Em relação às várias organizações sociais e econômicas, o surgimento do associativismo e do cooperativismo contou com o apoio da igreja católica, através do então Pe. Renato de Menezes, que em 1940 fundou a Cooperativa de Crédito de Apodi, com 89 associados. Porém, as debilidades administrativas e da diretoria, interesses contrários ao movimento, entre outros, condicionaram o seu fracasso, após alguns anos de funcionamento.
Na década de 60, a Missão Rural, projeto da arquidiocese de Mossoró, que já desenvolvia um trabalho comunitário na região, incentivou a criação da Associação Rural de Apodi, na localidade de Água Fria que, assim como a primeira iniciativa, teve suas atividades encerradas por falta de financiamento e problemas na revenda dos produtos aos cooperados.
Em 1966, sob a influência do então líder paroquial Padre Pedro Neefa, foi criada a FUNDEVAP, tendo como um dos objetivos a restauração do cooperativismo no município, para tanto, promovendo cursos, palestras e seminários sobre cooperativismo. Por outro lado, o Pastor Diomédio Alves que já desenvolvia um trabalho junto às comunidades, com o apoio da Confederação Evangélica do Brasil, fundou a Associação dos Pequenos Produtores do Vale do Apodi. Apesar dos esforços de se unir as duas associações, em 1967 duas cooperativas são formadas. Uma liderada pelo Pastor Diomédio, Cooperativa dos Cerealistas de Apodi Ltda; e a outra liderada pelo Padre Pedro, a Cooperativa dos Trabalhadores Rurais de Apodi (antiga Associação Rural de Apodi), ambas atuando com o sistema de crédito, comercialização e revenda para os cooperados.
Enquanto a Cooperativa dos Cerealistas crescia com o apoio financeiro de instituições religiosas, a Cooperativa dos Trabalhadores Rurais estagnava, levando alguns dos seus sócios a incorporarem-se à primeira, com o nome de Cooperativa Regional Mista de Apodi (COOPERMIL). Em decorrência das estiagens e da queda da safra do algodão causada pelo “bicudo”, a indústria de beneficiamento do algodão foi paralisada.
Em 1984, a COOPERMIL diversifica suas atividades abrindo um mercadinho, além de intermediar, junto ao BNB, o financiamento para custeio do cajueiro, do algodão e do arroz irrigado; revenda de sementes e inseticidas; aquisição de matrizes leiteiras; instalação de um posto de resfriamento etc (GUERRA, 1980). Análogas às características das cooperativas tradicionais, descrita em capítulo anterior, a COOPERMIL fecha suas portas deixando para trás dezenas de agricultores endividados e decepcionados com o cooperativismo. Até 2006 a COOPERMIL ainda funcionava, estando atualmente com sua estrutura física arrendada a terceiro72.
A partir do final da década de 80 e início de 90, enquanto as cooperativas se definhavam juntamente com a cultura algodoeira, o pároco de Apodi, o holandês Pe. Theodoro73, vindo do Ceará, continuou o trabalho anterior do Pe. Pedro Neefa, apoiando algumas localidades rurais a se organizarem em grupos de jovens e associações a fim de melhorar sua condição de vida. Com investimentos financeiros vindos de amigos da Holanda, ajuda a fundar três associações. Em 1991, cria-se a Associação dos Mini-produtores do Córrego e dos Sítios Reunidos onde, em 1992, é instalada uma usina para produzir cajuína e doce de caju, a qual deveria ser conduzida por um grupo de mulheres que, para tanto, visitaram a cidade de Pacajus (CE) no intuito de aprender o processo de fabricação. Porém, segundo o Pe. Theodoro, por falta
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Nas entrevistas realizadas com alguns dos sócios fundadores da COOPAPI, foi colocado como dificuldade de constituí-la o fato da COOPERMIL ter tido uma gestão centralizada e de não repassar aos sócios os valores referentes ao volume de produto entregue à cooperativa, o que gerou um descrédito entre os agricultores.
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O trabalho do pároco também esteve vinculado a uma congregação religiosa holandesa, da qual faz parte e que tem compromisso de desenvolver, no mínimo, um projeto social por ano, no Brasil. Além do apoio financeiro dessa congregação holandesa, recebeu também recursos de amigos os quais foram destinados para a instalação de três mini-fábricas de roupas na localidade de Lagoa Rasa (que não teve continuidade), para o projeto de vaca leiteira e de criação de caprinos. Na época da entrevista, existiam 56 grupos de jovens apoiados pela igreja católica, com uma coordenação geral da qual ele acompanhava mais diretamente; e 70 grupos de mulheres (informações obtidas na entrevista concedida pelo Pe. Theodoro em 27 de outubro de 2009).
de mercado local (as pessoas preferiam bebidas gaseificadas); ausência de uma marca, que pudesse competir com as já existentes; e de maior engajamento da comunidade, para superar essas questões, a usina não teve sucesso. Atualmente a instalação predial é usada para o beneficiamento da castanha e alguns dos equipamentos foram adaptados, por um sócio da cooperativa, para o beneficiamento da polpa de fruta.
