2.5 Plateformes de simulation multi-Agent
2.5.6 Discussion
Desde a fundação da Companhia de Jesus, no século XVI, a dispersão e mobilidade dos poucos companheiros de Ordem que existiam fizeram com que surgisse a necessidade de que os jesuítas dessem conta do que estava ocorrendo nas suas missões tanto na Europa, quanto em outras regiões. Uma das formas mais eficazes de unir o corpo com a cabeça e entre si aqueles que estavam dispersos1089 foi à troca regular de correspondências entre os súditos e o seu Superior1090, que manteria em circulação notícias informativas sobre os trabalhos que eram realizados pelos operários na seara do Senhor1091. A reunião dos seus membros e os relatos das experiências construiria uma nova forma de Congregação religiosa, fazendo com que um constante discernimento dos trabalhos apostólicos
1088
ROUILLON ARRÓSPIDE, Introduccion, 1991, pp. LXXV-LXXVIII.
1089
Const.,1635, pp. 88-106. “Quae ad eos dimittendos pertinet...” [na ed. de 1997, ver §§ 204-242].
1090
Const.,1635, p. 101. “Quae ad eos dimittendos pertinet...” [na ed. de 1997, ver § 673].
1091
LAMALLE, E. L’ archivio di un grande ordine religioso: quello della Compagnia di Gesù. Archiva
levasse a novas formas de ação, mais em consonância com as situações particulares de cada processo vivido nas diferentes missões da Companhia1092.
Além das cartas e seus anexos, contendo assuntos mais administrativos, Ignacio de Loyola e Juan de Polanco haviam contemplado o envio periódico para Roma de outra classe de escritos: a Relación, que seria uma forma de carta cujo caráter seria mais narrativo que o apresentado em uma Litterae Anuae. A Relación tinha a intenção de que houvesse conhecimento e edificação mútua dos membros, a defesa de suas ações contra qualquer controvérsia e visava lançar as bases de uma história de grande escala1093. Como a cultura epistolar da época exigia, as Litterae Anuae e as Relaciones seguiam como referência a disposição feita por Cícero, onde uma carta deveria ser dividida em partes que se articulariam entre si1094.
A frequência da escrita e envio dessas correspondências, à medida que se expandiam o número de jesuítas e de regiões missionadas, foi alterada. Os requisitos iniciais deram lugar a uma prática, na instrução do Padre Geral Everardo Mercuriano1095, chamada Formula Scribendi. A Formula foi incluída na Regulae Societatis Iesu (1580), sendo alterada em suas edições posteriores1096. O desenvolvimento foi estabelecido com várias ordens e instruções do Padre Geral, especialmente de Claudio Acquaviva1097, para certas categorias de informações1098. Essas instruções de Acquaviva serviriam de base para uma escrita da história da
1092
RODRIGUES, “A mis em Xpo…”, 2010, p. 2.
1093
LAMALLE, E. L’ archivio di un grande ordine religioso: quello della Compagnia di Gesù. Archiva
Ecclesiae, anni XXIX a XXV, 1, 1981-1982, p. 103. 1094
BETTIOL, Maria Regina Barcelos. A escritura do intervalo: a poética epistolar de Antônio Vieira. Tese (Doutorado em Letras) Programa de Pós-Graduação em Letras. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2008, p. 42.
1095
Everard Lardinois (Everardo Mercuriano) nasceu em 1514, Marcourt (Luxemburgo, Bélgica); morreu em 1 de agosto de 1580, em Roma (Itália). Ingressou na Companhia de Jesus em 8 de setembro de 1548, em Paris (França); sendo ordenado no ano de 1546, em Lieja (Bélgica). Fez os últimos votos, no dia 25 de fevereiro de 1553, em Perugia (Itália). Foi o Quarto Padre Geral da Companhia de Jesus (1573-1580), (O’NEILL e DOMÍNGUEZ, DHCJ (Volume II), 2001, p. 1611).
