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Strategic or constrained choices

PERSPECTIVE ON THE BUSINESS MODELS OF NONPROFIT ORGANIZATIONS

CHAPTER 5. DISCUSSION AND CONCLUSION

2. Strategic or constrained choices

Não se pode falar em imigração japonesa sem se lembrar do relevante papel dos agentes intermediários na condução dos fluxos migratórios. Como observa Rezende (2005),

[...] pode-se constatar que, no geral, as posições intermediárias não apenas ―transferem‖ ou canalizam fluxos de pessoas, recursos e informações. Elas também variam em função, tanto das propriedades estruturais do sistema, quanto do contexto histórico e cultural no qual tais sistemas operam. Assim, em redes mais conectadas, coesas e densas, os intermediários desempenham forças e relações diversas de outras redes onde há maior competição [...]. Apenas, muito raramente pode-se conceber um sistema de migração em que não há intermediação, onde um migrante pode se deslocar, no espaço físico e social, sem empreender e ser constrangido a se relacionar, e sem depender de outros atores e posições na estrutura da trajetória adotada. A própria escolha da trajetória é determinada pelas relações e disponibilidade das posições de intermediação, como sugerido teoricamente por Tilly (1990) [...] (REZENDE, 2005, p. 125, 126).

A imigração de pós-guerra é conhecida entre os japoneses como ―shin-imin‖ ou nova imigração. A parcela dos imigrantes que chegaram sob a coordenação de Kotaro Tsuji é conhecida como ―Tsuji Imin‖, em razão das negociações para a vinda desses imigrantes terem sido realizadas por este obstinado imigrantista, que sempre contou com o apoio do eminente político Uyetsuka desde os tempos da Escola Superior de Colonização da Koukushikan. Desde o início da imigração japonesa na Amazônia, eles sempre atuaram na rede de relacionamentos e entre governos e migrantes.

Há vários escritos que Kotaro Tsuji (de Santarém-PA) e Yasutaro Matsubara (de Marília-SP) haviam solicitado ao presidente Vargas como autorização para o plano de imigração e colonização. Tsuji pretendia trazer novos imigrantes para a Amazônia e Matsubara para as regiões do centro-oeste e nordeste do País. É interessante conhecer alguns fatos históricos que antecederam a imigração intermediada por Tsuji, em face às negociações que manteve com o presidente Getúlio Vargas e com as autoridades locais para introduzir os imigrantes de pós-guerra na Amazônia.

Como já abordado em capítulo anterior, Uyetsuka e Tsuji são personagens bastante conhecidos na história da imigração japonesa pela fundação da Vila Amazônia em Parintins, quando intermediavam a ação expansionista para a colonização do Baixo Amazonas na

década de 1930. O sucesso que obtiveram os imigrantes com a produção de juta na década de 1940, pautado no crescente aumento dessa produção ao longo do rio Amazonas, já fartamente explanado por Homma (2007), foram motivos suficientes para Tsuji avançar nos negócios com mais imigrantes, uma vez que grande parcela dos koutakusseis tinham se evadido da Amazônia.

Conforme, documentário do arquivo particular da família Tsuji, no início de 1950 ele estava radicado a 17 anos na Amazônia, inclusive casado em segunda núpcias com a brasileira Leonor Garcia Tuji, em 1944. Tocava com a esposa e o irmão Kohei Tsuji os negócios da empresa L.G. Tuji & Cia, em Santarém-PA, que incluía desde o comércio de juta, sisal, cacau, guaraná, látex, concha74, armazém gerais, tecidos, sapatos, até artigos de armarinho. A exportação era realizada por meio das empresas de Belém.

Devido à facilidade de comunicação que possuía, Tsuji passou a assumir vários postos. Era presidente interino da Companhia Industrial Amazonense, presidente da Associação Rural dos Juteiros do estado do Pará e da Cooperativa dos Juteiros do Baixo Amazonas. Uma das empresas ligada a Tsuji fazia a classificação e enfardamento da juta para mandar às fábricas de tecelagem em Recife, Bahia, Rio de Janeiro e São Paulo, cujo preço de venda estava congelado pelo Banco do Brasil (DANTAS, 1968).

Tadashi Sudo, que trabalhou na empresa de Tsuji em Parintins, entre os anos de 1957 a 1962, conta que o conhecia muito bem. Fala que ele alimentava um grande sonho de montar uma fábrica de tecelagem de juta em Santarém.

