Chapitre II. Statistiques et param` etres usuels
1. Statistiques et param` etres de position usuels
vernáculo dos autores das atas e, por isso, poderia a fala estar em um estágio mais avançado do que aquele que se observa nos textos escritos por afro-brasileiros do século XIX. Entretanto, como mostram alguns estudos sobre o dativo no PB (GOMES, 2003a; BARROS, 2008; LUCCHESI; MELLO, 2009; CAVALCANTE, 2009), a preposição para como alternante da preposição a parece ser um fenômeno contemporâneo, pois teria se expandido apenas no final do século XIX, tendo se alcançado uma frequência ainda maior no final do século XX.
4.4.4 Ordem linear das construções dativas98
Como já se sabe, a posição que o dativo ocupa é crucial para a observação das construções ditransitivas, já que há, prototipicamente, dois tipos: COD e CDP, conforme apontam Torres Morais (2007) para o PE e Cuervo (2003) para o espanhol. Para os propósitos do que é discutido na seção 4.5, a seguir, foi observada no corpus a posição aparente do complemento dativo em relação ao predicado, a fim de verificar seu comportamento em relação à estrutura sintática. Os dados de dativos que foram levantados se manifestam em diferentes ordens lineares, conforme apresentado nos exemplos (53)-(57).
(53) Posição adjacente ao verbo seguido de DP acusativo: V DAT ACC
pois que O Senhor Antonio Jozé Gomes dando le a mais de 6 mezes a quantia
de 5/000 réis (AJB, p. 80)
(54) Posição posposta ao acusativo: V ACC DAT
he que trabalha que não quer ter 1 lucro, deu hum a parte O Socio Bracete a qui não Cadeira de lentes para Se dar premios aos alumos, (AJB, p. 73)
(55) Ordem VSO: V Suj. DAT (ACC)
a vista deste resurtado Ordenou o Senhor Pri zidente ao Socio Vizitador Manoel Francisco que foise a Caza do Senhor Socio Bento (AJB, p.39)
(56) Posição à esquerda do predicador: ACC V DAT
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O predicador é representado pela letra V, embora nem sempre venha a ser um verbo, mas um nome, por exemplo.
Maria da Solidade Pedindo a pencaõ qu Si dava a Bermira Vó da menor Thereza (LSS, p.380)
(57) Posição adjacente seguido de sentença pesada: V DAT S-ACC
Ordenei ao Senhor 1º Secretario que tomace em huma Lista separada <o nomem> dos Senhores Socios que Se a chavam Comprendidos mo Artigo 37(AJB, p.16)
Os exemplos dados em (53) e (54) representam as duas estruturas básicas que correspondem ao fenômeno da alternância dativa, conforme já discutido. O dativo ocorre em posição mais alta que o OD (cf. 53) ou em posição mais encaixada (cf. 54). Em (53), o dativo está em posição adjacente ao verbo, enquanto, em (54), o dativo é preposicionado e geralmente posposto ao argumento acusativo, salvo os casos de acusativo nulo, já que não se pode ter certeza da sua posição na estrutura. Vale ressaltar que, assim como a ênclise, a próclise do clítico dativo - uso bastante generalizado no PB atual - apesar de ocorrer na superfície anteposta ao verbo, pode se enquadrar nos casos de ordem linear como aquela em (53). Como afirma Torres Morais (2007) para o PB, mesmo em próclise, o clítico dativo se constitui em uma ordem DAT-ACC, porque, mesmo assim, o complemento dativo estará antecedendo o complemento acusativo.
No exemplo em (55), a sentença exibe a ordem VS (Verbo-Sujeito). Esse tipo de estrutura ocorre em muitos dos dados levantados nas atas, provavelmente por questões estilísticas, que é uma das possibilidades do PB, devido às propriedades que o PB possui, por se tratar de uma língua que permite sujeito nulo, pelo menos, nos últimos séculos. Apesar de aparentemente o sujeito estar intercalado entre o núcleo predicador e o dativo, este tipo de ordem não influencia no tipo de construção em que o complemento dativo ocorre, porque o sujeito está em uma posição em que não há relação de c-comando com o argumento dativo.
A ordem linear em (56) mostra que o complemento acusativo está anteposto ao verbo. Ora como sujeito de uma relativa, como no exemplo, ora como sujeito paciente de uma sentença passiva. O complemento acusativo, como neste caso, ocorre nulo em sua posição original.
Por último, a sentença em (57) apresenta os casos das estruturas em que o dativo é obrigatoriamente realizado em posição adjacente ao verbo, dado que os complementos acusativos, por se constituírem em um CP pesado, ocorrem quase sempre no fim da sentença, construindo a ordem V OI OD. Esse tipo de construção geralmente ocorre com os verbos de
transferência verbal/perceptual, conforme o exemplo em (57) acima.
A distribuição dessas ocorrências é ilustrada na Tabela 11 a seguir.
Tabela 11: Ordem linear das construções dativas
Ocor./%
V DAT ACC99 184/54
V ACC DAT 74/22
V Suj. DAT (ACC) 2/1
ACC V DAT 20/5
V DAT S-ACC 55/16
Total 335
Os dados na tabela 11 mostram que, quando o complemento dativo é realizado, a ordem preferencial é V DAT ACC, com 54% de um universo de 335 ocorrências dos dados levantados, enquanto a ordem V ACC DAT representa apenas 22% do total de ocorrências.
Por motivações estilísticas ou até mesmo por motivações sintáticas, como se pôde observar anteriormente, o dativo pode se apresentar em diferentes ordens lineares. É sabido, no entanto, que, por questões de c-comando e checagem de traços semânticos e de Caso, essas construções são bastante rígidas em sua composição sintática básica. Apesar disso, para os propósitos da minha análise, não são consideradas aquelas ordens que fogem ao padrão prototípico representado por (53) e (54) acima, pela imprecisão das posições básicas dos DPs envolvidos.
Ao longo da seção 4.4, discuti as tendências linguísticas do complemento dativo no século XIX, comparando, às vezes, os resultados encontrados nas atas do século XIX a outras análises já existentes sobre o PB e o PE em diversos períodos (BERLINCK, 1997; GOMES, 2003a; TORRES MORAIS, 2007; TORRES MORAIS; BERLINCK, 2006; BARROS; RIBEIRO, 2011; CAVALCANTE; FIGUEIREDO, 2009) com o propósito de averiguar possíveis mudanças linguísticas a partir das atas dos afro-brasileiros do século XIX no que tange à configuração da expressão do dativo. Na próxima seção, analiso o corpus dos afro- brasileiros do século XIX em relação às propriedades sintáticas do dativo com base nas análises apresentadas no capítulo anterior, sobretudo do PE (TORRES MORAIS, 2007) e do PB atual (ARMELIN, 2011).
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