Chapitre I : De la création de la CED
B) La situation en Europe
A terrível moléstia que assolou Santa Maria parece não ter durado muito tempo, ao menos é o que citam as reportagens do jornal O Diário do Interior e o Relatório do doutor Astrogildo de Azevedo. Segundo estas “o mal estava sendo debelado, e apenas restavam rumores infundados sobre possíveis doentes. Pois, logo que as notícias da epidemia espalharam-se pela cidade, as medidas higiênicas também foram recomendadas segundo matéria do Jornal:
A desinfecção particular continua, também, muito activa, parecendo não existir presentemente, em nossa cidade, prédio que não dê a idéia de uma pharmacia ou de um desinfectario. Tanto melhor para todos. Pois, prevenção e caldo de galinha, - diz o adágio, - não fazem mal a doente.20
A administração da cidade também reagiu rapidamente ao temor que já se espalhava para outras cidades vizinhas. Para tanto o Coronel Ramiro de Oliveira, intendente do município, telegrafou aos governantes de: São Gabriel, São Vicente, Alegrete, Bagé, Uruguaiana, Cachoeira do Sul, Montenegro, Rio Pardo, Santo Amaro, Cruz Alta, Júlio de Castilhos, Passo Fundo, São Francisco de Assis e Porto Alegre, que não havia preocupações quanto à expansão da epidemia as suas regiões. Aqui mais uma vez uma nota, da importância que tal doença configurou no contexto sócio-econômico de Santa Maria nas duas primeiras décadas do século XX.
Ficam para possíveis reflexões parte do documento que o doutor Astrogildo escreveu em 1918 ao diretor de higiene do estado sobre os serviços de profilaxia da peste bubônica em Santa Maria:
“Epílogo
Ahi ficam succintamente expostos os factos mais importantes ocorridos no período calamitoso que Santa Maria acaba de atravessar.
Grande foi o perigo e pesada a responsabilidade dos que tiveram a missão de debelal- lo.
A epidemia iniciara-se ameaçadora propagando-se rapidamente e tirando aos atacados toda a esperança de salvamento.
20 O DIÁRIO DO INTERIOR, 7 de agosto de 1912, p. 3. Arquivo Histórico Municipal de Santa Maria (AHMSM)
Parece que abandonada a si mesma teria dizimado a população em breve praso. No entretanto promptas enérgicas accudiram as providencias sanitárias. Havia, como se via, um número limitado de prédios isolados onde o mal se achava circumscripto.
Em torno destes focos desenvolvia-se a acção da Hygiene Estadual e Municipal. O resto da cidade estava immune; poderia ter continuado a vida normal sem o mínimo perigo para seus moradores nem para as populações circumvisinhas.
Os factos confirmaram esta verdade; a moléstia foi jugulada sem ultrapassar o sitio imposto desde logo.
Ao tempo em que assumi a superintendência do serviço prophylactco já se haviam dado 12 obitos e 5 pessoas tinham a moléstia incubada porque a manifestaram nas 48 horas seguintes!
Pois bem, de então em diante, três indivíduos foram contaminados elevando a vinte o numero total dos atacados e dos mortos.
A epidemia estava extinta. Sem embargo os boatos continuaram a fervilahr, desenvolveu-se o pânico, espalharam-se noticias absurdas o Estado inteiro alarmou-se!
Repelia-se a verdade mais transparente para acceitar ingenuinamente falsidades perversas e inverossímeis!
Passada a borrasca, dissipado o terror, restabelecida a calma, é a vez dos engenheiros de obra feita criticarem a excessiva severidade das medidas adoptadas: não era caso para tanto... exagerou-se a gravidade da situação e a prova é que tudo se normalisou como, por encanto...
É a eterna historia das epidemias e das guerras...
Entre estes dois erros que se destroem mutuamente, sobresae a eloqüência dos factos, affirmando que, graças á energia, prudência e opportunidade das medidas adoptadas pelo Estado e pelo Municipio, salvou-se a população de uma hecatome, cuja importância ninguém pode prever até que ponto teria atingido.
Pela parte que me toca só esta consideração basta para compensar quantos desgastos me tenha custado a inesquecível cruzada.”21
21 Epílogo do Relatório apresentado ao Illm_o Doutor Ricardo Machado, Director de Hygiene do Estado, pelo Doutor Astrogildo de Azevedo, Superintendento do Serviço de Prophylaxia da Peste Pulmonar em Santa Maria, 1918, p.11-12.
