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Scénarios de prise en charge de cas

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Departamento de Letras/UFS

Quando nasci um anjo esbelto, desses que tocam trombeta, anunciou: vai carregar bandeira.

Cargo muito pesado pra mulher, esta espécie ainda envergonhada. Aceito os subterfúgios que me cabem, sem precisar mentir.

Não sou tão feia que não possa casar, acho o Rio de Janeiro uma beleza e ora sim, ora não, creio em parto sem dor. Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina. Inauguro linhagens, fundo reinos

-dor não é amargura.

Minha tristeza não tem pedrigree, já a minha vontade de alegria, sua raiz vai ao meu mil, avô,

Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.

Mulher é desdobrável. Eu sou1.

Em se tratando de feminino gostaria de provocar uma perspectiva so- bre o corpo feminino na medida de um espaço que se desdobra. Será,

portanto, a partir desse status que irei delinear a construção de uma cor- poreidade. A categoria do desdobramento, a partir de um corpo que se expande, está presente no texto das autoras com as quais irei aqui tra- balhar, são elas: Adélia Prado e Cora Coralina. Cada uma mostrará um lance diferente desse desdobrar-se. Os momentos culinários presentes enquanto temáticas recorrentes intensificam a identificação com o femi- nino e será a partir desse contexto específico que as diferentes camadas em torno da mulher irão se apresentar. Em Adélia Prado, cuja voz poé- tica se desdobra em meio às experiências sensoriais várias, desde o êxtase místico ao estado erótico e profano, o feminino multiplica-se em mil textu- ras presentes na epiderme ou nas entranhas dos frutos; em Cora Coralina esse fluir – ou a multiplicação de si mesma, muito próprio na escrita da autora – acontece pelas lembranças inscritas no corpo de mulher.

Desde muito outrora, na história do ocidente, o feminino caracteriza-se por um estado de invisibilidade ou, de outro modo, pela ausência marcada em seu corpo. Quando possuídas de alguma realidade, essa presença se converteu em raiz do mal, como vimos, tanto na Idade Média quanto na Idade Moderna. Portanto, seu corpo esteve sempre margeando as relações sociais. Porém, é no revés dessa concepção que as autoras relacionadas transcendem o estatuto aqui demarcado, uma vez que fazem da ausência um estado de potência criadora, e constroem uma verdade, a do femi- nino, no espaço da Literatura Contemporânea. A iminência do discurso feminino faz presente uma voz que outrora esteve mascarada por false- adas representações de Eros e cuja representação esteve asfixiada pelo discurso masculino que, além desse status, ponderava o sotaque autoral. Neste caso, o falar sobre a mulher significava uma dicção cuja expressão verdadeira não era autorizada à condição feminina. A referência desta voz denunciava qualquer outra existência, menos a feminina. Não estou querendo afirmar que outras mulheres não tenham desbravado e, desse modo, desmascarado os falsetes impetrados à sua voz. O que pretendo é que, através dessas mulheres-escritoras, venha à tona certa tópica sobre o feminino que descortine e revele a presença da mulher em espaços vários, mas na medida de seus corpos falantes.

Não posso deixar de elencar que a descoberta dessa ponte que anun- cio, de um corpo desdobrável, veio pela leitura indispensável do artigo “Os frutos tropicais do feminino: Adélia Prado e Paula Tavares”,de Maria

Lúcia Dal Farra (2008)2. Nesse estudo é possível ver a presença de uma

corporeidade, que se desdobra em vários ambientes e objetos, por meio de variadas nuances. Os frutos, porém, são as principais formas que marcam essa presença feminina em alguns dos poemas da escritora Adélia Prado que estão reunidos em sua obra completa3. Vamos a eles, para efeito de

contextualização da poética de Adélia, nos termos aqui anunciados. Há na poética de Adélia Prado uma presença fundamental dos frutos os quais estão sempre relacionados com um estatuto próprio do feminino. É importante que se diga que o ato de comer, para Adélia, tem uma função atávica, um sentido impulsional que conduz a existência de modo a provocar sempre uma vontade de identificação a qual se faz em meio à lembrança da casa entre bananeiras, pés de manjericão e cravo-santo. E os que moram lá dentro comem feijão com arroz, taioba, ora-pro-nobis,