Tsuji fez um projeto para montar a fábrica de juta em Santarém e precisava de recursos e de gente para realizar o projeto. Ele era um homem de muita coragem, ia conversar com os políticos. Tinha negócios com vários produtos, em Santarém, que vendia para vários estados. Em Parintins, ele comprava e empacotava a juta e fazia aviamento. De Macapá comprava castanha (Entrevistado nº 75).

As interlocuções de Tsuji com Vargas estão registradas nos anais da Associação Nipo- Brasileira da Amazônia e no jornal O Liberal (DANTAS, 1968). Em 1950, Getúlio Vargas, então candidato à presidência, vinha a Santarém e prometia publicamente a construção de uma indústria de juta, em Santarém. Em fevereiro do ano seguinte, Vargas se elegia presidente. Tomando conhecimento de que Elias Pinto, presidente do Partido Trabalhista de Santarém, iria participar da cerimônia de posse de Vargas, Tsuji entrega a Elias uma carta

74 As conchas eram insumos para produção de botões e artigos de armarinho, pois naquele tempo não havia a

dirigida ao presidente da República contendo um plano de estabelecimento de uma companhia de tecelagem de juta.

O presidente demonstrando grande interesse pelo plano de Tsuji convocou-o imediatamente para uma entrevista, em março de 1951, em Petrópolis, encarregando-o em seguida da fundação dessa fábrica. Tsuji convida então os principais comerciantes de Santarém para a constituição da Companhia de Fiação e Tecelagem de Juta de Santarém (Tecejuta), cujo estatuto em organização - com 16 sócios fundadores, de nacionais - era publicado no jornal Folha do Norte de 04.07.1951 e no Diário Oficial de 12.07.1951. Inclusive, por ação de Vargas, o Banco de Crédito da Amazônia investiu 3 mil contos no capital da empresa e o Banco do Brasil financiou 20 mil contos (DANTAS, 1968). Solicitava também a liberação do preço de venda da juta congelado, comprometendo-se investir totalmente na indústria de tecelagem de juta, cujo resultado concretizou-se com a publicação do decreto estabelecendo preço mínimo para as safras de 1951/52. (ASSOCIAÇÃO..., 2001, p.170; DANTAS, 1968).

Naquela oportunidade da sua entrevista com Vargas, Tsuji sondara a possibilidade de introduzir novos imigrantes japoneses na Amazônia. Assim, tomando ciência do grande interesse do presidente pela imigração, Tsuji convida Tsukasa Uyetsuka para concretizar o reinício da imigração japonesa de pós-guerra. Logo, em setembro de 1951, Tsuji e Uyetsuka - este como representante dos interesses do governo japonês - encontraram-se com o presidente da República, no Rio de Janeiro, entregando-lhe nessa oportunidade uma solicitação para o ingresso de 5 mil famílias, totalizando 25 mil pessoas, em um prazo de 5 anos.

Mesmo sem um acordo oficial entre os dois países, Vargas submete ao Conselho de Imigração e Colonização a demanda encabeçada pelos dois imigrantistas: Kotaro Tsuji e Yasutaro Matsubara, sendo em seguida autorizada em caráter excepcional a entrada de 5 mil famílias para a Região Norte e 4 mil famílias para centro-oeste. ( PROVÍNCIA DO PARÁ, 31 jul. 1954).

Tais autorizações não seriam mera simpatia de Vargas pelos nipônicos, como pensam muitos japoneses da colônia, uma vez que este presidente tivera uma postura extremamente nacionalista no governo anterior e sempre adotou políticas em defesa do trabalhador brasileiro como é sobejamente conhecida na história do País. Tudo indica que a política de integração da Amazônia e a ocupação das áreas de fronteira do País estavam dentre as prioridades do

novo governo, comandadas pela Comissão de Valorização Econômica da Amazônia75, cujo ―modelo institucional concebido deveria promover, desde logo, incentivos de qualquer natureza para que a iniciativa privada tivesse condições de implantar os empreendimentos voltados para o desenvolvimento da sociedade amazônica‖ (RIBEIRO, 2006, p.185). Como menciona a reportagem de Mário Salvino Silva (FOLHA VESPERTINA, 5 jun. 1952), para a execução da política imigratória, Vargas pretendia criar o Instituto Nacional de Imigração – ―em defesa do trabalhador brasileiro, em face da concorrência do elemento estrangeiro, tecnicamente mais adiantado‖, como dizia na época.

