Formado um pouco antes de Eduardo Souto de Moura, João Carrilho da Graça foi graduado pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa (ESBAL), em 1977, ano de início da atividade profissional. Lecionou na Faculdade de Arquitetura da Universidade Técnica de Lisboa, entre os anos 1977 a 1992, foi professor da Universidade Autónoma de Lisboa, de 2001 a 2010, e na Universidade de Évora, desde 2005. Além disso, trabalhou como professor visitante na Escola Técnica Superior de Arquitetura da Universidade de Navarra, nos anos de 2005, 2007 e 2010. Dentre os prêmios que recebeu pela sua obra, destacamos o Piranesi Prix de Rome, em 2010, pela conversão da praça arqueológica do Castelo de São Jorge, localizado em Lisboa, a indicação para o prêmio Mies Van der Rohe, nos anos de 1990, 1992, 1994, 2009, 2010, 2011 e 2019, e a participação na Bienal de Paris, no ano de 1985 (JOÃO CARRILHO DA GRAÇA ARQUITECTOS, 2018; LUSA; PÚBLICO, 2019).
Em Lisboa, o contexto da década de 1980 foi marcado pela crescente afirmação pós-modernista, com publicações que introduziam o termo pós- modernismo ao contexto português, como a edição, de abril de 1982, do recém- criado Jornal Arquitectos, com apresentação dos arquitetos e teóricos Charles Jencks, Bofill, Robert Venturi, Rob Krier e Maurice Culot. A edição da revista Arquitectura, de março de 1983, intitulada “Novíssimos”, anunciou a renúncia da abordagem política e social pela arquitetura, uma recusa ao Moderno. Em janeiro do mesmo ano, ocorreu a exposição Depois do Modernismo, com presença de participantes e objetivos em comum com a publicação dos “Novíssimos”, abordando diversas áreas e produzindo considerável impacto cultural. Porém, os profissionais do Porto se recusaram a participar do evento; em oposição, foi elaborado um texto crítico à intenção de “neo-vanguarda” do pós-moderno, em
87 reafirmação da arquitetura moderna, assinado por Adalberto Dias, Alcino Soutinho, Alexandre Alves Costa, Álvaro Siza Vieira, Domingos Tavares, Eduardo Souto de Moura, Sergio Fernandez, e Luís Serpa (FERNANDES, 2010, p. 271 a 273).
Apesar de formado pela ESBAL, Fernandes (2010, p. 277) coloca que João Carrilho da Graça se distancia da linguagem pós-moderna e dos “métodos de colagem e sedução pela imagem”, ao voltar-se ao movimento Moderno, em suas novas manifestações. Assim como os arquitetos da época, produziu uma obra moderna, sem o conteúdo ideológico, político e do progresso, mais voltado à performance da edificação. Diogo Seixas Lopes (2015, p. 86 a 91)4 realiza uma análise sobre a abordagem da obra do arquiteto, ressaltando o ambiente de fatores diversos aos de Lisboa, em oposição à austeridade do Porto das décadas de 1970 e 1980. O autor aponta a possibilidade de identificar algumas características determinantes no trabalho de Carrilho da Graça a partir da interpretação de alguns textos produzidos por ele, curtos e pragmáticos, na década de 1980.
Neste trabalho, destacaremos o texto “Diz-lhes que estás a afogar um crocodilo” (1985), referência a um diálogo do filme “Stranger Than Paradise” (1984). Rodado em preto e branco, contribuiu para a definição de “um imaginário às avessas com as cores flamejantes que se associavam ao pós-moderno”, escolhendo, no lugar, uma alternativa mais rígida e sóbria (LOPES, 2015, p. 86 e 87). Assim como Souto de Moura, é possível observar que, formalmente, o arquiteto adota formas puras na concepção inicial do projeto, porém, por vezes, “descola” a edificação do chão ou da base principal. Ao mesmo tempo em que quebra o seu caráter monolítico - através de passagens permeáveis - adequa- se à topografia local. Como exemplo, Lopes (2015, p.88) menciona os projetos da Piscina Municipal de Campo Maior (1982-1990) e da Escola Superior de Comunicação Social de Lisboa (1987-1993), em que, apesar de estarem situadas em contextos diferentes, possuem a acomodação no terreno como fator primordial na concepção.