muitas vezes abóbora4. A sua memória vagueia pelos sentidos, mas no

aspecto mais cotidiano e simples o qual se expressa aqui pelo modo de comer. Há no cardápio diário duas importantes presenças: o feijão com arroz e a oração que referenciam, quanto ao ato de comer, modalidades distintas, porém marcantes e fluentes na obra da escritora mineira. Então, podemos dizer que uma realidade está impregnada da outra e não há como dissociá-las, pois essas instâncias modelam o seu dia a dia. Segundo Bataille5(1988), as sensações vivenciadas no espaço de dentro do sujeito

saltam para fora no momento em que ele passa a experimentar o desejo. A expressão deste sentimento, para o autor, faz desvendar o erotismo que nada mais é que uma prática ou uma atividade diária que se propõe a mostrar o avesso (. . .) duma fachada, cuja correcta aparência nunca

é desmentida: nesse avesso se revelam sentimentos, partes do corpo e modos de ser que vulgarmente temos vergonha.6 Falo tudo isso porque é

no âmago desse avesso que a poética de Adélia revela importantes tópicas acerca da feminilidade e os frutos possuem tal representatividade dentro de sua obra.

2 Dal Farra, Maria Lúcia. Os frutos tropicais do feminino: Adélia Prado e Paula

Tavares, UEFS (Labirintos – revista Eletrônica do Núcleo de Estudos Portugueses), 2008.

3Prado, Adélia. Poesia Reunida, 9.a ed., São Paulo, Editora Siciliano, 1999. 4Prado, Adelia. Bagagem, 1999, p. 43

5Bataille, Georges. O Erotismo, 3.aed., Lisboa, Edições Antígona, 1988. 6Cf. Bataille, Georges. Op., Cit., p. 95.

Porém, assim como Cora Coralina, sua principal vinculação é logo dita expressamente: é mulher do povo, mãe de filhos, Adélia. No poema inti- tulado “Grande desejo”, vemos a escritora constatando que a sua comida revela-se para alimentar, por isso, ela mesma diz: “Faço comida e como”7.

Há na construção de sua corporeidade toda uma necessidade sensorial e é por aí que se engendra sua epiderme: sentindo o gosto forte e api- mentado, trazendo a realidade nua das sensações, sem transbordamentos, porque sua realidade se extravasa ali, na mastigação dos sabores com a qual encontra as nuances tão ímpares do cravo e da pimenta. É nesse permeio que diz procurar o sol porque é “bicho de corpo”. No poema “Sensorial” (BAG) a pimenta dá o acento pulsante ao corpo, como um compasso marcado em torno da sexualidade, a qual está circunscrita pela aderência deste fruto em torno de toda a extensão da língua, assim como em outras partes do corpo, por analogia. O outro condimento citado no poema de Adélia é o cravo que por sua robustez e presença potencializa a qualidade das sensações corporais. É neste ínterim de sensações que o Amor se revela, para Deus, para os homens, em meios aos 6 sentidos que constituem a epiderme feminina – “Seis instrumentos”:

[. . . ] Pimenta e cravo,/ mastigo à boca nua e me regalo./ Amor tem que falar meu bem, [. . . ] Espírito, se for de Deus, eu adoro,/ se for de homem, eu testo/ com meus seis instrumentos [. . . ] Procuro sol, porque sou bicho de corpo.8

Da experiência mística ao êxtase corporal, os frutos vão revelando as maneiras deste ente feminino estar no mundo a ocupar os espaços da casa cujos compartimentos relacionam o lado de dentro com o de fora. Dentro da perspectiva de espaço colocada por Gaston Bachelard (1993), os frutos estão designados na poética de Adélia Prado como um lugar para a intimidade e abrigam diversas imagens que intensificam variações da experiência corporal. Passemos ao poema “Louvação para uma cor” (BAG) que traz o fruto cuja analogia com a fertilização feminina nos convida a olhar para dentro de seu corpo onde repousam as sementes.

