A crise no Zimbábue tem sido uma constante preocupação na política externa britânica. Procurando pressionar o governo de Mugabe em prol do fim das invasões ilegais de terras, da violência contra a oposição e da intervenção militar na RDC, e incentivar a tomada de medidas para reverter o declínio econômico do Estado, em fevereiro de 2000, o Reino Unido impôs um embargo de armas sobre o Zimbábue.
O Reino Unido encerrara suas contribuições para a reforma agrária no Zimbábue em 1997, não contribuindo com fundos após a conferência de doadores de 1998 devido à não satisfação das exigências dos doadores pelo Zimbábue. O governo Trabalhista
173 BOOTH, Ken; VALE, Peter. “Security in Southern Africa: After Apartheid, beyond Realism”.
International Affairs, Vol. 71, No. 2. 1995. p. 286.
174
ALDEN, Chris; Le PERE, Garth. “South Africa's Post-Apartheid Foreign Policy: From Reconciliation to Ambiguity?” Review of African Political Economy, Vol. 31, No. 100, 2004. p. 283-4.
175 EVANS, Graham. “South Africa in Remission: The Foreign Policy of an Altered State”. The Journal
of Modern African Studies, Vol. 34, No. 2. 1996. pp. 258-259.
176 DÖPCKE, Wolfgang. Uma hegemonia regional em movimento: a África do Sul. 2005. p. 14. 177 RUPIYA, Martin R. “Eight Years of Tension, Misperception and Dependence from April 1994 to December 2002 Zimbabwe - South Africa Foreign Relations: A Zimbabwean Perspective”. Alternatives:
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afirmava agir não contra Mugabe, mas contra a pobreza, fome, opressão e injustiça social que existiam no Zimbábue, procurando contribuir para a democratização, a estabilidade e a prosperidade do país. O Primeiro Ministro britânico Tony Blair descrevia os problemas africanos como “a scar on our consciences”, mas não aceitava que seu governo tinha responsabilidades especiais pelo colonialismo, afirmando que ajudaria o Zimbábue se Mugabe fizesse sua parte:
It's a deal: On the African side: true democracy, no more excuses for dictatorship, abuses of human rights; no tolerance of bad governance, from the endemic corruption of some states, to the activities of Mr Mugabe's henchmen in Zimbabwe. Proper commercial, legal and financial systems.178
Os Trabalhistas, cujo governo iniciara-se em1997, procuravam promover o desenvolvimento africano com base na boa governança, direitos humanos e políticas econômicas neoliberais, argumentando que os grandes desafios do continente eram a construção da paz, prosperidade e democracia. O governo também procurava se diferenciar dos Conservadores, que culpava por ignorar os problemas do Zimbábue na década de 1980, continuar financiando Mugabe e não mobilizar a Commonwealth.179
Além de agir bilateralmente, criticando abertamente as políticas de Mugabe, o Reino Unido procurou mobilizar outros Estados contra o líder. No âmbito da
Commonwealth, o governo britânico pressionou o Zimbábue em nome da defesa dos
valores acordados na Declaração de Harare e procurou fazer com que outros membros do grupo fizessem o mesmo e apoiassem a suspensão do Zimbábue de seu meio.180
Ao mesmo tempo, a antiga potência colonial manteve aberta a possibilidade de diálogo e, em abril de 2000, reafirmou sua disposição de contribuir para a reforma agrária, desde que o projeto fosse direcionado a acabar com a pobreza. Segundo Robin Cook, Secretary of State for Foreign and Commonwealth Affairs do Reino Unido:
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BBC, “Blair promises to stand by Africa Blair has pledged to make Africa a priority”, 02/10/2001. 179 É preciso salientar, no entanto, que na época dos massacres de Gukurahundi, o Partido Trabalhista também não se mobilizou nem criticou Mugabe. ABRAHAMSEN, Rita; WILLIAMS, Paul. “Ethics and foreign policy: the antinomies of New Labour's "third way" in sub-Saharan Africa”, Political Studies Vol. 49 No. 2, 2001.
180 Até então, a Commonwealth suspendera membros apenas por sofrerem golpes militares, não prevendo medidas intermediárias para lidar com outras formas de repressão e abusos de direitos humanos.
TAYLOR, Ian; WILLIAMS, Paul. “The Limits of Engagement: British Foreign Policy and the Crisis in Zimbabwe”. International Affairs (Royal Institute of International Affairs 1944-), Vol. 78, No. 3. 2002. pp. 553 e 558. A Declaração de Harare está disponível em
http://www.thecommonwealth.org/document/34293/39455/141099/harare_declaration.htm, acessado em 20/10/2010.
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Neither Britain nor any other donor is going to fund a programme of land reform, unless: it is conducted within the rule of law; it is based on a fair price to the farmer; and it reduces poverty among the rural poor who have no land. Ministers in Zimbabwe have complained that Britain is imposing colonial conditions. There is nothing new about these conditions. They were all in the conclusion of the 1998 Land Conference which was hosted and chaired by the Government of
Zimbabwe itself.181
Mugabe respondia às pressões as quais era sujeitado reafirmando a soberania do Zimbábue, acusando o Reino Unido de intervir em seus assuntos domésticos e aliar-se ao MDC, reafirmando que a posse de fazendas por brancos, fruto do regime colonial, era ilegal. Segundo Tsvangirai, Mugabe não chegou a um acordo com Londres antes da eleição parlamentar de 2000 como parte de sua estratégia eleitoral, procurando mostrar à população zimbabuana que Londres era aliada do MDC, e ambos desejavam colonizar o Zimbábue novamente.182 Com efeito, mantendo-se à distância de acordos com o Reino Unido e sendo alvo de críticas britânicas, Mugabe e seu discurso anti-imperialista eram fortalecidos, garantindo legitimidade para sua versão da crise.183
Vendo que sua estratégia não surtia os efeitos desejados, o Reino Unido passou a considerar a imposição de sanções direcionadas à elite política do Zimbábue, iniciou o embargo de armas acima mencionado e suspendeu toda ajuda destinada ao Zimbábue, mantendo somente aquela destinada a projetos de saúde e saneamento. Mugabe reagiu acusando a British Aerospace de quebra de contrato e reafirmando que o governo britânico conspirava contra ele, financiando a oposição no país.184