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La simulation comme méthode d’évaluation

1.3 Evaluation de l’impact des SIV

1.3.2 La simulation comme méthode d’évaluation

A intenção de abordar a obra de cada um dos autores separadamente teve como intuito facilitar a compreensão das práticas narradas e de proporcionar as bases para uma comparação entre as retóricas da alteridade, que será realizada nesse espaço. Dessa comparação, procuraremos pensar sobre quais seriam os dados de maior valor etnográfico para o nosso estudo. Trata-se das conclusões acerca da reflexão realizada até aqui.

Em termos de narrativa, destacamos que todos os cronistas empregaram filtros ocidentais para pensar o índio e construir o seu texto. Em Hans Staden, essa noção pode ser notada na forma como ele se coloca em posição de superioridade em relação aos indígenas, buscando apoio no Deus cristão. Em Thevet, os filtros ocidentais são perceptíveis nas passagens em que ele compara as práticas ameríndias com práticas de outras sociedades, de forma a classificar o lugar do índio ou de traduzi-lo. Também são percebidos nas passagens em que interpreta as crenças ameríndias a partir da Fé cristã, realizando aproximações entre

práticas indígenas e crenças religiosas ocidentais. No texto de Léry, aparentemente produzido de forma imparcial, há indícios de que o índio foi pensado e até mesmo julgado a partir de concepções ocidentais tanto no emprego da comparação, quanto no uso da palavra “diabólico”. Tal termo indica que o julgamento foi norteado pela Fé cristã. A narrativa de Gabriel Soares de Souza é mais branda que as demais, não apresentando comparações ou tradução do outro. Porém, o cronista julgou os ameríndios, definindo-os como seres “desamoráveis”.

As narrativas, conforme apontado acima, com exceção daquela produzida por Gabriel Soares de Souza, apresentam o filtro religioso cristão. É importante destacar, contudo, que tal filtro foi empregado de diferentes maneiras pelos cronistas, conforme procuramos evidenciar na análise individual das narrativas. As imagens elencadas pelos autores também possuem indícios de filtros ocidentais. A composição das cenas apresenta características renascentistas. Duas delas - atribuída a André Thevet e a Jean de Léry-, inclusive, expõem o índio a partir do tipo físico ideal privilegiado no Renascimento. O filtro religioso, contudo, parece constar apenas na imagem atribuída a Thevet.

Em termos de conteúdo, constatamos que os autores não relatam as práticas mortuárias sempre da mesma maneira, o que dá a impressão de que os elementos observados não combinam perfeitamente entre si:

a) Hans Staden demonstra o hábito de envolver o morto em rede e de abrir a cova no pátio da aldeia. Não há sinais de acompanhamento funerário ou ornamentação e de ritos para além do choro. Não é especificado o modo de tratar o corpo das mulheres falecidas e as lideranças. O tratamento dado aos doentes também não é mencionado. b) André Thevet, por sua vez, demonstra um sepultamento direto no solo, sem rede, onde

o morto é posicionado na cova de forma específica e acompanhado de seus pertences. O sepultamento é acompanhado de ritual praticado por pajé (conforme o maracá da ilustração sugere), além de objeto que cobre a região da cabeça. Também não constam informações sobre sepultamentos das mulheres e o tratamento dado aos doentes. c) Quanto ao texto de Jean de Léry, este faz menção à prática de envolver as lideranças

em rede e de sepultá-las em cova aberta na terra. O indivíduo recebe ornamentação e acompanhamento funerário. Não consta na narrativa informação sobre sepultamentos de membros comuns e de mulheres. O doente recebe os cuidados do pajé, enquanto que o restante da aldeia segue com suas rotinas diárias.

d) Por fim, Gabriel Soares de Souza, destoando dos demais cronistas, observou que os membros comuns da aldeia são envoltos em redes e depositados dentro de covas. Os

sepultamentos de mulheres, aparentemente, são feitos de forma semelhante, em cova aberta pelo marido ou algum parente. Os líderes recebem tratamento complexo, de forma que fique isolado do contato com a terra. A sua estrutura funerária fica alojada no interior da casa onde morava. Fogo e comida o acompanham e o líder também recebe ornamentação. O cronista observou, além disso, sepultamento diferenciado para filhos de lideranças, o qual é feito dentro de uma cerâmica. O pote que serve como urna funerária é enterrado no espaço interno da casa, no mesmo local destinado ao seu pai. Os doentes, por sua vez, recebem poucos cuidados e são precocemente dados como mortos.

A análise individual nos mostrou que o objetivo dos cronistas ao escrever sobre os índios, bem como seus filtros ocidentais, são aspectos importantes e norteadores das suas narrativas, os quais condicionaram e até mesmo limitaram as observações do indígena. Nesse sentido, as variações das observações, elencadas acima, devem tanto ter relação com esses objetivos particulares, quanto com os filtros, acionados de diferentes maneiras. Outros fatores, que fogem da nossa percepção, também podem estar associados às tais variações. É possível, por exemplo, que nem todos tenham tido tempo suficiente junto aos Tupinambá para identificar e interpretar coerentemente os aspectos observados. A tradução das obras para o português também pode ter contribuído para as diferentes nuances dos conteúdos.

