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O estudo preliminar foi fundamental para a formação de um grupo. Neste momento enfoquei o grau de interesse dos professores, as condições potenciais de participação (intrínsecas e extrínsecas) e de afinidade entre os indivíduos.

No estudo exploratório tive a oportunidade de conhecer uma Associação de karatê que apresentava um contexto singular e se diferenciava das outras academias que havia visitado até o momento.

A Associação Militar de Karatê é uma organização esportiva instituída e estruturada com base em seu próprio estatuto. Ela é reconhecida e filiada à Federação Espírito-santense de Karatê (FEK) que, por sua vez, está vinculada à Confederação Brasileira de Karatê (CBK), ao Comitê Olímpico Brasileiro (COB) e ao Comitê Olímpico Internacional (COI). A sede está situada no município de Vila Velha e é administrada pelo mestre fundador atualmente registrado e reconhecido com o nível de 4º Dan.

Existem ainda duas filiais da Associação Militar de Karatê que tem funcionado em dois bairros distintos no município de Serra. A orientação e tutela do mestre responsável pela Associação aos outros dois mestres que, por serem professores faixas preta primeiro grau, tem permitido a funcionabilidade destas filiais20.

Nesta Associação foi percebido um conjunto de elementos que tornava um ambiente propício para desenvolver este trabalho de pesquisa. À primeira vista, a característica marcante deste grupo é que os limitadores para desenvolver a pesquisa circunscreviam mais ao nível dos condicionantes externos do que internos. Entre os fatores positivos que tornava um campo de estudo propício podemos citar:

• A presença de um trabalho colaborativo, cooperativo e de ajuda mútua entre os professores da Associação. Para isso, pode-se citar a manutenção de intercâmbios entre professores e alunos pelo menos uma vez por mês a fim de propiciar a troca de experiências. Os professores fazem também reuniões para discutir assuntos relacionados à Associação (organização de torneios, viagens, exames de graduação etc.).

20 Esta pré-condição é regulamentada pela Consolidação das Leis do Karatê, instituída pela Confederação Brasileira de Karatê (CBK).

• Ao apresentar o trabalho para os professores desta Associação verifiquei que os mesmos mostraram-se interessados e procuraram engajar-se na resolução das dificuldades que estava enfrentando para realizar as reuniões.

• As duas academias filiais situam-se em bairros vizinhos. A proximidade destes professores é um aspecto que viabilizava a possibilidade de definir um espaço e local das reuniões e seminários, assim como, para construir um calendário fixo;

• Havia a presença de um discurso com a intenção de desenvolver um trabalho mais social e educativo na prática de ensino do karatê;

Os fatores que limitavam o desenvolvimento deste trabalho eram:

• A distância de aproximadamente 40 quilômetros entre as academias filiais e a sede, onde o professor fundador leciona;

• Os conflitos de horário disponíveis do professor fundador da Associação com os professores das academias filiais;

• A dependência pedagógica dos professores das academias filiais do professor fundador para realizar e legitimar os exames de graduação. 21

Neste contexto, senti a necessidade de dar relevo a um fator positivo que chamou muita atenção por convergir de certa maneira com o propósito de intervenção deste trabalho. Nas primeiras aproximações com os professores desta Associação pude observar a presença de um discurso com o ideal de construir um trabalho com enfoque mais educativo na prática de ensino do karatê. Este aspecto provocou-me curiosidade e interesse para conhecer o sentido pedagógico que os mesmos atribuíam no discurso e o grau de concretização nas ações educativas.

Logo nos primeiros contatos com o professor fundador desta Associação (NT) e o seu representante em uma filial no município de Serra (AP) foi observada uma intenção de mudança do nome original de Associação Militar de Karatê para Centro Educacional de Karatê. A compreensão deste fato ficava mais claro quando ambos os professores fizeram uma explicação breve sobre a história, a configuração do sentido para esta necessidade e as repercussões que haveria na prática pedagógica.

21 Isto acontece devido ao fato dos professores não preencherem o requisito mínimo de estar no 3º Dan, exigido pela Federação do Estado (FEK) e pela Confederação Brasileira de Karatê (CBK).

O ensino do karatê pelos professores que constituem esta associação teve início em um projeto nos quartéis da polícia militar como curso de defesa pessoal, destinado especificamente para os militares.

Com o decorrer do tempo, o trabalho que estava sendo desenvolvido começou a ganhar maior aderência e apoio do comando do batalhão. As idéias de alguns comandantes de desenvolver um trabalho de integração entre a polícia militar e a comunidade reforçaram o interesse de instituir o ensino do karatê. Estas condições propiciaram a abertura das portas às pessoas da comunidade em geral que tivesse interesse pela prática desta arte marcial.

De acordo com o professor NT, o primeiro nome da Associação esteve inicialmente vinculado aos interesses desta instituição militar dado a necessidade da formação de uma imagem positiva perante a sociedade por meio do esporte.

Pude perceber no discurso do professor NT que a intencionalidade pedagógica despertou quando foi convidado para desenvolver um projeto de karatê em uma escola pública do município de Vila Velha. De acordo com ele, o perfil da turma era de alunos repetentes, indisciplinados e apresentavam um alto risco social. As famílias destes adolescentes estavam passando por diversos problemas sociais: brigas constantes entre os pais, tráfico e uso de drogas, alcoolismo etc. A diretora da escola depositou muita confiança no professor, porque além de ensinar karatê era um militar. Ela acreditava que o ensino deste esporte poderia contribuir para a formação desses adolescentes, principalmente, disciplinando-os. Este trabalho teve uma duração de três meses.

