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O conceito de transição é um processo de reconhecimento de uma fase, de uma condição ou estado para outros (Meleis, 2010; Kralik, 2002; Meleis et al, 2000; Chick & Meleis, 1986). Assume-se como um processo que ocorre no tempo que envolve desenvolvimento, fluir de um estado para outro, podendo significar uma mudança: no estado de saúde, de identidade, nas relações de papel, nas expectativas ou competências, o que leva a uma mudança nas necessidades de todos os sistemas da pessoa humana. Assim, a transição leva a que invariavelmente a pessoa incorpore um novo conhecimento no sentido de rever os seus comportamentos, o que conduz a uma nova definição do self no contexto social, dizendo respeito ao período que medeia esta mudança de estado, mudança de papel, de relações, padrões de comportamento entre outros.

A transição está necessariamente relacionada com a mudança e o desenvolvimento, pertencendo ao domínio da Enfermagem quando estas mudanças dizem respeito à saúde e à doença, ou quando as respostas a esta transição se manifestam nos padrões de saúde da pessoa. A transição refere-se assim à transformação, e resulta em alterações na vida, na saúde, nas relações e ambiente, referindo-se quer ao processo quer aos resultados (Meleis, 2010; Meleis et al, 2000; Chick & Meleis, 1986).

Há transições que exigem cuidados especiais, nomeadamente a transição para a parentalidade (Bayle, 2008; Mercer, 2004; Schumacher & Meleis, 1994).

O EXERCÍCIO DA PARENTALIDADE DE CRIANÇAS COM PERTURBAÇÃO DO ESPECTRO DO AUTISMO: UM NOVO OLHAR SOBRE O CONCEITO

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A parentalidade é designada como um processo de transição e as competências referentes ao papel parental assumem extrema importância nos processos de transição que a criança/família/comunidade possam experimentar face à promoção da saúde e prevenção da doença. Desenvolve-se uma dimensão construtivista dos cuidados de saúde, mobilizando estratégias efetivas no cuidar que promovam a saúde e o desenvolvimento harmonioso da família.

A aquisição e desenvolvimento do novo papel vai-se desenvolvendo ao longo da gravidez e vai ajudar a refletir e delinear o projeto de Parentalidade, preparando os pais, para a sua nova tarefa de ser mãe/pai. É através deste laço afetivo de vinculação, como qualquer tipo de comportamento que dê origem a uma pessoa, de criar ou manter uma relação de proximidade com o outro devidamente identificado e que é reconhecido como alguém capaz de lidar com o mundo, que os pais se vão ligar efetivamente à criança, favorecendo um processo de reestruturação da vida familiar, de modo a incorporar verdadeiramente a existência do seu filho (Abreu, 2010; Bowlby, 1998). Reforçando esta mesma ideia, Alves (2005) descreve o vínculo afetivo entre pais e filhos como um processo contínuo que se inicia na gestação, e se vai desenvolvendo na medida em que as interações vão ocorrendo.

Conforme temos a oportunidade de verificar, a transição para a parentalidade constitui uma mudança no exercício do papel, envolvendo novas competências cognitivas, motoras e sociais. Todas estas transformações favorecem o crescimento da mulher e do homem e são congruentes com as teorias de desenvolvimento psicosocial e de transição. Surge assim uma adaptação à parentalidade onde o apoio requer o contacto com os pais de forma efetiva: desenvolvendo a sua autoestima, respeitando as suas crenças culturais, promovendo as interações entre pais e filhos, incentivando os pais a expressar as suas expectativas e motivando-os para a aprendizagem e desenvolvimento de habilidades, compreendendo as relações conjugais e o funcionamento da família (Mercer, 2004). Para esta autora existem três componentes que são fundamentais para adaptação à parentalidade: a ligação ao bebé, a obtenção de competências nos comportamentos de Maternidade/Paternidade e a expressão de recompensa pelas interações paterno/materno- infantis. Deste modo, o papel parental inclui, por inerência, a definição clara de interação de papéis, visando um desempenho eficaz na participação de cuidados à criança. Ainda segundo a mesma autora e para que este desempenho seja eficaz, é necessário que haja uma adaptabilidade à parentalidade, que passa por quatro fases: (1) Antecipativa - que se inicia durante a gravidez e

engloba adaptação física, psicológica e social à gravidez; (2) Formal - aquando o nascimento e engloba aprendizagem e desempenho do papel de mãe/pai; (3) Informal - quando a mulher/homem desenvolvem competências do papel que não foram transmitidas pela sociedade e (4) Pessoal – que corresponde ao desenvolvimento da autoconfiança e autoestima e à produção de um estilo próprio de desempenho quando acontece a interiorização do papel de mãe/pai (Mercer, 2004). Acontece então um processo de interação e de desenvolvimento ao longo do tempo, durante o qual a mãe e o pai adquirem competências para cuidar do seu filho. O comportamento parental vai incluir a alimentação, o carinho, a preocupação, o ensino, a proteção e o amor que realçam/aumentam o desenvolvimento da criança a nível físico, emocional, social e cognitivo até ser adulto (Mercer, 2004; Maldonado, 1985).

Todo este processo de mudança no exercício parental implica mudanças na vida dos pais, no sentido que a parentalidade é um processo maturativo que leva a uma reestruturação psicoafectiva, permitindo à mulher/homem tornar-se mãe/pai, isto é, responder às necessidades físicas, afetivas e psíquicas do seu filho que numa perspetiva antropológica designa os laços de aliança, filiação (Katz-Wise; Priess & Hyde, 2010; Boyle et al, 2007). Este processo de mudança de identidade, papéis, funções dos pais e de toda a família engloba: satisfazer as necessidades básicas de sobrevivência e saúde da criança; disponibilizar à criança um mundo físico organizado e previsível (…) que possibilite a existência de rotinas; dar resposta às necessidades de compreensão cognitiva das realidades familiares, pois é através dos pais que as crianças interagem com o mundo exterior; satisfazer as necessidades de afeto, confiança e segurança que se traduzem pela relação de vinculação e, ainda, satisfazer as necessidades de interação social da criança e sua integração na comunidade (Cruz et al, 2005). Nesta ordem de ideias podemos considerar a parentalidade como um projeto de vida.