Contribution and conclusion
A.1 SiMCAD front end
Como se trata de uma pesquisa qualitativa os dados foram analisados em consonância com essa abordagem. Para isso empregou-se a Análise de Conteúdo defendida por Lawrence Bardin (2016), através de categorias elaboradas a priori, com base no referencial teórico, que, segundo Flick (2009), é um dos procedimentos clássicos para analisar material textual, tendo como uma de suas principais características a utilização de categorias que, geralmente, são construídas a partir do referencial teórico e utilizadas na interpretação do material empírico.
Dessa forma, optou-se por seguir os passos da técnica de Bardin (2016), a qual divide- se em três etapas: pré-análise; exploração do material; tratamento dos resultados, inferência e
Com o material em mãos, realizamos uma “leitura flutuante” (FRANCO, 2008, p. 52), ou primeiro contato com os documentos da coleta de dados, momento em que se começa a conhecer o texto para ter uma visão geral. Em seguida, a decodificação ou interpretação detalhada dos dados obtidos através das observações, análise de documentos, transcrições das gravações em áudio e vídeo43 e dos elementos visuais produzidos pelas crianças durante a intervenção.
Visando uma melhor compreensão dos dados coletados e da interpretação destes organizamos a sua análise de maneira a responder as três questões que nortearam esta pesquisa. É importante destacar que a ordem de análise das questões da pesquisa encontram-se diferentes em relação a sequência dos objetivos, pois ao adotarmos a perspectiva freireana na nossa pesquisa não poderíamos intervir numa determinada realidade sem conhecê-la. Por isso, realizamos primeiro a análise dos dados referentes ao contexto no qual as crianças estavam inseridas para depois discutirmos as possibilidades e limitações do diálogo entre a pedagogia freireana e a EC na EI pautadas na intervenção, de maneira que a análise dos dados encontra- se organizada na seguinte ordem:
Questão I: Qual ênfase a EC tem recebido nos materiais didáticos e nos documentos que orientam a prática da professora da Educação Infantil no Centro Municipal de Educação Infantil?
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A transcrição das gravações não foi realizada pela pesquisadora, mas por outra pessoa com experiência dessa técnica e ao mesmo tempo com pós-graduação na área de Ensino de Ciências, facilitando a discussão entre esta e a pesquisadora sobre alguns termos específicos da área de ciências encontrados durante as transcrições. Buscamos também, limitar as transcrições apenas à delimitação exigida pela questão da pesquisa visando poupar tempo e energia que deveriam ser investidos na sua interpretação (FLICK, 2009).
Questão II: Como a professora do Pré-II tem articulado a EC durante suas aulas com essa turma?
Questão III: Quais as possibilidades de diálogo entre a pedagogia freireana e a educação científica na Educação Infantil?
Para responder às duas primeiras questões elaboramos um conjunto de indicadores que achamos serem imprescindíveis no desenvolvimento de uma “autêntica EC” com base nas concepções expostas dos seguintes especialistas e instituições consultadas na construção do referencial teórico (ABC, 2007; AFONSO, 2008; ATEHORTÚA; DELGADO, 2011; BRASIL, 1998b; CACHAPUZ, et al., 2011; CARVALHO, 2013; DUSCHL, et al., 2006; FREIRE, 2013, 2005, 2001, 1996, 1992; CARVALHO; GIL-PÉREZ, 2011; HARRES, 2003; MATTHEWS, 1995; METZ, 1995; GATICA et al., 2011; OSBORNE; DILLON, 2008; PÓZO; CRESPO, 2009; ROCARD, et al., 2007; ROITMAN, 2007; UNESCO, 2003). Esses indicadores foram utilizados como categorias (C) norteadoras da análise dos dados, estando divididas em duas seções:
1. Quatro categorias que identificam a ênfase dada pelos documentos, material didático e pela professora acerca da relevância da Ciência para a humanidade; Nessa seção consideramos que se o item analisado contemplou pelo menos duas das quatro categorias listadas, houve ênfase satisfatória da EC na EI.
Quadro 2: Categorias referentes à ênfase dada à importância da Ciência para a humanidade.
Categoria Descrição da Categoria Síntese da
Categoria CR1 Reconhece que a ciência é uma parte significativa da cultura
humana e por isso o acesso ao conhecimento científico é um direito de todos, inclusive das crianças pequenas.
Ciência como cultura humana e direito de todos. CR2 Compreende que a ciência amplia a compreensão sobre o
mundo e favorece o desenvolvimento das capacidades intelectuais e cognitivas dos indivíduos como a abstração, a transferência e a aplicabilidade de conhecimentos, a mudança de conceitos, a linguagem, a lógica e a resolução de problemas.
Ciência como compreensão do mundo e
desenvolvimento de habilidades.
CR3 Compreende que a informação científica desempenha um papel fundamental no contexto democrático em que se impõe a necessidade que os seus cidadãos tomem decisões pessoais e comunitárias sobre questões que envolvam o conhecimento da ciência.
Ciência é
fundamental no desenvolvimento da cidadania.
CR4 Reconhece que a ciência facilita a compreensão das relações entre os humanos e entre o ser humano e a natureza.
Ciência como facilitadora na compreensão das relações humanas.
2. Doze categorias que identificam se os aspectos metodológicos e as habilidades previstas que deverão ser desenvolvidas pelas crianças conforme descritas nos documentos, no material didático e nas aulas da professora são coerentes com o desenvolvimento de uma “autêntica EC”. Nessa seção foi considerado como grau satisfatório para uma autêntica EC o item ou documento analisado que contemplasse pelo menos oito das doze categorias elencadas.
