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3 DESCRIPTION OF THE SOFTWARE INTERFACE
Fonte: Acervo Particular
Todos os alunos do Beija-Flor aprendem a ler e escrever com qualidade. São leitores proficientes e reconhecem desde cedo o que significa participar de uma comunidade de leitores, apesar das condições sociais adversas da comunidade. A Coordenadora Geral do Ensino Fundamental I do município de Boa Vista do Tupim traduziu estas imagens, dizendo:
“Estas fotos simbolizam o mais belo final feliz que já vi. Representa o desfecho de uma história perversa de analfabetismo que não mais seguirá sendo contada por gerações nesta família. De pé, com o livro na mão, a menina de 6 anos, de uma classe multisseriada da zona rural, lê para a avó e para a mãe. A `Vida Maria39´ acaba aqui.” (Thaís Pinheiro Costa Mascarenhas – Coordenadora Geral do Ensino Fundamental I)
Para me aproximar um pouco mais desta professora, sugeri a escrita de uma carta pessoal, para que ela pudesse me contar um pouco da sua trajetória pessoal e profissional.
39 Vida Maria é um curta produzido pela Secretaria de Cultura do Governo do Estado do Ceará que retrata
a perversa reprodução das práticas sociais que cerceia o direito à cidadania às classes desfavorecidas. Disponível em http://www.youtube.com/watch?v=1FWSCSGTPR4
Giovana,
Olá, meu nome é Sueide, trabalho há 5 anos na Escola Santo Antônio como professora do primeiro ciclo (2º e 3º anos). Nos últimos anos tenho conseguido alfabetizar toda a turma, o que me dá a sensação de dever cumprido.
Mas, nem sempre as coisas foram assim, sou filha mais velha de um família de 5 filhos, ou seja, já estive do outro lado da sala de aula numa situação bem parecida com a dos meus alunos, no entanto sou do tempo em que a escola não oferecia livros para ler e que as nossas produções serviam apenas para a pró marcar os erros, mas sempre gostei da escola, das aulas, de fazer a tarefa de casa, modéstia a parte era sempre a primeira da turma.
Quando fui fazer o 2º grau optei por Magistério, era a única chance de obter alguma profissão, já que em 1999 faculdade era um sonho muito, muito distante. Acho que se tivessem outras opções não optaria por magistério, mas hoje vejo que fiz uma boa escolha.
Dois anos após a formatura estava concursada pelo município de Boa Vista do Tupim, minha primeira turma foi multisseriada na Escola Laurentino Ribeiro, zona rural bem isolada. Mas tinha uma turma legal, os alunos eram colaborativos, os pais participavam, havia alunos do pré- escolar até a 4ª série. Lá eu conseguia alfabetizar, não todos, mas boa parte, mas não sabia o porquê.
Dois anos mais tarde consegui uma vaga mais próxima de casa, na Escola Santo Antônio onde estou até hoje. O primeiro ano foi muito difícil, a sala era cheia, não havia disciplina, as famílias ausentes, o diretor era fantasma e eu era uma professora sem experiência a frente de tudo isso. Só poderia resultar em um ano muito ruim, de muita angústia. Eu me lembro que queria ensinar como aprendi, que tudo era muito doloroso, tanto para mim como para os alunos.
Daí surgiu a necessidade de honrar o meu salário (por menor que fosse!), mas eu estava sendo paga para ensinar, da necessidade de ser profissional, da auto afirmação e de, acima de tudo, ajudar as crianças a ler e a escrever, sendo que uma das maneiras mais seguras deles saírem daquela situação de extrema pobreza é a escola e eu como profissional estava negligenciando esta chance tão importante.
O primeiro passo que considero importante foi tentar entender o que os meus alunos pensavam para tentar ajudá-los, o que por exemplo, eles pensavam quando escreviam AO para a palavra GATO. Chegou até as minhas mãos um livro chamado Manual do Alfabetizador que falava bastante sobre as pesquisas de Emília Ferreiro e a psicogênese da língua escrita, a linguagem era muito clara e ainda vinha alguns exemplos de boas atividades para cada nível de leitura e escrita. Foi
como se surgisse uma luz no fim do túnel, engraçado que eu já tinha ouvido falar em Ferreiro e na psicogênese, mas nenhuma leitura me fez tanto sentido. Depois me encontrei com outras publicações, como por exemplo, Ler e Escrever da Délia Lerner, Alfabetização e Letramento da Magda Soares, entre outros. Além disso, o município oferece 2 horas de planejamento semanal, acompanhamento e grupos de estudo com o coordenador pedagógico, o que tem nos orientado e ajudado muito a pensar sobre nossa prática.
Em 2006 surgiu a oportunidade de cursar uma faculdade à distância, na FTC, escolhi o Curso Normal Superior para a 1ª a 4ª série. O curso me ajudou muito pois ainda tinha várias dúvidas, por ser minha área os assuntos retratavam a minha realidade, as minhas dúvidas, as minhas certezas. As matérias sobre metodologia foram as mais apreciadas, principalmente as Metodologias da Alfabetização, Matemática, História ...
A primeira turma que consegui alfabetizar totalmente foi muito especial. Emília Ferreiro afirma ser possível alfabetizar uma criança em 3 meses, então comecei a perseguir a meta de alfabetizá-los. O último a conseguir foi um aluno chamado Jonathan, ele vinha de vários anos de insucessos, era pequenino, mirradinho e desacreditado. Ele tinha sido muito doente e ainda passava fome. Procurei a família que disse que não podia fazer muito, a mãe era viúva e analfabeta. Decidi dar a Jonathan toda atenção na escola com tudo que eu estava aprendendo e no final do ano enfim ele estava alfabetizado junto com a sua turma. Hoje ele está no 5º ano e tenho boas notícias sobre o seu desenvolvimento.
