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De um modo geral, os dativos realizados fonologicamente podem se apresentar na forma de pronome forte, como “a/para ela, ele, mim” (cf. 24); clítico como me, lhe, te, etc. (cf. 25); DP lexical como “casa de Santa Maria”, “o sócio Joaquim”, etc. (cf. 26); e na forma nula, como foi mostrado na seção anterior. A distribuição das formas dat ivas realizadas encontra-se na Tabela 6.

Como se vê na tabela 6, a estratégia nula do dativo é majoritária. São 1349 ocorrências, o que corresponde a 80% das ocorrências. Neste momento, esse número corresponde a todas as ocorrências encontradas independentemente do traço de referencialidade, tratada na seção anterior.

Além disso, a tabela 6 mostra que houve somente três casos com dativo na forma de

pronome forte, número que representa menos que 1% dos dados (cf.24). No PE, como se viu

na seção 3.3.2, o pronome tônico ocorre apenas em construções de redobro, em que estabelece uma relação anafórica com o clítico dativo. Para saber se as atas correspondem a um padrão semelhante a esse, observou-se também a realização de construções dativas redobradas no

corpus. O resultado do levantamento mostra que houve apenas um caso de redobro com o

clítico dativo (cf. 24b).

(24) DP pronome forte

a.Pedindo que a Pencaõ qi sidava a Bermira a Vó da menor Thereza da Solidade que Seja dada a ella Vesto a dita menor Esta nu Seu puder (LSS, p.378)

b. O SenhoPresidente Francisco Diogo Ribero tinha lhi Officiado a elle

Vesce Presidente para a Sumir a Prisidencia durante quinze dias pois elle Tabela 6: Distribuição do dativo nas suas várias formas de representação

OCORRÊNCIA FREQUÊNCIA

Clítico 54 3%

DP lexical 278 16%

Pronome Forte 3 0,2%

achava duente (LSS, p. 433)

A estratégia do clítico teve representação baixa em relação às demais, com 3% da frequência nos dados levantados em comparação às demais formas. Vale ressaltar que não foram levantados apenas os casos de clíticos de terceira pessoa lhe/lhes (34 ocorrências), mas também nas formas me (14 ocorrrências) e nos (6 ocorrências), por também serem consideradas relevantes, haja vista que se diferenciam apenas em relação ao traço formal de pessoa, mas que, sintaticamente, têm a mesma natureza (cf. 25). Vale comentar, também, que não foram encontradas ocorrências de dativos nas formas clíticas te e vos.

(25) Clítico dativo

e disse O Senhor Socio naõ res-ebeo hu escristo que eu lhi mandei por hum a prendis de Seu Sobrinho (AJB, p. 69)

A forma de nome/DP lexical é a segunda mais produtiva do grupo daquelas que se realizam fonologicamente, com 17% das ocorrências. Esse número se refere a todo DP independentemente do seu traço referencial.

(26) DP Lexical

a. Foi lida a acta da Sessão anterior o qual O Senhor Prisidente pascou a Cadera da Prizidencia au Vesce Prisidente por quinze dias (LSS, p. 384)

Uma vez descritas as diversas formas do dativo encontradas nas atas, discuto a partir de agora a questão da mudança sintática que teria ocorrido na expressão do dativo no PB com a reforma do sistema pronominal, conforme sugere Torres Morais (2007). Segundo a autora, a baixa produtividade do clítico e o aumento do uso do dativo nulo no PB é resultado de uma reorganização no sistema pronominal, sobretudo, no que se refere à terceira pessoa do discurso. Esse fato é comprovado nos estudos de Berlinck (1997; 2001) em que se observam: i) o aumento gradativo do dativo nulo anafórico no período entre os séculos XVIII e XIX, conforme se viu na seção 4.4.1, ii) e a queda do clítico dativo de terceira pessoa nos mesmos

corpora: 93% na primeira metade do século XVIII, diminuindo para 77% na segunda metade

do mesmo século, passando para 71% na primeira metade do século XIX e, enfim, caindo para 67% no final do mesmo século. Comparando com os 3% da frequência de clíticos dativos nas atas mostra que a redução é ainda maior.

