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A origem etimológica da palavra rua deriva do latim rugam12, traduzido para o português como ruga, originalmente indicava o sulco, o caminho de um rosto mais velho e

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Conforme descrição do dicionário Michaelis (2015). 11

Ilustração elaborada pelo autor, Fábio de Souza (2018), utilizando as ferramentas AutoCAD® 2007 e

passou a designar, posteriormente, o caminho ou sulco na terra estabelecido pelos seres humanos. A rua, como anteriormente descrito, é comumente apreendida como um ambiente público no qual a liberdade de locomoção é inteiramente atingida. De forma sucinta descreve- se a rua como um espaço urbano que permite a circulação de pessoas e veículos e oferece acesso aos logradouros, sejam eles residenciais, comerciais, institucionais ou industriais, cujo uso do solo está sujeito à região em que se encontre em uma cidade. Junto a ela também se situam lugares públicos como parques e, ao nível da rua, de forma subterrânea ou aérea, os serviços de água, esgoto, iluminação e demais, necessários às urbes. Porém, como descrever de forma breve algo que é tão mais complexo do que uma concisa definição? Afinal, em seus grupamentos, as ruas formam espaços livres públicos onde acontece a vida citadina e, ―nesse sentido a rua, historicamente e em diversas civilizações, sempre assumiu um importante papel no cotidiano das pessoas‖ (FERREIRA, 2002, p.14). Com um olhar atento pode-se perceber diversos usos em seu cotidiano:

(...) se alguém observar a mesma rua, por algumas horas ou por alguns dias, poderá encontrar outras atividades, além da simples circulação de pessoas e veículos. Junto à escada do edifício ou junto à porta da escola, em certas horas do dia, se formam pontos de bate-papo... Há vendedores ambulantes... Em outros momentos há crianças jogando amarelinha na pista de rolamento... Em um dia da semana, na rua do fundo, realiza-se a feira-livre. (SAREM/SEPLAN, 1982, p.20).

Mesmo que, historicamente, a rua tenha adquirido valoroso papel no cotidiano urbano, ela nem sempre foi sinônimo de convívio. As cidades do mundo antigo eram caracterizadas por fortificações, em função de constantes ataques e guerras travadas entre os povos. Com a cidade Helênica não foi diferente. Na Grécia desse período a rua possuía tão somente a função de corredor de circulação. Isso ocorria dentro de uma estética urbana intramuros, onde o convívio ocorria em templos e ágoras13, elementos essenciais da cidade grega, bem como nas palaestras14 e nos teatros, onde se expressavam as funções primordiais 12

Conforme descrição do dicionário Michaelis (2015), em percurso etimológico, o vocábulo rugam perdeu o ―g‖ e o ―m‖, rematando no termo, em português, ―rua‖.

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O ato de discursar foi basilar para a construção da sociedade e democracia na Grécia Antiga, onde se podia contribuir para a sociedade de maneira mais efetiva com o debate de ideias, ao falar em público. Essas oratórias ocorriam em um local determinado: as ágoras, que consistiam de um espaço livre onde ocorriam mercados e feiras e aonde os cidadãos costumavam ir. Em seus limites havia edifícios de atributos públicos. Segundo o dicionário Michaelis (2015), é uma palavra que vem do verbo agorien e que significa discutir, deliberar, tomar decisões.

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Com o nome derivado de Palas Atena (deusa grega da sabedoria), a palaestra ou palestra foi um edifício na Grécia antiga. Era um local onde geralmente a luta livre foi ensinada e praticada e, também, local de convívio social masculino, onde conversas sobre literatura, filosofia e música eram tão bem recebidas Consistia em um grande pátio quadrado ou retangular, aberto para o céu e cercado por colunatas. Fora dessas colunatas, havia vestiários, salas de aula, banheiros e salas para guardar equipamentos. Palaestras estavam frequentemente perto de ginásios. Eles eram às vezes uma parte de complexos de ginásio e a maioria das cidades do mundo grego possuía uma. Grandes cidades podiam ter vários. Algumas palaestras eram de propriedade privada, mas a maioria foi construída com impostos. Fazia parte do cotidiano de homens e meninos gregos,

da cidade grega. Segundo Ferreira (2002, p.15) desde a antiguidade é notório ―que mesmo o mais renegado plebeu tinha, na cidade, acesso à animação das palaestras, o calor dos banhos, a alegria dos banquetes públicos, a esmola dos ricos e a magnificência dos espetáculos públicos‖ (FERREIRA, 2002, p.15). De acordo com Martin (1956, p.255-290), essa forma de organização perdurou por séculos, sendo repetido tal padrão de cidade nas civilizações ulteriores até o advento da pax romana15, quando tudo se transformou:

(...) a estrutura da rua tratada como um motivo independente e não mais somente com a função de um corredor de circulação; o desenvolvimento dos arcos e dos edifícios que constituíam as articulações das ruas e limitavam a perspectiva; o estudo das relações dos conjuntos monumentais entre si e sua relação com as grandes ruas colunatas (MARTIN, 1956, p.255-290).

A partir de então ela assume o cunho de ambiente público de convívio e de livre circulação (Figura 6), significando uma passagem ou um caminho para a população ir de um lado a outro, convindo de inspiração e cenário para livros, novelas, filmes e documentários.

Figura 6: A rua, local de livre circulação. Avenida Anhanguera, Goiânia – GO

Fonte: SOUZA, 201816

que sentiam grande afeição pela palaestra em que cresceram, sendo que alguns homens foram enterrados em sua palestra favorita (HARRIS, 1979, p.149).

