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Para compreender os deslocamentos ocorridos no campo, através do duplo processo de interiorização da exterioridade e exteriorização da interioridade, se faz necessária uma reflexão sobre o papel dos indivíduos no mundo social a que pertencem.

Na teoria bourdieusiana os indivíduos não são apenas sujeitos passivos, determinados pelos esquemas simbólicos de organização do mundo social. Bourdieu designa os indivíduos como “agentes sociais”, afirmando que eles

[...] não são partículas submetidas a forças mecânicas, agindo sob a pressão de causas, nem tampouco sujeitos conscientes e conhecedores, obedecendo a razões e agindo com pleno conhecimento de causa. (...) Os “sujeitos” são, de fato, agentes que atuam e que sabem, dotados de um senso prático (...), de um sistema adquirido de preferências, de princípios de visão e de divisão (o que comumente chamamos de gosto), de estruturas cognitivas duradouras (que são essencialmente produto da incorporação de estruturas objetivas) e de esquemas de ação que orientam a percepção da situação e a resposta adequada. (BOURDIEU, 2011c, p. 41-42)

O fato de os indivíduos serem agentes que atuam e não apenas conservam passivamente os esquemas simbólicos instituídos no campo, indica o seu reconhecimento como um sujeito que possui, segundo Bourdieu (2004a, p. 25), uma capacidade “criadora, ativa, inventiva”, capaz de interferir nos esquemas simbólicos do seu grupo social e provocar deslocamentos. Para ressaltar esse papel ativo, o autor afirma, em Razões Práticas, que

Essa estrutura (do campo) não é imutável e a topologia que descreve um estado de posições sociais permite fundar uma análise dinâmica da conservação e da transformação da estrutura da distribuição das propriedades ativas e, assim, do espaço social. É isso que acredito expressar quando descrevo o espaço social global como um campo, isto é, ao mesmo tempo, como um campo de forças, cuja necessidade se impõe aos agentes que nele se encontram envolvidos, e como um campo de lutas, no interior do qual os agentes se enfrentam, com meios e fins diferenciados conforme sua posição na estrutura do campo de forças, contribuindo assim para a conservação ou a transformação de sua estrutura. (BOURDIEU, 2011c, p. 50)

Portanto, o indivíduo, compreendido como um agente social, é, ao mesmo tempo, reprodutor e produtor de sentido em seu meio social. Ele pensa e age dentro de uma estreita liberdade entre a cumplicidade ontológica, que mantém inconscientemente com sua história pregressa, e as percepções e apreciações que compartilha com as outras pessoas do seu entorno.

Deste modo, podemos dizer que os agentes sociais não são apenas determinados pelo

habitus, como também o determinam. Isto implica compreendê-lo como um sistema em

constante reformulação, gerado no passado e orientado para uma ação no presente. A atuação do agente em seu meio social só é possível porque o habitus não é necessariamente coerente e unificado, mas revela graus variados de integração e tensão, dependendo das contingências das situações sociais que o produziram ao longo do tempo.

A definição destes pontos mal definidos, delimitados, mal garantidos, reside, paradoxalmente, na liberdade que consentem aos seus ocupantes de os definir e de os delimitar introduzindo-lhe os seus limites, a sua definição, toda a necessidade incorporada que é constitutiva do seu habitus. (BOURDIEU, 2011b, p. 91)

Para se integrar ao meio social, os agentes participam de um jogo de disputas entre o estruturado (por meios sociais passados) e o estruturante (de ações e representações presentes). Desta forma, integrar-se ao meio social pressupõe, necessariamente, a participação do indivíduo no jogo inerente ao espaço social a que pertence, conservando os esquemas simbólicos de organização da atividade prática, o que significa interiorizar a exterioridade, ao mesmo tempo em que promove deslocamentos no campo que geram transformações no habitus, ou seja, exteriorizando a interioridade. Entretanto, as estratégias dos agentes sociais, isto é, suas tomadas de posição

(...), dependem da posição que eles ocupem na estrutura do campo, isto é, na distribuição do capital simbólico especifico, institucionalizado ou não (...), e que, através da mediação das disposições constitutivas de seus habitus (...), inclina-os seja a conservar seja a transformar a estrutura dessa distribuição, logo, a perpetuar as regras do jogo ou a subvertê-las. (BOURDIEU, 2011c, p. 63-64)

Desta forma, se os agentes sociais podem provocar deslocamentos no campo em que se situam, subvertendo as regras do jogo, depreende-se que há uma flexibilidade relativa do campo e, portanto, este aparece como indeterminado, com um campo de disputas que geram, por sua vez, transformações no habitus. Vale destacar o que diz Bourdieu:

É certo que a orientação da mudança depende do estado do sistema de possibilidades (...) que são oferecidas pela história e que determinam o que é possível e impossível de fazer ou de pensar em um dado momento do tempo, em um campo determinado; mas não é menos certo que ela depende também dos interesses (...) que orientam os agentes – em função de sua posição no polo dominante ou no polo dominado do campo – em direção a possibilidades mais seguras, mais

estabelecidas, ou em direção aos possíveis mais originais entre aqueles que já estão socialmente constituídos, ou até em direção a possibilidade que seja preciso criar do nada. (2011c, p. 63)

Com isto, torna-se pertinente ressaltar a compreensão do campo como um ente relacional e não como algo gerado a partir de uma associação causal. Ele se configura como uma dimensão semiaberta, isto é, possui regras definidas, mas, ao mesmo tempo, se encontra em movimento de ressignificação em função das forças sociais em litígio que afirmam, reproduzem, negam ou rompem com o que nele se encontra estabelecido. Estão em jogo a história pregressa de possibilidades e os interesses dos agentes sociais. Esta combinação resulta num jogo de disputas no campo que também dependem de fatores externos, como explica Bourdieu:

A tensão entre as posições, constitutiva da estrutura do campo, é também o que determina sua mudança, através de lutas a propósito de alvos que são eles próprios produzidos por essas lutas; mas, por maior que seja a autonomia do campo, o resultado dessas lutas nunca é completamente independente de fatores externos.Assim, as relações de força entre os “conservadores” e os “inovadores”, os ortodoxos e os heréticos, os velhos e os “novos” (ou os “modernos”) dependem fortemente do estado das lutas externas e do reforço que uns e outros possam encontrar fora. (2011c, p. 65)

Desta forma, Bourdieu abre uma possibilidade para integrar outros determinantes da ação no processo de transformação social, ao afirmar que fatores externos podem influenciar os deslocamentos no campo. Entretanto, não esclarece exatamente quais seriam esses aspectos.