No breve relato da experiência de NT ficou marcada uma série de limitações do conhecimento que havia acumulado até o momento para ensinar o karatê àqueles alunos. De acordo com ele, durante as aulas ocorriam diversos conflitos entre os alunos, levando-o a interrompê-la constantemente.

Ao envolver-se com esta experiência, o professor NT observou que a maneira de lidar com os alunos deveria ser diferente. Ele percebeu que a ação pedagógica rígida e disciplinadora estava provocando uma reação nos alunos de rejeição à aprendizagem. Neste sentido, o professor NT passou a entender a necessidade de tratá-los com muito respeito, conhecer a realidade social de cada um e fazer um trabalho diário para melhorar a auto-estima, transmitindo-os confiança no potencial de aprendizagem. Foi a partir da construção deste ambiente que o relacionamento do professor com a turma começou a apresentar um espaço favorável para o diálogo e ao processo

de ensino-aprendizagem. Como o objetivo do trabalho que estava sendo desenvolvido não era de aumentar o rendimento para levar os alunos às competições, o ensino das habilidades e de valores passou a assumir o palco principal.

De acordo com NT, as dificuldades enfrentadas foram enriquecedoras para construir uma nova maneira de pensar o karatê e compreender um pouco as possibilidades da intervenção pedagógica no meio social em que está inserido.

Estas idéias pedagógicas possibilitaram o interesse pelos professores em desenvolver o ensino do karatê fora da circunscrição militar também. Para isso, havia outros fatores que corroboraram para tal. A prática da constante troca do comando militar foi considerada o principal problema que tem dificultado a progressividade do trabalho educativo. Pois, quando assume um novo comando não comprometido com o trabalho em curso, os problemas oriundos a este fato podem refletir desde a falta de apoio de infra-estrutura até a desocupação dos espaços onde acontecem as aulas por eleição do comando por outras prioridades administrativas.

Com o tempo, os professores da Associação começaram fazer reflexões sobre a prática passando a entender que a organização do ensino do karatê não poderia se restringir às habilidades técnicas.

Este contexto propiciou condições para que as idéias em consonância com um sentido educativo/social do karatê desenvolvessem. Assim, os professores passaram a perceber que o sentido/significado educativo estabelecera uma relação muito fraca com o da instituição militar, o qual as academias representam.

As reflexões sobre o tipo de prática pedagógica que estava sendo desenvolvida pelos professores até o momento levaram-os identificar limitações da tradição nas aulas. O ensino voltado estritamente para o aprendizado das técnicas e melhoria do condicionamento físico não permitia estabelecer relações com os sentidos/significados do karatê. Neste sentido, o professor AP reivindica um ensino diferente dizendo: “Nós temos que mudar, nós temos que modernizar. Nós temos que realmente fazer com que eles não simplesmente cheguem aqui e faça somente aquilo que estamos falando, mas precisamos levá-los a tomar gosto e ter também noção daquilo que estão fazendo”. Ao encontro das idéias apresentadas anteriormente, o professor NT também relata que:

Era preciso mudar mais para a questão do ensino. Percebemos que o karatê era só ficar ensinando ponta pé e soco, ponta pé e soco [...] mas que não estava levando para o lado mais educacional, né. O atleta vai para a academia treinar karatê e agente já chega lá, coloca-o na base, trabalha isto [...] Porém, não existe um trabalho também onde uma criança, um adulto ou

um aluno de modo geral [...] onde ele possa estar fazendo na prática, mas também exista um conteúdo que ele possa estar olhando e se perguntando: “Opa, O karatê tem as suas origens no Japão ou na índia”?! Conhecer os diversos tipos de movimentos, os nomes, a forma de escrever e não só a prática mesmo [...] Enquanto que nos exames de faixa eles só chegam socam, chutam [...] aí eles deveram também estudar uma apostila e fazer uma prova escrita.

De acordo com o pensamento pedagógico dos mestres desta associação, a superação do ensino estritamente técnico estava em agregar conteúdos teóricos que estivessem relacionados com o karatê e adequando-o às necessidades que emergem do contexto social dos alunos. Para eles, a superação destes limites estaria afastando-os positivamente de um tradicionalismo que o karatê tem assumido na prática pedagógica.

Foram destacados pelos mestres conteúdos teóricos relacionados diretamente com o karatê (a história, os valores tradicionais, as regras de competição e a nomenclatura das técnicas) e os relacionados à realidade dos alunos (técnicas de primeiros socorros e o estudo sobre os diferentes tipos de drogas).

As estratégias e técnicas relatadas pelos mestres para desenvolver os conteúdos teóricos diversificavam entre: a explicação oral, o diálogo, perguntas/respostas e as palestras. O acréscimo destes elementos no ensino acarretaria inclusive na mudança dos exames de graduação, pois os alunos deveriam passar por uma avaliação escrita também.

Um outro aspecto importante percebido no discurso dos professores é a idéia de organizar os conteúdos na forma de currículo. Considerando-os de acordo com o grau de complexidade para os diferentes níveis de aprendizagem e as idades dos alunos.

O significado das transformações da prática de ensino relatada pelos mestres não tem refletido sobre a maneira que tem sido conduzido o ensino, tampouco acerca da orientação pedagógica ao tipo de sujeito que se pretende formar. Este aspecto esteve implícito no relato dos professores quando afirmavam a necessária continuidade das práticas educativas que realizam até o momento.

Por fim, pude perceber que esta Associação apresentou um conjunto de elementos propícios para desenvolver o estudo pretendido. Assim, é preciso compreender com maior profundidade a realidade e o contexto da prática pedagógica de cada academia. A partir daí é que poderíamos estudar os saberes orientadores dos mestres de karatê desta Associação e os principais indicativos necessários para a transformação da prática pedagógica.

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