Ao contrário do que ocorre com o PB, o PE atual apresenta uma situação bem diferente. O estudo de Freire (2000) sobre a fala culta brasileira e europeia revela que o clítico de terceira pessoa é a forma privilegiada de realização do dativo na variedade europeia, com 83% de casos nos dados levantados pelo autor, enquanto, no PB, não se observou nenhum dado de clítico lhe. Além disso, os dados do autor mostram que somente no PB há realização do pronome tônico como estratégia de expressão do caso de dativo no lugar do clítico. Em se tratando do PE, Torres Morais (2007) não encontra casos de pronomes tônicos como estratégia de retomada anafórica, conforme discutido na seção 3.3.2. O exemplo da agramaticalidade na realização do pronome tônico em Torres Morais pode ser verificado em (27), a seguir.

(27) *João deu a ele um computador

(TORRES MORAIS, 2007, p. 105)

Este quadro é particularmente relevante, porque evidencia que o PB realmente mostra ter passado por uma reanálise na configuração da expressão do dativo, terminando por não refletir uma gramática, ao menos em relação a este aspecto, com o mesmo padrão europeu, conforme discute Torres Morais (2010).

Devido à inserção do pronome sujeito de segunda pessoa com traços formais de terceira pessoa você/vocês no PB, a forma do clítico dativo de terceira pessoa tem passado por um notável processo de mudança em seu uso, a começar pelo seu uso expandido com interpretação de segunda pessoa do discurso90. Aliado a isso, o fenômeno de reinterpretação do dativo de terceira pessoa como acusativo de segunda pessoa no PB, substituindo a forma te da segunda pessoa por lhe, teve como consequência o surgimento de uma nova forma para a expressão de retomada anafórica do dativo: o pronome lexical dativo (a ele/ela e para ele/ela). Tal como aconteceu com os pronomes possessivos de terceira pessoa, as formas

seu/sua/seus/suas, por apresentarem ambiguidade quanto ao traço formal de pessoa, ora

interpretado como segunda, ora, como terceira pessoa, passaram a ser atribuídas pelo falante do PB apenas à segunda pessoa, correspondendo a você/vocês e a serem substituídas pelas formas dele/dela/deles/delas para indicar a terceira pessoa, correspondendo a ele/ela.

Sabe-se que a mudança é aspecto inerente às línguas, já que toda sincronia tem seu lado conservador e seu lado inovador e, de maneira recorrente, uma dessas estratégias

90

permanece enquanto a outra se extingue. Por isso, tomando como ponto de partida: i) a afirmação de Ribeiro (1998) de que o português implantado no Brasil dos séculos XVIII e XIX era formado ao menos por duas gramáticas em competição, a primeira atendendo mais ao padrão europeu da época (mais conservador) e a outra com traços mais característicos do país (mais inovador) e, ii) a afirmação de Torres Morais (2011) de que a alta produção de dativos nulos no PB e o uso das formas pronominais plenas seriam inseridas no PB como novas estratégias de retomada anafórica, em substituição do uso dos clíticos, como mostram também os trabalhos de (BERLINCK, 1997; 2001; FREIRE, 2000; 2005), decidi retirar as ocorrências dos não-anafóricos e analisar apenas as ocorrências de dativo anafórico no corpus, a fim de checar se o padrão encontrado nas atas reflete uma gramática mais conservadora ou mais inovadora – com a entrada de novas estratégias para expressão do dativo anafórico (cf. Tabela 7).

