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A perturbação do Espectro do Autismo refere-se a uma disfunção neurológica que clinicamente se traduz por um atraso ou desvio na aquisição de competências no âmbito do neuro desenvolvimento e por alterações do comportamento (Oliveira G, 2009).

O EXERCÍCIO DA PARENTALIDADE DE CRIANÇAS COM PERTURBAÇÃO DO ESPECTRO DO AUTISMO: UM NOVO OLHAR SOBRE O CONCEITO

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As manifestações clínicas surgem habitualmente por volta dos 18 meses - 2 anos de idade, manifestando-se por um atraso nas aquisições de desenvolvimento e por alteração do comportamento, esperado para a idade mental. Estas manifestações expressam-se de diferentes formas mas todas elas são indicadoras de perturbação do desenvolvimento infantil. As crianças podem mostrar um desinteresse pelas pessoas e pelo ambiente que as rodeia. Podem demonstrar falta de atenção conjunta, “joint attentation”, onde a criança não coordena o seu olhar com o do seu parceiro social, expressando não haver partilha de atenção e de interesses sociais que levariam a ser modelo de ensino e aprendizagem (Mundy P. et al, 2009). Podem surgir perturbações no sono e na alimentação, comprometimento da linguagem/comunicação. Ao brincar não aplicam o jogo social nem o de faz de conta, não interagindo com os outros nem respondendo às brincadeiras e desafios propostos. Não utilizam os brinquedos na sua função própria, por exemplo: as rodas dos carros são para rodar e não para fazer os carros andarem, demonstrando um manuseio dos objetos limitado a movimentos repetidos em vez de explorar a sua funcionalidade; as bonecas são para desmanchar e não para cuidar, embalar (Zwaigenbaum et al, 2009).

Estas manifestações, principalmente os comportamentos repetitivos e estereotipados, tendem a evoluir até por volta da idade pré-escolar, atingindo o seu pico. Posteriormente começa a verificar-se uma estabilização ou um declínio dos mesmos, na idade escolar (Ozonoff, Rogers & Hendren, 2003).

As características do comportamento variam muito de pessoa para pessoa e, mesmo na mesma pessoa ao longo do tempo, induzindo perfis clínicos muito variados ainda que todos eles revelem expressões do mesmo espectro. Além da diversidade das expressões comportamentais existe também uma multiplicidade de capacidades cognitivas que podem variar desde a superior, à média, ao atraso mental profundo.

O comprometimento da linguagem é uma perturbação que se salienta nestas crianças. Mesmo quando dotado de linguagem estas crianças evidenciam grande dificuldade em estabelecer um diálogo, utilizando um discurso monocórdico de linguagem repetitiva e com dificuldade em compreender as frases mais simples (Pereira, 2005).

O contacto afetivo também é um aspeto pouco reconhecido por estas crianças. Mantêm-se alheias a este tipo de afetos mesmo demonstrados pelos familiares mais próximos. Parecem viver

num mundo à parte, num mundo só seu onde as pessoas surgem de vez em quando para servirem exclusivamente os seus interesses (Pereira, 2005).

A obsessão por atividades repetitivas é outra das suas características. Estas crianças conseguem passar horas a movimentar partes do corpo (rodar as mãos, balançar…),a rodar objetos (tampas de frascos, rodas dos carros,…), a ligar e desligar interruptores, a formar composições de blocos.

A forma como o autismo interfere no desenvolvimento das pessoas leva-as a viver num mundo muito próprio. Elas apresentam uma forma muito específica de pensamento e de funcionamento que se distingue pela dificuldade em compreender e responder de forma adequada às solicitações do meio ambiente, selecionar e processar informação, responder a estímulos sensoriais.

A pessoa com autismo tem na maioria das vezes uma aparência física “normal”. No entanto, apesar desta pluralidade individual, apresenta como já explicitámos dificuldades específicas nas três grandes áreas do desenvolvimento: na comunicação, na interação social e na imaginação e compreensão social. Esta tríade de perturbações na área do desenvolvimento foi estudada por Lorna Wing e ficou mundialmente conhecida pela “tríade de Lorna Wing”.É com base nesta tríade e na avaliação direta do comportamento das crianças que é feito o diagnóstico clínico.

As perturbações na interação social relacionam-se com o comprometimento na habilidade em se relacionar com os outros (dificuldade em interpretar sinais sociais e compreender as regras implícitas), na incapacidade de partilha de sentimentos, emoções, gostos (não reconhecem as emoções dos outros e nem sabem reagir às mesmas, têm reações emocionais desadequadas às situações) e dificuldade na distinção entre pessoas diferentes. A sua forma de apresentação diferencia-se desde o isolamento, com tentativas de evitar e ignorar o contacto físico ou social com os outros, até formas menos intolerantes em que as pessoas procuram o contacto social, no entanto de forma unilateral e inadequada (Wing, 1997).

As alterações na comunicação referem-se às dificuldades de emissão e de compreensão de sinais sociais não-verbais, pré verbais e verbais, diminuição do desejo de conversar e, num grau mais complexo, diminuição do desejo de falar sobre sentimentos e troca de experiências (Wing, 1997). Segundo Telmo e Equipa Ajudautismo (2006) cerca de 50% das pessoas com espectro do autismo não desenvolvem linguagem durante toda a sua vida. No entanto, dentro da diversidade

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possível na severidade do autismo poderemos encontrar crianças sem linguagem verbal (como a cima referimos), bem como crianças com linguagem verbal onde apresentam um vocabulário restrito, repetitivo e não comunicativo (recorrendo à ecolalia – repetição de palavras, frases ou expressões), e com uma prosódia estranha (a entoação, o volume, a velocidade e o ritmo, surgem de forma incomum; o tom de voz pode ser monótono ou conter elevações interrogativas no final das frases). As crianças com linguagem dentro da média apresentam frequentemente um conteúdo alterado, descontextualizado ou um discurso formal, demasiado pormenorizado e exaustivo. Apresentam ainda grande dificuldade em respeitar a sua vez de falar, mantendo uma postura rígida no seu discurso sem dar a oportunidade aos outros de participarem, dificultando assim o diálogo (Bandeira, 2012).

Quanto às limitações da habilidade da imaginação e da compreensão social, estes caracterizam-se pela rigidez e incapacidade de identificar o sentido e a finalidade dos comportamentos dos outros. Assim sendo, a imitação dos comportamentos sociais, quando acontecem, surgem de forma mecânica e associados ao contexto. Este comprometimento surge de igual forma quando surge a brincadeira de faz de conta, pois esta envolve o ato de imaginar, de vivenciar sentimentos e pensamentos, existentes somente num plano imaginário. Devido a esta complexidade este tipo de brincadeiras nas crianças autistas assume padrões estereotipados e repetitivos (Bandeira, 2012; Wing, 1997).

Segundo Wing (1997) a tríade de perturbações está associada a padrões repetitivos de atividade, sendo relevante esta recorrência para o diagnóstico do espectro do autismo. Relaciona-se com padrões fora do comum, de atividades escolhidas repetidamente pela própria criança. As manifestações variam bastante mas as alternativas são limitadas, com predisposição para atividades estereotipadas.

Contudo é importante realçar que a ocorrência de comportamentos repetitivos e isolados não se traduzem necessariamente num diagnóstico de espectro do autismo. Por exemplo crianças com deficit sensorial podem apresentar estereotipias e comportamentos ritualizados sem, no entanto, apresentarem alterações nas demais áreas da tríade.