3.3.1 Objectivos da Gestão do Estacionamento
A gestão do estacionamento refere-se ao conjunto de políticas e programas que resultam num uso mais eficiente dos recursos de estacionamento (Litman, 2006). Vários benefícios podem resultar de uma eficaz gestão do estacionamento. Assim, os problemas de estacionamento podem ser vistos de duas formas:
• Simplesmente na lógica da oferta e da procura por si mesmas (existe pouco espaço de estacionamento para a grande quantidade de pessoas que o procuram, por isso é necessário construir mais);
ou
• Numa lógica integrada, a da gestão do estacionamento (os espaços disponíveis são usados de uma forma ineficiente, por isso a sua utilização deve ser reorganizada) (Litman, 2006).
A procura de estacionamento é determinada pelo número de razões associadas à deslocação num/para um determinado meio urbano, nomeadamente o volume e diversidade de actividades que nele se podem fixar: comércio, áreas administrativas e de negócios, hospitais e centros de saúde, escolas, parques, serviços, actividades de lazer, interfaces de transportes, entre outros. Por outro lado, a oferta de maior número de espaços para estacionamento gerará, em princípio, um maior tráfego automóvel, o que imprime maior dinâmica a essas actividades e possibilita a fixação de novas actividades.
A construção de novos espaços para estacionamento é normalmente a opção popularmente mais bem recebida, mas muito dispendiosa não só no que respeita a recursos financeiros e uso do solo, como também a custos ambientais, aos custos da diminuição da densidade de usos urbanos (exemplo: ver Figura 3-1), e à progressiva criação de comunidades menos orientadas para os modos suaves (andar a pé ou de bicicleta).
Figura 3-1 - Espaço urbano destinado a estacionamento.
O excesso de oferta de estacionamento desperdiça recursos, quer pelo excesso de uso do solo, quer pelo aumento do uso do automóvel. Pelo contrário, uma oferta de estacionamento baseada em critérios de eficiência pode criar uma utilização óptima, permitindo que os parques ou outros espaços de estacionamento possam lotar várias vezes, e ao mesmo tempo prever estratégias que assegurem a resolução de problemas de estacionamento. O parque associado a uma actividade específica, como, por exemplo, um supermercado, pode ser dimensionado de forma a encher diariamente e várias vezes na semana, desde que preveja fornecer informação acerca dos parques disponíveis nas proximidades, e assegure a qualidade dessa oferta, de forma a combater estacionamento ilegal.
Variadas medidas existem para gestão da oferta e da procura de estacionamento. A gestão exige que se definam os problemas de estacionamento cuidadosamente, determinando exactamente qual é a sua origem.
Um diagnóstico da situação, incluindo os padrões de comportamento de cada tipo de comunidade, é muito importante antes de qualquer medida de estacionamento ser tomada. Um simples aumento de oferta de estacionamento pode diminuir o congestionamento dos parques e evitar até estacionamento em locais não permitidos, contudo poderá agravar outros problemas. A oferta generosa de estacionamento impõe vários custos indirectos indesejáveis como os associados a uma expansão desordenada da cidade, ao aumento da superfície impermeável, que não permite o escoamento eficiente da água, aumentando o risco de cheia, à desvalorização dos modos alternativos mais amigos do ambiente, e ao aumento de tráfego automóvel.
Assim, a maior ou menor provisão de estacionamento não pode constituir uma medida isolada, necessitando de ser acompanhada de estratégias que minorem os efeitos negativos, contribuindo para um maior equilíbrio do sistema urbano. Para além disso, não importa apenas a quantidade, mas também a qualidade do estacionamento, que pode influenciar fortemente a forma como os automobilistas se comportam na cidade.
A redução ou manutenção da oferta de estacionamento pode ser acompanhada de variadas estratégias, diminuindo os impactes negativos que a pressão da procura pode exercer, ou diminuindo mesmo a necessidade de estacionamento. Entre outras, salientam-se:
• A promoção da informação relativa a modos alternativos ao automóvel;
• A promoção do modo pedonal para viagens de curta distância;
• A provisão de estacionamento e estruturas de apoio a bicicletas;
• A própria revisão dos valores mínimos de estacionamento estipulados por lei, diminuindo-os, e variação destes mínimos consoante as características demográficas, socioeconómicas, de motorização e de acessibilidade da zona;
• Incentivos ao estacionamento partilhado ao longo dos diferentes períodos do dia;
• Introdução de um custo associado ao estacionamento, medida correntemente utilizada para diminuir a procura e o congestionamento;
• Introdução de limites de tempo de estacionamento;
• Imposição de um uso diferenciado e eficiente do espaço disponível para estacionamento, por exemplo, assegurando que os lugares de estacionamento mais próximos do centro são utilizados por pessoas com actividades de curta duração e mais prioritárias, como entregas, compras, uso de serviços e pequenas visitas;
• A implementação de sistemas de “Park&Ride”;
• Não permitir aos novos empreendimentos que forneçam espaço para estacionamento superior em área ao que eles próprios necessitam. Por outro lado, o aumento de oferta de estacionamento para assegurar a vitalidade de uma zona deve ser, igualmente, acompanhado de estratégias diferentes, de forma a não resultar, mais tarde, em impactos negativos:
• A limitação desse aumento, até um determinado nível, para que não se ponha em causa o desenvolvimento de escolhas de modos de
transporte mais sustentáveis, como o transporte colectivo ou os modos suaves;
• A formulação de medidas específicas em locais para estacionamento de curta duração e em locais para estacionamento de longa duração;
• A criação de mais e melhores percursos pedonais de acesso aos parques de estacionamento criados, nomeadamente aproveitando e reabilitando atalhos, melhorando a segurança destas vias e permitindo boas soluções de atravessamento;
• Uma boa integração arquitectónica dos novos espaços de estacionamento criados;
• Oferecer prioridade ao aumento da capacidade dos parques de estacionamento existentes, em vez da construção de novos parques, o que envolve custos significativamente menores e menores impactos ambientais;
• A promoção de estacionamento ao longo da rua, mais conveniente, e normalmente mais próximo da actividade a que se pretende aceder, exigindo um custo menor de construção, dado não acarretar a construção de acessos e outros sistemas presentes nos parques de estacionamento comuns;
• A capacidade de adaptação dos espaços para estacionamento aos volumes de procura, nomeadamente pelo desenvolvimento de alternativas, ou pelo alargamento ou crescimento em altura, com o tempo, de forma a não originar possíveis problemas decorrentes de um aumento súbito da oferta.