A filiação do fruto com a memória aparece no poema “Para comer depois” (BAG), no qual Adélia relaciona a lembrança ao cheiro que emana

7Prado, Adelia. Bagagem, 1999, p. 12 8Prado, Adélia. Bagagem, 1999, p. 13.

do sumo da laranja. Nesse poema, há uma espécie de crítica ao progresso

tecno-ilógico, a poetisa compara a simplicidade do ato de chupar laranja

com o status de escrutinar o tempo. Há nesses termos algo a salientar, a memória está aí associada ao sentimento, àquilo que faz detectar e recuperar o domingo como um dia memorável, pela singeleza do aroma desse fruto:

Na minha cidade, nos domingos de tarde,/ as pessoas se põem na sombra com faca e laranjas [. . . ] quando for impossível detectar o domingo/ pelo sumo das laranjas no ar e bicicletas,/ em meu país de memória e sentimento,/ basta fechar os olhos:/ é domingo, é domingo, é domingo.9

A laranja similar ao mamão traz como significação simbólica a reve- lação da fertilidade figurada pelas sementes que reproduzem facilmente o fruto. Aqui, neste poema, Adélia Prado constrói um lugar de memória todo ele ladeado pela inscrição do cheiro peculiar da fruta. Assim como a flor do milho – no “Poema do Milho”,de Cora Coralina10, o qual irei

analisar mais à frente –, que representa a feminilidade, a laranja resgata o tempo da fertilização do sentimento e do instante em que podemos nos congregar em torno do aroma que sugere este fruto: a simplicidade de sentar-se à frente de casa, descascar uma laranja com a faca e com a mão, ver uma bicicleta passar tendo o aro das rodas enfeitado com as suas cascas, em pleno domingo. E afinal, poder sentir que é domingo e deixar o tempo correr livremente, porém sob o auspício da memória. Pois é certo que o sumo da laranja persiste nas narinas, adentra de maneira de- cisiva para lá permanecer, de maneira hipertônica, como aroma ao mesmo instante suave e decisivo. E como vimos até agora, a cor alaranjada dos frutos, que na simbologia é quente, transmite o sentido da feminilidade por associação aos órgãos sexuais e reprodutores que intermediam essa relação. A memória dos bons tempos, similar ao que acontece na poética de Adélia, possui essa mesma qualidade e fica eternizada no corpo por meio das sensações.

A poética que se mostra em torno da escrita de Adélia Prado tem a qualidade do gesto presente em atos simples, porém emoldurados pela

9Cf. Prado, Adélia. Op., cit., p. 43.

linguagem da paixão, a qual, segundo Roland Barthes11, se constitui como

um discurso afetivo. Nesse momento, quero enfatizar algo que veio à tona por intermédio da leitura do livro A Invenção do Cotidiano, organizado por Michel de Certeau12. Nesse livro é possível ampliar a dimensão sobre o

ato de cozinhar como também a relação que se tem entre esta atividade com o estatuto do feminino. Fundamentado claramente na concepção de Lévi-Strauss13 de que a atividade culinária exercida basicamente pelo

feminino tem como função primordial nutrir o corpo, o livro – organizado sobre as práticas cotidianas executadas em torno da função de morar e

nutrir – expõe todo um gestual, como também uma gama de sentimentos

que transitam ao redor desta atividade.

O espaço privado, especificamente o doméstico, é o território que agrega o corpo na memória e na vida. A cozinha é dentre todos os espaços um lugar que reúne dois modos centrais de estar no mundo: ela agrega o fazer ao nutrir. Esse resgate da arte culinária põe acento no feminino, não porque ele seja um lugar naturalizado à mulher, mas porque cabem às mulheres diferentes lugares, inclusive por via do discurso literário. A restituição dos sabores, por meio da escrita, põe em relevo a própria voz do feminino e não apenas sua reinterpretação. O espaço da cozinha se estende pelos objetos e comunica uma forma de prazer e é por isso que “a arte de nutrir tem a ver com a arte de amor, portanto também com a arte de morrer”14.

Quero dizer com isso que os frutos de Adélia Prado sinalizam a arte de nutrir ainda em seu estado mais natural, por meio da presença crua do alimento. Desse modo, ela faz referência a um instante mais primordial dos sentimentos, porém, mesmo em estado cru, o fruto é colhido e levado para nutrir o corpo que dele se apossa. Essa constatação equivale a dizer que ele já é “um alimento culturalizado”15, porém, em analogia ao

11Barthes, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso, São Paulo, Martins Fontes, 2007.

