Diante do levantamento bibliográfico realizado acerca do assunto, é importante afirmar que o processo histórico, ao longo do qual a troca de mercadorias entre os indivíduos culmina no desenvolvimento de artifícios específicos para o incremento da atividade econômica, não ocorre de forma etapista. A reciprocidade e a redistribuição como formas de integração nas sociedades primitivas, assim como a constituição dos mercados, podem surgir e desaparecer em momentos históricos distintos, dependendo das condições sociais e materiais existentes (SOARES, 2006, p.103).
Em traços gerais, a demanda por satisfação das necessidades básicas e as limitações da produção dos bens necessários à manutenção
da vida por um único indivíduo impulsionaram o desenvolvimento do escambo, ou seja, a troca de produtos e serviços. A troca realizada mediante a necessidade de aquisição de bens fundamentais como os alimentos, por exemplo, era permeada pela ideia de valor equivalente. Na impossibilidade de concretização da troca por produtos equivalentes, o escambista aceitava uma mercadoria diferente do seu desejo inicial, mas com circulação garantida, isto é, com a liquidez sustentada no interesse dos demais indivíduos. Do entendimento de que mercadorias com maior liquidez facilitavam as trocas, surgiu a chamada mercadoria intermediária no processo de satisfação das necessidades (SOARES, 2006, p.50).
Alguns autores, considerando o potencial de liquidez de algumas mercadorias, discorrem sobre o seu processo de transformação em moeda. Carl Menger, economista austríaco da escola clássica, desenvolveu a teoria da utilidade marginal, concebida primeiramente por Hermann Heinrich Gossen (1810-1858) na Prússia, em 1854, e que, posteriormente, deu origem à escola neoclássica da economia. Menger (1892, p.239-255) coloca as mercadorias intermediárias com valor equivalente como fundamentais na criação de uma moeda de troca. O autor aponta a emergência de uma instituição social chamada “meio de troca e de aceitação generalizada”, baseada na utilidade de determinado produto para os indivíduos. Segundo Menger, no mercado, as pessoas aprendem que algumas mercadorias são mais desejadas que outras, passando a aceitá-las mesmo sem carecê-las, a fim de realizarem uma nova troca.
Já Aglietta e Orléan (2002) afirmam que várias mercadorias podem se transformar em moeda, não somente as mais procuradas. Segundo os autores, existe uma rivalidade em cada indivíduo que, por sua vez, inviabiliza o processo de troca. Nesse ponto, acreditam que há um elemento que antecede o valor: a violência. Quando ninguém conhece a forma líquida da riqueza escolhida, todos desconfiam de todos. Os produtos não são trocados, pois existe uma especulação sobre a eleição de outra forma líquida de riqueza escolhida. Nesse processo, selecionam-se algumas mercadorias até que apenas uma se torne eleita como padrão de troca.
Diferentemente dos autores supracitados, Marx toma o processo de trabalho como a base da sociedade humana. Para o autor, os seres humanos, transformando a natureza, cooperam entre si na busca da satisfação das necessidades. O produto desse trabalho tem por objetivo ser útil para algum indivíduo que, por sua vez, fará uso imediato de suas potencialidades. Marx caracteriza essa relação de troca por seu valor de
uso, sendo que, no sistema capitalista, o produto da maior parte do trabalho social são as mercadorias, feitas não para serem consumidas diretamente, mas para serem vendidas/trocadas, agregando a si o valor de troca (MARX, 1996, p.27-33).
No entanto, dificuldades na produção e no armazenamento de determinados produtos demandaram a substituição das mercadorias intermediárias por algo que contivesse valor e durabilidade em si. A nova mercadoria deveria conter: durabilidade, evitando-se produtos perecíveis; ser facilmente divisível, a fim de facilitar o troco; ter homogeneidade, de modo que fossem iguais às outras unidades desta mercadoria; e ser de fácil manejo e transporte.
Materiais metálicos passaram a ser escolhidos para a efetivação das trocas, sendo os mais utilizados o cobre, o bronze e o ferro. Pela abundância de jazidas, tais metais foram substituídos por outros mais raros, como o ouro e a prata. A moeda metálica, além de assumir o papel de intermediário nas relações de troca, possibilitou a acumulação e o translado pelo tempo. A utilização de metais preciosos motivou a necessidade de critérios para identificação de pureza, bem como para a estipulação do peso e da medida. O Estado, ou outra força política organizadora da economia, dependendo do caso, assumiu a responsabilidade pela padronização da moeda metálica e a fiscalização da sua circulação, a fim de coibir falsificações (SOARES, 2006, p.54). De acordo com Wray (2003, p.46), o Estado tem seu papel legitimado na determinação do que servirá como meio de pagamento nas transações privadas porque, em uma disputa legal, o meio de pagamento que o credor é compelido a aceitar será sempre o que o próprio Estado também aceita. Além disso, viver sob a tutela de um Estado implica o pagamento de tributos, taxas e impostos; todos pagos com a moeda oficial.
A moeda representa, no mundo das mercadorias, uma grandeza comparável, quantitativa e qualitativa. O ouro e a prata, materiais metálicos utilizados para produção de moedas, passam a conservar em si o valor de troca ao assumir o papel de mercadoria. Para Marx, a moeda como mercadoria assume nova dinâmica no mercado: no caso de excesso de moedas em circulação, a redução da velocidade do seu movimento se dará por meio da retirada do excedente em movimento, culminando no processo de entesouramento; já a escassez da moeda eleva a sua velocidade de circulação, provocando o inverso, o desentesouramento. Assim, a moeda perde a sua característica de equivalente geral e sua representação de valor desloca-se do metal em si para o processo de circulação, elevando e diminuindo seu potencial de
troca de acordo com a disponibilidade de moedas no mercado (MARX, 1996, p.250). O dinheiro, então, passa a existir como a representação de uma medida de valor, não mais contendo um valor em si13.
Por meio da obra de Marx é possível identificar o ciclo completo de reprodução do capital, onde o dinheiro encontra-se no início e no fim. Com o dinheiro é possível adquirir mercadorias necessárias à produção, como matérias primas e a própria força de trabalho. Sem ele não há criação de valor no processo de produção. O dinheiro é necessário também ao final do ciclo, para haver lucro, “porque o lucro não é apenas excedente de mercadorias extraído da força de trabalho humana, mas excedente convertido em moeda” (MOLLO, 1987, p.212). Assim, a moeda deixa de ser apenas um meio de troca e passa a ser um instrumento de validação social do trabalho, velando o caráter social dos trabalhos privados e as relações sociais entre produtores privados. Para Marx, a quantidade de dinheiro “se torna cada vez mais seu único atributo poderoso; assim como ele reduz todo o ser à sua abstração, reduz-se ele em seu próprio movimento a ser quantitativo. A imoderação e o descomedimento tornam-se a sua verdadeira medida [...]” (MARX, 2010, p.139).