Fiz parte da equipe de assessoria de imprensa do Encontro Mundial de Chefs, realizado na cidade de Guararema (SP) e, assim, consegui participar de todas as oficinas, palestras e seminários, lidando no dia a dia com todos os chefs e cozinheiros presentes.
No segundo dia, a líder da equipe me pediu para encontrar e orientar sua amiga pessoal, a chef Cidinha Santiago. Eu a encontrei, ajudei-a com o check-in e levei-a para conhecer os diferentes estandes e espaços do hotel, antes de levá-la até seu quarto. Em seguida, assistimos juntas a uma palestra. Depois, Cidinha me pediu para tirar uma foto dela, com dólmã de chef, diante da sua foto no cartaz do evento. "Você reparou que eu sou a única mulher negra neste cartaz?"
203 Quando da morte da chef Benê Ricardo, publiquei um artigo no jornal Brasil de Fato em 23 de abril de 2017,
intitulado “Mulher negra e chef de cozinha: Benê Ricardo, presente!”. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2018/04/23/mulher-negra-e-chef-de-cozinha-bene-ricardo-presente/ (acesso em 11/12/2019).
Em função deste artigo, fui contatada pelo jornalista Tiago Rogero, do jornal O Globo, para falar sobre a chef Benê no podcast Negras Vozes, produzido por ele. O podcast está disponível em https://oglobo.globo.com/podcast/negra-voz-historia-da-1-chef-de-cozinha-do-brasil-bene-ricardo-uma-
Figura 6 – A culinarista Cidinha Santiago diante do cartaz do Encontro Mundial de Chefs. (Foto: Acervo pessoal).
Sim, eu reparei. Ela também era a única mulher negra no evento. Aliás, poucos eram os homens negros, menos ainda com o título de chef. No cartaz, apenas mais uma pessoa negra, o sous-chef de Carla Pernambuco, cujo apelido era Meia-Noite.
Passei praticamente o resto do evento seguindo Cidinha. Primeiro, porque ela era uma mulher fascinante e cheia de histórias para contar. Depois, reconhecida por todos os chefs que lá estavam, era frequentemente abordada para tirar foto, para gravar vídeo ou apenas para ouvir as pessoas dizerem "é uma honra te conhecer!", "você fez parte da minha infância!". Ela comandou uma oficina sobre culinária angolana – embora a programação do evento anunciasse "confeitaria africana". Preparou uma galinha com quiabo, e se dirigiu ao local da oficina carregando uma pesada sacola com várias aves, cada uma delas correspondendo aos diversos momentos da preparação. Tudo cuidadosamente embalado, assim como os acompanhamentos – conhecimentos de alguém que ostenta uma experiência de mais de 20 anos cozinhando diante das câmeras.
O espaço onde ocorreu sua oficina era um dos mais concorridos. Ela preparou a mesa onde iria trabalhar com muito esmero, trouxe de casa vários itens e enfeites que lembravam a África, assim como o lenço que enfeitava seu cabelo. No fim do dia, ela nos brindou, sentando-se com “as meninas da assessoria de imprensa”.
- Conta pra ela, Cidinha - dizia a jornalista -, conta quantos Natais passamos juntas preparando encomenda de ceia.
- Verdade, amiga, quantos Natais! Eu fiz muita encomenda de ceia, eu faço até hoje. Faço encomenda pro Natal, pro Ano-Novo, pra Páscoa... mas hoje eu já seleciono, não dou conta de ficar cozinhando dia e noite, não. Não vale a pena.
Cidinha Santiago se tornou conhecida por ser a auxiliar de Ofélia Anunciato, de A
Cozinha Maravilhosa de Ofélia, o primeiro programa culinário da televisão brasileira. O
formato apresentando uma senhora branca, bonachona, preparando o passo a passo de deliciosas refeições diante das câmeras, foi inaugurado por ela no Brasil e é copiado até hoje. É por isso que tantos chefs e cozinheiros conheciam e reconheciam Cidinha no Encontro de Chefs. Eles a acompanharam na televisão desde sempre, assistindo Ofélia.