Em 1994, é fundada a Associação dos Sítios Reunidos da Barra, a partir da aquisição de um trator e da doação de um terreno, onde foram construídos poços artesanais para irrigação. O terreno medindo 80 hectares foi dividido em lotes74 individuais entre às 81 famílias, sendo parte da produção destinada ao autoconsumo e outra para a criação de um fundo financeiro coletivo com o objetivo de manter e ampliar as atividades.
Em 1998, é fundada a Associação dos Produtores de Melancias, abrangendo 26 famílias que investiram os recursos (vindos da Holanda) na compra de materiais e equipamentos que eram utilizados individualmente, por cada uma das famílias, em sistema de rodízio. Paralelamente foram constituídos grupos de jovens, com uma atuação mais social, política e religiosa (exemplo disto, tem sido as noites de celebrações e pregações nas comunidades do Córrego, Soledade etc), sob o comando de jovens, entre eles, o Grupo de Jovem São Pedro (GRUJOSP). Houve também a formação de grupos de mulheres, direcionados principalmente para incrementar a renda familiar através de atividades artesanais, cultivo de hortaliças e criação de galinhas. Ainda houve o apoio para a campanha da construção de cisternas, incentivando o trabalho em mutirão.
Assim, as formas associativas foram sendo estimuladas pela ação do Pe. Theodoro, que priorizou a constituição de grupos de jovens, considerando que, em relação ao público masculino adulto, eles seriam mais fáceis de assimilar “coisas novas” e de reeducar-se, como ressaltou o mesmo (informação obtida em entrevista)75.
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O uso dos lotes era rotativo, de forma a garantir que cada uma das famílias pudesse se beneficiar das facilidades dos terrenos localizados próximo ao rio. O mesmo sistema de rodízio era adotado para o uso do trator: as famílias eram sorteadas para se estabelecer a ordem do sua utilização para cortar a terra (entrevista com Pe. Theodoro em outubro de 2009).
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Pe. Theodoro atribuiu maior dificuldade encontrada na época, à existência de uma predisposição entre os homens para não realizarem o trabalho de limpeza dos terrenos, o que ele considerou como cultura
Por um lado, ao número variado de localidades soma-se também o número de festas religiosas76 que, embora dentro de um calendário litúrgico, certamente tem contribuído para criação de espaços de solidariedade. Por outro, a característica fundiária em Apodi, estruturada principalmente em pequenas propriedades de área reduzida favorece a constituição de grupos de vizinhança em torno de algumas importantes atividades para a região, como a apicultura e a cajucultura. Ou dito de outra forma, a organização informal em pequenos grupos produtivos e a perspectiva de uma atividade em comum (a extração do mel e a coleta do caju) favorece a expansão ou recomposição dos laços de solidariedade e reciprocidade em uma organização mais complexa como a cooperativa77. E como afirma Cândido (1975) em termos gerais, as casas próximas umas das outras facilita o contato face a face na convivência diária; esta convivência é decorrente dessa proximidade física, mas também da necessidade de cooperação através da ajuda mútua, de atividades lúdicas, religiosas, associativas e econômicas.
Além dessas questões endógenas essas associações adquirem outro caráter, também pelas relações externas que criam e que delas, igualmente, dependem a sua sobrevivência. Outros vínculos e apoio foram estabelecidos com o movimento sindical, na criação das associações e na luta pelo direito à água, terra etc; na participação em fóruns e conselhos, ampliando o campo de ação política e interferindo nos direcionamentos dos recursos públicos. Acontecem, igualmente, relações com instituições governamentais das quais dependem para levar a cabo os seus objetivos econômicos, ou seja, parte do seu êxito.
machista, de não gostarem de trabalhar juntos e de dependerem de alguém para fazer as coisas por eles (entrevista realizada no dia 08 de outubro de 2009, na casa Paroquial em Apodi).
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Segundo o mesmo Pe. Theodoro, na sua agenda as missas nas localidades rurais eram as mais requisitadas devido à diversidade de padroeiros existentes. Toda localidade tem um padroeiro (a) diferente, chegando a realizar uma média de três missas por mês. A prática tradicional de doações de produtos (bebidas, galinhas etc) para serem leiloados na festa passa, também, a se constituir numa forma de cooperação e de solidariedade entre os seus moradores quando alguns arrematam o produto por um preço bem acima do valor real. Todo dinheiro arrecadado nas festas era revertido para a paróquia sob “o olhar de Deus” que, igualmente protegeria a todos. Além disto, nas celebrações havia sorteios de brindes, galinha assada e muita dança.
