítios online que propulsionam os seus manifestos e, consequentemente, suas demandas, críticas, discursos e representações, encontraremos no “Enlace Zapatista”206 o espaço de maior acervo

documental primário para nos aproximarmos das vozes dos zapatistas. O Enlace contém todos os documentos oficiais emitidos pelo Exército Zapatista/Comitê Clandestino Revolucionário Indígena desde 1993 até os dias atuais. Além dos comunicados oficiais, o mesmo ainda repercute notícias que incidem, diretamente, sobre a vida das comunidades zapatistas e, de mesma forma, compartilha e promove a realização de eventos de grande envolvimento com toda a comunidade (local, ou não) zapatista207, além de dispor de uma assinatura para receber notícias em primeira mão sobre tudo que acontece e que os zapatistas acreditam ser relevantes vincular para o restante do mundo. Em suma, representa um riquíssimo banco de dados para explorar e investigar as formas como os zapatistas se reconhecem no mundo, constroem o mundo, dizem o mundo e almejam o mundo.

No ano de 2005, o EZLN lançou a sua Sexta Declaração da Selva Lacandona, na qual, logo em suas primeiras palavras, trazia à tona a problemática da expansão do movimento para além de seus grupos indígenas, corroborando a aliança com uma rede de apoio que foi fundamental para o movimento avançar passos importantes em suas lutas208. Dizem os

zapatistas:

206 http://enlacezapatista.ezln.org.mx/

207 Como exemplo do que seriam esses eventos, podemos citar os seminários El Pensamiento Crítico Frente a La Hidra Capitalista, realizados no ano de 2015, e que envolveu toda uma gama de pensadores sociais – desde

zapatistas civis, aderentes e o próprio EZLN – em torno de discutir as conjunturas político-econômicas no mundo neoliberal globalizado; também podemos citar os Encontros Internacionais da Mulheres que Lutam, ocorridos em 2018 e 2019, nos quais mulheres (e apenas mulheres) do mundo inteiro se reuniram nos caracóis zapatistas para debater questões pertinentes as suas causas globais; além de outros eventos que também atraiu a comunidade externa aos territórios zapatistas como o Festival de Cinema “Puy ta Cuxlejaltic” e foros de debates sobre questões do mundo globalizado.

208 Juntamente à Sexta Declaração, os zapatistas lançaram a “Outra Campanha”, na qual fomentaram uma rede

oficial de “aderentes da Sexta”. Nas palavras de Carlos Antonio Aguirre Rojas, a Outra Campanha consistiu em uma iniciativa muito importante na construção desse movimento nacional mexicano, sendo um “vasto movimento social que, respeitando e integrando identidades, lutas, experiências, demandas e interesses particulares, e as história específicas de cada setor, grupo, coletivo, indivíduo ou classe, as unifica igualmente em torno de dois eixos fundamentais: primeiro, o reconhecimento da condição de “subalternidade” de cada um

Esta é a nossa palavra simples que busca tocar o coração da gente humilde e simples como nós, mas, também como nós, digna e rebelde. Este é a nossa palavra simples para contar o que tem sido o nosso caminhar e onde estamos agora, para explicar como vemos o mundo e o nosso país, para dizer o que pensamos fazer e como pensamos fazê-lo, e para convidar outras pessoas a caminharem conosco em algo muito grande que se chama México e em algo maior que se chama mundo. Esta é a nossa palavra simples para dar conta a todos os corações que são honestos e nobres, do que queremos no México e no mundo. Esta é nossa palavra simples porque nossa ideia é de chamar aqueles que são como nós e unirmos a eles, em todos os lugares onde vivem e lutam. [...]Porque nós do EZLN somos quase todos indígenas daqui de Chiapas, mas não queremos lutar só pelo nosso bem ou só pelo bem dos indígenas de Chiapas, ou só pelos povos indígenas do México, nós queremos lutar sim com todas as pessoas simples e humildes como nós, que passam por grande necessidade e que sofrem a exploração e os roubos dos ricos e de seus maus governos aqui no nosso México e em outros países do mundo209.

Deste modo, algo que surgiu como uma iniciativa espontânea por parte da rede que se solidarizou com a causa dos indígenas de Chiapas, se transformou em uma parcela não apenas atuante, mas, também, reconhecida pelo Exército Zapatista.