Quadro 3: Categorias indicativas dos aspectos metodológicos para uma “autêntica EC” (CM):
Categorias Descrição da Categoria Síntese da
Categoria CM1 Favorece a construção de uma imagem da ciência através da
compreensão de como ela funciona e se desenvolve ao longo do tempo enquanto processo constante de construção e reelaboração humana de teorias e modelos que utilizam provas, verificações, testes empíricos e comunicações.
Natureza da ciência.
CM2 Apresenta a ciência numa perspectiva interdisciplinar, transdisciplinar, contextualizada, refletindo nos seus aspectos históricos, filosóficos e nas relações entre ciência, tecnologia e sociedade.
Ciência inter e transdisciplinar, contextualizada, CTS.
CM3 Possibilita a compreensão do mundo à sua volta nos seus aspectos físicos, químicos, biológicos, tecnológicos, ambientais, sociais e favorecendo a construção de uma visão de mundo como um todo formado por elementos inter-relacionados, identificando o ser humano como agente de transformação desse mundo e reconhecendo que há outras maneiras de interpretar o mundo. Compreensão do mundo nos aspectos físicos, químicos, biológicos e suas interrelações. CM4 Valoriza e aproveita as capacidades e os conhecimentos que os
alunos trazem para a sala de aula, estimulando-os à curiosidade, à exploração, ao encantamento, ao questionamento, à indagação, oferecendo-lhes condições para que eles construam e testem suas hipóteses, favorecendo a aquisição do conhecimento científico e a superação de interpretações ingênuas sobre a realidade à sua volta, através do confronto, da reflexão e da discussão.
Valorização dos conceitos prévios, estímulo à curiosidade, exploração e indagação.
CM5 Organiza os conceitos em unidades coerentes fazendo uma interligação lógica de um tópico para outro.
Interligação entre os tópicos.
CM6 Favorece o envolvimento dos alunos de forma significativa nas práticas da ciência através da abstração, da resolução de problemas, da observação, da coleta de dados, da experimentação, da construção de argumentos lógicos, de questionamentos, de comparações, do estabelecimento das relações causais, da identificação dos pressupostos ocultos, da avaliação e interpretação de dados, formulação de hipóteses e identificação e controle de variáveis.
Envolvimento dos alunos nas práticas da ciência.
CM7 Favorece a compreensão e não somente a memorização de fatos e conceitos e o desenvolvimento de procedimentos, atitudes e valores éticos, a serem promovidos de forma compatível com as possibilidades e necessidades de aprendizagem do estudante.
Compreensão de fatos e conceitos, desenvolvimento de atitudes e valores.
CM8 Propõe atividades numa abordagem investigativa utilizando o questionamento e a problematização intencionais e diretivas, favorecendo o processo de diagnóstico de problemas, realização de experiências, discussões críticas, interações, distinção de alternativas, planejamento de investigações, conjecturas, pesquisas, construção de modelos e formação de argumentos coerentes e comunicações científicas.
Abordagem investigativa.
CM9 Transcende a linguagem verbal, valendo-se de desenhos, gráficos, tabelas, figuras e da linguagem matemática para expressar suas construções.
Utilização de desenhos,
gráficos e tabelas. CM10 Reconhece que a aprendizagem de fatos e conceitos científicos
transcende a sala de aula e, por isso, favorece o contato dos alunos com diferentes elementos, fenômenos e acontecimentos do mundo natural e social, através de visitações a espaços de educação não-formal como museus, fábricas, zoológicos, estações de tratamento de água e esgoto dentre outros, ampliando os conhecimentos e a cultura científica dos alunos.
Aprendizagem transcende a sala de aula.
CM11 Contribui para formação de indivíduos autônomos, reflexivos, críticos, participativos, criativos, aptos a compreenderem o ambiente em que vivem, a tomar decisões, formular perguntas, resolver problemas do cotidiano e a atuarem com responsabilidade e respeito para com o planeta Terra.
Formação de indíviduos
críticos,
participativos e responsáveis. CM12 Fomenta um trabalho interativo, comunicativo e colaborativo
favorecendo desenvolvimento do indivíduo nos aspectos pessoais e sociais.
Trabalho
interativo e colaborativo. Para a análise da questão III, utilizamos as doze categorias referentes aos aspectos metodológicos para uma “autêntica EC” (CM) e cinco princípios da pedagogia freireana conforme explicitado no Quadro 4. Além disso, os passos apresentados no Método Freire (FREIRE, 2013; 2005) com o objetivo de avaliarmos as possibilidades do diálogo entre essa pedagogia e a EC na Educação Infantil através da intervenção pedagógica realizada pela pesquisadora.
Quadro 4 – Princípios e Método da Pedagogia Freireana Utilizados na Pesquisa
Princípios Fundamentação
Humanização Ato de conhecer, de buscar, reflexão, mudança da realidade. (FREIRE, 2011a).
Dialogicidade Amor ao outro, união, humildade, compromisso com o pensamento crítico, escuta, respeito, indagação, instigação, incentivo à curiosidade, ao questionamento, clareza de onde se quer chegar. (FREIRE, 1996, 2001, 2005, 2013).
Conscientização Passar da esfera espontânea ou ingênua da apreensão da realidade para a esfera crítica da realidade, “desmitologização”. (FREIRE, 2001).
Problematização Análise crítica sobre a realidade das relações entre o ser humano e o mundo visando a mudança dessa realidade. (MENEZES; SANTIAGO, 2014). Ética Rigorosidade metódica no lugar do espontaneísmo e da licenciosidade.