Mas como essa mineira de Belmiro Braga debutou na televisão ao lado de um dos maiores ícones da culinária brasileira à época? Esta é uma longa história que ela me contou muito animada, pois é a história que ela repete em toda entrevista. A resposta simples e curta é: Cidinha era empregada doméstica de Ofélia que, quando esta foi convidada para fazer um programa de culinária na TV, ela "naturalmente" levou Cidinha para ajudá-la, como que reproduzindo o que fazia em casa. Mesmo quando a atração se tornou um sucesso e Ofélia ficou famosa no Brasil inteiro, ao seu lado estava Cidinha, tanto nos estúdios, quanto em casa. Quando Ofélia envelheceu e adoeceu, Cidinha continuou cuidando dela, até sua morte.
Ela batalhou para permanecer na tela da televisão. Há mais de 20 anos trabalha como "culinarista de TV", como se identifica profissionalmente, com várias pessoas em diversos canais. Mas sempre como auxiliar. Sempre ao lado de alguém que recebe a luz de todos os holofotes. Não raro, pessoas com muito menos experiência e muito menos conhecimento.
Cidinha fala de Ofélia com amor, com verdadeira devoção. Naquela tarde que passamos juntas, ela me mostrou os vários presentes da Ofélia, lembranças guardadas com apreço e carinho. Com respeito, relembrava do quanto Ofélia a ajudou, como fora boa com ela. Recordou, emocionada, que foi Ofélia quem organizou seu chá de bebê pela televisão, as telespectadoras acompanharam toda a sua gravidez e que recebeu presentes do Brasil inteiro. Dedicada, esteve ao lado de Ofélia até o fim e nunca lhe passou pela cabeça deixá-la para seguir seu próprio caminho ou outra carreira.
Ofélia não foi sua primeira patroa. “Com 10 anos fui trabalhar em casa de família. Fui cuidar de uma menina, até que foi aniversário dela ontem. E ela fez 40... 49 anos”. Sua mãe era doceira e seu pai, padeiro. Cidinha tinha 11 irmãos. Trabalhar em casa de família ainda criança era uma forma de ter um a menos para alimentar e cuidar diariamente.
Eu cuidava da menina, mas aí eu ia pra aula à noite, eu estudava. Daí eu ia pra cozinha fazer os pães, a gente fazia todos pães: pães de... aquelas rosquinhas, pão de queijo, pão, rosquinha de amoníaco [sic]. Hoje eu não faço tanta coisa assim, chama as quitandas mineiras. Eu fazia tudo, deixava na lata, aquelas lata tampada, pra semana inteira. Então a semana inteira você tinha pão. Chegava na sexta, fazia tudo de novo. Se sobrasse, levava pra casa, aquelas coisas todas. E aí eu comecei já morar, eu só ia pra casa no fim de semana, que pra mim era mais fácil, sair do serviço e ia pra aula e voltava da aula, era melhor. Se fosse pra casa ia ter que fazer toda comida... aquela estratégia, porque senão, você acaba trabalhando mais ainda. Só que eu não recebia. Minha mãe que recebia. Chegava no fim do mês, minha mãe ia lá e pegava o dinheiro. Aí foi indo isso, até os 18 anos.
Ao completar o ginásio, Cidinha estudou para ser enfermeira em Juiz de Fora (MG), e lá também se empregou em casa de família, “E daí já era cozinheira de forno e fogão”, afirma. Após um ano, ela desistiu da enfermagem, porque a realidade que encontrava nos hospitais da cidade não condizia com o que ela achava que devia ser o trabalho em saúde. Ela achou que, se seguisse a carreira, “eu ia brigar muito”, então decidiu sair “e me dedicar com mais força pra cozinha”.
E com isso, aí depois que eu saí da casa de família... nesse ínterim, eu escrevi um livro de... cozinhando, e aprendendo bastante coisa, eu escrevi um livro. Aí virou curiosidade. Porque minha madrinha, madrinha que gostava muito e me cuidava muito assim, e a filha dela trabalhava na Globo. Aí foi curioso, virou pauta: uma empregada doméstica escrevendo um livro de culinária.
O livro que ela escreveu em 1985, “Receitas de comidas típicas” teve tiragem de mil exemplares, hoje totalmente esgotados – ela mesma não tem sequer uma cópia do livro. Cidinha pagou do próprio bolso pela edição. E, continua ela, com o livro debaixo do braço e a convite de uma amiga, foi para São Paulo, novamente trabalhar em casa de família, cuidando de dois gêmeos. Como eles passavam a maior parte do dia na escola, ela fez diversos cursos gratuitos, de curta duração, oferecidos por empresas de eletrodomésticos como a Prosdócimo e Continental 2001.