12 Certeau, Michel de, et al. A Invenção do Cotidiano: 2. Morar, Cozinhar, Rio de Janeiro, Vozes, 2003.

13Lévi-Strauss, Claude. A origem dos modos à mesa, São Paulo, Cosac & Naify (Col. Mitológicas 3), 2006.

14 GIARD, Luce. Cozinhar. In: CERTEAU, M.; GIARD, L.; MAYOL, P. A Invenção do Cotidiano. 5aed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2003, p. 232.

estado cru, ainda está modelado pelos instintos. A corporeidade ganha, desse modo, uma dimensão fenomenal porque assume um envolvimento, por meio das significações que o fruto dá, e promove um deslocamento em direção ao corpo que procura alimentar. É possível ver na poética de Adélia Prado esse desdobramento através de sua linguagem poética que por esse caminho, e com a forma de mulher, alimenta o outro e aquele que porventura também se apossa dessa palavra, ou dela se aproxima, porque “amar o outro, desejá-lo, é alimentar-se dele e ao mesmo tempo saciar sua fome, uma fome simbólica à qual a fome real ou biológica dá passagem”16.

Dessa forma, a arte de alimentar na poética de Adélia (1999) pode ser considerada uma via de mão dupla para se pensar, também, a função da Arte nos termos de um saber que agrega valores como criatividade, memória e experiência, seja esta sensorial ou reflexiva. E a Literatura reflete do mesmo modo essa tripla função.

A arte de nutrir tem como principal vinculação a arte de amar, porque é antes de tudo um ato de doação. Vimos até agora que pretendo revelar, pela poética da escritora mineira, que o estatuto do feminino é desdobrá- vel, uma categoria que alcança uma dinâmica na medida em que ele se multiplica em outras faces. É nesse ponto que está a inserção dos frutos de Adélia porque é com eles que o seu feminino se desdobra e com eles é que alimenta. Porém, é importante ainda expressar que a poética de Adélia é centrada em dois tipos de expressões: sobre os sentimentos e os sentidos.

Cora Coralina é poetisa, contista, cronista e doceira de mão cheia. Foi habitante de alguns séculos, nasceu em 1889 e faleceu em 1985. Fez uma passagem singular pela Literatura Brasileira, pois aliou sua condição de mulher à escrita literária. O cotidiano, do mais simples gesto ao comprometimento político, fez de Cora Coralina uma escritora no liame de várias fronteiras discursivas; sua linguagem é múltipla, como plural é sua epiderme feminina. Desse modo, é possível nos aproximarmos dela sob várias maneiras. O meu olhar será pelo âmbito do feminino, por intermédio da relação que guarda com a memória dos sabores. Será por esse prisma que procuro entender os desdobramentos em torno de sua identidade como mulher e escritora. Deixo com Coralina sua própria autodefinição,

através de poema publicado no livro Meu livro de cordel: “Venho do século passado/ e trago comigo todas as idades [. . . ] Nasci para escrever [. . . ]/ Sou mais doceira e cozinheira [. . . ]/ Sobrevivi me recompondo [. . . ]”17.

Como a própria escritora anuncia, ela se recompõe a partir de uma tríade que acentua a identidade feminina, a qual é também desdobrável.

Foi, então, a partir do trinômio que se estrutura entre a habilidade de ser mulher com a de escrever e cozinhar – todas as três instâncias compondo uma forma de estar no mundo – que procurei ver como está elaborada a condição da mulher na poética de Cora Coralina e quais as suas maneiras de desdobramentos. Nesta escritora, o corpo é um lugar pelo qual se identifica com o mundo ao seu redor, é com ele que se constitui como pessoa que habita e atua no tempo e no espaço. Segundo Bachelard, esta seria a vinculação mais subjetiva que poderíamos conferir à noção de espacialidade, pois

Uma casa tão dinâmica permite ao poeta habitar o universo. Ou, noutras palavras, o universo vem habitar sua casa [. . . ] que vai além de sua topografia [. . . ] os espaços amados nem sempre que- rem ficar fechados! Eles se desdobram. Parece que se transportam facilmente para outros lugares, para outros tempos, para planos di- ferentes de sonhos e lembranças.18

