A origem etimológica da palavra ―comércio‖ remonta, historicamente, ao surgimento do excedente produtivo e ao crescimento populacional, que impeliu às trocas de mercadorias e
que resultou, segundo Tomazette (2009), no termo em latim ―commutatio mercium”, o que significa ―troca de mercadorias‖.
1.4.1 Comércio ou setor terciário?
Quando trata-se de economia, o setor terciário é correspondente às atividades de comércio de bens e à prestação de serviços, envolvendo amplo leque de atividades que vão da administração pública ao comércio de produtos, incidindo nas atividades financeiras e imobiliárias, transportes, serviços pessoais ou a empresas sendo o setor econômico que mais emprega indivíduos.
Justamente em função dessa abrangência significativa do termo ―setor terciário‖ e que, neste trabalho, serão apropriados os vocábulos coloquiais ―comércio‖ e ―comercial‖ para se referir ao supracitado setor.
1.4.1.1 A aurora do comércio
Posteriormente à sedentarização humana, pelo advento da agricultura, a maior parte da população laborava em atividades primárias: agricultura, pecuária, extrativismo mineral e pesca; e habitualmente se especializavam em um produto específico.
Em razão disso houve excedente dessas atividades, o que resultou na estocagem da produção, fruto, também, do desenvolvimento da agricultura, que com a criação de ferramentas e novas técnicas que aumentaram a produtividade do cultivo de espécies vegetais. Essa especificidade e demasia produtiva culminam no surgimento de um sistema de trocas que, oportunamente, permitia o acesso das pessoas a outros produtos os quais não produziam. Inicialmente realizadas de forma direta, paulatinamente esse modelo cambial de artigos ficou mais intricado, porquanto passou a abarcar um número maior de indivíduos envolvidos nos procedimentos de permutas e considerando que, frequentemente, os produtos oferecidos não atendiam as necessidades das pessoas, afora os obstáculos no transporte de mercadorias de grande porte e a barreira do idioma, que subsidiou na criação do alfabeto e dos números.
É pertinente observar que comércio é uma de suas principais engrenagens do processo evolutivo da civilização, servindo de subsidio e estímulo em diversas ocasiões históricas. Um exemplo disso é que, em função dos obstáculos surgidos do sistema direto de
trocas, tornou-se imperativo a criação de um meio de referência de valor que dinamizasse os métodos de trocas: a moeda (CASSILHA, 2007, p.17-18).
Corrêa afirma que:
Se para Henry Pirenne ―as cidades são filhas do comércio‖, para Max Weber ―a cidade é um lugar de mercado‖ e as atividades de troca, com regiões distantes ou com territórios vizinhos, explicam a localização das urbes em pontos estratégicos das vias de comunicação, junto a portos de mar, ao longo das linhas de água que penetram o interior dos continentes ou em cruzamentos de caminhos. [...] É por isso que no comércio se pode ver o embrião da vida urbana naquilo que ela pressupõe de interação, de troca em sentido lato, de produção da inovação (CORRÊA, 1979, p.121).
1.4.1.2 A urbe e o comércio
Salgueiro (1996, p.183) afirma que as urbes são, essencialmente, centros terciários, ―onde se processam trocas de produtos e ideias, onde aumentam os contatos entre pessoas e instituições‖. O próprio desenvolvimento dessas remete à questão do comércio, na medida em que, Segundo Cassilha, (2007, p.17), quando a cidade tornou-se um local de produção, além de residência, seu excedente principiou os mercados como forma de negociação e câmbio dos mais distintos produtos, originando receitas e prosperidade.
Dessa forma,
(...) as primeiras atividades comerciais foram baseadas nas trocas, onde as partes negociavam diretamente as quantidades e os produtos que estavam envolvidos na negociação entre as partes. No sistema de trocas, o poder de barganha valia bastante, pois a negociação entre as partes era direta, sem a definição de um preço específico, e a pessoa precisava barganhar para poder ter uma melhor negociação (CULTURA, 2014).
A partir da troca e comercialização desse excedente as urbes iniciaram uma organização conforme seus negócios, com alcances dos mercados das adjacências. As pessoas passaram a ir às cidades em busca de produtos e serviços. No mundo ocidental, a datar do século III e impulsionado por profunda crise econômica, as cidades romanas difundidas pelo continente europeu começaram a ser desocupadas (VICENTINO et al., p.131).
Somente no século X, retomou-se o processo de urbanização, como um renascimento, com a gênese de novas cidades e o deslocamento para os centros urbanos. Estas urbes eram díspares dos centros urbanos da antiguidade, fundamentalmente em virtude da prática econômica, que foi motivo de seu incremento: o comércio e a produção artesanal orientada à satisfação dos imperativos comerciais (VICENTINO et al., p.131). (Figura 26).
Figura 26: Feira medieval nos burgos europeus
Fonte: CULTURA, 2014
O comércio, mais uma vez, ditou a forma como as cidades foram pensadas, a partir da Idade Moderna, quando houve uma revolução comercial. As cidades, apropriadas ou erigidas pelos impérios ultramarinos, foram moldadas conforme seus interesses mercantis. Esse modelo perdura até a Idade Contemporânea, quando a revolução industrial ocasiona debandada das áreas rurais em direção às urbes, que experimentaram, a partir daí, crescimento vertiginoso, originando espiral de problemas e soluções, que se retro alimentam e que culmina na metrópole atual.
Ainda que seja enxergada apenas como forma de organização do espaço pelo homem, a urbe vai além: é demonstração palpável de demandas históricas e sociais, formatados em um espaço físico edificado sobre o espaço geográfico (CORRÉA, 1979, p.121). De tal modo, a cidade pode ser tratada como espelho da sociedade, através do espaço- tempo, desde as imemoriais urbes mesopotâmicas às metrópoles modernas de nossa era ―globalizada‖ 46
. De acordo com Corrêa (1979, p.121) ―esta última constitui-se em produto de
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Segundo Held (1999 apud Campos e Canavezes 2007, p.13) o conceito de Globalização implica primeiro e acima de tudo um alongamento das atividades sociais, políticas e económicas através fronteiras, de tal modo que acontecimentos, decisões e atividades numa região do mundo podem ter significado para indivíduos e atividades em regiões distintas do globo.
economia de mercado‖, corroborando com a intrínseca relação anteriormente descrita entre a cidade e o comércio. Assim, o comércio é importante para a cidade seja por esta ser o ―lugar de troca‖ (CORRÊA, 1979, p.121), e seu valor transcende a transação comercial em si, uma vez que esse local de troca é também o lugar do recreio, do lazer e denota uma ocasião para socialização. O referido autor aponta, ainda, que o comércio colabora incisivamente na definição da estrutura dos núcleos de povoamento (Figura 27), sendo elemento decisivo na paisagem urbana e na ―imagem que dela se guarda pela variedade que introduz no tecido edificado, facilitando assim a apropriação e uso do espaço pelos citadinos‖ (CORRÊA, 1979, p.122).
Figura 27: Movimentação comercial na região central da cidade de São Paulo
Fonte: SOUZA47, 2014.
Apreende-se, portanto, uma contundente contribuição do comércio no arranjo funcional dos conjuntos urbanos e na caracterização de sua paisagem, exterioridades que serão privilegiadas neste trabalho, como forma a acentuar as linhas cambiais das áreas em estudo.
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Ilustração elaborada pelo autor, Fábio de Souza (2018), a partir de fotografia de acervo pessoal (2014), utilizando a ferramenta PhotoScape® 3.7.