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Mostramos até aqui que a literatura consultada é importante não apenas para desenhar um panorama das pesquisas e enfoques existentes sobre o tema, mas também para marcar a sua importância e suas relações com assuntos como a constituição da nação, o perfil sócio demográfico da população brasileira, ideais de beleza, conjugalidade etc. Contudo, pouco tivemos como cerne a articulação entre raça e gênero. Afinal, o que as pesquisas falam sobre as mulheres negras e afetividade? Os dados mostrados acerca do preterimento e solidão das mulheres negras (BERQUÓ, 1987) já foram analisados anteriormente sob uma perspectiva mais subjetiva? É a partir disso que o foco aqui será colocado sobre um dos trabalhos que além de se enquadrar nas preocupações descritas para as outras autoras, realiza de forma mais clara uma articulação entre raça e gênero a partir de trajetórias de mulheres negras.

1.4.1 Ana Claúdia Pacheco e a cor da solidão

Ana Claúdia Pacheco (2013) escreveu uma reconhecida tese em que pesquisou sobre afetividade e solidão de mulheres negras na Bahia, a partir de dois grupos: o primeiro analisa as trajetórias sociais e afetivas de cinco mulheres negras ativistas políticas; e o segundo trata igualmente de cinco interlocutoras, mas essas não ativistas. Com ambos os grupos se indaga se perspectivas racistas ainda atuam nas preferências matrimonial-afetivas de diferentes sujeitos. Seu trabalho é um dos poucos que analisam os relacionamentos afetivos entre negros do Brasil numa perspectiva qualitativa, o que inova, mas não esconde suas dificuldades em tal empreitada. Este livro me serve como referencial central na pesquisa, além de me inspirar ao notar trajetórias similares de ambos os campos de pesquisa em vários aspectos.

Em abril de 2005, foi publicada na revista Veja uma matéria cujo título era “Capitais da Solidão: pesquisa mostra quais são as cidades brasileiras com maior número de mulheres sozinhas”. Após a leitura dessa matéria, alguns meses depois, Pacheco fica impressionada com

um programa visto posteriormente em agosto do mesmo ano, na TV Globo, confirmando os dados anteriores lidos na revista e ainda ressaltando os vários tipos de solidão. O que a surpreende é o fato de que em ambas aparecem imagens de uma mulher negra sozinha, mesmo que em nenhum momento se mencionasse a “raça” como elemento relevante nas chances de esta encontrar ou não um parceiro. Com base nestes fatores, a pesquisadora se interessa pela temática, já que apesar de Salvador ser uma das cidades que concentra o maior número de mulheres sozinhas, sem parceiros, não existia até então algum estudo sócio antropológico que levasse em consideração tais dados, muito menos tocando na esfera racial. A autora considera imprescindível falar as especificidades históricas da população negra-mestiça e aqui, especialmente das mulheres. Com isso, aborda temas como mestiçagem, estereótipos, discriminações, preconceitos, imaginário social, movimentos sociais de mulheres, sexualidades, preferências sexuais, entre outros tantos.

No seu campo, percebe que para as mulheres negras ativistas, a afetividade representa um projeto maior que englobaria união estável, constituição de família, convivência, filhos, casamento formal ou não, durabilidade na relação, “sexo” e sexualidade (considerando a amplitude do conceito) e mesmo com tantos mecanismos citados, ainda assim, não explicariam, por si só, o leque de preferências afetivas possíveis (PACHECO, 2013, p. 267):

A preferência afetiva está regulada pelos distintivos raciais; a cor da pele, as características fenotípicas e estéticas (corporais) perfazem um conjunto de fatores que regulam as escolhas. A concepção de raça está atrelada a atributos físicos e estéticos que representam, na concepção da informante, a visão predominante acerca do conceito de raça na sociedade brasileira. Raça e cor formam uma grade classificatória, em que a preferência move-se de acordo com esse continum – cor branca (mulher branca), cor clara (mulher negra de pele clara), cor preta (mulher negra preta), associando-se aí o recorte de gênero: mulher negra x mulher branca ou socialmente branca x homem negro (PACHECO, 2013, p. 270).