A rede global zapatista, desta forma, configurou-se em uma continuidade do exército que teve vitórias diretas no campo de batalha. Se em determinado momento as armas foram abandonadas e a palavra se sobrepôs, o exército zapatista ganhou milhões de combatentes para reforçar a legitimidade de suas demandas. Porém, mais do que se configurar enquanto pertencente ao movimento e atuante diretamente no mesmo, também consistiu em uma revolução nas sociabilidades de fins do século XX, possibilitando a formação de vínculos oriundos de uma sensação de pertencimento a um grupo mais amplo do que o indígena, mas a uma condição de estar combatendo um sistema colonial, portanto, fundando novas possibilidades de se estudar a emergência de outras formas de aproximações e distanciamentos humanos provocados pelo ciberespaço.

Outro ponto a ser percebido consiste na contribuição direta que o ciberespaço incide nos campos de pesquisas acadêmicas. Assim como este ambiente possibilitou que pessoas do

e, portanto, sua condição de vítima de alguma opressão, exploração, expropriação, humilhação ou discriminação específica, sofrida por causa do inimigo comum, ou seja, do sistema capitalista mundial. Em segundo, sua vocação precisamente anticapitalista, ou seja, sua vontade de acabar com essa condição de subalternidade e enfrentar a causa real e profunda da mesma, destruindo ao atual sistema capitalista e substituindo em seu lugar outro sistema social radicalmente distindo, e em particular, um sistema social livre, justo, igualitário e democrático”. AGUIRRE ROJAS, op. cit., pp. 203 - 204.

209 Comité Clandestino Revolucionario Indígena Comandancia General del EZLN. Sexta Declaración de la

mundo inteiro arquivassem, encaminhassem, compartilhassem, organizassem e dividissem os documentos zapatistas para espalhar sua palavra, ele também serve para abrir novos campos de investigações históricas, bem como de novas possibilidades de pesquisas através de documentos digitalizados na rede. Por que não explorar o vasto espaço das redes sociais como uma forma de perceber significados históricos? Por que não atentarmo-nos para novas transformações tecnológicas que o mundo vem passando como formas de ir além no conhecimento histórico? Afinal, estudar a História do Tempo Presente é perceber, como defendemos inicialmente, um período de transição no qual as definições sobre a realidade ainda não estão bem estruturadas, com isso, a ciência, para a compreensão e apreensão deste período, exige uma condição, também, que compreenda a maleabilidade do mesmo, compreendendo e adaptando-se a sua transitoriedade.

Finalmente, compreendemos a rede global zapatista não como um fenômeno externo ao zapatismo, mas, pelo contrário, interno, pertencente e pertinente para a conquista dos objetivos levantados em 1994 pelo seu Exército. Como os mesmos declararam em 2005:

E então nós vimos tudo isso e pensamos em nossos corações o que vamos fazer. A primeira coisa que vimos é que o nosso coração já não é como era antes, quando começamos nossa luta, mas sim que é maior porque já tocamos o coração de muita gente boa. E também vimos que o nosso coração está mais ferido. E não é que está ferido pelos enganos que os maus governos nos fizeram, mas sim porque quando tocamos os corações de outros tocamos também suas dores. Ou seja, foi como vermo-nos num espelho210.

Desta forma, o projeto zapatista, que se pretendia nacionalista, logo converteu-se em um projeto que extrapolou suas próprias fronteiras, não obstante, as suas lutas se tornaram as lutas de muitos e as lutas de muitos as suas lutas, porém, todas elas à fim de um objetivo comum: um mundo onde caibam muitos mundos.

5 SEMEANDO ESPAÇOS ZAPATISTAS

Neste longo percurso, caminhando geografias e calendários, os zapatistas conceberam suas lutas, como pudemos atestar, não de forma única e pronta, mas como uma luta inacabada e que faz do caminho seu ateliê para experimentar novas práticas e ideias. A luta zapatista, a luta que percorreu a larga noite dos 500 anos, consiste numa luta incessantemente ressignificada. Tal qual a autonomia que não se permite ser concluída, que só existe enquanto não é, pois, assim, jamais terá o passo interrompido nesta caminhada rumo ao mundo onde caibam muitos mundo, a luta zapatista segue o mesmo modus operandi.

Neste sentido, o zapatismo em sua dinâmica de perguntar geografias e caminhar calendários está associado às diferentes etapas que compõem as ambições e estratégias do movimento. Analisando em retrospectiva, veremos que o levante zapatista insurge em 1994 em nome de um movimento indígena, porém, que logo ressalta sua posição nacionalista mexicana, depois extrapola as fronteiras físicas do espaço, se assume e dialoga com movimentos antissistêmicos globais, se posiciona contrário ao neoliberalismo e ao capital, ideologicamente propõe um posicionamento “abajo y a la izquierda”, apresenta as armas, utiliza as palavras e, juntamente com seus mortos e a montanha, faz o cenário político da história recente do México bailar em um ritmo nunca antes visto no contexto revolucionário latino-americano. Como apresentamos em nossas primeiras páginas, não à toa, o zapatismo é visto como um movimento seminal, vanguardista, mas também antimoderno, contraditório e inacabado, o que só enriquece ainda mais as possibilidades de investigarmos historicamente suas geografias e calendários, suas armas e suas palavras, seus passos e seus caminhos.