Hoje, ainda tenho dúvidas, desafios e necessidades de continuar estudando, de fazer pós- graduação, quem sabe? Mas tenho certeza que já andei bastante. Todas as tardes me dedico ao planejamento e vou caminhando, um dia após o outro.
Até a próxima! Sueide
A carta de Sueide revelou elementos da sua trajetória pessoal e profissional que me pareceram interessantes para compreender os deslocamentos no campo educacional, que geraram mudanças significativas em Boa Vista do Tupim. Na carta ela apresenta duas justificativas para a origem da necessidade de ser profissional. A primeira, que me pareceu menos determinante, estava relacionada ao fato de honrar o próprio salário. A segunda, ao compromisso de ajudar as crianças a ler e a escrever e com isto gerar uma possibilidade de emancipação social.
Naquele momento já me perguntava como foi que Sueide chegou a isto e percebi que a sua necessidade de profissionalização, e de todos os outros educadores de Boa Vista do Tupim, não estava descolada do contexto social. Na condição de integrante de um determinado campo educacional, o professor aprende formas e discursos compatíveis com o grupo social no qual está inserido e com o qual mantém uma identificação. Tornou-se evidente também que, num determinado momento da trajetória de Sueide, o discurso produzido se distanciou radicalmente de uma posição conformista diante das dificuldades e passou a incorporar o compromisso com as aprendizagens dos alunos. Essa transformação nas práticas discursivas e no fazer pedagógico representava uma mudança no habitus daquele grupo social. A lógica dos que ficam pelo meio do
caminho foi desnaturalizada e assumida como um problema a ser superado.
Neste processo, a reflexão sobre a alfabetização ganhou espaço no campo educacional de Boa Vista do Tupim e gerou novos significados para as práticas sociais de leitura e escrita, inscritas nas propostas pedagógicas e no cotidiano da comunidade em geral. Enfeitar um carrinho de mão e sair por uma comunidade que vive do processamento artesanal da castanha de caju é uma ação política que pode gerar rupturas radicais naquela comunidade. Os Agentes de Leitura da Escola Santo Antonio provocam um deslocamento no contexto social do Beija-Flor, fruto da tensão entre o instituído e o instituinte, ao compartilharem com a comunidade as histórias preferidas da turma. Essa mudança no campo educacional, no qual Sueide está inserida, gerou também uma significativa revisão identitária, afetando de modo radical o seu compromisso social diante da profissão escolhida. A necessidade de ser profissional passou a ser a necessidade de garantir que nunca mais um aluno seu ficaria pelo meio do caminho. A partir de todas as situações relatadas, concluí que Boa Vista do Tupim parecia ser um campo de pesquisa fecundo para compreender como os educadores de uma determinada localidade conseguem se mobilizar e se articular para garantir melhores resultados na aprendizagem dos estudantes, apesar das condições adversas.
Esta aproximação empírica, enquanto formadora do ICEP, também contribuiu sobremaneira para desenhar os contornos e instrumentos da pesquisa de campo. As demandas de formação dos coordenadores pedagógicos apontaram para uma pesquisa que pudesse articular formação e coleta de dados, a carta produzida por Sueide se
destacou como uma fonte rica de informações sobre o processo experiencial da formação continuada e, por fim, a participação em eventos realizados pela rede municipal também revelou a pertinência da observação e do diálogo com diferentes atores, para compreender as mudanças ocorridas no município.
5.2 Segundo percurso da trilha: aproximação ao campo como pesquisadora
Em 2011 e 2012 não segui atuando como formadora externa em Boa Vista do Tupim, porque assumi a função de Coordenadora Pedagógica Regional do ICEP, o que tornou incompatível a continuidade do trabalho de acompanhamento direto ao município. Para me substituir na formação de coordenadores pedagógicos, foi convidada a Professora Raidalva da Silva, também formadora do ICEP.
Isto possibilitou uma aproximação ao campo mais focada nos interesses dessa pesquisa. Neste período segui utilizando a observação como principal instrumento de pesquisa. No Dia L e no Dia E realizei uma observação simples, me aproximando do contexto de forma espontânea e registrando os aspectos mais significativos.
Nas outras duas situações, relatadas neste item, assumi como instrumento de pesquisa a observação participante, me posicionando como membro do grupo, participando e opinando sobre os temas em debate. Neste percurso, pude consolidar as estratégias que seriam utilizadas no terceiro percurso da trilha da pesquisa, a partir da negociação com os educadores de Boa Vista do Tupim.
5.2.1 O Dia L e o Dia E: duas situações emblemáticas na pesquisa de campo
O Dia L e o Dia E se configuraram, em minha opinião, como duas situações emblemáticas no percurso da trilha da pesquisa de campo e na própria história de Boa Vista do Tupim.
O Dia L é a abreviação de Dia pela Leitura. No dia 2 de dezembro de 2011 foi armado um grande palanque na praça de Boa Vista do Tupim, para que os estudantes pudessem
compartilhar com a comunidade as práticas de leitura vivenciadas nos diversos Projetos Institucionais de Leitura, realizados nas escolas da rede de ensino.