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Principalmente nas entrevistas com os agricultores do Sítio Córrego, Retiro e Lagoa Amarela, observamos que a produção do mel constituiu-se em um fator de união entre eles, bastando ressaltar a criação da ASSAAP e depois a COOPAPI.
Neste sentido, o Estado, juntamente com o apoio financeiro de instituições como o Banco Mundial, direcionou alguns projetos produtivos, de infra-estrutura e sociais para a área rural na perspectiva de redução da pobreza, principalmente o PCPR78 e, para tanto, induziu a formação de associações. Para se ter uma idéia, entre 1985 a 1995, das cinqüenta e nove (59) organizações de clubes recreativos e culturais, fundações, entidades filantrópicas79, associações de produtores, sindicatos etc, existentes no município de Apodi, quinze (15) foram constituídas por populações da área rural (agricultores, mulheres, pescadores etc). Já no início de 2000, essas associações contabilizavam mais da metade (59) do total das 107 associações existentes no município, deixando clara a predominância do meio rural (Tabela 3).
Tabela 3 - Número de organizações associativas por período
Instituições Centro Clube Fundação Associação Cooperativa Outro Total
1985-1995 20 5 7 15 2 10 59
1996-2006 20 2 7 59 4 15 107
Fonte: GUERRA, 1980; PACHECO e BAUMANN, 2006.
O mais recente cadastramento feito pela Prefeitura de Apodi, através da Secretaria de Agricultura, em janeiro de 2009, atualizou o número das associações rurais para 71 congregando 2113 pessoas, sendo 6 localizadas na Região de Areia, com um total de 167 associados; 33 na Região da Chapada, congregando 845 sócios; 9 associações na Região de Pedra, com 301 sócios; e 23 na Região do Vale com 900 associados, como ilustrado na Tabela 4, a seguir.
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Para além dos recursos financeiros, a concepção do PCPR diz-se fundada nos princípios da descentralização e participação social, sendo operacionalizado, segundo o Programa, a partir da demanda das comunidades rurais. Assim, os projetos destinados às comunidades deveriam ser planejados, executados, fiscalizados e controlados por elas (GOVERNO...2005), o que, teoricamente favoreceria o engajamento e a participação da população.
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Essas organizações, porém, muitas vezes estavam ligadas a famílias que exerciam o poder político, caracterizando-se pelo tradicionalismo e o conservadorismo.
Tabela 4 - Número de associações rurais e de sócios por região – 2009
Regiões Areia Chapada Vale Pedra
Número de associações 6 33 23 9
Número de sócios 167 845 900 301
Fonte: Secretaria Municipal de Agricultura de Apodi
No campo da economia solidária e popular foram cadastrados 28 empreendimentos sendo um de produtos e serviços diversos, dois de prestação de serviços e 25 de produtos (agropecuário, extrativismo e pesca; alimentos e bebidas; artesanatos; fitoterápicos e produtos de limpeza e higiene; produção têxtil), organizados em 11 associações, uma cooperativa, e 14 grupos (mulheres e jovens) e mais dois não identificados (DIEESE, 2008).
Na Região de Areia, apesar de um número menor de associações, há certamente uma tradição de luta e organização social, concretizada através do associativismo. No Sítio do Córrego, por exemplo, o grau de participação da população organizada em associações, grupos produtivos e na COOPAPI, por um lado tem influenciado para que algumas políticas públicas (principalmente aquelas que se dizem de combate à pobreza no meio rural) lhes sejam direcionadas e, a partir disto, ampliarem as condições básicas para a sustentabilidade econômica e continuidade dos projetos produtivos. Por outro lado, também são influenciados por estas políticas quando se adequam às demandas do mercado institucional. Isto é observado, quando os agricultores (as) passam a produzir dentro dos padrões requeridos pela Conab e aumentam as possibilidades de acessar os programas governamentais de transferências de recursos físicos e financeiros. Estes recursos, reembolsáveis ou não, são destinados para custeio ou para implantação, ampliação e modernização da infra-estrutura produtiva (fábrica de beneficiamento da castanha) e de criação de outras atividades através do PCPR80 etc.E é justamente esta
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Os Acordos de Empréstimo contratos pelo governo do RN e o Banco Mundial, através do PCPR I e PCPR II, respectivamente, atendeu 9 associações rurais entre de junho de 1997 a junho de 2002 e 18 entre setembro de 2002 a dezembro de 2002, no município de Apodi, ou seja, um aumento de 100% (dados fornecidos por Sebastião Menezes, assessor do IDS/CTA). Ainda no Território Sertão do Apodi, o
troca de sinergia que cria as condições propícias para o surgimento dessas associações que contam, também, com o apoio de cooperativas como a COOAFAP e a COOPAPI.