• Aucun résultat trouvé

Secure Cisco IOS Devices

Neste primeiro capítulo, trago o texto da bell hooks (2000), pois ele me tocou de diversas maneiras e me serviu como inspiração para repensar aspectos da afetividade das pessoas negras como um todo. Mas, além disso, me fez olhar ao meu entorno e as pessoas do meu convívio, sem é claro me anular desta autoavaliação, repensando também minhas próprias vivências do passado e presente, compreendendo melhor meus medos quanto ao futuro. Parece muito, mas explico. Para hooks, a opressão somada a exploração criou condições extremamente difíceis para negras e negros e suas capacidades de amar. Ao se viver no mundo dos brancos, a interiorização de uma inferioridade acomete a subjetividade negra11. A partir disso, a habilidade

de sentir, querer e amar passa por uma distorção e, assim como a autora, acredito que a vontade de amar tem sido um ato de resistência.

Não só bell hooks, mas outras autoras (DAVIS, 2016; GIACOMINI,1988) falam que a sobrevivência de muitos escravizados dependia muitas vezes da repressão de suas emoções na maior parte do tempo, só as expressando quando fosse seguro. Boa parte dos desdobramentos dessas práticas de controle subjetivo é colhida até hoje. Afinal, como alimentar afeto por outras pessoas significativas em contextos nos quais era impossível prever se estariam ou não juntos?

11 Para um melhor aprofundamento do tema, ler Fanon (2008) em “Pele negra, máscaras brancas” e Neusa Santos Souza (1983), em “Tornar-se negro”.

A transitoriedade se torna um aspecto marcante das relações e a intimidade vai tomando nuances mais práticas.

Sonia Maria Giacomini (1988), trata das tensões relativas ao papel social e sexual da mulher negra escravizada no Brasil. A autora relata como vida privada ou vida familiar se apresentam como contradição na vida dessa mulher, por carregar a condição de “coisa” que impunham aos negros naquele período. Ou seja, a constituição de famíliaera inacessível a quem não possuía nem a si próprio. Nas suas pesquisas, a autora percebe que a expressão “família escrava” não aparece, mas sim expressões como “filhos de escrava” ou “mãe de escravo”. De todo modo, nada que remetesse a noção de família, que é veiculada somente sobre a relação da mãe e seus filhos, que ao menos se fazia presente, provavelmente pela necessidade fisiológica dos filhos com relação as mães no início de suas vidas. Todavia, com respeito a pais e irmãos, nada era citado, sendo a questão da paternidade inexistente. Mesmo quando relatada a maternidade aparece no sentido de negação, retratando o afastamento dos filhos.

Retomando hooks (2000), a autora acredita que muitos sujeitos negros estabeleceram relações espelhadas na brutalidade, em decorrência do que vivenciaram tão intensamente durante a escravidão. Além disso, aponta que a repressão dos sentimentos ainda persiste como estratégia de sobrevivência, afinal, o racismo faz com que nós negras e negros alimentemos um sentimento de auto ódio em muitos momentos de nossas vidas, o que reverbera para outras relações que empreendemos, como também mostra Fanon (2008). Para este autor, a obra do racismo é capaz de produzir no sujeito negro um sentimento de ódio a si e a sua negrura, promovendo uma tentativa de aproximação ao que se é forçado a acreditar que é “superior”, o ideal branco. Com isso, impactos negativos ao negro se perpetuam, e sua maneira de se ver e existir no mundo é afetada de modo nocivo.

Algumas autoras (HOOKS, 2000; GIACOMINI, 1988; DAVIS, 2016) demonstram que a expressão de sentimentos, seja dor, sofrimento, tristeza, alegria, paixão, animação, podia acarretar ainda mais punições no período da escravidão. Algo tratado por hooks (2000) e a partir da frequente repetição que tenho acompanhado em diversas discussões entre pessoas negras, geralmente participantes de movimentos sociais organizativos pelo Brasil, percebi que com o tempo, esconder emoções e mascarar sentimentos, passou a remeter uma aparente personalidade forte. Desse modo, o receio em não desenvolver essa personalidade sólida e com isso comprometer a sobrevivência faz com que o afastamento ao amor (que aqui considero o amor romântico) seja uma das melhores escolhas.

Como dito anteriormente na introdução, através de reuniões e encontros promovidos com sujeitos que se declaram ativistas na luta contra o movimento racista no Brasil, pude me aproximar e entrevistar mulheres negras consideradas lideranças de movimentos negros organizativos. A pretensão, inicialmente, era reunir as falas encontradas entre os dois grupos de mulheres (ativistas e não-ativistas), como modo de demonstrar a multiplicidade de vozes de mulheres negras e com isso a impossibilidade de se acreditar numa homogeneidade desses corpos e subjetividades. Com a mudança metodológica, neste trabalho não irei analisar de modo mais enfático as entrevistas com as mulheres ativistas, mas trago algumas considerações pertinentes ao estudo.