Dentro desse conjunto de aspectos que compõem a singularidade zapatista e que esteve, a todo momento, presente em nossas discussões até aqui, sem dúvidas devemos incluir a estética do movimento como participante integral em suas decisões e ações. Desde os seus primeiros momentos, quando apareceram para o mundo em 1994 até os dias de hoje, a estética zapatista é constitutiva da forma política dos mesmos. Seja na construção simbólica e imagética de suas indumentárias, com os pasamontañas – gorros que cobriram os seus rostos para que pudessem serem vistos; seja na escolha das datas para lançar um comunicado, promover um evento ou fazer uma festa; seja nos discursos de Marcos; seja na toponímia de

seus territórios; seja em qualquer aspecto que levante a bandeira da memória indígena zapatista, a estética permeia as intenções deste movimento. A estética zapatista, portanto, é política, e a política para os zapatistas não é apenas conjunto de leis, cargos, poder e burocracia: é festa, é arte.

Desta maneira, partiremos, aqui, para dois acontecimentos que situam-se em diferente momentos da história zapatista: a Marcha da Cor da Terra e o CompARTE pela humanidade. Ambos repletos de significações estéticas, retóricas e políticas. Ambos, em seu determinado contexto, resgatando e ressignificando a memória e a história indígena e mexicana. Ambos repletos de arte, festa e alegre rebeldia.

5.1 Caminhando o território: a Marcha da Cor da Terra

“O que acabamos de ver significa que esses sete anos de luta (do EZLN) foram apenas um prólogo do que agora vai começar.” José Saramago211

“Isso não é um fim, é um começo. Para o grande enigma que contém a pergunta: “e agora?”, a resposta terá que ser a mobilização das massas.” Manuel Vásquez Montalbán212

“Nunca, nunca havia escutado algo assim! É que não foi um discurso político, foi um poema.” Miguel Ríos213

“Somos e seremos mais um na marcha, a da dignidade indígena, a da cor da terra, a que desvelou e

desvelou os muitos méxicos que sob o México se escondem e se magoam.” Subcomandante Insurgente Marcos214

Ao almejarem o direito de escolher livre e democraticamente suas próprias autoridades, os zapatistas anunciavam uma das suas principais bandeiras para a luta por um México plural e plenamente democrático: a autonomia indígena. Após o período inicial da

211 SARAMAGO, José. La lucha del EZLN, sólo un prólogo: Saramago. México, 2001. Disponível em:

<https://www.jornada.com.mx/2001/03/12/006n1pol.html>. Acesso em 15 de ago. de 2020. Tradução do autor.

212 Ibid. Tradução do autor. 213 Ibid. Tradução do autor.

214 SUBCOMANDANTE INSURGENTE MARCOS. Aquí estamos y un espejo somos. México, 2001.

Disponível em: <http://www.rebelion.org/hemeroteca/internacional/marcos130301.htm>. Acesso em 14 de fev. de 2020. Tradução do autor.

guerrilha armada, os zapatistas voltaram para as montanhas, consultaram seus povos, e partiram para a resolução dos conflitos através do diálogo. Entre o dia 20 de fevereiro e 2 de março, do ano de 1994, aconteceu na cidade de San Cristóbal de las Casas o primeiro encontro entre o governo federal e o EZLN, o que ficou conhecido como “Diálogos da Catedral”215.

Nestes diálogos, o EZLN reiterou a ambição do movimento não em tomar o poder, mas em obterem “o direito a viver com dignidade de seres humanos, com igualdade e justiça como nossos antigos pais e avós” e apresentaram como razões e causas do levante armado a fome, a miséria e a marginalização que os povos indígenas sofreram “desde sempre”; a total carência de terra para trabalhar e sobreviver; a repressão, despejo, encarceramento, torturas e assassinatos, como respostas do governo frente às “justas demandas de nossos povos”; as “insuportáveis injustiças e violação de nossos direitos humanos como indígenas e camponeses empobrecidos”; a exploração sofrida na venda de seus produtos, nas jornadas de trabalho e na compra de mercadorias de primeira necessidade; a falta de todos os serviços indispensáveis para a grande maioria da população indígena; as mentiras, enganos, promessas e imposições dos governos “há mais de 60 anos”, concomitante à “falta de liberdade e democracia para decidir nossos destinos”; e o não cumprimento das leis constitucionais por parte do governo, enquanto que todo o peso da lei recaía para os povos indígenas, com o agravante de ter sido “uma lei que nós não fizemos e que os que a fizeram são os primeiros a violar”216.

