• Aucun résultat trouvé

3.2 Disques chutant en tandem

3.2.1 Corps en tandem ayant des trajectoires rectilignes

3.2.1.5 Simulation num´erique de deux disques fixes en tandem

Já no âmbito do discurso interno, o fenômeno da “direita envergonhada” é ainda menos patente. Importa referir que durante o citado evento promovido pela FTD pudemos observar a presença constante de termos como “direita” e “conservador”, mencionados inúmeras vezes por vários palestrantes sob um viés invariavelmente positivo. Uma das palestras, por exemplo, intitulou-se “Comunicação política de um partido de conservador e progressista”, onde se pretendeu refletir acerca dos métodos mais adequados que seriam necessários para cooptar o eleitor conservador para o PP. Reproduzindo pesquisas que mensuraram a opinião do eleitorado brasileiro a respeito de temas como aborto, direito de propriedade, religiosidade e recrudescimento da lei penal, o palestrante, doutor em Ciência Política, concluiu que o eleitor seria “sensível às teses conservadoras” e que o PP se

39Poderíamos, a exemplo de Almeida (2004), analisar o estatuto do partido. Porém, entendemos que este

documento, por abarcar o PP nacionalmente, talvez não represente a doutrina e a praxis política do PP gaúcho. Sobre as possíveis diferenças entre o PP/RS e o PP nacional, ver o item 2.4 deste capítulo.

59 credenciaria como o partido mais indicado para difundi-las com êxito.40 Para tanto, o partido precisaria: 1) investir na “formação ideológica” de seus militantes; 2) reverter a “dominância da retórica de esquerda nos meios de comunicação”, criando uma linguagem própria para a comunicação política com os eleitores; 3) formar “redes intelectuais” capazes de dar sustentação teórica aos pressupostos conservadores; 4) envolver-se com bases sociais populares e; 5) impedir que a esquerda efetive a “apropriação de bandeiras e teses” que originalmente pertenceriam a direita.

Outra palestra, proferida por um político experimentado, intitulou-se “Case de Pelotas: uma gestão progressista conservadora”, onde foi exposta a prática administrativa do PP/RS nas prefeituras. Interessa-nos aqui acentuar que os termos “progressista” e “conservador” novamente são apresentados como complementos (senão sinônimos), o que evidencia que o partido elabora uma significação particular do progressismo, que na terminologia política é associado à esquerda. Logo, o PP seria simultaneamente progressista e conservador, entendendo-se por “progressista” aquela proposta política que almeja a prosperidade e a melhoria das condições sócio-econômicas, sem qualquer sintonia com os valores da esquerda. Essa concepção é chancelada por outro palestrante, ex-dirigente da FTD. Em sua exposição, intitulada “Ideologias políticas”, o palestrante ponderou que o progressismo consistiria em “conservar o que está bom e mudar o que não está, mas sempre gradualmente”. Para ele, esta postura não se confundiria com o reacionarismo, uma vez que “o reacionário quer voltar para trás; nós não: só queremos conservar o que é bom, preservando os valores”. Logo, a realização do progresso reclamaria necessariamente a preservação de algumas estruturas tradicionais já consolidadas, sem as quais o avanço se tornaria ruptura. Sobre o assunto, outro palestrante, diretor da FTD, escreve no site da entidade:

No Brasil o termo conservador assumiu uma conotação pejorativa. Conservador tornou-se sinônimo de retrógrado, defensor da manutenção de privilégios e do status quo. Nada mais longe da realidade: o verdadeiro conservador é aquele que preserva as conquistas do progresso humano, que incluem alguns dos mais basilares direitos do cidadão. Conservador é quem também defende avanços nestas conquistas e busca aprimorá-las, sempre respeitando os direitos individuais e as liberdades fundamentais (HATTEM, [2011]).

Portanto, se a visão de progressismo do PP almejaria a mudança gradual juntamente com a preservação de determinados valores, o conservadorismo perseguiria a preservação das

40Esta assertiva é compartilhada por outro palestrante do evento. Empresário e ex-dirigente da FTD, ele

assegurou que “as eleições presidenciais têm sido um teatro dominado pela esquerda. Apesar disso, o povo brasileiro é conservador e aceita as nossas ideias”.

60 “conquistas do progresso humano”. Com base neste raciocínio, ser conservador é ser progressista (e vice-versa).41 Ancorando-se em tal percepção, o palestrante, em exposição denominada “O sentido e a função dos partidos políticos: os partidos conservadores europeus”, discorreu acerca de sua viagem à Europa, onde, representando a FTD e o PP/RS, manteve contato com algumas siglas consideradas próximas ideologicamente ao PP. A motivação da viagem, segundo ele, seria estabelecer laços com partidos específicos, como o Partido Popular (Espanha), o Il Popolo della Libertà (Itália) e o Partido Democrata-Cristão (Portugal). A partir destes contatos iniciais, o PP pretenderia estabelecer relações permanentes com os partidos conservadores europeus, a fim de adaptar os métodos de ação destas agremiações ao contexto brasileiro. As conclusões são formuladas pelo próprio palestrante no site da FTD:

A visita aos três países mencionados e às lideranças políticas conservadoras demonstrou que a ideologia do nosso Partido Progressista brasileiro continua muito atual. No Brasil, apesar de o establishment político buscar incessantemente classificar erradamente toda ideia conservadora ou de direita anacrônica e equivocada, encontramos em nossa sociedade um grande respaldo à ideologia e à postura conservadora. Buscar exemplos no exterior do sucesso que partidos políticos estão tendo em apresentar com clareza e correção tais ideias a sociedade e como elas estão resultando em vitórias eleitorais é da maior importância, sobretudo neste momento de grave relativismo moral predominante e da crise dos valores e princípios que sempre sustentaram as democracias ocidentais e que hoje encontram- se sob forte ataque (HATTEM, [2011]).

Seria desnecessário destacar que a linguagem deste excerto é bastante ideologizada, notando-se claramente a apologia do conservadorismo. Depreende-se que haveria no Brasil um esforço contínuo para desqualificar as propostas políticas oriundas do campo da direita. A despeito disso, a sociedade brasileira seria receptiva a essas propostas, respaldando a “ideologia” e a “postura conservadora”. Uma vez que este apoio não tem se traduzido em adesão eleitoral massiva, caberia ao PP apreender os métodos utilizados com sucesso pelos partidos conservadores europeus, aplicando-os no Brasil.

Assim, se no discurso externo desenvolvido pelo PP/RS se verifica a presença de elementos que depõem contra o fenômeno da “direita envergonhada”, no discurso interno do partido essa tendência é ainda mais flagrante. Novamente ressaltamos que não seria prudente descartar a existência de mensagens “envergonhadas” também no discurso interno dos progressistas. Porém, ao menos no campo que abrange a formação doutrinária da militância,

41O julgamento de outro diretor da FTD não difere desta conclusão: “o progressista, eu vejo hoje não como

alguém revoltado com tudo e contra tudo, mas justamente aquele que quer, visando o futuro, trabalhar em prol da manutenção dos valores com uma abertura para a visão solidária de um mundo melhor” (SANTIN, 2005, p. 229).

61 há um esforço permanente de afirmação dos valores ligados ao conservadorismo, o que percebemos através de observação participante experienciada no seio do próprio PP.