As funções assumidas pelo dinheiro moderno foram responsáveis por um novo reordenamento social e, consequentemente, pelo estabelecimento de novas relações sociais. No entanto, como se regulam as proporções em que algumas mercadorias se trocam por outras? Alguns autores passaram a compor versões da teoria monetária, analisando a realidade a partir de diferentes perspectivas. Na obra de Engels “Anti-Dühring”, que remete a um escrito de Júlio César, o Anti- Catão, o autor encerra o capítulo “Teoria e Valor” com a irônica passagem:
Pelo que dissemos, o leitor pode agora escolher, entre as cinco classes de valor que nos são servidas pelo Sr. Dühring numa bandeja, a que mais lhe agradar: o valor de produção que tem a sua fonte na natureza, ou o valor de distribuição, criado pela maldade dos homens e que se caracteriza pela particularidade de ser medida pelo desgaste de força que ele não representa; ou então, 13 É comum diferenciar-se moeda e dinheiro definindo a primeira como um padrão oficial - no Brasil, o Real -, e o segundo como moeda em circulação, representando um determinado valor.
o valor que se mede pelo tempo de trabalho; o valor que se mede pelo custo da reprodução; e, por fim, o valor que se mede pelo salário. Como se vê, há o que escolher; a coleção não pode ser mais completa, assim como o é a confusão, e, como sobremesa, podemos exclamar como o faz o próprio Sr. Dühring: ‘A teoria do valor é a pedra de toque pela qual se aprecia a solidez dos sistemas econômicos’ (ENGELS, 1877, p.114).
Marx afirma que o valor de troca de uma mercadoria relaciona- se às quantidades proporcionais na qual esta é trocada por outras mercadorias. Quando dois produtos atingem a mesma grandeza sob duas formas distintas, circunstância em que se realiza a troca, se tem o terceiro elemento representado pela medida comum de ambos. Assim acontece com todos os produtos, ou seja, a redução a uma expressão comum, apenas distinguindo-os pela proporção em que contêm esta mesma medida idêntica.
Marx esclarece que os valores de troca das mercadorias nada têm a ver com suas propriedades naturais e que o trabalho é a substancia comum em todas elas. Ao se produzir um determinado objeto de uso pessoal e direito, tem-se um produto. Já para se produzir uma mercadoria em uma economia mercantil, esta necessita satisfazer uma necessidade social, e o trabalho nela incorporado deve representar uma parte da soma global de trabalho da sociedade, ou seja, tem que estar subordinado à divisão do trabalho dentro da sociedade. O trabalho passa a adquirir uma característica quantitativa e qualitativa particular, aparecendo como trabalho abstrato e socialmente necessário, cuja intensidade implica a alteração de seu valor.
Se então a quantidade de trabalho socialmente necessário, materializado nas mercadorias, é o que determina o valor de troca destas, ao crescer a quantidade de trabalho exigível para produzir uma mercadoria aumenta necessariamente o seu valor e, vice-versa, diminuindo aquela, baixa este (MARX, 1865, s/n).
O preço é a expressão em dinheiro do valor, sendo igual para as mercadorias da mesma espécie na economia mercantil e variando a partir da quantidade global destas no mercado. A quantidade de trabalho socialmente necessário e despendido na produção de determinadas
mercadorias, pode, em determinados momentos, provocar a oscilação dos preços. No entanto, os mecanismos de mercado e dos preços, expressos pela influência que os produtores exercem uns sobre os outros, geram uma tendência ao reestabelecimento dos preços originais. A produção mercantil é um sistema constantemente perturbado, onde cada perturbação do equilíbrio provoca uma tendência ao seu reestabelecimento. Marx identificou, por meio do estudo de longos períodos históricos, a existência de um preço médio, sem grandes alterações (RUBIN, 1987, p.80).
Na sociedade capitalista os preços das mercadorias não equivalem ao valor da quantidade de trabalho necessária para a sua produção. Trata-se do preço de produção, onde se adiciona aos custos de produção o lucro médio do capital investido. Com base nesse pressuposto, Marx critica a lei da oferta e da procura na elevação dos preços de determinadas mercadorias por negar que o lucro possa se realizar a partir dessa majoração. Ao vender as mercadorias por um preço alto, se comprará outra mercadoria também de preço elevado, sendo impossível a contabilização do lucro. Para o autor, não explicar o lucro obtido por meio da venda das mercadorias, onde os custos de produção, a quantidade de trabalho, mais o lucro médio indiquem seus valores, é um grande absurdo (MARX, 1865, s/n).
Diferentemente do que aponta Marx, alguns autores que contribuíram para a teoria monetária neoclássica, como o já citado Menger, fundam-se na consciência do indivíduo isolado e em sua racionalidade, sendo as trocas realizadas sobre um princípio geral de escolhas, absolutamente centrado na soberania de cada sujeito, independente dos demais. Ele já tem a troca presente e definida antes de qualquer relação com o outro. A relação sujeito/objeto não contempla nenhum conteúdo sócio-histórico (SOARES, 2006, p.76).
A teoria de Marx sobre o valor não analisa as relações entre as coisas, ou a relação entre pessoas e as coisas, mas sim as relações entre pessoas que estão vinculadas entre si através de coisas. Além do aspecto quantitativo em que se baseia o valor na quantidade de trabalho abstrato, tem-se o aspecto qualitativo, como uma forma social, onde o valor não caracteriza as coisas e sim as relações humanas nas quais as coisas são produzidas por meio do trabalho social. Marx aponta a inevitabilidade da reificação das relações de produção entre as pessoas em uma economia mercantil. A reificação do trabalho em valor culmina na teoria do fetichismo (RUBIN, 1987, p.83-85).