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Por conta da imensidão desse objeto – as manifestações do espírito ocorridas na Amazônia desde a colonização – optamos por utilizar poucas fontes escritas, mas que nos trouxessem um quadro amplo de como os vários tecidos sociais empreenderam a caminhada artística no Pará. Dentre os trabalhos, cito os papers do Laboratório de Sociomorfologia da Universidade Federal do Pará, redigidos sob coordenação do professor Fábio Castro.

MÚSICA

Refletindo a presença dos missionários em solo amazônico no período colonial, o ensino da música foi uma das estratégias eficazes a favor da evangelização do gentio. O jesuíta italiano João Maria Gorzoni foi um dos incentivadores dessa forma de expressão

artística. Ele viveu em Belém de 1659 à sua morte, em 1711. No século XVIII, em 1724, foi criado o coro da igreja de Nossa Senhora das Graças, futura catedral de Belém. Sua administração coube aos irmãos, Lourenço e Antônio de Potfliz, que prosseguiram a tarefa de Gorzoni, dispensando uma educação musical formal a centenas de índios convertidos e também ao núcleo populacional branco da cidade. Como nos mostra Fábio Castro, em seu

Fontes, raízes e tecidos da «identidade» amazônica: A cena cultural belemense, de seus primórdios ao modernismo (2005d):

Nessa primeira metade do século XVIII a música religiosa constituiu a atividade cultural mais próxima daquilo que, nas sociedades européias de então, seria considerado uma « criação do espírito ». O que se comprovou com a apropriação e diversificação dessa prática musical pelo corpo social híbrido que compunha a base da sociedade local: a música de catequese foi reconvertida para outros focos de interesse, conformando a base de bailados, autos e cantigas populares. Pode-se, com efeito, dizer que a base dos saberes caboclos era dada pelo sincretismo do conhecimento religioso erudito com os conhecimentos indígenas tradicionais (HORÁCIO-CASTRO, 2005d:3).

Castro (2005d) mostra que a instituição do canto vocal e gregoriano foi um marco na cultura musical do Estado que contribuiu para a formação de platéia de gosto europeu. Lembrando que este período foi rico em transformações urbanas e culturais empreendidas pela política pombalina, com vista a integrar a Amazônia ao resto do território brasileiro. Assim, em 1763 começa a funcionar a primeira casa de ópera em Belém, que perdura até 1817, quando se intensifica a crise do modelo econômico extrativista adotado desde 1755.

O século XIX, por sua vez, é marcado pela construção de edificações voltadas para o “cultivo” do espírito em Belém, capital do Pará. Naquele momento foi inaugurado o Teatro Providência, no Largo das Mercês, em 1821. Esse templo da cultura erudita, no entanto, seria fechado em 1878, por ocasião de um incêndio. Quanto à vida cultural popular, esta se realizava nas periferias da cidade, nos terreiros de dança, com os arraiais, teatros, coros e bailes.

O maior e mais bem acabado espaço cultural dedicado às artes chamadas eruditas, em Belém, surgiria em 1878, com a inauguração do Teatro de Nossa Senhora da Paz. A edificação reflete a euforia dos ventos da belle époque amazônica erguida com o comércio da borracha. Naquele período, a vida cultural erudita da cidade chegou a ser tão intensa que diversos espetáculos de companhias líricas européias passaram a fazer suas estréias em Belém. O público paraense passou a buscar conhecimento, formando clubes líricos destinados ao debate musical, promoção de palestras e de concertos. Além disso, cresceu a demanda pelo

aprendizado de música, fato que levou o governo a apoiar os estudos musicais de jovens paraenses na Europa:

É o caso, dentre outros, de Henrique Eulálio Gurjão (1834-1885), José da Gama Malcher (1843-1921), Alípio César, Paulino Lins de Vasconcellos Chaves (1880- 1948) e Octávio Meneléu de Campos (1872-1928), que retornaram a Belém e aí apresentam peças e óperas de sua autoria. O caminho inverso foi percorrido por jovens europeus e brasileiros, que se transferiram para Belém, atraídos pela demanda musical criada na cidade, como foi o caso do italiano Ettore Bosio, chegado em 1893 e do ilustre maestro Carlos Gomes que, após diversas temporadas na cidade, aceitou o convite para dirigir o Conservatório Paraense – batizado em seguida com o seu nome -, inaugurado em 1895 (HORÁCIO-CASTRO, 2005d:3 e 4).

A primeira casa destinada à cultura popular local foi o Teatro Chalet, inaugurado em 1872, no bairro de Nazaré, palco das festas em homenagem a Nossa Senhora de Nazaré, padroeira do Estado. O espaço abrigou inúmeras encenações do chamado teatro nazareno, que era vinculado às festividades religiosas dedicadas à santa até a primeira metade do século XX. Após isso, a consolidação de uma indústria cultural nacional dispersou os artistas que trabalhavam nesse circuito itinerante de feiras e festas populares. Nas palavras de Castro, “suas fontes cênicas constituem-se como um híbrido entre a farsa dramática, gênero essencial do teatro luso-brasileiro do século XIX e o auto popular paraense”32.

Com a decadência da economia seringueira as expressões de cultura erudita ficaram seriamente comprometidas. O gosto neoclássico financiado com o dinheiro da borracha entra em declínio e espaços como o Teatro da Paz deixaram de ser palcos privilegiados das turnês européias.

A estagnação econômica daria espaço para a emergência da chamada música popular, com destaque para a música carnavalesca e de orquestra, executada em salões de dança. Mas o grande salto quantitativo para a consolidação das oportunidades de visibilidade dos artistas populares se daria com o aparecimento da editoria musical Guajarina e da Rádio Club do Pará, a primeira emissora amazônica e a quarta a ser implantada no território brasileiro, em 1928.

A década de 30 foi marcada pela ascensão do carnaval e a consagração dos salões de dança como espaços de encontros sociais e audição de sucessos musicais. A Rádio Club, particularmente, foi a grande aliada desse cenário ao patrocinar o carnaval em Belém:

(...) fundamentalmente de rua, como em todo o Brasil, à época, com destaque para os “cordões”, tradicionais da cidade - de Pretinhos, Marujos e Roceiros - ; para o corso de automóveis conversíveis e, a partir da década de 1930, também para as escolas de samba. Em 1934 foi fundado o “Rancho Não Posso Me Amofiná” no bairro do Jurunas e, no ano seguinte, a escola de samba mais importante desses anos, a “Tá Feio”, no bairro da Campina. Em 1946 surgiu o “Império de Samba Quem São Eles”, também na Campina e, em 1952, ainda nesse bairro, a escola “Boêmios da Campina” (HORÁCIO-CASTRO, 2005c: 7).

Castro (2005c) observa que apesar das oportunidades abertas aos artistas com a Rádio Club, a profissionalização não foi efetiva porque a rádio dificilmente pagava cachês. Assim, diversos artistas locais migraram para o sudeste onde se consolidava uma indústria cultural eficaz. Dentre estes se destaca Waldemar Henrique (1905-1995), que no Rio de Janeiro alcançou relativo sucesso no rádio e no cinema onde compôs trilhas musicais de seis filmes. Ao retornar ao Pará, em 1966, dirigiu o Teatro da Paz por 16 anos. Sua obra caracteriza-se pela tematização do universo amazônico. Entre as composições mais conhecidas figuram, por

exemplo, Tamba-tajá, Uirapuru e Foi boto, sinhá!