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Na seção 2.4, discorri brevemente sobre as participantes deste estudo e o contexto onde estavam inseridas. A partir de agora, cabe ressaltar dados que não foram fornecidos inicialmente, e que serão pertinentes para a análise contextual dos dados. Tais informações foram apuradas após a aplicação do Questionário Socioeconômico (Anexo C).
É importante destacar que havia doze alunos na turma pesquisada. Dentre eles, apenas quatro alunas, que foram as participantes desta pesquisa, por se configurarem com idade igual ou superior a sessenta anos de idade. Todas as participantes do estudo são
24 “Há muito para ser aprendido ao escutar essas vozes da sala de aula de línguas”. (BAILEY & NUNAN, 1996,
mulheres. Coincidência ou não, esse fato de haver a maioria de participantes mulheres representa o fenômeno da feminilidade, característico dessa faixa etária e discutido por Haddad (1993). De fato, a mulher idosa ingressada em um curso de idiomas também confirma um aspecto visualizado e discutido teoricamente em Lima (2007) e Pizzolato (1995), estudos que recrutaram maior número de adultas da TI para a aprendizagem de LEs.
No entanto, Bonfim & Alvarez (2008) adicionam que o fato de a feminilidade ser uma constante, inclusive em outras áreas de atuação, pode contribuir para a crença de que “a mulher madura é mais ativa do que o homem de sua idade, vivendo ativamente e se envolvendo em diferentes atividades” se perpetue.
As alunas deste estudo possuíam características afetivo-emocionais variadas e uma renda média diferente dessas pesquisas resenhadas anteriormente. Neste contexto, exclusivamente, as estudantes da EJA tinham vida simples, com afazeres bem singelos, atingindo uma renda mínima de um salário e máxima de três salários mínimos. Duas delas viviam sozinhas e duas viviam com familiares. Todas frequentaram ensino público durante sua vida estudantil e apenas uma participante estava fazendo cursinho livre de inglês. Nenhuma dessas alunas teve oportunidade de estudar outras LEs e também nunca fez uma viagem ao exterior.
A seguir, exponho o perfil detalhado de cada uma das participantes. Os dados apresentados, a seguir, foram levantados com base em suas próprias palavras redigidas no Questionário Socioeconômico.
Essas alunas estavam matriculadas na escola onde foi realizada a pesquisa e, portanto, frequentavam regularmente as aulas em uma das turmas do último ciclo da EJA – a terceira etapa, equivalente ao terceiro ano do ensino médio. Eis as participantes:
Antonia
Tem 64 anos de idade, é costureira, aposentada, viúva e mora com seus dois filhos, Alfredo e Gustavo, de 27 e 31 anos, respectivamente. Sua renda mensal, junto com sua aposentadoria, gira em torno de dois salários-mínimos. Todos em sua casa contribuem para a renda mensal familiar. Por ser autônoma, faz seus próprios horários de trabalho, conciliando costura e afazeres domésticos. Sempre estudou em escola pública e nunca fez cursinho de inglês. As atividades com a língua consistem apenas em sala de aula e, remotamente, estuda inglês em sua casa.
Carlota
Tem 65 anos de idade, é dona de casa, aposentada, viúva e possui duas filhas, Letícia e Leila, que são casadas e moram em outra cidade. Recebe pensão e sua renda mensal equivale a três salários mínimos mensais. Sempre estudou em escola pública e agora faz cursinho de inglês paralelo a EJA, e adora estudar o idioma. Alega não ter dificuldade com a língua e sempre que tem vontade, sem contar horas, ela estuda inglês para rever questões gramaticais.
Duda
Tem 64 anos de idade, é gari, solteira e mora sozinha. Não tem filhos e trabalha para o seu próprio sustento, recebendo um salário mínimo por mês. Sempre estudou em escola pública e nunca fez cursinho de inglês. Gosta muito de estudar inglês e se dedica muito nessa aprendizagem. Mesmo com seu pouco tempo ocioso, consegue dedicar-se durante pelo menos três horas de estudos semanais com o idioma. Nesses momentos, ela revê conteúdos da matéria, porque afirma possuir muita dificuldade em decorar as regras.
