Sávio Alencar103
S
ávio Alencar – O ofício da tradução, como se sabe, tem naleitura seu ponto de partida. Você poderia falar sobre a sua relação com literatura brasileira, em geral, e com a de Clarice Lispector, em particular?
Dalit Lahav-Durst – A minha relação com a literatura brasileira começou no fim dos anos 1960, quando cheguei com os meus pais a São Paulo. Adorei ler o Monteiro Lobato, e O meu pé de laranja lima, de José Mauro de Vasconcelos foi o meu livro preferido durante muito tempo. Mais tarde li O guarani, de José de Alencar – era o começo de uma grande história de amor entre a pequena israelense de Jerusalém e o Brasil. No Brasil, também descobri obras como o Grande Sertão: Veredas, de João
102 É tradutora, curadora e crítica de arte. Estudou História da Arte na Sorbonne, espe- cializando-se em expressionismo alemão e em estudos curatoriais. Há mais de duas décadas, tem trabalhado com pintores, escultores e fotógrafos na Europa e em Israel, organizando inclusive exposições sobre a escultura de Edgar Degas. Como tradutora literária, verteu para o hebraico títulos como Dom Casmurro, de Machado de Assis, e “O imortal”, conto de Jorge Luis Borges.
103 Mestre em Letras pela Universidade Federal do Ceará, onde defendeu a dissertação Jáder
de Carvalho: roteiro incerto para uma biografia (2018). É integrante do grupo de pes-
Guimarães Rosa, e Suor, de Jorge Amado, além da poesia de Castro Alves e os livros de Machado de Assis que leio e releio sempre com um imenso prazer. Eu descobri a Clarice Lispector quando li, há muitos anos, O mis- tério do coelho pensante – e desde então comecei a me interessar pela sua escritura. Primeiro li Perto do coração selvagem, depois foi Água viva e desde então continuo a ler e a reler essa formidável mulher-escritora cujo estilo tão único me marcou para sempre.
SA – Segundo Nádia Battella Gotlib, “três línguas [...] marcam a vida de Clarice”: a língua portuguesa (língua materna), o russo (língua dos pais) e sua própria língua, “que é presa, causando, por isso, um defeito de dicção”. A biógrafa também menciona o ídiche, “língua fa- lada pelos pais em casa com os parentes e amigos da comunidade ju- daica, língua que Clarice ouvia na infância e também nunca falou”. A par desse cruzamento de línguas e culturas, como é traduzir Clarice para o hebraico? Assim, quais desafios surgem na transposição, por exemplo, de seu estilo, de sua sintaxe, de seu imaginário cultural?
DL-D – O hebraico, sendo uma língua semítica, é bem diferente do português. É muito mais fácil traduzir do português para o francês que do português para o hebraico. O ídiche é um idioma germânico no qual estão misturados o alemão, o hebraico, dialetos em russo e em polonês. O ídiche se escreve em caracteres hebraicos da direita para a esquerda. Porém, a Clarice escrevia em português, e mesmo pensando nesse cruzamento de línguas e culturas, acho que o seu estilo é único e inimitável, o que torna, às vezes, o trabalho do tradutor difícil. A sua sintaxe também não é fácil de transmitir por escrito, por isso eu costumo ler em voz alta para poder captar melhor o seu ritmo. A respeito do seu imaginário cultural, vou citar uma passagem que, pelo menos para mim, sendo mulher e judia, mesmo não sendo mãe, é típica do que costumamos chamar de “Yiddishe Mame” ou de “mãe judia”: “[...] É que mãe de origem russa, quando vai beijar os filhos, em vez de dar um beijo, quer logo dar quarenta. Expliquei isto a um de meus filhos, e ele me respondeu que eu estava era arranjando pretexto, o que eu gostava mesmo era de beijá-los.”104
104 Clarice Lispector, Aprendendo a viver, “Ideal burguês”, publicação em 8 de junho de 1968, Ed. Rocco, 2004.
SA – Machado de Assis e Clarice Lispector são escritores que integram o cânone da literatura brasileira. A experiência de traduzi- -los, suponho, coloca para o tradutor questões de naturezas diversas, considerando que se trata de artistas de épocas e repertórios diferentes. Por outro lado, haveria algum aspecto que os aproximaria no momento da tradução? Poderia comentar sobre isso?
DL-D – O primeiro livro que eu traduzi do português para o he- braico foi Dom Casmurro, de Machado de Assis. O primeiro livro dele que li foi Memórias póstumas de Brás Cubas. Sei que a Clarice ad- mirou o M. de Assis. Além de serem os dois grandes escritores, eles eram também tradutores. M. de Assis, cuja mãe era imigrante dos Açores e o pai descendente de escravos da África, e Clarice, filha de imigrantes da Ucrânia, carregaram, por toda a vida, o peso da sua he- rança. Os personagens nas novelas e histórias de ambos autores são sujeitos a fortes sentimentos interiores e crises psicológicas que re- fletem as relações e o comportamento da sociedade na qual eles vivem. Ambos dominam com perfeição a língua portuguesa e sabem extrair do mais profundo da alma os seus personagens e os segredos mais escuros. Pessoalmente, comparando os dois, aprendi, entre outras coisas, muito sobre a condição humana na sociedade brasileira lendo M. de Assis, e sobre a condição da mulher na sociedade brasileira lendo a Clarice. Mas com a Clarice eu continuo aprendendo a viver.