No entanto, as retóricas da alteridade apresentam algumas características em comum: todos os autores observaram e descreveram a prática do sepultamento em cova feita no solo, e o ritual de “chorar o morto”, praticado pelas mulheres. Em Hans Staden, essas informações constam na ilustração elencada junto ao texto; em André Thevet, elas aparecem na descrição e, mais detalhadamente, na ilustração; em Jean de Léry, aparecem na descrição e na ilustração e em Gabriel Soares de Souza, constam na descrição. Por “coincidirem” nas narrativas, pensamos que o sepultamento acompanhado de ritual praticado pelas mulheres possui valor enquanto dado etnográfico. Além disso, em três das quatro narrativas foi especificado, através de texto e imagem, que a cova é circular.

É interessante observar, ainda, que três autores (Hans Staden, Léry e Soares de Souza) indicam a prática de envolver a rede em torno do indivíduo a ser sepultado. Da mesma forma, a ornamentação do morto é mencionada por mais de um cronista (Léry e por Soares de Souza), enquanto que acompanhamentos funerários constam na obra de Thevet (ilustração), Léry e Soares de Souza. A ideia de que existem formas de sepultamento diferenciadas para líderes e pessoas comuns aparece na obra de Léry e de Soares de Souza. Festividades em

honra dos mortos também constam em mais de uma narrativa (Thevet, Léry e Soares de Souza). O sepultamento fora de casa, mas aparentemente no mesmo terreno, é percebido na ilustração de Staden, Thevet e Léry. Todas essas observações, por se repetirem, indicam certo valor enquanto dados etnográficos, indicando que as práticas elencadas não são invenções dos viajantes, ainda que tenham sido elaboradas a partir de diferentes intenções e interpretações.

Dois autores apresentam em suas narrativas elementos que não se repetem, mas que também não contradizem as demais observações, devendo ser considerados:

a) André Thevet observou a prática de proteger o crânio do indivíduo sepultado, conforme consta na ilustração elencada junto ao texto. Como vários elementos da imagem combinam com as práticas narradas por outros cronistas, poderíamos considerar esse elemento como uma “piscadela”, que complementa a visão dos ritos e práticas fúnebres. Não acreditamos que a ilustração, por fugir da visão apresentada pelo autor no texto, possa ser considerada uma simples invenção de desenhista especializado3, justamente por alguns aspectos “coincidirem” com

elementos observados por outros cronistas.

b) Gabriel Soares de Souza, por sua vez, observou a prática de isolar a liderança do contato com a terra, através da suspensão da rede do indivíduo, além de sepultamento em “pote” para os filhos das lideranças, garantindo o mesmo isolamento do corpo. O cronista português evidencia, do mesmo modo, que as mulheres também recebiam sepultamentos e ritos, os quais não divergem substancialmente do tratamento dados aos homens comuns. Essas observações também podem ser consideradas como “piscadelas” pertinentes, uma vez que se distanciam da intenção de traduzir ou julgar e, nesse sentido, funcionam como aberturas para enxergar o outro.

Os dados elencados, de ambos os viajantes, deverão ser cruzados com as fontes arqueológicas, já que eles parecem ser pistas importantes para enxergar a prática ritual dos Tupinambá.

A partir da análise que procuramos desenvolver, constatamos que as narrativas apresentam dados pertinentes e próximos das reais práticas ameríndias do século XVI – apesar de muitos desses dados não poderem ser tomados como verdades absolutas, devendo ser lidos e entendidos em conjunto e sempre considerando o objetivo do autor e suas

3 Se feita por desenhista especializado, este deve ter se inspirado no desenho de outros ilustradores da época e

nos textos de cronistas em contato com o Novo Mundo (conforme exemplo de De Bry, que copiou cenas contidas na obra de Hans Staden (ALMEIDA, 2002, p. 145)). Para mais informações sobre as imagens, ver tese de Flavia Tatsch (2011), referente a construção das figuras dos séculos XV e XVI.

ferramentas para observar e construir uma imagem do outro. Contudo, cabe nos perguntarmos se os dados de valor etnográfico, posteriores à chegada dos europeus, servem para iluminar os achados arqueológicos associados aos Tupi de tempo anterior à Conquista. O próximo capítulo, partindo das evidências dessa análise, procurará dar conta desse questionamento.

5 O UNIVERSO MORTUÁRIO TUPI

Com a finalidade de dar continuidade à pesquisa, o presente capítulo realizará o cruzamento entre as categorias de fontes analisadas até o momento, procurando evidenciar os resultados. A intenção é que o exercício contribua para iluminar as práticas mortuárias Tupi.

Além da projeção etnográfica, o capítulo se preocupará com o estudo de aspectos ainda não abordados, mas que são indispensáveis para a problematização do universo mortuário. Entre eles, destacamos a discussão acerca da validade de os arqueólogos se valerem, ainda, de uma terceira categoria de fonte, produzida pela Antropologia, interessada nas populações Tupi recentes, e a reflexão acerca do tratamento destinado aos mortos pertencentes à aldeia em contraposição aos mortos depositados nas lixeiras dos sítios arqueológicos.

Cada capítulo dessa Dissertação de Mestrado foi desenvolvido para atingir um objetivo em específico, os quais, reunidos, fornecem as bases para a discussão final. Após essa última parte, esperamos que seja possível perceber como o trabalho, de modo geral, tenta contribuir na tarefa de rever interpretações equivocadas ou demasiadamente restritas, as quais foram construídas pela Arqueologia a partir de um único sítio-cemitério ou a partir de achados fortuitos, raramente comparados com outros dados mortuários. Também esperamos que o diálogo entre a Arqueologia e a História seja notado, o qual foi estabelecido na medida em que colocamos em interação os dados arqueológicos, os dados etno-históricos e, em menor medida, os dados etnográficos de grupos Guarani recentes.