Neste ano lectivo, o desenvolvimento dos conhecimentos pedagógicos e didácticos foi algo indubitável, no entanto um dos maiores ensinamentos prendeu-se, também, com o meu crescimento pessoal.
Foi um choque quando nos finais de Setembro tive conhecimento que um aluno meu se encontrava no hospital internado em estado grave em como resultado de um acidente de viação. Nesta altura do ano lectivo o meu contacto com os alunos ainda era algo ténue, resumindo-se à mera leccionação das aulas, que não tinham sido muitas. No entanto, algo era perceptível para mim desde as primeiras aulas: este era um aluno muito activo, amante do Desporto, impulsivo, alegre e um pouco rebelde.
Durante meses fui-me inteirando do seu estado junto dos seus colegas de turma, verificando que este ia evoluíndo positivamente, o que me deixava mais confortável e feliz. Quando se começou a perspectivar o seu regresso, a meio do ano escolar, ainda que condicionado, o meu contentamento foi crescendo, não só por saber que isto traduzia uma recuperação notável do aluno, como também por ter consciência do que a sua presença significava para a turma, tal como referi na reflexão 26:
“O regresso do João28
, ainda que condicionado a nível motor, penso que será uma mais valia para a turma e para o próprio aluno. Assim, para as aulas terei de preparar actividades orientadas para este aluno de modo a que ele
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aprenda e simultaneamente se sinta integrado e útil na actividade, contribuindo igualmente para a sua recuperação a nível psicológico”. (Reflexão 26, pp. 1-2).
O que eu desconhecia era a força de vontade e o espírito vencedor deste aluno. Como praticante federado de Voleibol terá desenvolvido este espírito no Desporto? Verdadeiramente, considero que este terá sido um factor essencial na sua recuperação, tanto a nível físico como psicológico. Tal como Bento afirma, o Desporto “faz parte da luta contra a ideologia da impotência que nos sussurra que na vida não há nada para fazer, que não podemos fazer nada por nós (…) que nos devemos omitir e entregar nos braços de um destino de derrotados e vencidos da existência.” (Bento, J., 2004, p.225). Neste mesmo sentido, o mesmo autor identifica o acto desportivo como um meio de construção e revelação do homem, do seu interior e do seu exterior. (Bento, J., 2004, p.47).
Neste caso concreto, as frases acima transcritas não podiam corresponder mais fidedignamente à realidade. O desejo de superação, a ânsia da perfeição, a preocupação com a excelência encontravam-se plasmadas no desempenho do aluno, nas poucas aulas práticas que realizou. Foi assim que superando obstáculos e transpondo barreiras fez do lema do desporto o lema da sua vida.
Com o início do segundo período deu-se também o regresso do aluno à rotina escolar. Não vou negar que me senti algo inquieta e preocupada. Como reagir? Deveria atender à sua condição e deixar a sua participação nas actividades ao seu critério? Ou seria mais benéfico estimular a sua participação, de modo a potenciar a sua auto-superação? Todas estas inquietações se desvaneceram quando me deparei com o aluno na sua primeira aula. O seu desejo de envolvimento nas actividades estava espelhado no seu olhar e na sua fala. Contudo, sendo uma aula de Badminton restringiu- se às tarefas delegadas aos alunos dispensados, exercendo a função de treinador e de árbitro dos seus colegas em prática.
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Aquando da leccionação da segunda aula do segundo período, aula de Natação, o meu espanto não podia ser maior, como se pode constatar na reflexão 27:
“Ainda deslocando-se com o auxílio de muletas, este aluno manifestou
vontade e desejo de realizar a aula prática de Natação, ao que eu acedi. A
satisfação com que entrou na água, nadou e participou na aula mostrou-me o
que é a força de viver realmente.” (Reflexão 27, p.2)
Onde foi este aluno resgatar tanta força de vontade? Sabendo que possuía atestado que justificaria a sua dispensa da aula prática, o que é que o motivou tanto para que ainda que debilitado quisesse participar activamente na aula? Só desfrutando de um grande espírito de superação é que tal era possível.
Após esta conquista do aluno que me deixou surpreendida eis que o vejo realizar aula prática de Badminton, que implicavam forças de impacto superiores, porquanto se realizava em meio terrestre. Nenhum destes obstáculos o fez esmorecer na sua luta interior.
No entanto, as vitórias do aluno não se resumiram ao domínio da participação nas aulas. Em simultâneo, constatei que este se mantinha envolvido em várias iniciativas autónomas, conjuntamente com outros colegas da turma. Uma das actividades está ligada com uma iniciativa de empreendedorismo, afirmando-se como um dos alunos mais efusivos na dinamização do projecto.
Quantas pessoas não teriam desistido? Ou pelo menos esmorecido? No caso deste aluno penso que este incidente o fez (re)nascer para uma vida nova. A sua atitude perante a vida foi transformou-se, vivendo-a com mais intensidade mas, simultaneamente, com mais responsabilidade.
Esta atitude do aluno poderá estar relacionada com o conceito de resiliência. Neste sentido a resiliência “caracteriza-se pela capacidade do ser humano responder de forma positiva às demandas da vida quotidiana, apesar das adversidades que enfrenta ao longo de seu desenvolvimento” (Silva et al., 2003, p.147). Segundo Rutter (1999), “resiliência é o termo usado para
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descrever a resistência relativamente a experiências psico-sociais de risco.” (Rutter, M., 1999, p. 119). Esta capacidade não tem inerente o esquecimento da situação adversa vivenciada, pelo contrário, o sujeito preserva as marcas da adversidade que enfrentou. Elas prevalecem na sua memória, nos seus sentimentos. Os episódios adversos que marcam a sua história residem na sua memória, contudo a pessoa á capaz de recuperar, encontrando pilares que o ajudam a prosseguir, delineando um trilho que pode ser considerado como positivo.
Neste sentido, urge perceber como será que esta capacidade se desenvolve. Indubitavelmente a resiliência é algo que parte das características intrínsecas do sujeito, da sua personalidade e da forma como encara a vida. Não obstante, a família, a rede de relações que nela se estabelecem e as experiências adquiridas ao longo da vida são factores que incitam o sujeito a responder de forma positiva às situações potencialmente provocadoras de crise.
O Desporto poderá ter sido uma das experiências que se assumiram como factores de protecção face à ocasião adversa. O suporte mútuo e o sentimento de pertença a um grupo poderão ter sido alicerces de suporte nesta fase crítica do ciclo vital do aluno. Ademais, a capacidade de desenvolver o entendimento subjectivo relativamente a uma contrariedade, promovidos pelo Desporto, influenciam a capacidade de ser resiliente.
Não duvido que este aluno superou esta etapa da sua vida. Mantendo uma postura activa e divertida, sendo que transformou alguma da sua impulsividade em capacidade reflexiva e responsabilidade. Recorrendo ao discurso da sua mãe na reunião de Conselho de Turma, em que esteve presente, esta adversidade obrigou-o a parar para (re)pensar na sua vida, a estabelecer objectivos a curto e a longo prazo, o que se reflectiu na sua participação nas aulas e no estudo em casa.
Este aluno mostrou-me o que realmente é a vida e o prazer que ela nos traz. Esta vivência, fez-me sentir que tenho muito mais a aprender com os meus alunos do que eles comigo. Tenho-lhes a agradecer, nomeadamente
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a este aluno, porque toda esta conjuntura me fez reflectir no quão “pequena” sou e o que ainda tenho de crescer.