4 Texto “A Preto-e-Branco”, contido no livro “Carrilho da Graça: Lisboa” de 2015, lançado junto
a uma exposição, de mesmo nome, apresentada na Garagem Sul - Exposições de Arquitectura do Centro Cultural de Belém, no período de 22 de setembro de 2015 a 14 de fevereiro de 2016.
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Imagem 73 e 74: Piscina Municipal de Campo Maior – Vista externa e interna
Fonte: hiddenarchitecture.net, 2015.
Imagem 75 e 76: Piscina Municipal de Campo Maior – Vista externa e interna
Fonte: hiddenarchitecture.net, 2015
Imagem 77: Escola Superior de Comunicação Social – Vista externa
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Imagem 78 e 79: Escola Superior de Comunicação Social – Vista externa
Fonte: arcoweb.com, 2017.
Ainda segundo Lopes (2015, p. 88 e 89), Carrilho da Graça manteve o legado do moderno nas reflexões críticas, como uma continuação da racionalidade, de maneira que seus projetos agregariam “outras figuras” ao longo do tempo, especificamente a tecnologia. Obras, como “O Pavilhão do Conhecimento dos Mares” (1995-1998), no contexto da Expo 98, o Centro de Documentação do Palácio de Belém (1997-2002), em Lisboa, e o Teatro e Auditório em Poiters (2008), na França, são exemplos de como preocupações específicas, como acústica e termodinâmica, se sobrepõem às “extravagâncias infundadas” das edificações pós-modernas. Endossam o discurso de austeridade e preservam a abordagem do arquiteto “definida por longos planos brancos irmanados a nítidas superfícies de sombra ou tinta”, “sem cair nas armadilhas dos encantos high-tech, nem na secura de uma pura abordagem funcionalista”. Além destas obras, podemos destacar a Ponte para pedestres (2007 – 2009), em Covilhã, a intervenção de Musealização da área arqueológica da Praça Nova do Castelo de São Jorge (2008 – 2010) e o Terminal de Cruzeiros de Lisboa (2010 – 2018).
Imagem 80: Ponte para pedestres – Vista aérea
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Imagem 81 e 82: Ponte para pedestres
Fonte: Fernando Guerra, 2010. Fonte: Marília Veleda, 2019.
Imagem 83: Ponte para pedestres – Vista aérea
Fonte: Fernando Guerra, 2010.
Imagem 84: Musealização Praça Nova (Castelo S.Jorge) – Vista externa
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Imagem 85: Musealização Praça Nova (Castelo S.Jorge) – Vista externa 2
Fonte: Fernando Guerra, 2010.
Imagem 86: Musealização Praça Nova (Castelo S.Jorge) – Vista externa 3
Fonte: Fernando Guerra, 2010.
Imagem 87: Musealização Praça Nova (Castelo S.Jorge) – Vista interna
Fonte: Fernando Guerra, 2010.
O Pavilhão do Conhecimento dos Mares foi construído no contexto da Expo 98, realizada no bairro do Parque das Nações, em Lisboa. Posteriormente convertida em Pavilhão do Conhecimento - Centro da Ciência Viva, a edificação recebeu o prêmio Valmor de 1998 e o Prêmio Júri FAD de Barcelona, em 1999 (PAVILHÃO DO CONHECIMENTO, 2019). Assim como o Pavilhão de Portugal,
92 de Siza Vieira, o entorno da obra é constituído de espaços de circulação para pedestres e outros equipamentos de destaque na cidade, como: o Oceanário de Lisboa, elaborado pelo americano Peter Chermayeff; o Teatro Camões, de Manuel Salgado; a Estação de metrô Oriente, de Santiago Calatrava; entre outros.