1096
A Formula Scribendi foi uma instrução do Padre Geral Everardo Mercuriano, enviada em 1580 a Companhia de Jesus, encomendado pela III Congregação Geral (1573), sobre a aplicação das Constituições [§§ 629; 673-676], em relação a correspondência oficial. A Formula é constituída de três partes: a primeira, sem título, trata das cartas dos Superiores (1-25); a segunda, é sobre as “cartas anuales” (26-31); a terceira, regulariza os “Catálogos e informes anuales”; os números 12, 26 e 31 foram adicionados pelo Geral Claudio Acquaviva (Institutum S.I 3: 41-45), (O’NEILL e DOMÍNGUEZ, DHCJ (Volume I), 2001, p. 966)
1097
Claudio Acquaviva d’Aragona (Cláudio Aquaviva) nasceu em 14 de setembro de 1543, Atri (Teramo, Itália); morreu em 31 de janeiro de 1615, em Roma (Itália). Ingressou na Companhia de Jesus em 22 de julho de 1567, em Roma; sendo ordenado no ano de 1574, em Roma. Fez os últimos votos, no dia 25 de fevereiro de 1553, em Perugia (Itália). Foi o Quinto Padre Geral da Companhia de Jesus (1581-1615), (O’NEILL e DOMÍNGUEZ, DHCJ (Volume II), 2001, p. 1614).
1098
LAMALLE, E. L’ archivio di un grande ordine religioso: quello della Compagnia di Gesù. Archiva
Companhia de Jesus. O primeiro quadro ilustra a estrutura das cartas e das relaciones:
Estrutura das Litterae Anuae (Cartas Ânuas) e Relaciones Cartas e Relaciones de Antonio Ruiz de Montoya 1. Salutatio (saudação breve)
1. Poderia ser uma expressão em
terceira pessoa, apresentando uma manifestação de sentimento amistoso em relação ao seu destinatário. Em uma fórmula piedosa, a saudação poderia variar segundo a posição hierárquica do seu destinatário (inferior, igual ou superior).
1. No fim da vida, as cartas
iniciam com Pax Christi, etc.
2. Endereço 2. Onde se encontra quem é
destinatário da carta.
2. Vuestra Reverencia (quando
destinada a um Superior ou Provincial). 3. Captatio benevolentiae (captação de benevolência)
3. Contém certa ordenação das
palavras, que podem influir de maneira positiva na mente do seu receptor. A captatio faz parte do exórdium (discurso, prefácio), reunindo os procedimentos que buscariam uma disposição favorável. Para tanto, quem escreve deveria se apresentar como humilde, conquistando a estima e o respeito daquele que lê a sua causa. Contudo, não são todas as cartas que vão apresentar este resumo.
3. “Con algun recelo” é a frase
mais recorrente no início das cartas ou das relaciones destinadas aos Superiores ou Provinciais.
4. Narratio (narração)
4. Onde se informa à matéria que
está em discussão, expondo as circunstâncias dos fatos que antecederam o contexto histórico. Pode ser simples e narrando apenas um assunto ou complexo, abarcando vários temas. É a construção de um relato para alguém que está ausente, estabelecendo o “estado das coisas” e mostrando como ocorreu a intervenção do jesuíta na situação e como o tema foi transformado.
4. Narra minuciosamente cada
passo da formação de cada uma das reducciones, desde os primeiros contatos até a sua reorganização ou destruição.
5. Conclusio (conclusão)
5. É um resumo da narração, onde
constam as obrigações e as últimas resoluções tomadas pelos padres em relação aos acontecimentos que foram relatados.
5. Relata sempre quais foram as
medidas tomadas para tentar resolver o problema que se apresentou.
6. Subscriptio (assinatura)
6. Vem após o local, a data e da
qualificação do remetente como amigo e serviçal do destinatário.
6. Assina como: Indigno siervo,
Vuestro Capellan ou Vuestro humilde capellan, Antonio Ruiz
Pragmáticas e sem formalidades estilísticas, as cartas e relaciones escritas por Antonio Ruiz de Montoya exploravam os assuntos e temas relevantes de forma direta e objetiva. Em seus relatos, eram apresentados os aspectos sócio- econômicos e políticos referentes à instalação da Província Jesuítica do Paraguay e à fundação das reducciones. Há também temas como localização de onde os indígenas se encontravam; organização social através do sistema de parentesco e, posteriormente, sua (re)organização dentro das reducciones, quando possível; as crenças dos Guaranis e dos Gualachos, demonstrando as suas particularidades e diferenças; os rituais funerários e antropofágicos; como eram os xamãs e quais eram os seus artifícios. Havia também as descrições de como eram os contatos com essas tribos e como iniciavam o processo de fundação e implantação de uma reducción com a escolha do local mais adequado, a construção das casas, a convivência de tribos distintas e as práticas da religião cristã (com os seus desvios e retorno as crenças ancestrais) ou as práticas culturais cotidianas1099.