Vinte mil japoneses são esperados para a Amazônia. Firmou-se o conceito de que o elemento japonês seria de grande utilidade na exploração das zonas amazônicas, onde já deram uma demonstração de adaptabilidade ao meio. (PROVÍNCIA DO PARÁ, 20 set.1952)

Uma vez autorizado pelo governo federal, Tsuji procura manter contatos com as autoridades estaduais e dos territórios federais, com o intuito de intermediar a vinda de imigrantes nipônicos para uma região carente de braços para a expansão econômica. Notadamente, para a cultura da seringueira de interesse do governo federal, para o fornecimento dessa matéria-prima em grande escala para os Estados Unidos. Entretanto, os problemas foram muitos para assentar um quantitativo relativamente grande de imigrantes, uma vez que não havia estrutura organizada para recepcioná-los a contento, seja pelo governo, seja pelos agentes intermediários.

No decorrer do processo de inserção dos imigrantes nipônicos surgiam muitas críticas em deferência do tratamento dado aos japoneses, que aos olhos dos nacionais, entendiam como um privilégio dado aos estrangeiros em detrimento aos imigrantes nordestinos. Por exemplo, o jornalista Onofre Garcia (FOLHA DO NORTE, 21 nov. 1953) criticava a diferença de tratamento dado aos japoneses e aos nordestinos que vinham à Amazônia, comentando que os primeiros estão desamparados, enquanto que outros encontram tratamento diverso, dentro de um plano de colonização plenamente assistido. Inclusive há criticas contundentes contra Matsubara, a exemplo do que saiu no jornal Folha do Norte, de 24 de dezembro de 1954, sob o título ―Milhões para aventureiros que vendem o Brasil: Lucros

75

O projeto foi posteriormente aprovado pela Lei nº 1806, de janeiro de 1953, com a criação da SPEVEA- Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia.

fabulosos na invasão de terras no Parque indígena do Xingu – Em vendas de 15 milhões, o japonês Matsubara teve lucro de 14 milhões‖.

Matsubara negocia apenas com japones, não respeitando o decreto-lei 3.010 de 3-8- 38, que fixa, para os novos núcleos de população, um máximo de 30 por cento de estrangeiros.

O mais grave em tudo isto é a conivência do governo de M. Grosso, e o fato de tão pouca gente se importar com a advertência de que parte do Brasil foi transformada em moamba, nas mãos de aventureiros internacionais, que fazem lucros fabulosos. (FOLHA DO NORTE, 24 dez. 1954)

O governo federal tenta apaziguar as críticas adotando uma ―nova orientação na política imigratória‖, criando o Instituto Nacional de Imigração e Colonização (INIC), entidade de caráter autárquico, vinculado ao Ministério da Agricultura, que passa a absorver o pessoal e o acervo da DTC e do Departamento Nacional de Imigração. Assim, a Lei nº 2.163/54 que criou o INIC, mencionava em seu artigo 3º:

Art. 3º Cabe ao Instituto:

a) assistir e encaminhar os trabalhadores nacionais imigrantes de uma, para outra região;

b) orientar e promover a seleção, entrada, distribuição e fixação de imigrantes;

c) traçar e executar, direta e indiretamente, o programa nacional de colonização, tendo em vista a fixação de imigrantes e o maior acesso aos nacionais da pequena propriedade agrícola. (BRASIL, 1954, grifo nosso).

Concretamente, a nova orientação veio trazer impacto desastroso para os imigrantes que foram para Fordlândia e Belterra, em 1954 e 1955, em razão do desentendimento entre os órgãos condutores da imigração. No caso, os imigrantes haviam sido admitidos em consequência de entendimentos entre o diretor do Instituto Agronômico do Norte (IAN) e Tsuji (então presidente da Companhia de Desenvolvimento Econômico da Amazônia), com o consentimento do Instituto de Imigração e Colonização (INIC). No entanto, o diretor do IAN deixara de consultar o Ministério da Agricultura, cuja jurisdição se achava com o Instituto. Tomando conhecimento posterior do fato, esse Ministério apresenta ao Instituto de Imigração um protesto, alegando que a entrada de imigrantes japoneses na fazenda de borracha representava uma ameaça contra os trabalhadores brasileiros. Ao mesmo tempo enviava uma ordem ao diretor do Instituto Agronômico do Norte exigindo a dispensa imediata dos japoneses (ASSOCIAÇÃO..., 2001, p. 87, 171).

Assim, os 785 imigrantes de Belterra e Fordlândia foram dispersos aos diversos sítios sem nenhuma estrutura para recebê-los, fato que levou ao sofrimento de muitos nipônicos, que nunca esqueceram tal desventura e do desacerto de Tsuji. Para Tsuji também foi

desastroso pela perda de credibilidade entre os nipônicos, além da enorme despesa que teve, provavelmente, para realocá-los nos novos sítios. A professora Urana Harada Ono e Shigeyoshi Ono, que conhecem bem a trajetória da vida de Tsuji, explicam esse desacerto de Belterra e das outras colônias.