SA – Na mídia internacional, o nome Clarice Lispector costuma ser apresentado de imediato a partir da origem judaica da autora. Essa sua identidade, sobre a qual fez grande silêncio em vida, orientaria, então, um modo de ler/traduzir Clarice ao redor do mundo. Em Israel, pode-se dizer que o fenômeno se repete? Que Clarice chega ao país? Como você observa isso?
DL-D – Eu acho que o fato de a Clarice ser de origem judaica ajuda a aproximá-la dos leitores israelenses, mesmo que, para mim, ela seja muito mais do que uma autora judia. Aliás, penso que ela não gos- taria de ser catalogada assim. A Clarice que chega ao país é, sobretudo, uma mulher que ousa escrever o que vê e o que sente sem contornar. Ela é muito admirada por um pequeno público de bibliófilos que são fami- liarizados com as suas obras. Mas o que a distingue dos outros escri-
tores/escritoras, além do seu estilo que é único, é a sua sensibilidade “a fleur de peau”, a sua franqueza e a sua feminilidade mais do que qual- quer outra coisa.
SA – Mais recentemente, a julgar pela emergência de eventos acadêmicos e novas traduções, como as de A Via Crucis do Corpo e Perto do Coração Selvagem, Clarice Lispector tem se inserido no am- biente cultural de Israel. A que atribui essa presença crescente da es- critora brasileira nessa geografia? Como tem sido essa recepção?
DL-D – A literatura sul-americana, em geral, e a brasileira, em particular (sem falar da música brasileira que é muito popular aqui), exercem um grande charme sobre o leitor israelense. O Brasil continua a atrair os mochileiros que vão passear no país tropical depois do ser- viço militar obrigatório para homens e mulheres. Uma nova tradução de uma obra da Clarice é sempre uma festa literária. Aliás, em 2020, sendo o centenário da Clarice, julgo que teremos um evento acadêmico espe- cial também em Israel, acompanhado pela publicação de Aprendendo a viver que atualmente estou traduzindo.
SA – Haveria, na literatura de língua hebraica, algum escritor cuja obra se aproximaria, em alguma medida, do trabalho ficcional de Clarice Lispector?
DL-D – A Clarice tinha um estilo único, que era só dela. Se houver uma escritora cuja obra se aproximaria da dela, penso que seja a Dalia Ravikovitch (1936-2005). Poeta, escritora (histórias curtas, novelas e contos infantis, crítica teatral, traduções de T. S. Eliot, E. A. Poe e W.B. Yeats). O seu estilo era único e inimitável e a sua poesia, cheia de musicalidade. Aos seis anos de idade, ela perde o pai num acidente de carro (Clarice perde a mãe aos nove anos). Ela publica em 1959 o seu primeiro livro de poesias, O amor de uma la- ranja (um dos poemas de Clarice é “Amor à terra”). Ravikovitch escreveu muito sobre os oprimidos, a violência e a injustiça na socie- dade. De natureza muito depressiva, ela morreu (o suicídio não foi confirmado) em 2005.
SA – Há planos para traduzir outros títulos da literatura brasi- leira? E Clarice, continua como escritora-integrante de sua atividade tradutória? Quais outros livros dela gostaria de traduzir?
DL-D – Há sempre projetos no ar e sobre o papel. Porém já há um certo tempo que o mundo da edição está atravessando uma grave crise. Autores que são considerados um valor certo (como Machado de Assis, Clarice, Jorge Amado, entre outros) continuam a ser publicados, sem falar do Paulo Coelho, que se vende muitíssimo ainda, por seu valor comercial. Por outro lado, jovens autores são mais difíceis de “vender” e julgo que é um problema ligado à distribuição e à publici- dade aqui no país. Nos últimos anos, eu traduzi livros de Daniel Galera (Barba ensopada de sangue e Mãos de cavalo) e acabei de traduzir Antiterapias, de Jacques Fux – ambos jovens autores de muito talento. Atualmente estou traduzindo Aprendendo a viver, da Clarice, e estou descobrindo uma Clarice muito mais íntima na sua escritura, uma mu- lher com muitos pontos de interrogação, muitas dúvidas e sofrimentos, mas também cheia de amor e empatia. É um enorme prazer. Tenho uma longa lista de livros que eu gostaria de traduzir, entre eles A paixão se- gundo G.H., mas o meu maior sonho é de traduzir o Macunaíma de Mário de Andrade – a formidável epopeia brasileira.