A obra apresenta composição simples em dois volumes: um vertical e outro horizontal; este segundo não toca o solo e circunda um pátio interno. A permeabilidade do edifício gerada pela “suspensão” do volume horizontal permite uma maior integração com o seu entorno, delimitado apenas pela diferença de piso. Desta maneira, o pátio aberto possui uma escultura de arte que pode ser visualizada, e até apreciada, a partir dos limites externos da edificação. Assim como as demais obras apresentadas, a materialidade empregada pelo arquiteto é sóbria, próxima ao branco, e não rivaliza visualmente com os demais elementos situados nas adjacências.
Ainda no contexto da Expo 98, Carrilho da Graça elaborou um dos mobiliários que estão presentes em toda área da exposição, os bancos e jardineiras. Confeccionados em concreto branco, e possuem forma simples e são pintados com listras de diferentes cores, em referência às bandeiras de navegação marítima (PARQUE DAS NAÇÕES, 2019).
Imagem 88 e 89: Pavilhão do conhecimento – Vista externa
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Imagem 90 e 91: Mobiliário urbano
Fonte: Acervo do autor, 2018.
Por fim, destacamos o Terminal de Cruzeiros de Lisboa (2010 – 2018), obra finalista do prêmio Mies van der Rohe, em 2019. Construído à margem do rio Tejo, no bairro da Alfama (parte do centro histórico de Lisboa), o equipamento está situado próximo à Estação de Santa Apolônia, importante ponto de partida e chegada de trens na cidade. O volume da edificação é constituído por duas partes distintas que se sobrepõem: uma grande moldura multifacetada, de pequena espessura, que funciona como cobertura e possui coloração próxima ao bege; e um segundo volume, totalmente preto e envolvido pela moldura, que abriga o programa interno do Terminal. Esta composição estabelece um contraste entre estas duas partes, visualmente separadas, e permite uma liberdade de “movimento” da edificação.
Dentre os seus detalhes, citamos: uma das faces laterais, a moldura de concreto quase toca o chão; e uma rampa interna que dá acesso ao telhado, criando um mirante para os turistas observarem o bairro da Alfama, situado no nível mais alto. Segundo o arquiteto, em entrevista, por meio da experiência em utilizar uma composição de concreto armado com cortiça, tentou-se dar aspecto de leveza à edificação. Ainda frisa a opção de produzir uma obra com duas fachadas “cegas”, onde, segundo ele, o mais óbvio seria utilizar grandes panos de vidros nas fachadas. Porém, a intenção foi estabelecer uma relação com o bairro e com edificações existentes, predominantemente históricas, de maneira que tentou introduzir um parque urbano no projeto, a fim de consolidar um percurso a pé entre diferentes regiões do bairro, a Estação Santa Apolônia e o Baixa – Chiado (SALEMA, 2017).
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Imagem 92 e 93: Terminal de cruzeiros – Vista externa
Fonte: Acervo do autor, 2018.
Imagem 94 e 95: Terminal de cruzeiros – Vista lateral e posterior
Fonte: Acervo do autor, 2018.
As características de sobriedade da linguagem próxima ao moderno das construções apresentadas, bem como a relação que elas estabelecem com o entorno - na acomodação do terreno e na compreensão da natureza do patrimônio histórico -, fornecem às obras de Carrilho da Graça a versatilidade para intervenções em diferentes contextos urbanos. Adaptação essa, alinhada com as discussões colocadas no capítulo anterior no âmbito da ESBAP, e que também podem ser encontradas na obra do escritório ARX Portugal, em uma linguagem mais diversificada.