Tsuji era um homem que estava a frente de seu tempo. Mas ele sofreu muito com essas confusões da imigração porque estava mal assessorado. Depois que ele negociava com as autoridades brasileiras, ele avisava o órgão do Japão sobre a aceitação (via cabo - pela Western). O órgão de emigração do Japão entendia que as providências foram tomadas no Brasil e embarcava imediatamente os emigrantes. Quando chegava o telegrama do Japão, era avisando que tinham embarcado tantos imigrantes. Por isso, quando as coisas saiam erradas, todos vinham cobrar do Tsuji. Razão porque muitos imigrantes se aborreceram com ele. Acho que ele morreu cedo de tanto trabalhar pelos imigrantes (Entrevistado nº25).

Realmente existe uma vasta literatura em japonês (estatutos, contratos, cartas, relatórios, manchetes de jornais e revistas) sobre a atuação de Tsuji frente à imigração japonesa na Amazônia, que confirmam a constante presença de Tsuji desde os idos de 1929 na Amazônia. Pelo teor dos documentos e das informações prestadas pelos entrevistados, além das questões públicas que Tsuji enfrentava na arena política, ele tinha que comandar uma comissão de encarregados, geralmente de koutakusseis, que operavam em seu nome em diversas colônias de assentamento dos novos imigrantes, que nem sempre eram bem explícitos na sua atuação, a exemplo do que aconteceu no Amapá.

Durante o processo de coleta de dados, junto aos ex-colonos de Matapi e Fazendinha, surgiram alguns comentários sobre a figura do imigrantista Tsuji. Contam que pelo acordo acertado, entre os chefes de famílias com o intermediário das negociações da empresa de Kotaro Tsuji, previa que cada família devia depositar certa quantia para as primeiras despesas de manutenção no Brasil, chamado enoshikin (o que seria equivalente a um fundo de reserva para manutenção inicial do imigrante). Ficou acertado que a empresa de Tsuji iria converter as moedas estrangeiras do enoshikin em moeda nacional, a medida da necessidade do imigrante, uma vez que ele não poderia cambiar moeda estrangeira na colônia.

Alguns depositaram 200 mil ienes76, outros 150 mil, muitos 100 mil ou mais, e alguns apenas 50 mil ienes, segundo declarações prestadas pelos próprios imigrantes entrevistados. Entretanto, quando os depositantes solicitaram a devolução desse dinheiro ao responsável pela empresa de Tsuji - Amazon Keizai Kaihatsu Kaisha (Companhia de Desenvolvimento

Econômico da Amazônia), algumas77 famílias não conseguiram reaver o valor depositado, sob a alegação de que os recursos foram gastos nas despesas de todo o grupo, e que algumas famílias não haviam depositado nada. Esse fato gerou querela entre os imigrantes de Matapi pelo descontentamento daqueles que depositaram (apelidados de kati-gumi) e dos que não depositaram (apelidado de make-gumi) em alusão ao Shindô Renmei de São Paulo, que saía nos jornais nikkeys daquela época. Por outro prisma, a retenção de dinheiro poderia ser uma estratégia para manter os imigrantes nas colônias, posto que a evasão da colônia agrícola era muito grande. Um ex-empregado de Tsuji que trabalhou em Parintins, no final dos anos 1950 ao início dos anos 1960, não acredita que o Tsuji tenha enganado os imigrantes.

O que pode ter ocorrido, talvez seja a demora da devolução, posto que a empresa do Tsuji não estava bem financeiramente naquele tempo. Por isso, acredito que as quantias entregues pelos imigrantes serviram para melhorar o saldo médio da conta bancária da empresa para fins de obter financiamento bancário para os próprios imigrantes, mas que deve ter sido devolvido dentro de 2 a 3 anos (Entrevistado nº 75).

O que se constata é que ficou na mente de alguns imigrantes a impressão que foram ludibriados pela empresa de Tsuji, principalmente pelas ―propagandas enganosas‖ que fizeram sobre a Amazônia, diante da enorme decepção que muitos tiveram nos primeiros anos da imigração. Entretanto, todos os entrevistados reconhecem que este imigrantista trabalhou muito para distribuir os japoneses em tão vasta região, no afã de cumprir o compromisso prestado ao presidente Getúlio Vargas. Portanto, é com justa consideração que se faz oportuno trazer a tona esses esclarecimentos de fatos passados para resgatar a imagem desse idealista que acreditava piamente no sucesso da expansão japonesa na Amazônia, como desabafa a viúva de Tsuji.