Aí, trabalhando com a amiga dela [da antiga patroa], eu fiz curso, aí eu fazia curso, já fazia mais as minhas receitas, e fui fazer uma exposição no Clube Pinheiros. É uma coisa muito legal, porque eu fui quebrando um monte de barreiras, coisa que ninguém nem entrava e tal. Aí fui no Clube Pinheiros, ela me levou no Clube Pinheiros, eu fiz uma minipanetone, coisa de Natal, assim, fiz os camafeus, vendi panetone,
Neste trecho, Cidinha parece reconhecer o pioneirismo de algumas de suas atitudes no campo profissional, como participar de exposições culinárias, “coisa que ninguém entrava”, para vender suas produções. Em um desses eventos, ela conheceu o então famoso padeiro Benjamin Abrahão, que a levou para fazer um curso de panificação com ele. Durante um tempo, em razão dos contatos que ela fazia em feiras e exposições, ela era contratada para preparar congelados em domicílio. Mas sua patroa na época “ficou com ciúme” e queria que ela fizesse comida congelada para ela e para sua família, e não que ela saísse para cozinhar em outras casas: “ela que me acolheu, mas depois quando ela viu que eu tinha já um pessoal, ela não quis mais”. Naquela época, conta que tinha uma clientela no bairro do Morumbi – e que trabalhava todos os dias das 7h às 16h.
Em seguida, seu antigo professor Benjamin lhe apresentou Ofélia, que “estava precisando de alguém”.
"Ela é difícil. Se você aguentar trabalhar com ela...", eu falei "Ah, vamos tentar, né?". E fui trabalhar com a Ofélia. E daí não saí mais da televisão. Porque com a Ofélia fiquei seis meses trabalhando nos bastidores. (…) E aí morava com ela. Porque a filha dela morava em Santos. Aí eu já saí daquela senhora que eu morava lá, vim morar com ela [Ofélia] na casa dela. Que ela precisava de uma pessoa pra ficar com ela e ao mesmo tempo ficar na cozinha. Eu fiz as duas coisas. Essa brincadeira durou nove anos com ela. (…) Aí eu cuidava dela e organizava tudo que ia fazer, como fazer.
São muitos anos e muita experiência trabalhando como culinarista na televisão, mas conforme ela mesma diz, prefere ser assistente e não ter seu próprio programa,
Porque a televisão brasileira é muito complicada. Depende muito de patrocinador. Você vê, 27 anos na TV, eu nunca fui convidada pra fazer um comercial, entendeu? É complicado. Então eu prefiro ficar nessa... fazendo minhas coisinhas aí.
“Minhas coisinhas aí”, na verdade, é bastante coisa.
Eu ganhei o fogão, fui homenageada como a pessoa que tá há mais tempo na TV brasileira. [mostra a medalha] Olha a medalha, de menção honrosa. Sou a primeira mulher na FIC [Federação Italiana de Culinária], tô na FIC agora, Brasil. Sou a primeira mulher na FIC Brasil.
Além da televisão, encomendas, eventos, aulas especiais, participação em premiações, entre outros, estão entre “minhas coisinhas aí”. Ela sempre está envolvida com várias atividades para além do trabalho de segunda a sexta-feira na emissora de televisão, no período da manhã.
Chef, que todo mundo hoje virou chef, você põe um dólmã, todo mundo é chef. Não, chef eu não sou, eu sou culinarista de TV. Defino isso bem claro.
E já passaram vários comigo também, os meninos. Tem um menino que foi meu estagiário e hoje é professor na Anhembi Morumbi. Eu dei aula na Anhembi Morumbi no começo. Dei aula na Renaissance, Faculdade Renaissance também. Então assim, aquela coisa, a gente tem essa troca muito grande, né. E todos os grandes chefs me respeitam pra caramba também, eu respeito eles.
De fato, Cidinha representa essa ambiguidade: é famosa e não é famosa, é reconhecida e não é reconhecida. Ela tem 27 anos de experiência trabalhando em programas culinários na televisão, além de uma enorme responsabilidade no ensino e formação “dos meninos”, além de cursos, projetos. Mas, realmente, ela nunca teve um espaço só seu sob os holofotes. Sempre foi assistente, não havia sido chamada para fazer comercial (isso mudou após a entrevista).