Após este primeiro período de diálogos, o EZLN terminou os encontros demandando “que se convoque uma eleição verdadeiramente livre e democrática”, pois “a democracia é o direito fundamental de todos os povos indígenas e não indígenas” e “sem democracia não pode haver liberdade nem justiça nem dignidade. E sem dignidade não há nada”; exigindo a renúncia dos titulares do Poder Executivo Federal e dos poderes executivos estatais, para que houvesse eleições, de fato, livres e democráticas; o reconhecimento do EZLN como força beligerante e de suas tropas como autênticos combatentes, sendo aplicados todos os tratados internacionais para regular conflitos bélicos; um novo pacto entre os integrantes da federação

215 FUENTES SÁNCHEZ, 2019. p. 135. Tradução do autor.

216 Comité Clandestino Revolucionario Indígena-Comandancia General del EZLN. Al pueblo de México: las

demandas del EZLN. México, 1994. Disponível em: <http://enlacezapatista.ezln.org.mx/1994/03/01/al- pueblo-de-mexico-las-demandas-del-ezln/>. Acesso em 17 de fev. de 2020.

para que se acabe com o centralismo e permita às regiões, comunidades indígenas e municípios autogovernarem-se com autonomia política, econômica e cultural; e que fossem respeitados os direitos e dignidade dos povos indígenas, levando em conta sua cultura e tradição, pois “como povo indígena que somos, que nos deixem organizarmos e governarmos com autonomia própria, porque já não queremos ser submetidos à vontade dos poderosos nacionais e estrangeiros”217.

Isto posto, os zapatistas trouxeram para o cerne da discussão uma problemática densa e que se estendeu, ainda, por anos a fio: o reconhecimento da autonomia indígena, porém, do indígena enquanto mexicano:

Assim, os zapatistas demandam que se reconheça seu direito de autogovernarem-se e sua autonomia, frente a um processo histórico de exploração e extermínio contra os esquecidos da pátria. Deixam claro que não é seu desejo, nem intenção, separar-se do país, mas, do contrário, continuar sendo indígenas e mexicanos, que pode se resumir no gesto simbólico dos zapatistas que, durante o evento, apresentavam duas bandeiras: a zapatista (com um fundo negro e com uma estrela vermelha no meio) e, do outro lado, a bandeira do México218.

Assim, a problemática da autonomia indígena foi ganhando cada vez mais corpo nos discursos e na forma do EZLN, ratificando o caráter étnico e estético do movimento.

Pouco depois dos “Diálogos da Catedral”, os zapatistas lançaram para o México e para o mundo a sua Segunda Declaração, na qual, novamente, trouxeram à tona a discussão acerca de uma profunda reforma política:

O problema do poder não será quem é o titular, mas quem o exerce. Se o poder é exercido pela maioria, os partidos políticos se verão obrigados a confrontar-se com esta maioria e não entre si. Recolocar o problema do poder neste marco de democracia, liberdade e justiça obrigará a uma nova cultura política dentro dos partidos. Uma nova classe de políticos deverá nascer e, não duvidem, nascerão partidos políticos de novo tipo219.

Tratando-se, portanto, não de uma revolução, mas da “antessala do novo México”220. Com isso, a partir da clara manifestação do EZLN em buscar as transformações sociais através de

217 Ibid.

218 FUENTES SÁNCHEZ, 2019, pp. 135-136. Tradução do autor.

219 “El problema del poder no será quién es el titular, sino quién lo ejerce. Si el poder lo ejerce la mayoría, los

partidos políticos se verán obligados a confrontarse a esa mayoría y no entre sí. Replantear el problema del poder en este marco de democracia, libertad y justicia obligará a una nueva cultura política dentro de los partidos. Una nueva clase de políticos deberá nacer y, a no dudarlo, nacerán partidos políticos de nuevo tipo”. Comité Clandestino Revolucionario Indígena-Comandancia General del Ejército Zapatista de Liberación Nacional. SEGUNDA DECLARACIÓN DE LA SELVA LACANDONA. México, 1994. Disponível em: <https://enlacezapatista.ezln.org.mx/1994/06/10/segunda-declaracion-de-la-selva-lacandona/>. Acesso em 17

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