Tsuji trabalhou muitos anos pelos imigrantes sem ganhar nada. Ele sempre dizia: ―o melhor lugar para morar é no Brasil‖. Quando se comprometeu com o Presidente Vargas, deixou todos os seus negócios de lado para cuidar da imigração. Dia e noite era chamado para resolver os problemas dos imigrantes em todos os cantos e nos bancos. Depois, foram doze anos a frente da Associação Nipo-Brasileira que ele fundou com apoio dos patrícios. Quando ele morreu em 1970 (aos 67 anos) ficamos com as dívidas da nossa empresa para pagar e sem nenhuma pensão. Vivo 38 anos neste pequeno apartamento com uma pequena aposentadoria do INSS (Entrevistada nº 23).

Analisando as diferentes narrativas, percebe-se que as dificuldades do imigrantista Tsuji foram muitas, pelo descompasso entre ação dos órgãos de emigração do Japão e da

imigração no Brasil, além do que a comunicação e a estrutura dos governos locais eram muito precárias na época. Acima de tudo, intermediar os imigrantes seria, no mínimo, uma atividade dispendiosa e ele, provavelmente, não tinha aporte de recursos para atender as contingências dos desacertos. Razão porque foi necessária a participação da Kaikyoren e da Jigyodan (órgãos do governo japonês que antecederam a JICA) para conduzir a imigração no País.

Diante das dificuldades dos agentes intermediários na condução do processo imigratório, em janeiro de 1954, por demanda de Uyetsuka o governo japonês criava a Federação das Associações Ultramarinas do Japão, conhecido como Kaikyoren (Kaigai

Kyokai Rengokai), organização responsável pelo recrutamento, seleção e transporte de

emigrantes para o exterior e, ainda, recepcioná-los em sua chegada ao novo País. No ano seguinte (1955), foi instituída no Japão a Nihon Kaigai Ijyu Shinko Kabushiki Kaisha (Companhia Japonesa de Fomento de Emigração Ultramarina), em forma de sociedade anônima, com a finalidade de adquirir terras e fundar colônias no exterior, bem como vender esses lotes aos imigrantes japoneses (JAPAN..., 1988).

No Brasil, as funções da Kaikyoren ficaram a cargo da JAMIC - Imigração e Colonização Ltda, constituída em forma de sociedade comercial, em julho 1956, tendo por sócio majoritário a Nihon Kaigai Ijyu Shinko Kabushiki Kaisha, e 5 sócios minoritários residentes no Brasil. A sociedade tinha por objeto a ―imigração e colonização; agricultura, pecuária e indústria a elas pertinentes, nas quais seriam admitidos imigrantes como trabalhadores ou técnicos; compra e venda de mercadorias e imóveis e demais atividades conexas ou necessárias para consecução dos fins sociais.‖

Em 1957, foi constituída a empresa JEMIS - Assistência Financeira S/A (Kaigai Ijuh

Jigyodan), com a sede no Rio de Janeiro e sucursais em São Paulo, Belém, Porto Alegre e

Recife. Conforme estabelece o artigo 2º do Estatuto, a JEMIS tinha por finalidade:

a) Conceder empréstimos e prestar garantias para levantamento de recursos financeiros aos imigrantes japoneses e sociedades por eles organizadas que empreendam atividades agro-pastoril, industrial, pesqueira ou outras atividades econômicas.

b) Conceder empréstimos para atender as necessidades dos recursos financeiros, além dos imigrantes japoneses e sociedades por eles organizadas, a brasileiros, quer sejam pessoas físicas ou jurídicas, deste que exerçam as mesmas atividades do item a que contribuam para o desenvolvimento da corrente migratória entre o Japão e o Brasil.

A sede da JAMIC/JEMIS de Belém cuidava de toda a burocracia e assistência aos novos imigrantes que ingressam nas colônias dos estados da Região Norte até do Maranhão, que incluía além da preparação dos imigrantes no Japão, a recepção e encaminhamento dos imigrantes para as colônias agrícolas. Subsidiava recursos para construção de associações culturais, realizava convênios com as instituições de pesquisa agrícola como a Embrapa etc. Quando a economia brasileira melhorou nos anos de 1970, a JAMIC passou a selecionar melhor os imigrantes para encaminhar mais técnicos a fim de atender os interesses das indústrias brasileiras.