Fonte: Acervo Museológico da “Casa de Memória Edmundo Cardoso” (CMEC) Organização: Flavia Prestes
Ao retomarmos nossa proposta de pesquisa não nos demos por satisfeitos. Em vista disso, aprofundamos um pouco mais nossas leituras, na busca por descrições mais detalhadas sobre nosso objeto de estudo. Encontramos nos livros prontuários do Hospital de Caridade, e nas Crônicas das Irmãs Franciscanas, uma relação de doentes maior e com datas que perpassam 1912. Nos livros prontuários, achamos setenta e um doentes, com vinte e três falecimentos, durante os anos de 1912 a 1924. Durante o ano de 1912, houve seis casos de peste bubônica registrados pelo hospital, todos entre os meses de julho e agosto (estes encontram-se também relacionados em nossas outras fontes).
A peste durante o ano de 1913, segundo esses registros, não apareceu em Santa Maria, durante os anos de 1914 até 1919, apareceu apenas esporadicamente, somente em 1920 se tem informações de um significativo aumento de doentes, com vinte e um casos de peste. Em 1922, mais vinte e três casos, para finalmente encerrarem-se os registros em 1924 com oito casos.
Concordando com as referências bibliográficas de Romeu Beltrão que cita o acontecimento durante o ano de 1919: ”Dezembro-Novo surto de peste bubônica, com um caso fatal, e que perdurará por todo o ano seguinte, através de casos esporádicos, aqui e em outros pontos. (BELTRÃO, 1979, p.500).
Em maio de 1922: “Novo surto de peste bubônica de caráter benigno.” (BELTRÃO, 1979, p.509).
E por fim em março de 1924:
Novo surto de peste bubônica, com poucos óbitos, entre eles o do padre palotino João Barbisan, vítima do dever sacerdotal. Como sacristão, ajudei na sua última missa, rezada no piquenique realizado na Montanha Russa, na homenagem que os libertadores prestaram ao chefe revolucionário Honório Lemes. Queixou-se de febre e mal podia ficar em pé. Como o contágio se estabelece pelas gotículas expelidas durante a respiração, muito perto andei de contraí-la. (BELTRÃO, 1979, p.520)
Mais uma vez a ressalva de que a documentação acerca da disseminação da peste encontra-se desorganizada. Em nossas análises dos fatos, deduzimos que os autores que escreveram sobre Santa Maria, buscaram suas informações em documentações jornalísticas que retratavam a época. Mas em vista de que Romeu Beltrão apresenta os contextos pós 1912, pode ele ter tido acesso a outras documentações, entre elas os livros prontuários do Hospital de Caridade e às Crônicas das Irmãs Franciscanas.
O que nos deixa a possibilidade de uma posterior discussão a respeito desses outros doentes, visto que em reportagem do jornal O Diário do Interior existe a referência a outros possíveis contaminados pelo bacilo pestilento,que não se resumem apenas aos vinte descritos nas reportagens:
Segundo parte dada pelo coronel Antonio Pimenta do Carmo, encarregado da vigilância na encruzilhada da estrada Geral e Colônia Conceição, ao Coronel intendente do município, o número de prédios daquellas immediações suspeitos e isolados eleva-se a 20, que são habitados por 149 pessoas, todas convenientemente
islodas e sem paresenatrem qauisquer symptomas graves.22
Aqui há uma discordância entre a notícia do jornal e o Relatório do doutor Astrogildo, que afirma que todos os casos aconteceram apenas durante os meses de julho e agosto de 1912. Há também as descrições das Crônicas das Irmãs Franciscanas: “Dia quinze de maio foi constatado o último caso de peste bubônica”. “As vítimas desta terrível doença, com poucas exceções, foram todas internadas aqui, desde dezembro de 1919 até está data.”23
Prosseguindo: “em dezembro registramos outra vez cinco casos de peste bubônica.”24 As
crônicas ainda referem-se a doentes de peste durante os anos de 1922 e 1924, com a seguinte citação: “Já em princípios de março foi trazida por uma doente a terrível peste pulmonar.”25.
Após essas breves linhas, o que podemos ressaltar e que as possíveis manifestações da peste bubônica depois de 1912 nos proporcionam tema para posterior discussão. Visto que tal problemática requer uma maior carga de pesquisas, teorias mais aprofundadas, por hora ficamos com duas observações diferentes sobre as ações governamentais com relação ao enfrentamento de uma doença como a peste bubônica.
A primeira: “Aceitar que uma região pudesse estar sendo invadida por uma epidemia tão terrível, não era um prognóstico muito animador. Pois o medo com certeza transformaria o cotidiano da cidade” (DELUMEAU, 1978, p.23). Está premissa parece nos servir para compreender o cuidado com que as informações iam sendo transmitidas para a população.
