1.3 Sun- & Starspot Anatomy
1.3.1 Other Stellar Surface Features
Com efeito, esta dilaceração da vontade dá-se pela debilidade do livre arbítrio que a faz deleitar com os bens inferiores, fazendo mau uso dos bens terrenos e, sobretudo, quando apetece à criatura mais que ao Criador, conforme se lê no Sobre a Cidade de Deus:
A beleza do corpo, bem criado por Deus, mas temporal, ínfimo e carnal, é mal amado, quando o amor a ele se antepõe ao devido a Deus, bem eterno, interno e sempiterno. Entretanto, assim como o avaro, abandonando a justiça, ama o ouro, o pecado não é do ouro, mas do homem. E assim sucede a toda criatura, pois, sendo boa, pode ser amada bem ou mal. Amada bem, quando observada a ordem; mal quando pervertida (De civ. Dei, XV, 22). O pecado é a corrupção moral do homem através do livre arbítrio da vontade. Entretanto, embora Agostinho tenha, suficientemente, demonstrado que Deus não é o autor do mal, Evódio questiona, no diálogo Sobre o Livre Arbítrio, se não haveria em Deus uma responsabilidade indireta pelo mal praticado pelo homem, uma vez que o dotou de uma faculdade pela qual pode pecar. Em outras palavras, se não seria um mal o livre arbítrio e não devesse Deus tê-lo concedido aos homens27.
[...] quanto a esse mesmo livre-arbítrio, o qual estamos convencidos de ter o poder de nos levar ao pecado, pergunto-me se Aquele que nos criou fez bem de no-lo ter dado. Na verdade, parece que não pecaríamos se estivéssemos
modo algum, pois, caso o fosse, seria a negação daquela ordem muito perfeita de que o mais forte mande no menos forte. Por isso, é necessário, a meu entender, que a mente seja mais poderosa do que a paixão e pelo fato mesmo será totalmente justo e correto que a mente a domine” (De lib. arb., I, 10, 20).
26E mais adiante interroga: “Com efeito, haveria alguma coisa que dependa mais de nossa vontade do que a
própria vontade?” (De lib. arb., I, 12, 26).
27O livre arbítrio é concedido por Deus e, como tal, é necessário que seja um bem: “Com efeito, se fosse incerto
que Deus nos tenha concedido a vontade livre, nós teríamos o direito de indagar se foi bom ela nos ter sido dada. Desse modo, se descobríssemos que foi bom, igualmente, reconheceríamos o doador naquele que deu ao homem todos os bens. Ao contrário, se descobríssemos que foi mal, teríamos de compreender que o doador não é Aquele a quem não é permitido incriminar algo que seja. Mas sendo certo que o próprio Deus nos deu essa vontade livre, qualquer seja a forma como recebemos esse dom, devemos confessar que Deus não estava obrigado de no-lo dar como foi dado nem de modo diferente” (De lib. arb., II, 2, 4).
privados dele, e é para setemer que, nesse caso, Deus mesmo venha a ser considerado o autor de nossas másações (De lib. arb., I, 16, 35b).
De fato, poderia Deus ter criado o homem sem a capacidade de escolher, ou mesmo, tê-lo dotado de um livre arbítrio pelo qual devesse praticar apenas o bem que, em última instância seria o mesmo. Deste modo, tornar-se-ia desnecessário, porque é sem razão de ser e funcionalidade, um livre arbítrio pelo qual, invariavelmente, fossem cumpridas somente boas ações. Se o homem fosse determinado a fazer o bem, por sua própria natureza, praticá-lo jamais seria uma escolha. Aceitarmos este determinismo seria incorrermos em não distinto erro que o cometido pelo Maniqueísmo, atribuindo o agir humano a uma disponibilidade natural e, consequente e indiretamente, a Deus, por tê-lo criado de tal modo. Se assim o fosse, teria mais sentido a pergunta sobre o porquê de Deus ter concedido ao homem o livre arbítrio.