Por meio da experiência vivida, sua corporeidade, como se fosse a epi- derme de sua identidade literária, acumulou toda uma gestualidade em torno da qual a escritora traduziu a sua linguagem. E então, toda sua expressão constitui um capital simbólico exemplar porque guarda lembran- ças e conhecimentos do passado para o presente, e em cada instante do discurso que elabora. Desse modo, a sua voz literária é expressão dos sen- timentos que vivenciou com o corpo, na vida cotidiana. Por isso, é possível entender que a sua materialidade corporal se presentifica e se desloca pelos objetos e atividades que compõem a sua lembrança. A prerrogativa de sua feminilidade transparece em diálogo com o espaço-tempo, seja ele presente ou pretérito. Vejamos: “Venho do século passado./ Pertenço a 17 Cora Coralina. Meu livro de Cordel: Poemas e Crônicas, Goiânia, Editora Cultura Goiana, 1976, pp. 11-12

18 Bachelard, Gaston. A Poética do Espaço, São Paulo, Martins Fontes, 1993, pp. 67-68.

uma geração/ Ponte, entre a libertação/ Dos escravos e o trabalhador livre [. . . ]” 19.

A forma como o seu corpo representa os sentimentos repercute signi- ficados não apenas sobre a sua individualidade, mas comunica as formas de expressão elaboradas pelo espaço coletivo. Desse modo, seu eu produz um auto-espelhamento social que no caso de Cora Coralina quer refletir as nuances do feminino. Por essa via é que o seu corpo se desloca e se fragmenta em outras mulheres, como no poema “Todas as vidas” (1980), mas que se recompõe de novas texturas. Nesse aparente desmembramento procura, entretanto, dar conta de si mesma e de sua atuação no mundo. Ainda no poema que trata de sua própria biografia (1976) é possível en- tender que o seu ofício é mais plural que singular, como veremos, e que parece gerar a ação necessária para criar uma certa unidade estrutural, a qual faz um percurso para então se reconstituir:

Sobrevivi, me recompondo aos/ bocados, à dura compreensão dos/ rígidos preconceitos do passado. [. . . ]/ procuro superar todos os dias/ Minha própria personalidade/ renovada,/ despedaçando den- tro de mim/ Tudo que é velho e morto. 20

É aí, nesse interstício, que sua atividade como escritora e cozinheira encarna o feminino. É através dessas principais atividades que vai se permeando uma identidade, dentro de si, encarnada de várias camadas:

Sendo eu mais doméstica do/ que intelectual,/ Não escrevo jamais de forma consciente e raciocinada, e sim/ impelida por um impulso incontrolável./[. . . ] Sou mais doceira e cozinheira/ do que escritora, sendo a Arte culinária/ a mais nobre de todas as Artes:/ objetiva, concreta, jamais abstrata/ a que está ligada à vida e/ à saúde hu- mana.21

É como mulher e doceira que procuro entender, em Cora Coralina, os vieses do corpo feminino que traduz uma pluralidade de outros corpos. Desse modo, é possível já sinalizar que, assim como Adélia Prado, escri- tora que desestrutura antigas interdições concernentes à tópica feminina,

19Cf. Cora Coralina. Op., Cit., p., 11. 20Cf. Cora Coralina. Op., Cit., pp., 12-13. 21Cf. Cora Coralina. Op., Cit., pp., 12.

Cora Coralina atua em torno do espaço privado, da casa, ou ao seu redor. Assim, é possível perceber sua estrutura de mulher se decompondo em meio às lembranças que traz a partir de suas variadas idades e formas de experimentar o mundo. Dentro da casa, será por meio dos objetos que o eu se recompõe em completa simbiose com tudo que a cerca. O seu corpo movimenta-se através da lida com seus principais ofícios. Dessa forma, conforme revela Michel de Certeau22, a arte da cozinheira determina uma

habilidade comunicacional, a qual traduz uma forma variada de opera- ções que identificam as principais maneiras de relacionamentos sociais. Em última análise, essa linguagem comunica um sentido de habitar e uma capacidade de atuação. Então, se me propus olhar o íntimo da linguagem que Cora Coralina performatiza – por meio dos conhecimentos culinários que possui, os quais são intermediados pela memória das sensações e

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