Em segundo:
22 O DIÁRIO DO INTERIOR, 7 de agosto de 1912, p. 3
23 Hospital de Caridade Dr. Astrogildo de Azevedo, CRÔNICA. Santa Maria, 1912, p.30- Museu Histórico e Cultural das Irmãs Franciscanas (MHIF)
24 Hospital de Caridade Dr. Astrogildo de Azevedo, CRÔNICA. Santa Maria, 1921, p.33- Museu Histórico e Cultural das Irmãs Franciscanas (MHIF)
25 Hospital de Caridade Dr. Astrogildo de Azevedo, CRÔNICA. Santa Maria, 1924, p.39- Museu Histórico e Cultural das Irmãs Franciscanas (MHIF)
“Logo, se a saúde e a doença configuram-se como uma arena onde os diferentes valores e objetivos dos grupos sociais eram transacionados, não se pode esquecer que os homens que representavam o poder político administrativo muitas vezes se utilizavam de suas ações nestes campos para angariar apoios e conquistar clientela.” (WITTER, 2007).
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Por hora se faz necessário darmos por finalizada nossa incursão pela disseminação da peste bubônica em Santa Maria. Muitas questões ainda ficaram pendentes, outras requerem respostas, e informações que ainda necessitam de uma maior carga de conhecimento. Trabalhar com uma doença tão enigmática e marcante na história das sociedades medievais, quanto foi a Peste Negra só nos trouxe um maior conhecimento sobre temas que por mais que já estivessem sido exaustivamente debatidos ainda hoje causam grande impacto nas sociedades.
A idéia do “Medieval”, até então só remontava cenários escuros, bruxas, estagnação e doenças sem cura. Ao buscarmos respostas as nossas indagações nos foi possível ter acesso a diversos textos. Estes nos proporcionaram espaços para que pudéssemos abordar nosso objeto por um ângulo diferente.
Com isso, percebemos que A Idade Média em nada se parece com o que tínhamos lido até hoje. Visto que tal qual outras épocas históricas, a população continuava a crescer, havia uma intensa movimentação comercial e servindo a nosso propósito, diferentes doenças transitavam nesse fervilhar de movimentos
Nessa primeira parte de nossa pesquisa sabemos que ainda falta muito o que se dizer, as fontes parecem cada vez mais nos mostrarem possibilidades diferentes, de trabalhar com a influência do homem em seu meio natural.No que tange a área de nossa monografia a saúde é parte fundamental dos contextos históricos. Pois ao abordarmos a história das doenças, não deixamos de lado outras concepções que formam os ciclos da humanidade.
Quanto a idéia de discorrer sobre o medo da peste, a nosso ver foi uma das partes que mais nos causou surpresa, em vista de sua influência ser tão importante nas relações sócio- culturais da época Tal surpresa só vem a nos trazer a certeza de que o campo do historiador se torna a cada dia mais extenso e inovador.
Ao chegarmos ao terceiro capítulo e abordamos a epidemia de peste bubônica em Santa Maria, primeiramente pensamos que seria um tema sem grandes nuances, algo já comentado por outros profissionais da área. Foi preciso um grande empenho para que ,nossa exposição diferisse de outros estudos que já abordavam o contágio em regiões brasileiras.Para tanto direcionamos nosso olhar primeiramente para fatores como crescimento demográfico,
redes comerciais, ligações com outras regiões através das linhas férreas, nada diferente de outras fases históricas em que haviam ocorrido epidemias de peste.
Mas, contudo, depois de acessarmos fontes bibliográficas, jornais da época, e termos a imensa “sorte” de obter documentações primárias que retratavam a epidemia de peste ,nossa curiosidade não se deu por satisfeita. Afinal, não poderíamos aceitar que a peste tenha sido uma doença tão sem importância, com rápida passagem por nossa cidade, e com poucas mortes. O que nos instigou ainda mais a problematizar tal epidemia O que nos foi de grande valia, pois podemos aplicar os diferentes métodos de pesquisa que a chamada “Nova História vem apresentando.
Ressaltamos que ainda há muitas curiosidades acerca da epidemia bubônica em Santa Maria que ainda não foram totalmente respondidas. Entre estas, por que a memória da cidade decidiu apagá-la de sua história? Afinal, como as reminiscências da peste européia soavam neste período e quais seus mitos no imaginário da população? Seria a peste bubônica uma vergonha? Símbolo de insalubridade e do atraso civilizacional? A busca a estas respostas demonstra que saúde e história caminham juntas, pois a saúde faz parte da construção histórica de determinados eventos que se tornam pontos chave na formação das comunidades.
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