Os resultados sobre as formas de expressão do dativo apontam que, do ponto de vista quantitativo, a forma nula é a mais frequente dentre as possibilidades de estratégias de retomada de um correferente anterior, correspondendo a 54% dos dativos. A segunda estratégia de retomada anafórica utilizada nas atas é o DP lexical, com 32% das ocorrências (cf.28). Já a estratégia clítica fica em terceiro lugar, apresentando uma frequência de 13% dos dados (cf. 29). Por último, o pronome lexical corresponde a apenas 1% dos anafóricos (cf. 29).

(28) Dativo anafórico – DP lexical

oIrmão Thezoureiro Atual tomou conta do que havia como consta do Livro de Inventario a folha 1a. e aSinou do que se fes este termo. [...] Assim como fica aguiado para adita Reuniaõ sepassar aportaria ao Irmão Thezoureiro para

Tabela 7: O dativo anafórico nas atas do século XIX

OCORRÊNCIAS FREQUÊNCIA Clítico 34 13% DP lexical 78 32% Pronome lexical 3 1% Nulos 131 54% TOTAL 246 100%

aprontar os pertence da Missa Solene danossa Padroeira como marca o Artigo 19, 20, e e 21 do nosso Compromisso, e por está Comforme mandou o Pro-vedor fazer este termo emque eu Joaquim Malaquias de Santa Anna como Secretário atual escrevi eaSignei (JMS, p.281)

(29) Dativo clítico anafórico

pedio apalavra u socio Narcizo e disse que u Senhor Prezidente, lhe-dissese quanto socio tinha pronto (SRF, p.560)

(30) Pronome lexical dativo anafórico

a. Thizoureiro mandou o Balanceiti di-Abril i Maio Comtoudos do Cumentos que

pedem aelle. (JCM, p. 335)

b.Pedindo que a Pencaõ qi sidava a Bermira a Vó da menor Thereza da Solidade que Seja dada a ella Vesto a dita menor Esta nu Seu puder (LSS, p.378)

c.O SenhoPresidente Francisco Diogo Ribero tinha lhi Officiado a elle Vesce

Presidente para a Sumir a Prisidencia durante quinze dias pois elle achava duente

(LSS, p. 433)

A análise das atas do século XIX revela que a estratégia nula, alternante à forma padrão clítica, mostra-se já em processo de expansão na escrita no português dos afro- brasileiros das atas. Por outro lado, o pronome lexical (a/para ele/ela), considerado forma inovadora por Torres Morais (2010) em substituição ao clítico, por sua baixa frequência, ao que tudo indica, parece ainda não estar consolidado no recorte analisado, mas, provavelmente, esteja em momento de implantação no PB, dada a sua ocorrência no corpus, ainda que mínima.

Como já discutido anteriormente, o aprendizado da técnica de leitura e escrita dos brasileiros alforriados da Sociedade Protetora dos Desvalidos parece não ter ocorrido por vias formais, resultando na possibilidade de haver influência da fala na escrita, como mostra o trecho de Oliveira (2006):

sido pelos meios formais, porque nem todos os membros da SDP tiveram a „sorte‟ de Manuel Querino91 (OLIVEIRA, 2006, p. 196)

Se assim o for, esse aspecto parece importante, já que, dentro desse contexto, as atas são textos propícios a dados que evidenciam o vernáculo dos autores analisados, confirmando a hipótese de Mattos e Silva (2002; 2004) de que textos escritos por africanos e s constituiriam um corpus que refletiria os usos do português geral brasileiro.

De um lado, o uso ainda existente dos clíticos de terceira pessoa lhe/lhes no corpus, mesmo cedendo espaço para os nulos, mostra que a gramática do padrão europeu parece ainda ter tido influência, ao menos no que diz respeito à escrita, na gramática dos autores afro- brasileiros das atas. De outro lado, o uso como estratégia de retomada dos nulos, com grande frequência, e dos pronomes lexicais, mesmo com baixa frequência, são evidências da entrada de novas estratégias de dativo anafórico já no século XIX.

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