O ateliê ARX Portugal, composto pelos irmãos arquitetos José e Nuno Mateus, formado em 1991, possui um trabalho de destaque em Portugal. Suas obras possuem uma variedade de linguagens, qualidade da síntese dos programas, e apresentam soluções simples, porém, com volumes não convencionais. Segundo a descrição em seu site, para elaboração do projeto, o escritório estabelece um processo de investigação e experimentação, sem partir de pressupostos fixos. Ao descrever o objetivo desse trabalho de pesquisa, cita
95 o filósofo brasileiro Antônio Cícero: “o que interessa, não é tanto escrever algo novo. É escrever algo que a leitura não envelheça”. E reflete sobre a certeza de que, ao longo do tempo, após as revoluções, o desinteresse pela história e a globalização, haverá um “retorno à cultura local, específica à arquitetura feita de pequenos, mas sólidos, impulsos a partir das coisas que nos chegam” (ARX PORTUGAL ARQUITECTOS, LDA, 2018a). Dentre os prêmios recebidos, destacamos: duas indicações ao Mies van der Rohe, nos anos de 2003 e 2014; prêmio AICA Arquitetura – Associação Internacional dos Críticos de Artes, no ano de 2002; o prêmio Internacional de Arquitetura Chicago Athenaeum, nos anos de 2006 e 2008; e nomeação no XXI Encontro Internacional UIA (Berlim), em 2002.
Do grupo de arquitetos apresentados neste tópico, Nuno Mateus é o profissional com mais experiências junto a arquitetos internacionalmente reconhecidos. Licenciado em arquitetura pela Faculdade de Arquitetura da Universidade Técnica de Lisboa (FAUTL), em 1984, trabalhou com o arquiteto Peter Eisenman, em Nova Iorque (1987-1991), e com Daniel Libeskind, em Berlim (1991). Além disso, finalizou o curso de mestrado “Master of Science in Architecture and Building Design”, na Universidade de Columbia, em Nova York, em 1987 (ARX PORTUGAL ARQUITECTOS, LDA, 2018a), onde teve aula com arquitetos pertencentes aos “Star System internacional”, como Eric Owen Moss, Thom Mayne, e Zaha Hadid (NUNO MATEUS, apud Jordão e Mendes, 2004). Em 2013, finalizou o curso de doutorado pela Faculdade de Arquitetura de Lisboa (FAUL); atualmente, é professor desta instituição e da Universidade Autônoma de Lisboa (UAL).
José Mateus finalizou a graduação em arquitetura, em 1986, também pela FAUTL, e trabalhou com Daniel Libeskind (Berlim), no ano de 1991, juntamente com o irmão. Academicamente, lecionou no Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE) e na Universidade Internacional da Catalunha. Dentre outras atividades, é autor da revista semestral Linha (Arquitectura, Design e Paisagem), do semanário Expresso; é membro do conselho da editora Babel; e membro da Bolsa de Peritos do Conselho Consultivo para a Arte em Espaço Público de Lisboa (ARX, 2018). Segundo Baptista e Ventosa (2006), a experiência profissional com dois grandes expoentes do Desconstrutivismo, influenciou os irmãos contrariamente ao esperado, de maneira que estabelecem uma
96 afirmação cada vez mais pragmática e próxima da realidade [local] nas soluções arquitetônicas.
Nesta entrevista, Nuno Mateus comenta sobre a inevitabilidade do trabalho refletir aquilo que é aprendido ao longo do tempo, onde a produção profissional é o somatório dos aprendizados, e afirma que estas influências eram mais evidentes no início de sua carreira. José Mateus complementa a afirmação com o exemplo da contribuição da Universidade de Columbia, e de Peter Eisenman, de quem absorveu ensinamentos, como o sentido conceitual da arquitetura como um texto, decomposto por meio de códigos, vocabulários, alfabetos; e o uso exaustivo de maquetes físicas no processo de projeto, abordagens citadas com frequência nas entrevistas dos arquitetos. O arquiteto ainda comenta sobre o cruzamento das influências internacionais com as abordagens em Portugal, com lógicas ligadas às tradições, materiais e limitações financeiras, sugerindo que a fusão de realidades é refletida no processo de projeto das obras.