Para Rosa, uma das interlocutoras que dialogam com Pacheco, a afetividade tem uma definição:

É diferente a afetividade de um amigo, de um filho, da afetividade de um cara ou de uma mulher que você está se relacionando, é diferente, é diferente, são afetividades diferentes, a que eu busco e o que a maioria, ao meu ver, busca, é um preenchimento, é uma forma diferente de amor que eu sempre busquei em alguém (PACHECO, 2013, p. 272).

A mesma mulher entrevistada considera que a falta desse tipo de afetividade, que aqui chamarei de sexual-afetiva, causa um sentimento de solidão e vazio que não conseguem ser substituídos por nenhuma outra relação social e afetiva, como amizade, filhos, família.

Considero importante trazer tal opinião por poder fazer um contraponto com o que tenho encontrado em campo quando introduzimos a variável da idade como um marcador significativo na experiência das mulheres. Ao dialogar com as mulheres negras “mais velhas” em Natal/RN, percebo justamente a noção de afetividade encarada de modo mais amplo, com ênfase nas redes afetivas que se constroem ao redor delas, em que não só cônjuges são importantes, mas também filhos, amantes, paqueras, vizinhos, amigos, objetos, a relação com seus corpos, a relação com o meio em sua volta, entre outros aspectos possíveis.

Assim como Pacheco (2013), considero importante enfatizar que as lógicas do contexto social que definem e orientam os processos de afetividade, emoções, identidades raciais, dominações, partem do campo das escolhas e essas seguem motivos que conservam as marcas da matriz colonial, além do racismo e sexismo que são ideologias e práticas socioculturais atuantes nas escolhas afetivas. Desse modo, as preferências afetivas das pessoas se materializam nos corpos racializados e sexualizados e, segundo ela, colaboram para a solidão de alguns segmentos de mulheres negras na cidade de Salvador/BA.

Ao articular conceitos, sujeitos e análises, não nega seu pertencimento e conhecimentos atuando durante a pesquisa, como mulher negra, pesquisadora e ativista. Todavia, o foco principal é demonstrar como as escolhas afetivas são permeadas pela solidão, enquanto são alicerçadas por desigualdades, pelo racismo e sexismo. Consideração similar encontro no discurso da ativista Clementina, que de modo conciso discorre como o tema da afetividade incide na esfera estética, ao abordar o viés emocional da insegurança e autoestima:

A afetividade não é só importante para nós, mulheres, a afetividade é importante independente de orientação, gênero, raça. Agora, o racismo, na minha concepção, traz impedimentos para que a gente ame com mais plenitude. Eu acho que essa dificuldade em ser negra acaba dando alguma defesa negativa nessa maneira de amar. Nos traz uma insegurança sempre, na nossa autoestima independente de quem seja os nossos pares. Se eu não me acho bonita e a partir disso não adianta querer negar o corpo, não adianta querer mudar a aparência, né. Se eu não me acho bonita, eu vou em busca do parceiro ou da parceira com uma expectativa. Se eu me acho bonita a expectativa é outra. Se além de eu me achar bonita eu for inteligente e tiver um acúmulo acadêmico, eu já tenho uma outra expectativa em relação a encontrar parceiros, que pode ser fácil ou difícil (Clementina em entrevista – grifos meus).

Afinal, como bem fala Beatriz Nascimento, a negação da autoestima é um ato de extrema violência. Com essa breve passagem é possível apontar como as temáticas confluem,

sendo ainda perpassadas pelo racismo, como veremos no decorrer deste trabalho. Pensar afetividade numa sociedade marcada pelo racismo é ter em mente que tais implicações irão atingir as identidades negras continuamente, já que são produzidas e reproduzidas pela dinâmica social e desse modo, temos uma chance de analisar essa dinâmica a partir de uma perspectiva raramente tocada – os afetos.

Do grupo escolhido por Ana Claúdia Pacheco (2013), entre as não-ativistas encontro muitas similaridades com relação as mulheres que acompanho. Em ambos os grupos a escolaridade dessas não ultrapassa os níveis básicos de ensino, os vínculos empregatícios por vezes mal remunerados e/ou nos ofícios do mercado informal. Além disso, considera estruturantes os conceitos de raça, gênero, classe e geração; todos registrados e interpretados a partir das trajetórias contadas por meio das falas, gestos, sonhos e emoções.

