A dimensão empresarial de uma escola tende a reflectir a intensificação do controlo e regulação da actividade dos actores educativos, particularmente dos professores, cooptando-os, simultaneamente, para a participação na resolução dos problemas, o que contribui para o
41 Veja-se, a título de exemplo, a análise dos resultados da época de Janeiro do Ensino Recorrente, na qual apenas se encontra o registo
referente à informação das percentagens de reprovação dos alunos e a indicação das disciplinas com maior e menor percentagem de reprovações.
reforço do grau de compromisso dos professores para com a instituição, embora estes não tendam a intervir activamente no processo de decisão e concepção.
Na verdade, o órgão de direcção/gestão da escola P.N. solicita a participação dos professores na resolução dos problemas, ainda que, na maioria das vezes, de forma informal, pois é prática do mesmo abordar os professores sobre problemas existentes no plano pedagógico, organizacional e institucional, como observámos e presenciámos no decorrer da nossa experiência profissional. Contudo, sublinhamos que esta participação pode mostrar-se armadilhada, na medida em que, posteriormente, os professores não tendem a fazer parte do processo de decisão.
Por outro lado, na escola P.N., o factor de supervisão e, simultaneamente, de pressão sistemática e recorrente tende a ser os resultados. Neste sentido, é ilustrativo o enfoque que algumas actas do Conselho Pedagógico atribuem à avaliação dos resultados no final dos períodos, final de época de exames do Ensino Recorrente e final de ano, posição corroborada pelos discursos da maioria dos entrevistados.
a) Órgão de direcção/gestão
No âmbito da perspectiva técnica, a entidade titular no seu discurso, embora de um modo mais comedido, mas não menos marcante, reforça igualmente a importância desta dimensão da escola de forma explícita, ainda que, simultaneamente, expresse preocupações de ordem emancipatória, como pensamos poder depreender da seguinte afirmação:
“Eu tenho de fazer com que eles tirem boas notas, mas se tirarem boas notas eles estão preparados para o mundo […]” (E1: 211).
E mais adiante refere:
“[…] já se sabe que não ficam a saber tudo, mas para que eles tenham uma bagagem forte para poderem, depois, se tiverem alguma dúvida saber onde ir procurar, que é isso que é o ensino secundário. É a pessoa levar uma bagagem, levar conhecimentos necessários para que se tiverem dúvidas saber aonde ir tirar essas dúvidas, porque nunca ninguém sabe de tudo.” (E1: 212).
Esta posição, no nosso entender, pode perspectivar uma efectiva imagem emancipatória de escola, mas também pode operar como um refúgio, no sentido de desfigurar o plano concreto do espaço escolar.
Por seu turno, a directora pedagógica assume, explicitamente, uma posição alocada a aspectos relacionados com a execução e o cumprimento de regras. Neste contexto, esta posição leva-nos a inferir uma concepção mental de natureza empresarial, idealizando a escola P.N. enquanto “escola rigorosa” associada a uma clara racionalização das actividades, no sentido de o órgão de decisão política definir as acções a serem, eximiamente, executadas pelos actores educativos, designadamente professores e alunos, como podemos inferir pelo excerto que a seguir se reproduz:
“Na minha opinião, o ideal seria uma escola rigorosa, que os pais quisessem que a escola fosse rigorosa, mas não. […] Rigor é cumprir as regras que estão estabelecidas, entrar a horas, sair a horas, dar o programa bem planeadinho…” (E13: 301-302).
Não obstante, a posição mais marcante do órgão de direcção/gestão cabe, no nosso entender, ao coordenador do Ensino Secundário que, quando questionado sobre as linhas concretas de orientação da escola P.N., reforça a condição de escola privada, proferindo a seguinte afirmação:
“Nós temos que ter um rácio de eficácia, temos que ter bons rankings […]” (E6: 259).
Portanto, apesar da posição democrática adoptada no ponto 4.4.1.1. pelo órgão de direcção/gestão, na verdade, de acordo com a análise produzida, pensamos que esta orientação reflecte meramente o plano almejado.
b) Coordenadores de Departamento Curricular/professores
No âmbito da vertente empresarial de escola, parte dos coordenadores/professores sublinham, explicitamente, a importância da transmissão dos saberes científicos para o futuro dos alunos, embora, como referimos anteriormente, alguns destes defendam que não deve
prevalecer sobre aspectos de dimensão cívica e cidadania. Contudo, de acordo com a apreciação dos discursos, outros inquiridos deixam transparecer que a componente científica deve ser valorizada face a dimensões de cariz cívico e crítico, ainda que a disciplina leccionada seja um factor a considerar, como podemos observar nas seguintes falas:
“Tendo em conta cada disciplina, acho que o importante é transmitir conceitos, não é? Educar nesse aspecto, educar a nível da cultura até, mas também fomentar a parte do respeito pelo outro, o trabalho em grupo, a ajuda entre eles, inter-ajuda, não é?” (E5: 250).
“Primeiro, aprender em termos científicos, ou seja, um local onde o aluno adquire ciência e saber e um local para o nosso cérebro fazer ginástica e cada vez mais ir absorvendo informação para crescermos. Mas também acho que tem que ser um local, não é que a família ou a casa não existam, onde eles também possam ver o que se deve e não deve fazer e, assim, orientá-los em termos cívicos.” (E8: 273).
Outros entrevistados reportam-se ao sentido de escola, enquanto espaço empresarial, denunciando claramente pressões, traduzidas num sentimento quase de coacção e, simultaneamente, de resignação, como se pode deduzir, a título ilustrativo, do seguinte excerto:
“Em relação ao espaço empresarial…, eficácia, eficiência, profissionalismo, acho que nós mesmo que não queiramos que remédio, não é?” (E4: 240).
Resumindo, a vertente produtiva da escola P.N. nos discursos do órgão de direcção/gestão e dos coordenadores/professores prende-se, essencialmente, com a importância da transmissão de conteúdos disciplinares, mas também com a necessidade de obtenção de bons resultados, como nos indica o quadro 8, considerando o critério “frequências das resposta”. Contudo, apreciando as falas dos inquiridos, percepcionamos, além da leitura técnica, um sentido vendável alocado às boas notas e bons rankings.