Sobre a obra do escritório, Figueira (2004) faz uma analogia sobre os movimentos de um jogo de xadrez, em que cada movimento das peças representa uma solução pragmática provisória no tabuleiro. E o arquiteto precisa compreender todas as peças para escolher a melhor solução provisória em cada situação. Com base nesta ideia, o autor associa o trabalho do ARX a um pragmatismo não tecnocrático, não a favor de elementos pré-determinados e, sim, a favor de um pragmatismo que reconhece a diversidade e possibilidades de soluções. A produção do ateliê possui uma visão “experimental” e, apesar disso, preocupações, como: a “perspectiva” com o local onde trabalham; a funcionalidade da edificação; a qualidade da construção; e a correspondência entre a “avaliação singular do ‘programa’ em determinado ‘sítio’”. Desta maneira, a produção do escritório consegue ser, ao mesmo tempo, “experimental” e próxima ao “senso comum”.
Ainda segundo Figueira (2004), os arquitetos recriaram os ensinamentos de Peter Eisenman e Daniel Libeskind. Cita o exemplo do conceito de “deslocamento” (de Eisenman), ligado à expressão da transitoriedade e movimento do edifício, experimentado no projeto do Museu de Ílhavo (1998 - 2002), em Portugal. Elaborado a partir de volumes adicionados a uma estrutura existente, a obra é definida pelo movimento sequencial das estruturas, novas e
97 antigas. Neste “embate”, a estrutura pré-existente fixa o edifício, como uma âncora pesada, ao mesmo tempo que permite o sequenciamento “livre” dos volumes adicionados. Sobre o contexto de sua implantação em relação à cidade, segundo Figueira (2004), o museu está situado em área de casas “pequeno- burguesas” e de “lógica individualista”. De maneira que a edificação não estabelece um “diálogo” com o tecido urbano, ou uma arquitetura de “sítio”, pois, essa arquitetura “pressuporia muito provavelmente estar ‘contra’ aquele sítio”. Desta forma, o autor sinaliza a existência de uma convergência dessas referências dos ARX, com as raízes da tradição moderna portuguesa.
Para melhor esclarecer este aspecto, retomaremos a análise do mesmo autor sobre a obra de Álvaro Siza Vieira, casa Avelino Duarte (1985), em Ovar. Segundo Figueira (2002, p.85 e 86), numa inusitada visão crítica, a expressão de Siza Vieira “a ideia está no sítio” significa, “a ideia está no modo como neste particular sítio vamos continuar/encontrar o projeto Moderno”. Neste sentido, a relação da obra de Siza Vieira com o contexto é nenhuma, pois a ideia que está no terreno da casa é a mesma existente nos outros terrenos envolventes: a arquitetura Moderna. Assim, Siza Vieira elaborou uma obra que dá continuidade ao “silêncio estático” do seu contexto, com uma “estrutura branca do monumento: a arquitetura Moderna”.
Apesar destas análises, é perceptível a existência de outros aspectos que sugerem uma preocupação com a continuidade do espaço urbano. O museu não possui muros nas duas fachadas principais, de maneira que o recuo deixou uma generosa área livre para a transição de pedestre, onde a presença de alguns elementos gera movimento e contraste, de volumes e materiais. Na parte frontal do prédio, foram criadas pequenas plataformas de aço, com inclinações laterais, preenchidas com cascalho branco, até o limite das paredes de entrada. As paredes do edifício possuem revestimento em ardósia (tonalidade escura) até certa altura, complementado pelo tradicional acabamento em branco liso.
A trajetória do pedestre, até a entrada do edifício, apresenta uma mudança visual e tátil. Ao caminhar em direção ao lote do museu, o piso é em granito liso de cor clara até a linha de entrada da porta, que, ao adentrar na área de recuo do lote, muda para o aço já com a pátina (em decorrência da oxidação, de cor próxima ao marrom). O indivíduo é guiado por pequenos degraus até a porta de entrada, onde, no interior, muda novamente para outra tonalidade de
98 granito liso. Além disso, é possível perceber a austeridade no uso de materiais e formas em toda a edificação, como os bancos externos retangulares, e a presença de volumes horizontais e predominantemente retangulares nas fachadas. Acentuado pelas linhas horizontais da ardósia, que produz uma edificação sóbria.
