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Spatial Planning: The Adaptation of Space to Human Behaviour

Dans le document Mobility, Data Mining and Privacy (Page 74-77)

Geographic Knowledge Discovery Process

2.6 Future Application Domains for a Privacy-Aware GKDD ProcessProcess

2.6.6 Spatial Planning: The Adaptation of Space to Human Behaviour

As questões inerentes à identidade digital são um pouco semelhantes às que se enfrentam na realidade ofline. A construção da identidade depende de uma série de variáveis, de entre as quais se podem referir as que estão ligadas à hereditariedade, as que estão ligadas ao ambiente, as que dizem respeito às características pessoais ou mesmo as que se relacionam com a personalidade. A psicologia é clara nesta abordagem, mas o foco de interesse nesta investigação vai numa direção problematizadora da construção do eu, isto é, da identidade pessoal que torna cada indivíduo num ser único, singular e irrepetível que se manifesta no mundo temporalmente.

A dimensão pessoal da identidade constrói-se no jogo das individualidades que cada um vai criando. Cada pessoa tem a sua identidade pessoal que, nos mais variados aspetos, é construída socialmente e ao longo da sua vida, apesar de a estabilidade ser um elemento central nesta equação. Tal identidade que compreende características como individual, singular e única é também uma identidade conectiva, reflexiva, temporal e narrativa.

Segundo Paul Ricoeur, o problema da identidade pessoal é apenas articulável na dimensão da temporalidade inerente à existência humana (Ricoeur, 1991, p. 138), na constituição do si mesmo e, nesse sentido, a distinção entre mesmidade (cheia de exigências lógicas) e ipseidade (impõe-se pela narrativa que torna o sujeito autor da sua própria existência) manifesta-se como central, num primeiro momento. Neste contexto, insurge-se a noção de caráter, isto é, “(...) o conjunto das disposições duráveis com que reconhecemos uma pessoa.” (Ricoeur, 1991, p.146) que formam a mesmidade às quais os ‘hábitos’66 se vão juntando. Também as “identificações adquiridas” (Ricoeur, 1991,

66Afirma Ricoeur (1991, P. 146-147) que “ Cada hábito assim contraído, adquirido e tornado durável, constitui um

p.147) entram nesta equação que define identidade, manifestando uma assumida alteridade67, contribuindo para uma dialética entre o si da mesmidade do caráter com o ipse histórico pois que o caráter tem uma dimensão narrativa.

Diferentes na essência mas recobrindo-se a ipseidade pela mesmidade, a temporalidade reveste-se de uma marca universal. É aqui que podemos começar a construir o discurso sobre a identidade digital em ambiente 2.0; esta é uma identidade que se manifesta de diferentes modos pelas características pessoais que se vão dando a conhecer, até à formação de um caráter percetível a partir dessas diferentes manifestações e, neste sentido, a polaridade temporal vem impor-se como meio de encontro da identidade narrativa que oscila entre “(...) dois limites, um limite inferior, em que a permanência no tempo exprime a confusão do idem e do ipse68, e um limite superior, em que o ipse coloca a questão de sua identidade sem a ajuda nem apoio do idem” (Ricoeur, 1991, p. 150).

Os paradoxos da identidade pessoal levam a uma interpretação narrativa da identidade que implica a dialética da mesmidade e da ipseidade. A noção de narrativa ancorada no estatuto do acontecimento encaminha o estudo da identidade pessoal na passagem da ação ao personagem que é aquele que faz a ação na narrativa. Cada utilizador constrói a sua própria narrativa de vida nas diferentes formas de apropriação da realidade online (ferramentas, contactos, experiências, manifestações sensíveis como emoções, sentimentos, etc.) e visto que, pela iniciativa, o personagem (forma de manifestação do utilizador virtual) é capaz de “(...) começar uma série de acontecimentos, sem que esse começo constitua um começo absoluto, um começo do tempo, por outro lado, dando ao narrador como tal o poder de determinar o começo, o meio e o fim de uma ação” (Ricoeur, 1991, p. 175), narrador este que pode ser visto como a própria pessoa que constrói o personagem e narra essa mesma história. É a história criada pelo personagem (identidade narrativa) que constitui a própria identidade do personagem; é o narrador (identidade pessoal) que constrói essa mesma história e a vai narrando virtualmente através da temporalidade implícita nas suas vivências e naquilo que pretende transmitir.