Consigo confirmar com a leitura da obra “Mulher Negra: afetividade e solidão” (PACHECO, 2013), que os fatores como raça, gênero, classe e geração estarão continuamente atuando de modo cruzado nas narrativas. A simultaneidade desses tem implicações não só nas maneiras com que essas mulheres identificam o afeto recebido, mas como o demonstram também. O corpo recebe todos de maneira ininterrupta e ainda consegue interseccionar com outras categorias, como preconceito, gordofobia, feminilidade, autoestima entre outros.

Inicialmente, como mostrado na introdução desta dissertação, minha pretensão era pesquisar de modo mais enfático o sentimento da solidão, assim como o fez Pacheco. Assumo que pessoalmente carreguei durante muito tempo uma impressão de caráter negativo frente a esta emoção, como se fosse algo a ser temido e nunca desejado. Contudo, no decorrer da pesquisa me deparei com outras significações para tal. Percepção similar é levantada pela autora, mas foi tocado em somente um parágrafo ao final de seu livro. A autora mostra que a solidão foi vista também de maneira positiva, reconceitualizando no campo não só o sentimento, como os projetos de vida, confirmando sua diversidade. Nos diálogos com as interlocutoras percebo uma modificação não somente com respeito à solidão, mas também à afetividade e como essa pode ser bem mais plural do que direcionada ao parceiro/parceira afetivo-sexual.

Pacheco (2013) mostra ainda como tais representações sociais sobre as mulheres negras ordenam as vidas e a afetividade desses sujeitos. Além dos estereótipos, acredita que há uma representação social baseada na raça e no gênero, que regula as escolhas afetivas das mulheres negras. Essas estariam fora do mercado afetivo e naturalizadas no mercado do sexo, erotização,

trabalho doméstico, feminilizado e escravizado; enquanto as brancas seriam “à cultura do afetivo”, casamento e união estável.

Falar de afetividade, de escolhas, de solidão é colocar em xeque (desmontar) os sistemas de preferências que prescindem a ideia de brasilidade, posto que as mulheres negras aparecem como corpos sexuados e racializados, não afetivos, na construção da nação (PACHECO, 2013, p. 28).

Trazendo para meu campo, as interlocutoras não relatam preterimento na fase mais jovem de suas vidas, mas o oposto. Todas afirmam um passado de muito desejo dos homens para com elas, e por serem muito bonitas e desejadas teriam casado cedo, em sua maioria (existem outros motivos que serão melhor tratados no próximo capítulo). Contudo, esses casamentos não vieram sem traições, violências, abandonos e/ou ciúmes.

Afinal, tomando como base os trabalhos mostrados anteriormente que colocam a mulher negra em desvantagens nos mercados conjugais, eu poderia tentar mostrar com mais detalhes os motivos possíveis que as colocam nesta posição. Contudo, nesta pesquisa, como dito anteriormente, a esfera da conjugalidade não esgota as possibilidades de entendimento da afetividade, apesar de perpassar várias questões pertinentes ao tema, como vimos até agora. Aqui, percebo a afetividade sendo entendida de uma forma mais ampla e é por isso que outras preocupações movimentam a pesquisa. Logo, será interessante buscar entender como essas mulheres constroem afetos e desafetos, como incluem e excluem pessoas das suas vidas, como elaboram o abandono ou a presença do parceiro, como lidam com a falta de amor e de paixão, como estabelecem relações definidoras de sua subjetividade com a vizinhança, a casa, plantas, bichos, coisas, costumes cotidianos, etc.

Apesar do que Moutinho (2003) levanta, a mulata talvez não seja “a tal”, e de fato não é, como poderemos ver a seguir. Para isso, preciso fazer uma recuperação do papel da mulher negra e “mulata” na construção da nação, para mostrar como os papéis delimitados às mulheres negras e como as relações raciais influenciaram nos casamentos, uniões, e infelizmente até mesmo na exploração sexual dessas mulheres.

1.5 Com quantos corpos negros se constrói uma nação? – Corpo, raça, miscigenação