Segundo Nuno Mateus, no evento ARCHMARATHON, em Beirute (2015), este projeto, assim como a sua ampliação em (2011 - 2012), e a Biblioteca de Ílhavo (2002 - 2005) foram intervenções integrantes de um plano da cidade que visava a renovação e adequação de edificações existentes. O Museu Marítimo foi construído “em volta” da edificação existente, de maneira que o seu volume continuou perceptível, porém, com uma aparência contemporânea. A sobriedade do prédio é traduzida no preto e branco, o preto em referência histórica à tinta de alcatrão, aplicadas nas partes inferiores dos barcos, e o branco em referência à arquitetura portuguesa tradicional, referência de cor invertida nos volumes da ampliação do museu.
A nova obra, um aquário de bacalhaus, funciona como espaço de exposição e transição. Liga o museu Marítimo a uma escola existente, implantada em um lote do quarteirão vizinho. A obra é marcada por uma ponte que, ao cruzar a rua e permitir o trânsito livre dos carros, cria uma praça pública sombreada. Outro aspecto mencionado pelo arquiteto, é a preocupação com a escala do local. Para manter o gabarito das edificações adjacentes, predominantemente com dois andares, o complexo do museu foi dividido em diversos volumes para agregar todo o programa (ARCHMARATHON 2015, 2018).
Imagem 96 e 97: Museu de Ílhavo – Maquetes de desenvolvimento
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Imagem 98: Museu de Ílhavo – Vista aérea
Fonte: Figueira, 2004.
Imagem 99 e 100: Museu de Ílhavo – Vista externa da fachada principal e lateral
Fonte: www.arx.pt, 2018.
Imagem 101 e 102: Ampliação do Museu de Ílhavo – Visa aérea e externa
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Imagem 103: Ampliação do Museu de Ílhavo – Visa externa 2
Fonte: www.arx.pt, 2018.
Imagem 104: Ampliação do Museu de Ílhavo – Visa externa 3
Fonte: www.arx.pt, 2018.
Situada próxima ao Museu Marítimo e inserida no mesmo contexto urbano, a Biblioteca Municipal de Ílhavo (2002 – 2005) é uma obra que apresenta alguns aspectos similares à obra anteriormente apresentada. Formalmente mais sóbria, a edificação utiliza materiais com tons neutros, próximos ao cinza, e possui volumes com formas simples. Neste trabalho, destacaremos dois aspectos: segundo a descrição no site do atelier, os novos volumes foram construídos a partir da preservação de partes de uma edificação existente, denominada Solar Visconde de Almeida e datada dos séculos XVII – XVIII, em que subsistiam a fachada principal e uma Capela. (ARX PORTUGAL ARQUITECTOS, LDA, 2019a).
Desta maneira, as novas construções contíguas às ruínas existentes possuem uma linguagem contemporânea clara, dando à edificação um aspecto de continuidade entre os dois tempos. O segundo aspecto está relacionado com a inserção da obra no contexto urbano existente. Assim como o Museu Marítimo, o seu entorno é composto, em geral, por casas que não estabelecem uma
101 relação entre si. Desta maneira, a relação estabelecida pela Biblioteca com o seu entorno é realizada com um jogo de volumes entre as diferentes fachadas, a exemplo da continuidade do gabarito da fachada preservada existente e do volume verticalizado próximo à esquina onde se situam edifícios residenciais de maior altura.
Imagem 105 e 106: Biblioteca Municipal de Ílhavo – Vista externa
Fonte: Fernando Guerra, 2006.
Imagem 107 e 108: Vista externa e maquete física com representação do entorno
Fonte Fernando Guerra, 2006. Fonte: www.arx.pt, 2018.
A preocupação com a relação entre edifício e entorno é mais evidente na obra do Centro Sócio-Cultural da Costa Nova (2011 - 2015), também no município de Ílhavo. A obra pública abriga dois programas distintos, um posto de