O livre arbítrio da vontade é um bem em si mesmo, primeiramente, por ser dom de Deus, que é Sumo Bem (cf. De lib. arb., II, 18, 47), ademais, se fosse concedido para a prática do mal, injustamente recairia sobre os maus o castigo, os quais estariam se servindo de um dom para o usufruto mesmo para o qual lhes foi dado. Com efeito, seria outra incoerência, dado o próprio conceito de natureza (boa enquanto tal), que o Sumo Bem tivesse criado o homem dotado de um instrumento cuja finalidade seria corrompê-lo. Tendo Deus criado o homem bom, não poderia determinar-lhe a privação do Bem como telos, senão atribuir-lhe uma vontade livre pela qual possa escolher permanecer bom, tal como fora criado. Em razão disto, o livre arbítrio é um bem e, mais que isto, sem ele seria impossível o homem viver retamente (cf. De lib. arb., II, 18, 47-49).
Destarte, tudo o que procede de Deus é um bem, inclusive o próprio corpo, e o fato de muitos se utilizarem dele de modo inconveniente não implica dizer que Deus não o deva ter dado, pois o mal, porque defecção do bem, não está nas próprias coisas (boas), mas no mau uso que delas a vontade faz28, ao preferir os bens inferiores aos superiores, o exterior ao interior, os bens corporais aos espirituais, afastando-se do Bem Imutável e deleitando-se com as coisas por Ele criadas. O pecado, por seu turno, é a livre negação humana de sua condição partícipe de Deus:
28“Ora, entre os bens corpóreos, encontra-se no homem alguns de que ele pode abusar, sem que por isso digamos
que esses bens não lhes deveriam ter sido dados, pois reconhecemos serem eles um bem. Sendo assim, o que há de espantoso que exista no espírito também abusos de alguns bens, mas que, por serem bens, não puderam ter sido dados a não ser por Aquele de quem procedem todos os bens? Com efeito, vês que grande privação é para o corpo não ter as mãos, e contudo acontece que há quem use mal das próprias mãos.” (De lib. arb., II, 18, 48)
Assim, pois, a vontade obtém, no aderir ao Bem imutável e universal, os primeiros e maiores bens do homem, embora ela mesma não seja senão um bem médio. Em contraposição, ela peca, ao se afastar do Bem imutável e comum, para se voltar para o seu próprio bem particular, seja exterior, seja inferior. Ela volta-se para seu bem particular, quando quer ser senhora de si mesma; para um bem exterior, quando se aplica a apropriar-se de coisas alheias, ou de tudo o que não lhe diz respeito; e volta-se para um bem inferior, quando ama os prazeres do corpo. Desse modo, o homem torna-se orgulhoso, curioso e dissoluto; e fica sujeito a um tipo de vida a qual, em comparação à vida superior anteriormente descrita, é antes morte (De lib. arb., II, 19, 53).
Pela vontade, o homem tem a potencialidade de dirigir-se a Deus que o capacita à prática das virtudes e no qual reside a vera vita beata29, muito embora esteja impossibilitado de o fazer por suas próprias forças, uma vez, voluntariamente, decaído ao pecado. Por ele, o homem deve apetecer aos bens superiores, como a justiça, embora possa desviar-se destes, abraçando toda sorte de bens inferiores que não lhe convêm. Embora o livre arbítrio seja um bem30, há nele certa defectibilidade da qual procede o pecado:
Ora, todo bem procede de Deus. [...] Considera, agora, de onde pode proceder aquele movimento que nós reconhecemos constituir o pecado – sendo ele movimento defeituoso, e todo defeito vindo do não-ser, não duvides de afirmar, sem hesitação, que ele não proceda de Deus. Tal defeito, porém, sendo voluntário, está posto sob nosso poder (De lib. arb., II, 20, 54). Não obstante,
[...] aqueles bens desejados erroneamente pelos pecadores, e que os levam à vida infeliz, embora inferiores, não são maus em si. Tampouco é a má vontade livre do homem, a qual, como averiguamos, é preciso ser contada entre os bens médios. Mas o mal consiste na aversão da vontade ao Bem imutável para converter-se aos bens transitórios. Por sua vez, essa aversão e essa conversão não sendo forçadas, mas voluntárias, o infortúnio que se segue será um castigo justo e merecido (De lib. arb., II, 19, 53).