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A pax romana ou paz romana é o período histórico ―no qual o Império Romano esteve na hegemonia‖, sendo ―um elemento de fundamental importância para a manutenção do seu poderio‖ (SERIQUE, p.120). ―Esta expressão é designada para indicar o período compreendido, relativamente, entre o reinado de Augusto César, no ano de 29 a. C. – quando este decretou o fim do ambiente de guerra civil – e estendeu-se até o ano de 180 com a morte do imperador Marco Aurélio‖ .

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Ilustração elaborada pelo autor, Fábio de Souza (2018), a partir de fotografia de acervo pessoal (2012), utilizando a ferramenta PhotoScape® 3.7.

Essa livre circulação da população permaneceria pelas eras posteriores até o século XIX, com o advento da industrialização e a mudança nas relações sociais provocadas por ela. De acordo com Ferreira (2002, p.16) no transcurso histórico os indivíduos paulatinamente abandonam os ―contatos locais‖ e passam a ―valorizar os encontros apoiados em relações que compartilham interesses comuns dispersos no espaço‖ (FERREIRA, 2002, p.16). Sejam por razões econômicas e/ou políticas, as pessoas começam a alterar seu trato social, que ocorriam nos espaços públicos, levando essas relações para o cerne dos edifícios.

Nessa acepção, segundo Pechman (1993, p.29) vai se perdendo esse fundamento vital da rua em um fenômeno acirrado após a revolução burguesa e prelúdio de uma clara separação de classes vindoura. O autor cita que os operários do século XIX, que ―atribuíam mais valor à cidade do que à moradia‖, lidaram com a mudança dessa situação ao longo do século seguinte, após a reelaboração do papel da cidade e de seus cidadãos pelas elites europeias, preocupadas com a ―ordem pública‖ e a ―reordenação do espaço público‖ (PECHMAN, 1993, p.29.). Ferreira (2002, p.17) complementa esse pensamento ao afirmar que essa reelaboração da cidade em um nítido ―ataque ao modo de vida popular, passa a incidir diretamente sobre o espaço onde a sociabilidade popular encontra recursos para se robustecer: a rua‖. Pechman (1993, p.29) revela que o desmonte dos grupos sociais e de suas atividades incita a deterioração social das urbanidades.

Essa deterioração agrava-se nas primeiras décadas do século XX, com a introdução do automóvel no espaço urbano público da rua (FERREIRA, 2002, p.20). Os habitantes das áreas centrais passam a ter um meio de transporte individual que possibilita sua evasão em direção aos subúrbios e, na medida em que os veículos substituem o ―andar a pé como meio de locomoção predominante‖. Ferreira conclui:

(...) a fluidez na mobilidade permite os acontecimentos e as cenas de rua passam cada vez mais a serem presenciadas de maneira fugaz por aqueles que estão dentro desse novo componente urbano (FERREIRA, 2002, p.20).

Depreende-se que essas novas variantes no meio urbano, a segregação e o automóvel, influenciam a forma de pensar as cidades, dentro de um urbanismo inicialmente voltado somente para o interesse das elites e, posteriormente, mercadológico. No período compreendido entre final do século XIX e meados do século XX, cidades são remodeladas ou criadas em conveniência das classes dominantes, como o plano de remodelação de Paris, determinado por Napoleão III e capitaneado pelo Barão Georges-Eugène Haussmann. No Brasil, nesse momento histórico, ergueram-se de acordo com objetivos políticos e/ou elitistas

as cidades de Belo Horizonte, Goiânia e Brasília, sendo esta última, a capital do país, claramente voltada para o uso do automóvel. Não é objetivo de este trabalho aprofundar-se na discussão de todas as referidas cidades que, por si, geraria outra tese. À exceção do caso de Goiânia, que será especificado posteriormente no terceiro capítulo. A questão a ser debatida, aqui, é a rua em si e as variantes que a condicionaram ao que ela representa. Afinal, a rua não se trata unicamente de espaço de circulação subserviente do consumo e do ofício. É o local do contato, do social e é onde tudo acontece. Podem ocorrer festividades, as mais variadas, e podem ser adornadas de acordo com a solenidade que aconteça.

As pessoas que vivem na mesma rua são chamadas entre si de vizinhos e, se coexistem há muito tempo, se tornam pessoais. Dependendo das tradições das pessoas que nela vivem, a maioria das atividades comuns entre os contíguos podem ser perpetradas na própria rua. Mais do que isso, ―se as ruas de uma cidade parecem interessantes, a cidade parecerá interessante; se elas parecerem monótonas, a cidade parecerá monótona‖ (JACOBS, 2009, p.29) (Figura 7). Assim, rua é o local de encontro das pessoas, de comunhão.

Figura 7: Modelo de via que desperta o interesse, a Rua Félix da Cunha, no Bairro Moinhos de Vento, em Porto Alegre - RS

Fonte: SOUZA17, 2018

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Local de convívio da população Portalegrense, a Rua Félix da Cunha e suas imediações, no Bairro Moinhos de Vento, é também um exemplo de local que desperta o interesse dos habitantes e turistas, que por lá circulam. Ilustração elaborada pelo autor, Fábio de Souza (2018), a partir de fotografia de acervo pessoal (2017), utilizando a ferramenta PhotoScape® 3.7.

Mas onde se dá esse convívio? Como visto, ―as ruas da cidade servem a vários fins além de comportar veículos‖ (JACOBS, 2009, p.29), mas elas, por si só, não são nada além de uma abstração e só adquirem significação quando interagem com o seu arredor, com edifícios, espaços públicos, comércio e mesmo outras ruas, ou seja, com os usos pautados à circulação, mas não sinônimos dela. E são no espaço das ruas que cabe aos pedestres, as calçadas, onde se desenvolvem fractais relações físicas e humanas.

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