Outros temas muito explorados estavam relacionados à atividade individual ou coletiva dos seus companheiros de missão e sua busca incansável pela maior Glória de Deus, que resultariam ou em martírios1100, ou na propagação da Boa Nova entre grupos inconquistáveis pelas armas. Há também referências à presença de São Tomé (Pay Sumé) em terras americanas1101; à ação das autoridades
1099
“Instrucción para la reducción de San Javier (1627?)”, In: JARQUE, Ruiz de Montoya en
Indias… (Volume III), 1900, pp. 72-73; “A primeira jornada para a conversão do cacique Tayaoba
(1627?)”, In: JARQUE, Ruiz de Montoya en Indias… (Volume II), 1900, pp. 77-78; “Carta Ânua do Padre Nicolau Durán...”, In: CORTESÃO, MCAI, 1951, pp. 203-258; “Carta Ânua do Padre Antonio Ruiz...”, In: CORTESÃO, MCAI, 1951, pp. 259-298; “Relação da origem e estado ...”, In: CORTESÃO,
MCAI, 1951, pp. 342-351); “Dedicação ao templo de Nuestra Señora de Loreto (1622?)”, In:
JARQUE, Ruiz de Montoya en Indias… (Volume I), 1900, pp. 313-315; “As dificuldades encontradas pelos padres Cristóbal de Mendoza e Antonio Ruiz de Montoya com os feiticeiros”, In: JARQUE, Ruiz
de Montoya en Indias… (Volume III), 1900, pp. 77-82; “Amenaza de invasion de los hechiceros,
fundacion de la reducción de San Francisco Xavier (1627?)”, In: JARQUE, Ruiz de Montoya en
Indias… (Volume II), 1900, pp. 67-71; “Conversão e batismo de um feiticeiro (1632)”, In: JARQUE, Ruiz de Montoya en Indias… (Volume III), 1900, pp. 102-104; “Carta ânua do Padre Antonio Ruiz de
Montoya (1612)”, In: PASTELLS, Historia de la Compañía de Jesús… (Tomo I), 1912, pp. 153-155, 157-172.
1100
“Relação do Estado...”, In: CORTESÃO, MCA III, 1969, p. 211; “Carta do Padre Antônio Ruiz de Montoia ao Irmão Diogo Chaves sôbre o martírio do Padre Pedro Romero e do Irmão Mateus. Lima, 17 – XI-1 645”, In: CORTESÃO, MCAII, 1952, pp. 68-70; “Advertências para a defesa das fronteiras do Paraguai pelos índios das missões do Itatim. C. 1 645”, In: CORTESÃO, MCAII, 1952, pp.70-72.
1101
“Relación manuscrita onde é relatada a presença de São Tomé nas terras americanas, destinada ao Padre Pedro de Oñate (1617?), In: LOZANO, Historia de la Compañía de Jesús… (Tomo II), 1755, p. 719; “Relación sobre o caminho feito pelo Apóstolo São Tomé, escrita pelo Padre Antonio Ruiz de Montoya, em 1628, aos Padres missionários”, In: JARQUE, Ruiz de Montoya en Indias… (Volume II), 1900, pp. 93-94; “Relação feita pelos padres Justo Mancilla e Simão Masseta...”, In: CORTESÃO, MCA I, 1951, pp. 310-339; “Carta Ânua do Padre Antônio Ruiz...”, In: CORTESÃO,
coloniais1102 e dos bandeirantes (neste caso a destruição, a transmigração e as ações de defesa das reducciones)1103.
Montoya tentava sempre mostrar aos seus leitores (no caso, principalmente a outros jesuítas) quais foram às soluções encontradas para transpor os obstáculos que surgiam e que acarretavam em uma suspensão temporária do processo de Evangelização. Muitas vezes, a melhor estratégia seria a de recuar, até perceber quais eram as melhores alternativas para sanar as necessidades dos indígenas de cada uma das tribos contatadas. Nestes relatos, podemos perceber a realidade quase sinistra em que se encontravam os indígenas na situação de encomendados ou de prováveis escravos dos bandeirantes.