Tive a oportunidade de encontrar Luíza Mahin em Natal, em um evento construído por um coletivo do qual participo e que está inserido na Rede de mulheres negras do Nordeste, assim como a entrevistada. Na ocasião, entre uma cerveja e outra e os momentos de descanso após um dia inteiro de formações, Luíza me chama para que tenhamos nossa conversa, já que mais cedo eu havia comentado com ela sobre o interesse em tê-la enquanto participante. Retomo a essa entrevista por uma fala em que Luíza Mahin toca diretamente sobre a importância que nós, pessoas negras, temos em nos afastar do amor romântico:

A gente precisa romper com essa romantização e essa visão europeia e eurocêntrica dos afetos. Então, porra, nós nunca vamos cumprir o mito da fragilidade, das princesinhas cinderelas… nós não somos assim! Nossa vivência é outra e aí eu acho que a gente precisa ir refletindo mais sobre isso, porque a gente se cobra cumprir o mito. A gente se cobra, porque a sociedade cobra, então a gente aceita a cobrança, internaliza a cobrança (Luíza Mahin em entrevista).

O sistema escravocrata que está na origem do sofrimento e “das dificuldades coletivas com a arte e o ato de amar” cultivou entre os afro-americanos uma experiência de intimidade voltada para o sentido prático e o controle das emoções. O amor então, perscrutado da escravidão aos dias atuais e através da articulação entre público e privado, é reivindicado como um ato de descolonização e uma ação contra a opressão (MOUTINHO, 2014, p. 234).

bell hooks, dialogando com um texto de Toni Morrison, analisa a conversa de uma garota que pergunta para sua mãe se ela a amou algum dia. A resposta da mãe elenca a saúde e os bens materiais que ela lhe proveu como resposta para a pergunta pelo afeto. A leitura de hooks é provocadora para os fins dessa dissertação pois enfatiza que a luta por sobrevivência (literalmente manter-se vivo) pode ter operado na ideia de suprir necessidades como sinônimo de amar. A partir disso, a autora pensa que dentro do processo de resistência coletiva, atender

às necessidades emocionais é tão importante quanto às materiais, pois o carinho alimenta corações, mentes e também estômagos. Em conversa com Luíza Mahin, a ativista traz tal trecho à tona, demostrando a importância da questão na vida de negros ao longo de suas trajetórias:

Quando uma mãe negra educa de uma maneira dura suas crianças, não é que ela não ame as suas crianças. O pessoal diz “ah mas é muito duro, muito seco e tal, precisa de mais afeto”. Gente, tem um jeito de amar aí, de proteger, que assim, ela tá preparando essa criança para o mundo. É essa criança que ela ama e ela quer que essa criança esteja mais preparada para este mundo. Este mundo que vai violentá-lo. Então assim, isso é uma forma de amor que é muito profunda e a gente precisa reconhecer este amor entre nós, entende? (Luíza Mahin em entrevista).

Recordo-me de uma conversa com Dona Sueli, na qual me falava sobre ser apaixonada ou não pelo seu atual companheiro, com quem divide mais de quarenta anos de relação. De acordo com suas palavras, não se considera apaixonada por ele e na verdade acredita que nunca o foi, mas se admira com os cuidados que ele tem para com ela. Apesar de possuir a maior renda da casa, por ser aposentada, Dona Sueli se mostra encantada com as demonstrações de afeto de seu companheiro e essas aparecem também através de itens materiais. Para ela, um modo de explicar é ao falar de situações em que ele ao voltar do trabalho, traz consigo um pacote com queijo, alimento que somente ela gosta na casa, e através disso considera o que é o amor, o gostar. Em outra conversa me fala mais uma situação:

Conta que dia desses seu companheiro estava na chuva, cuidando das batatas e que ela grita de longe perguntando o que ele fazia. Responde que cuidava disso para que ela pudesse dar para suas amigas. Ela sorri ao me contar e continua: “Ele é tão bom pra mim, né. Fosse outro tava nem aí. Ele é bom ou é besta. Fica plantando e me fala logo pra dar pras amigas, pra levar. Dá as coisas pra mim, cuida de mim e se preocupa. Besta. Eu dei sorte, né” (Notas do diário de campo).

Mas sobre as interlocutoras falarei mais adiante nos capítulos dois e três, por agora tento somente demonstrar que é possível que nós mulheres negras, com foco para a fase da vida conhecida como “mais velha”, pela ausência de outros formatos de carinho vistos como mais “românticos”, possamos compreender o amor através de gestos, de um cuidado com o bem- estar, atitudes que nem sempre precisem dizer palavras bonitas ou grandes declarações. Com isso não tento defender que não precisamos de tais momentos, nem negar sua importância, mas evidenciar que a interpretação do afeto pode ter vários formatos e isso veremos em variados momentos desta pesquisa.

1.1.1 É pela vida das mulheres NEGRAS!