Nora
Tem 62 anos de idade, é do lar e está tentando aposentar-se. Mora juntamente com sua filha e seu marido, Rafaela e Alberico, de 26 e 64 anos, respectivamente. Possui mais dois filhos, Emanuel e José, que estão casados e morando em outros locais. Não possui renda mensal e somente seu marido, agricultor, garante o sustento da casa. Sempre estudou em escola pública e nunca fez cursinho de inglês. Alega achar o inglês difícil, e, por isso, não dedica tempo suficiente para estudá-lo. Somente se esforça no domínio dessa língua para não ser reprovada na escola.
As expectativas das participantes em relação à LE (inglês)
A necessidade de conhecer as expectativas dessa turma com relação à LE (inglês) teve como principal referência o fato de que o contexto pesquisado dizia respeito a uma aprendizagem que, de certa forma, era imposta aos alunos. Assim, suas motivações e alvos com idioma estavam entrelaçados à aprendizagem como fatores determinantes. Dessa forma,
a pergunta 1 da entrevista e outros relatos espontâneos me fizeram chegar à compreensão percepção dessas participantes sobre o porquê de se aprender LE (inglês).
Percebi que Carlota foi a única participante que, durante as aulas, demonstrava bom rendimento nas tarefas propostas. Através de um dos relatos dessa estudante, pude notar que havia, ainda que superficialmente, uma suposta motivação: sua filha possivelmente mudaria para os Estados Unidos e ela a visitaria com o passar dos anos.
[1]
‘Sempre::: é::: gostava das das gincanas (+), e::: sempre tirava notas altas até:::, no inglês (+), eu tinha tempo para aprender igual eu tenho hoje(+), uma das minhas filhas tá tá::: até pensando em mudar pros Estados Unidos (+), daí já posso ir pra cuidar dos netos ((risos)), acho que não vou ter problema pra:: é::: entender as coisas lá.’
(Carlota, 65 anos – Narrativa oral)
Além disso, Carlota foi uma aluna que declarou que faria o vestibular para Letras – Português/Inglês (cf. excerto 8). Duda e Antonia, por outro lado, já demonstraram que o inglês não teria muita serventia para elas, já que, respectivamente, optariam por espanhol no vestibular, ou, então, não iriam seguir carreira universitária, ou, ainda, qualquer profissão que necessitasse do idioma:
[2]
‘Não vejo muito é, até porque não quero! (+), de tá assim::: aprendendo inglês não (+), eu só é vou formar aqui, e pronto!’
(Antonia, 64 anos – Pergunta 3 – Entrevista) [3]
‘Se eu for mesmo (+), fazer vestibular (+), eu estou vou e tento espanhol na prova (+), porque vai ser mais fácil, porque é mais parecido com o português! (+), o inglês eu sei mesmo’.
(Duda, 64 anos – Narrativa oral)
Duda confirmou essa mesma ideia na explicação de seu desenho, como veremos adiante, no excerto 76. Essa estudante, ainda, declarou em sala de aula que o inglês é difícil justamente por “não ser parecido com o português”:
[4]
Duda acrescentou que “tudo é difícil porque o inglês não é parecido com o português”.
(Nota de campo – 11, em 30/11/09)
Ao mesmo tempo em que observo essas declarações, percebo, no decorrer das observações, que as atitudes de Duda e Antonia combinaram traumas no decorrer de suas
experiências de aprendizagem com o idioma. Por não terem tido boas experiências com o idioma, elas desistiram de acreditar que poderiam aprendê-lo, caso estivessem motivadas e dispostas a esforçarem-se, conforme discuto mais adiante.
Tendo visto as características das participantes do contexto, apresento, na sequencia, as crenças das participantes identificadas.