1102
“Relación manuscrita pelo Padre Antonio Ruiz de Montoya, onde relata ao Provincial Diego de Torres Bollo sobre a visista de um eclesiástico (1614)”, In: LOZANO, Historia de la Compañía de
Jesús… (Tomo II), 1755, p. 734; “Relación acerca da morte de um maloquero com raras
circunstâncias, destinada ao Provincial Diego de Torres (1622?)”, In: LOZANO, Historia de la
Compañía de Jesús… (Tomo II), 1755, p. 358; “Resposta que os índios de San Inácio deram aos
padres Joseph Cataldino e Cristoval de Mendiola, quando êstes lhes comunicaram as Provisões Reais em que manda aos índios das reduções não sirvam mais que dois meses nem sejam levados à Maracaju na estação doentia. Acompanhado do testemunho de vários padres da Companhia. Santo Inácio, 14- VIII- 1 630”, In: CORTESÃO, MCA I, 1951, pp. 352-361; “Información que hizo el Padre Francisco Vázquez Trujillo, Provincial de la Compañía de Jesús en la provincia del Paraguay, para dar aviso à Su Magestad de los graves daños que han hecho los portugueses de San Pablo, estos três últimos años, en seis reducciones de Guairá. Villa Rica del Espíritu Santo, 25 de Febrero de 1631”, In: PASTELLS, Historia de la Compañía de Jesús… (Tomo I), 1912, pp. 456-457; “Requerimentos feitos pelas autoridades e moradores de Ciudad Real de Guairá sôbre a mudança dos índios das reduções do Loreto e Santo Inácio, ameaçadas de próxima destruição pelos portuguêses. Respostas dadas pelos padres Antônio Ruiz e Juan Agustin de Contreras. 24 – V-1 631. Certificado em 1 657 e 1 659, em Assunção e Buenos Aires”, In: CORTESÃO, MCA I, 1951, pp. 363- 369; “Inquérito aberto a instância do Padre Antônio Ruiz para saber se os índios do Guairá possuíam armas de fogo antes de abandonar as suas reduções e no momento de baixar o Salto, como os espanhóis afirmavam. 1 632”, In: CORTESÃO, MCA I, 1951, pp. 425-430; “Documento redigido pelo padre Antonio Ruiz de Montoya, como Procurador Geral da Província do Paraguay, para fundamentar as suas proposições ante Sua Magestade e o Conselho das Indias. Córdoba de Tucumán, 11 de setembro de 1639”, In: PASTELLS, Historia de la Compañía de Jesús... (Tomo II), 1915, pp. 68-71.
1103
“Relación escrita pelo Padre Antonio Ruiz de Montoya aos seus superiores, em 1632(?), onde informa sobre a invasão bandeirante e o incêndio de uma igreja”, In: JARQUE, Ruiz de Montoya en
Indias… (Volume III), 1900, pp. 165-167; “Información que hizo el Padre Francisco Vázquez
Trujillo…”, In: PASTELLS, Historia de la Compañía de Jesús… (Tomo I), 1912, pp. 456-457; “Requerimentos feitos pelas autoridades e moradores de Ciudad Real de Guairá...”, In: CORTESÃO,
MCA I, 1951, pp. 363-369; “Informaçõe sobre a invasão dos mamelucos (1628?)”, In: JARQUE, Ruiz de Montoya en Indias… (Volume III), 1900, pp. 47-52; “Papel en que dice como habian de venir los
paulistas sobre la Provincia del Uruguay”. ?)”, In: JARQUE, Ruiz de Montoya en Indias… (Volume III), 1900, pp. 262-263; “Informação tomada por Don Fernando Tinoco. Alcaide ordinário da Cidade de Córdova, a pedido do Provincial da Companhia de Jesus, na Província do Paraguai, sôbre a mudança que se fêz das reduções do Loreto e Santo Inácio, com temor aos portuguêses. Córdova, 22 – 1 – 1 632” In: CORTESÃO, MCA I, 1951, pp. 378-386; “Informação sôbre a retirada das reduções do Guairá, devido às invasões dos ‘portuguêses de São Paulo’. Córdoba, 22 – 1 -1 652”, In: VIANNA,
MCA IV, 1970, pp. 317-324; “Transmigração das reducciones de Loreto e San Ignacio (1631?)”, In:
JARQUE, Ruiz de Montoya en Indias… (Volume III), 1900, pp. 201-211; “Carta do Padre Simão Masseta...”, In: CORTESÃO, MCA I, 1951, p. 303.
Nos anos que passou longe das reducciones, na corte de Madrid ou em Lima, Ruiz de Montoya passou por um processo de inculturação, tendo que abandonar o seu linguajar rústico e agir de forma adequada aos padrões espanhós. As cartas, neste período, transparecem esta mudança em sua forma mentis. A sua escrita passa a ter frases mais refinadas para descrever o que estava ocorrendo na corte madrileña e na vice-província do Peru. Contudo, o Guayra não está ausente dessas cartas. As referências diretas ou indiretas surgem, principalmente, quando ocorre o martírio de Pedro Romero na região dos Itatines ou no momento em que Montoya pede para que seja enterrado em sua pátria1104.