Esta frase tem sido historicamente presente nos discursos de ativistas negras pelo Brasil. Nos últimos anos, falar sobre vida perpassa a urgente pauta do extermínio da população negra, mas também evidencia o quesito do bem-viver dessas mulheres. Assim, também, e de forma crescente, têm se fortalecido as falas que tocam na temática do amor e do afeto.

hooks (2000) acredita que a falta de amor tem criado dificuldades na garantia de sobrevivência das mulheres negras e por isso, usufruir desse sentimento possa alimentar nosso anseio pelo viver plenamente. Aprender a rever as emoções e compreender que elas são, sim, importantes significa uma forma de enfrentamento ao racismo e resistência a todo um histórico de opressões que por séculos nega a humanidade de negras e negros. Logo, é necessário apontar a saúde emocional e seus desdobramentos como uma importante pauta dentro do movimento contra o racismo e sexismo, pois todas essas experiências estão interligadas. Umas das maneiras que a autora acredita ser possível promover a nossa capacidade de amar é através do autoconhecimento e afirmação. Por exemplo, ao invés de tantas críticas direcionadas a si, como a própria aparência, personalidade, trabalho etc., os sujeitos negros devem passar a se elogiar, modificando a crítica negativa por palavras de reconhecimento positivo, pois através da afirmação podemos cultivar o amor interior12:

Numa sociedade racista e machista, a mulher negra não aprende a reconhecer que sua vida interior é importante. A mulher negra descolonizada precisa definir suas experiências de forma que outros entendam a importância de sua vida interior. Se passarmos a explorar nossa vida interior, encontraremos um mundo de emoções e

12 Diversos perfis e contas em redes sociais tem enfatizado a necessidade em se tratar mais sobre afeto, auto amor, aceitação, identidade positiva da negritude, entre outros temas similares. Acho interessante trazer alguns que, por exemplo, evidenciam famílias negras de modo otimista, principalmente pais negros mostrando o cuidado e amor por filhas e filhos ainda crianças, imagens essas bastante invisibilizadas, quando geralmente só se toca na esfera do abandono, violência, entre outras imagens negativas de sujeitos negros, sobretudo homens negros:

O perfil no Instagram e YouTube da “Família Quilombo”, que trata da afetividade, educação de filhos e filhas e relações familiares, se autointitulando família preta em diáspora;

O filme “Moonligh – sob a luz do luar” aborda a humanidade de pessoas negras, através também, mas não só, do viés da sexualidade. O filme mostra como um ambiente de violência, pobreza e de família desestruturada interferem na construção de uma masculinidade imposta aos meninos, jovens e homens negros;

Vídeos de pais com seus filhos ainda bebês: https://www.youtube.com/watch?v=05Fv6fgIMJo;

sentimentos. E se nos permitirmos sentir, afirmaremos nosso direito de amar interiormente. A partir do momento em que conheço meus sentimentos, posso também conhecer e definir aquelas necessidades que só serão preenchidas em comunhão ou contato com outras pessoas (HOOKS, 2000).

Acredito que a atitude de amar consegue trazer à tona a importância da comunidade negra e sua coletividade. Para o sujeito negro, amar a si, seus traços, seu corpo, seu jeito, personalidade etc., é resistir às frequentes negações que o sistema etnocêntrico impõe e é por isso que valorizar a negritude é um processo de descolonização, pois somente assim é possível amar aos nossos. Logo, lutar contra as diversas opressões perpetuadas desde o período colonial é uma forma de transformar o mundo em que vivemos e quem sabe assim, vivermos num mundo repleto de amor:

Quando nós, mulheres negras, experimentamos a força transformadora do amor em nossas vidas, assumimos atitudes capazes de alterar completamente as estruturas sociais existentes. Assim poderemos acumular forças para enfrentar o genocídio que mata diariamente tantos homens, mulheres e crianças negras. Quando conhecemos o amor, quando amamos, é possível enxergar o passado com outros olhos; é possível transformar o presente e sonhar o futuro. Esse é o poder do amor. O amor cura (HOOKS, 2000).

hooks (2000) em uma passagem nos conta que sua amiga T. faz questão de visitar e conversar com um senhor de idade que trabalha numa loja perto de sua casa, e demonstrar carinho para com ele. Espera, com isso, que mais pessoas façam o mesmo. Dar e demonstrar carinho.

Ao construir trajetória semelhante a exemplificada pela autora, durante muito tempo não me atentava que em minhas visitas eu própria estaria adentrando a rede de afeto dessas mulheres negras interlocutoras na pesquisa. Fazer-se presente, dialogar, preocupar-se com sua saúde e acima de tudo ouvi-las; atitudes que vão diminuindo com o passar dos anos com relação às pessoas que antes eram próximas, segundo algumas de suas falas, mas isso é algo que tratarei mais adiante. Para demonstrar a importância da temática para as mulheres negras, além da fala de bell hooks analisando o contexto estadunidense, aqui no Brasil temos Beatriz Nascimento, que toca em eixos chave sobre parceria e a desmistificação do amor.