Cidinha me apresentou a chef Benê Ricardo e estava presente na entrevista que eu fiz com ela. Elas eram amigas. Algumas coisas que Cidinha havia me dito em sua entrevista, ela mesma relativizou durante sua conversa com Benê porque, de alguma maneira, suas trajetórias eram muito parecidas e muitas situações que viveram eram próximas. No ponto seguinte, apresentarei a trajetória da chef Benê, mas, por ora, faço essa pequena digressão para contextualizar a forma como Cidinha tratou o tema do racismo.
Quando perguntei, na entrevista individual, se ela já havia sofrido racismo, sua resposta foi:
Assim, velado eu nunca sinto. Velado não. Mas uma coisinha ou outra, assim. Mas assim, o povo tem até medo de declarar alguma coisa por mim, porque sabe que a maioria das pessoas... às vezes é mais fácil sentir racismo de negros do que de brancos. Porque eu sou uma pessoa que sou esclarecida nesse sentido. (…) Eu falo discriminação nesse sentido, de me... às vezes você vê qualquer atorzinho aí da Globo fazendo um... simular alguma coisa de cozinha, já aparece fazendo comercial. Você percebe nesse sentido. Eu já trabalhei pras melhores empresas, assim, já fiz pra todas, não sei que, eu sempre fiz produção. Sempre. Fiz produção. A única vez que eu falo assim que eu fui bem, assim bem remunerada no sentido de fazer, foi um trabalho que eu fiz agora, faz pouco tempo, pra ___. Fiz um trabalho legal pra ___, eles me chamaram, pagaram mil reais a diária, sabe, então foi um trabalho que praticamente foi o trabalho que eu melhor recebi até hoje na minha vida, e quando eu fazia os merchans [merchandising], sempre fiz merchan, mas
merchans embutidos, não merchan direto. Nesse sentido, eu acho, a
indústria, a coisa, a mídia em si não luta pra isso também. Igual, por exemplo, por que que eu falo entre os negros? Porque tem essa... esse negócio dos negros, você vê, eu fui homenageada numa colônia italiana, fiz um trabalho lindo lá, falando da África no meio de todos os chefs que vieram de todos os lados, e eles lá assistindo. Foi uma aula, a coisa mais linda, aquela sala lotada, aquele povo todo prestando atenção [no Encontro Mundial dos Chefs]. (…) Tem Troféu Raça Negra, Troféu não sei que, eles
nunca nem me chamaram pra nada. Nem pra ir assistir o evento. Eu só fui uma vez assistir o troféu porque tinha um amigo meu envolvido, aí eu fui uma vez. E aí uma única vez também, um pessoal do __ [partido político] também, que eram uns amigos negros que tinha aí, aí falaram assim "ela faz sempre o papel da empregadinha". Então, eu já ouvi isso. Por isso que eu falo, não tenho essa coisa sentido, sinto mais de negro pra negro, do que coisa. Às vezes o metrô tá cheio, tá lotado, dependendo da hora que eu vou, dependendo da hora que eu chego, os orientais levantam, um branco levanta, os brancos me reconhecem.
Hoje, Cidinha tem encontrado outros espaços de atuação independentemente do trabalho que continua realizando na televisão, enquanto conta os dias para sua aposentadoria. Além de cursos e palestras, Cidinha é convidada para ser jurada e avaliadora em concursos, bancas de TCC em vários cursos de Gastronomia em São Paulo, e tem um perfil em redes sociais com centenas de seguidores. Tem investido em cursos e formações que estão ligados à culinária africana e tradições brasileiras – como sommelier de cachaça.
Ela planeja sua aposentadoria para ser um período em que vai se dedicar à sua própria formação e ao próprio trabalho na Gastronomia.
Eu fiz esse coiso pro Portal Afro, que é também meu amigo, não é uma coisa muito, em excesso, mas de vez em quando eu faço uns trabalhos, e a minha cunhada, como cineasta, ela mora em Salto [SP], ela montou a Casa da Memória da Mulher Negra, de Salto mesmo, né, dos negros de Salto, do negro saltense. E daí eu resgatei, ela me convidou, foi muito de última hora, mas ela me convidou pra fazer as receitas que os escravos faziam na época. Aí, olha que legal, eu fiz no fogão à lenha, fazenda, aí tinha um fotógrafo profissional, tinha um câmera filmando, filmou e tudo, aí você chega em Salto hoje, tem um fogão, tipo um fogão à lenha no museu, mas é um tablet gigante, você clica assim, e aparece minha mão fazendo as comidas da época204.