Os memoriales eram representações diplomáticas perante as autoridades. Estes documentos seguiam a estrutura de uma petição ou um requerimento civil, onde eram tratados assuntos de suma importância individual ou coletiva, e eram solicitadas resoluções para as tensões em pauta. O segundo quadro sintético compara a estrutura das petições com a escrita dos memoriales montoyanos:
1104
“La carta de Vuestra Reverencia recebí con muy grande gusto y con no poca envidia de ver á Vuestra Reverencia partirse para mi patria. (Llama patria suya á la provincia del Paraguay, y á las reducciones donde vivió lo mejor de su vida) y quedarme yo en este destierro. (Destierro llama á la Lisboa, á la corte de Madrid y á toda España, que por desterrado se tenía en ella). […] Finalmente mi Padre, quedo desterrado, y no hay día que para mi consuelo no finja que ya me llevan al navío; pero quiere Dios que sean no más que pensamientos por agora, para que cuando después vuelva por ella, estime más el humilde empleo con mis indios, ajeno de embarazos, libre de emulaciones y cuidados inútiles” (“Carta a un jesuita”, In: JARQUE, Ruiz de Montoya en Indias… (Volume IV), 1900, pp. 46- 47).
Estrutura das Petições ou Requerimentos/Memoriales
Memoriales de Antonio Ruiz de Montoya 1. Tipologia 1. É utilizada por qualquer
tipo de pessoa, individual ou coletivo, no qual se pede uma graça a uma autoridade.
1. No caso específico eles eram direcionados ao Rei Felipe IV, com cópias que deveriam ser distribuídas entre os membros da Junta de Guerra. Os últimos, a partir de 1644, são destinados o Vice- Rei do Peru.
2. Endereço 2. Senhor, Senhora, Sua Magestade, Vossa Alteza, etc.
2. São iniciados sempre com a
palavra Señor ou Excelentisimo Señor.
3. Narratio
(narração ou exposição)
3. Onde se informa à matéria que
está em discussão, expondo as circunstâncias dos fatos que antecederam o contexto histórico. Pode ser simples e narrando apenas um assunto ou complexo, abarcando vários temas. É a construção de um relato para alguém que está ausente, estabelecendo o “estado das coisas” e mostrando como ocorreu a intervenção do jesuíta na situação e como o tema foi transformado.
3. Abarcam assuntos anteriores a
invasão dos bandeirantes, expondo as causas e os motivos que acarretaram na destruição.
4. Petitio (pedido ou solicitação)
4. O discurso demonstra requerer
algo, através de um pedido ou de uma solicitação de providencias ou medidas que devem ser tomadas pelas autoridades competentes ao caso que foi narrado.
4. Essas representações foram
ditadas para um oficial que colocou as solicitações feitas (no caso armamento dos índios e mandatos contra o governador Céspede de Xeria e os bandeirantes envolvidos na destruição das reducciones) dentro dos termos jurídicos mais adequados para o caso.
5. Subscriptio (assinatura)
5. Vem após o local, a data e da
qualificação do remetente como amigo e serviçal do destinatário.
5. Sempre assina como Antonio
Ruiz de Montoya
No caso específico dos memoriales escritos por Antonio Ruiz de Montoya, eles eram constituídos de temas relacionados com os fatos da vida cotidiana das reducciones do Guayra e Tape. Ao relatar os conflitos na região paraguayense, Montoya visava obter a autorização do armento indígena e a punição dos acusados de conivência a destruição das reducciones e apresamento dos indígenas, protagonizada pelos bandeirantes.
Estes memoriales foram apresentados pessoalmente por Montoya ao rei Felipe IV e tiveram cópias distribuídas ao Conselho das Indias e à Junta de Guerra formada pelo rei. Dividiam-se em 10 ou 12 pontos, nos quais se tratavam os temas
diretamente relacionados ao Paraguay e às acusações que eram feitas contra os jesuítas de armarem os indígenas. Nesta época (cerca de 1642), os índios já haviam vencido as batalhas de Caazapaguazú e M’bororé, e as notícias da vitória da milícia indígena foram enviadas para auxiliar Montoya na sua defesa ao uso de armas de fogo1105. Após o seu retorno à América, os memoriales foram endereçados ao Vice- rei do Peru. Neles, o missionário escrevia sobre praticamente os mesmos temas, todavia, agora com as resoluções reais que deveriam ser acatadas pelo Vice-rei1106.