Portanto, conversão e aversão são movimentos da alma humana. A esta bastou o arbítrio da vontade; porém aquela é irrealizável sem Deus. No entanto, se a conversão não se opera sem Deus, tampouco se realiza sem o concurso da vontade humana. Com efeito, o livre
29“Consequentemente, quando a vontade – esse bem médio – adere ao Bem imutável, o qual pertence a todos em
comum, e não é privativo de ninguém, do mesmo modo aquela Verdade da qual temos dito tantas coisas, sem nada termos podido falar dignamente – quando a vontade adere ao Sumo Bem, então o homem possui a vida feliz” (De lib. arb., II, 19, 52).
30Na hierarquia de bens, o livre arbítrio ocupa uma posição intermediária, um bem médio, entre as virtudes que
deve almejar e a transitoriedade que deve evitar: “Portanto, as virtudes pelas quais as pessoas vivem honestamente pertencem à categoria de grandes bens. As diversas espécies de corpos sem os quais pode-se viver com honestidade, contam-se entre os bens mínimos. E por sua vez, as forças do espírito, sem as quais não se pode viver de modo honesto, são bens médios. Das virtudes, ninguém usa mal; todavia dos outros bens, isto é, dos médios e dos inferiores, pode-se fazer seja bom, seja mau uso. O motivo pelo qual ninguém usa mal das virtudes é que a obra virtuosa consiste precisamente no bom uso daquelas coisas das quais podemos também abusar. Ora, o bom uso nunca pode ser um abuso” (De lib. arb., II, 19, 50).
arbítrio foi dado para que houvesse justiça divina. Ora, sem ele o homem não praticaria o mal, porém, o bem praticado não seria uma escolha. Não haveria merecimentos ou castigos pelo bem ou o mal realizado e, menos ainda, a justiça com que Deus pune os que, indevidamente, utilizam-se de tal potencialidade para empreender má conduta. Apesar de o livre arbítrio ser instrumento pelo qual se pratica o mal, foi concedido ao homem para que, por ele, fizesse livre adesão ao bem. Logo, não é sem propósito que o ser racional o possui.
Pois, se é verdade que o homem em si seja certo bem, e que não poderia agir bem, a não ser querendo, seria preciso que gozasse de vontade livre, sem a qual não poderia proceder dessa maneira [...]. Há, pois, uma razão suficiente para ter sido dada, já que sem ela o homem não poderia viver retamente. Ora, que ela tenha sido dada para esse fim pode se compreender logo, pela única consideração de que, se alguém se servir dela para pecar, recairão sobre ele os castigos da parte de Deus. Ora, seria isso uma injustiça, se a vontade livre fosse dada, não somente para se viver retamente, mas igualmente para se pecar. Na verdade, como poderia ser castigado, com justiça, aquele que se servisse de sua vontade para o fim mesmo para o qual ela lhe fora dada? (De lib. arb., II, 1, 3).
Apesar de haver uma cisão na vontade humana, não é esta sua finalidade. Sua essência é a unidade, razão pela qual ela não é passiva diante da atuação da graça, ao contrário, une o homem ao conhecimento e ao amor de Deus. Segundo Mariana Palozzi Cunha:
O que caracteriza a vontade em Agostinho não é seu dilaceramento; ele pode existir, mas não é sua essência. O fim último dela é a sua unidade. A questão do amor, da graça, da memória e da inteligência, ligadas à vontade, definem- na de modo diferente, especial e novo. A vontade é um bem médio e sua finalidade última é conduzir à aquisição dos bens maiores; sua função primordial, portanto é “unitiva”, tal como o amor, que é uma vontade mais intensa e que une (apesar de também poderem separar) (2011, p. 60). O conflito que dilacera a vontade é, pois, efeito do pecado. É o pecado responsável pelo movimento aversivo da vontade. Tendo esclarecido esta cisão pela qual a vontade tende à virtude ou ao vício, analisemos, por conseguinte, esta inclinação ao pecado como um distanciamento do normativo, pois, com efeito, a vontade ora inclina-se ao pecado, ora ao dever que o nega, sendo ela, portanto, movimento entre o pecado e a normatividade, tal como intitulamos este capítulo.