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Le corps humain et la santé

Dans le document Programme du cycle 4 (Page 113-119)

Muita coisa não posso te contar. Não vou ser autobiográfica. Quero ser “bio” (LISPECTOR. Água viva)

Era o ano de 1995. Deixava eu meu lugar para trás, entrava num ônibus da Viação Motta e desembarcava, vinte e duas horas depois, na cidade grande de Belo Horizonte.

Lembro-me, agora, de que repeti para mim o salmo 23 de cor, durante a viagem longa e cansativa. Mas minha obstinação para cursar a Pós-Graduação na UFMG e meu desejo não mensurável para pes- quisar acerca da obra da escritora Clarice Lispector falavam mais insis- tente e persistentemente em mim.

Tinha deixado para trás meu lugar de fronteira onde habitara até então, assim como deixara minha família e emprego como professor primário numa escolinha dos arrabaldes da cidade de Dourados, mas, em contrapartida, já tinha trazido comigo, sem o saber, minha Clarice Lispector. Ou melhor, tinha trazido comigo na bagagem meus exem- plares dos livros Água viva, A paixão segundo G.H, Perto do coração selvagem e o de Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres. Sem saber, eu ia viver um prazer da descoberta teórica e crítica, misturado com medo e ignorância, mais o peso da obra monumental da escritora, que começaria ali e permaneceria em mim para o resto de minha vida.

Não demorou muito para eu saber que minha pesquisa resumir- -se-ia na leitura de dois livros da escritora: Água viva e Uma aprendi- zagem ou O livro dos prazeres. Li e reli, nas intermináveis e solitárias noites do Hotel Pampulha, as duas obras. Para meu descanso e alento, comecei a perceber semelhanças absurdas entre o processo de cons- trução das duas obras. Também via diferenças gritantes entre elas, as quais, multiplicadas, continuo vendo até hoje. Cheguei a decorar pas- sagens inteiras de Água viva. Repeti-as e repeti-as incansavelmente para mim enquanto subia a Avenida Amazonas para tomar meu cafe- zinho sagrado das 3h30min no Café Nice, na avenida Afonso Pena. Mais tarde, atravessado pela amizade do Fernandinho, um amigo que conheci hospedado no hotel e que viera de Recife para fazer doutora- mento em Administração também na UFMG, passei a tomar café no

Mercado Central. Se, por um lado, a caminhada tinha ficado mais curta, uma vez que o Mercado ficava quase em frente do hotel, por outro lado, a pesquisa tinha avançado e eu me pegava lendo ou repe- tindo, ou simplesmente pensando alto, entre os bichos e abacaxis que se aglomeravam dentro do Mercado. Lembro-me que uma vez, talvez como forma de fugir das leituras difíceis e obrigatórias que a pesquisa impunha, mais algum problema pessoal, como a falta de dinheiro, me dediquei uma tarde inteira à tarefa de ficar simplesmente olhando para as galinhas presas nos girais, logo à esquerda de quem entrava pela rua Santa Catarina.

Foi por essa época, logo no começo de meu desespero, isto é, assim que passei a ler e repetir de cor passagens claricianas em voz alta, que me peguei repetindo uma passagem do livro Água viva enquanto admirava a distância, do quarto andar da FALE, o pôr do sol do lado Sul:

Quero escrever o borrão vermelho de sangue com as gotas e co- águlos pingando de dentro para dentro. Quero escrever amarelo- -ouro com raios de translucidez. Que não me entendam pouco-se- -me-dá. Nada tenho a perder. Jogo tudo na violência que sempre me povoou, o grito áspero e agudo e prolongado, o grito que eu, por falso respeito humano, não dei. Mas aqui vai o meu berro me rasgando as profundas entranhas de onde brota o estertor ambicio- nado. Quero abarcar o mundo com o terremoto causado pelo grito (LISPECTOR, 1998, p. 65).

Eu repetia porque eu não entendia. Mas se eu desistisse, eu per- deria tudo o que eu não podia perder. Eu havia ido para longe para vencer. Não vencer na vida; mas vencer aquilo a que eu havia me pro- posto o desafio. A literatura de Clarice era meu desafio. A escritora era meu desafio. Ou eu vencia o enigma, ou a esfinge me devoraria. Tinha tudo a perder. Sem gritar, permaneci e insisti. Aos poucos fui compre- endendo que entender é a prova do erro. Mas para chegar aí, tive pri- meiro que chegar à conclusão de que eu havia entendido. Foi por essa mesma época que me tornei amante incondicional da obra clariciana e de sua autora. Tive a minha visão; tive a minha Clarice.

O borrão vermelho de sangue com as gotas e coágulos pingando de dentro para dentro contrapunha-se à cor sanguinolenta da fronteira-

-Sul que eu também havia trazido comigo e que dali a observava tão perto tão longe. Conforme a tarde mineira se escondia atrás da Lagoa da Pampulha, o barrado sanguinolento ia se esboroando sobre o pântano esparramado mas contido ao Sul do Centro-Oeste brasileiro. Naquele exato momento, um pós-graduando magro e preocupado descia do quarto andar e tomava o bus que o levaria até à rua Tupis com a avenida Paraná.

Por essa época eu ainda não podia sequer imaginar que a frontei- ra-Sul, sobretudo enquanto uma paisagem epistemológica, tornar-se-ia o centro de minhas reflexões críticas e poéticas mais contundentes e atuais. Mais uma vez, sem o saber, parece que, mesmo a distância, eu já estava sendo preparado para um dia voltar para meu lugar e pensar a partir dele com mais especificidade e propriedade intelectual.

Desde sempre em minha vida, a fronteira-Sul estava condenada a ser o meu máximo de desejo a que eu podia chegar. A origem de meu bios advinha de suas entranhas porosas, pantanosas e revoltosas.

Confesso, por fim, se a alguém interessar possa, que definitiva- mente não sei quando Clarice entrou em minha vida, não sei a partir de quando comecei a me apaixonar por ela. Talvez tal amância tenha ocor- rido a partir deste acontecimento familiar: meu irmão mais velho deixou o livro que estava lendo sobre uma cadeira embaixo da sombra do pé de cinamão na casa de campo da Revolta e bastou um segundo para que uma vaca viesse e arrancasse algumas páginas do exemplar e saísse comendo as páginas campo afora. Guardei aquela cena familiar envolta a um livro que ainda estava acima de meu desejo de menino de 9 anos. Sem o saber, ou talvez por isso mesmo, mais tarde em minha vida eu viria a eleger o livro Perto do coração selvagem, a começar pelo título, como o mais bonito da plêiade de obras da escritora.

Cabe ao amante trazer guardado dentro do coração o objeto de seu amor. Seja ele livro ou gente. Pouco importa. Porque, o que importa mesmo, é saber que o outro existe dentro de você.

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