De um misto pouco estável entre a experiência viva e a fabulação, nasce aquilo a que Ricoeur chama a “(...) unidade narrativa da vida” (Ricoeur, 1991, p. 191) - a

identificamo-la novamente como a mesma, não sendo o caráter outra coisa que o conjunto desses signos significativos.”

67 As “(...) identificações com valores, normas, ideais, modelos heróis nos quais a pessoa, a comunidade se

reconhecem. O reconhecer-se no contribui para o reconhecer-se com... (...)” (Ricoeur, 1991, P. 147)

história de vida que cada um vai construindo temporalmente e que se vai tornando como algo estável (parte do caráter). Essa história narrada nascida da dialética entre a mesmidade e a ipseidade é a identidade virtual capaz de ser criada em ambiente 2.0, pois que a identidade narrativa torna narrável o caráter, tido como sendo a mesmidade (o permanente da identidade), restituindo-lhe a narrativa, o movimento capaz de abolir as disposições sedimentadas, como afirma Ricoeur (1991, p. 196) mantendo, assim, “(...) a permanência no tempo do caráter e a da manutenção de si.” (Ricoeur, 1991, p. 196) através da temporalidade. Entre a mesmidade (unidade assente num plano lógico de estabilidade) e a ipseidade (caracterizada pelas experiências pessoais) presente na noção de identidade pessoal surge a dimensão da identidade narrativa, a identidade criada em ambiente semântico (falando numa abordagem virtual), capaz de ultrapassar esta aporia, acrescentando à ipseidade uma dimensão ao mesmo tempo ética e moral através de uma nova dimensão - a da alteridade -.

A identidade narrativa capaz de retratar o ser humano como agente exposto (paciente) e ativo (ator) no plano da circunstancialidade, marca da temporalidade, é capaz de “(...) transformar o sujeito num leitor e escritor de sua própria vida.” (Souza, n.d., IV §5), deixando de lado a análise de uma identidade pessoal como uma questão vazia como Parfit o fez através dos puzzling cases.

Como parte da constituição ontológica da ipseidade, a alteridade tem um caráter polissémico em que o outro não se reduz à alteridade do outro, de um outro, mas resulta “(...) da famosa dialética do Mesmo e do Outro ao contacto da hermenêutica do si” (Ricoeur, 1991, p. 371). Tal alteridade é resultado da mundanidade da identidade projetada num mundo que nas palavras de Heidegger se descobre como Dasein. Esta temporalidade já inscrita na ipseidade é agora uma temporalidade vivida na ‘carne’ de cada sujeito (não substância). Constitutiva do si e expressa na formulação “ si-mesmo como um outro” esta alteridade é a descoberta na “(...) dialética do si e do diverso do si.” (Ricoeur, 1991, p. 13) sendo o “(...) si-mesmo considerado... outro.” (Ricoeur, 1991, p. 14) capaz de integrar uma identidade recoberta pela dimensão do si (ipse) mesmo (idem) e do outro (alteridade). Neste sentido, dir-se-á que a descoberta da alteridade (e com ela a dimensão da ética e da moral) implica uma integração conectiva do si-mesmo. O si-mesmo como um outro é assim expressão de uma polaridade de dimensões humanas capazes de integrar o primado da ética, mas também a moral, a ontologia e a hermenêutica, recuperando tanto a dimensão da responsabilidade inerente a uma perspetiva deontológica Kantiana, como da vida boa ligada ao hedonismo aristotélico.

Esta presença temporalmente impregnada de uma alteridade é uma integração da diversidade das construções narrativas que formam a identidade pessoal em ambiente 2.0 formando, assim, uma identidade semântica, isto é, uma identidade capaz de congregar as várias ‘personas’ temporalizadas presentes em ambiente social, tornando- as constitutivas com a descoberta da alteridade.

Recuperando as identidades formadas socialmente, a tecnologia semântica tem a capacidade de as integrar conseguindo, assim, captar o caráter vivido temporalmente através da alteridade. Por isso, ela potencia uma identidade narrativa caracterizada pela sua eticidade, ao mesmo tempo que possibilita a personalização (captação da singularidade e da unicidade, em planos como o da educação).

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